domingo, 13 de abril de 2025

ON Falling

 On Falling

 

Fui ver o filme realizado pela portuguesa Laura Carreira e interpretado pela também portuguesa Joana Santos. Realizado e passado na Escócia, quase totalmente falado em inglês, o filme mostra-nos o drama dos emigrantes portugueses, com alguma instrução, que deixam a sua terra e as suas famílias para procurarem no estrangeiro, não só emprego, como também um pouco mais de provento mensal, acabando em empregos trabalhosos, mal pagos e quase escravizados. Trabalhando num armazém de distribuição de produtos de venda "on line", num regime completamente monitorizado por vigilantes, chegando ao ridículo de os premiar com barras de chocolate quando o seus serviço é considerado óptimo, uma rapariga portuguesa vive entre o trabalho e um quarto num apartamento de alugueres colectivos, comendo numa cozinha onde mantém alguma conversa, pouca, com outros também trabalhadores, rapazes e raparigas novos cujo elemento de divagação e entretenimento é o telemóvel que mantêm permanentemente ligado. A nossa compatriota, num acidente caseiro parte o ecrã do seu telefone e paga 99 libras pelo seu concerto. Essa despesa faz com que passe a próxima quinzena quase sem comer alimentando-se como pode.

Tenta ir a uma entrevista para um novo emprego, mas quando lhe pedem para falar da sua vida, não consegue quase falar por não ter nada para contar. Acaba por desmaiar num jardim, provavelmente de frustração e fome, onde é socorrida pelo guarda do mesmo que acaba por a abraçar e vê-se que aquele abraço terá sido a única manifestação de carinho que recebeu na sua solidão. Volta ao seu antigo serviço onde continua na monotonia da sua vida.

Não é um mau filme, mas peca por uma realização demasiado nua e crua, que nos entristece. Acho que o filme já mereceu alguns prémios. Valeu a pena.

 

 

 


sexta-feira, 24 de janeiro de 2025

Música

 

 

Adoro música como melómano, isto é, sou simplesmente um ouvinte porque de música não percebo nada. Sei apenas que há 7 notas sustenidos e bemóis. Não distingo uma escala menor de uma maior e quando as notas são representadas por letras já faço uma confusão dos diabos. Também sei que estas escalas, menor e maior, são uma questão de tons, mas a minha ciência acaba aí. Não preciso saber música para apreciar um concerto para piano de Bethoven e acabei mesmo agora de deleitar-me a ouvir o seu concerto nº 3 em Dó menor interpretado ao piano por Daniel Baremboim que ao mesmo tempo dirige a orquestra. É preciso ser um génio para interpretar esta peça de cor e dirigir ao mesmo tempo. Sublime. Este Mezzo deleita-me. Segue-se agora o Claire de Lune de Debussy interpretado pela nossa Maria João Pires. Temos uma pianista de craveira mundial e infelizmente os portugueses, na sua maioria, não lhe ligam nenhuma. Enfim, deixemo-nos de tristezas e ouçamos a senhora que é uma excelente executante e de uma humildade impressionante. Ainda bem que o MEO tem dois canais do Mezzo. Posso passar de um ao outro que encontro sempre peças que aprecio. Se me quiserem seguir liguem o canal Mezzo. Uma boa forma de passar uma “chata” manhã de Domingo.

 

terça-feira, 7 de janeiro de 2025

O Quarto ao Lado

 


Raramente os filmes que tratam da morte conseguem fugir aos estereótipos dramáticos e pesados. Almodóvar foge aos seus temas favoritos que normalmente tratam de situações de homossexualidade e, desta vez debruça-se sobre o tema da eutanásia. Consegue tratar de um assunto demasiado sério, com uma leveza bela e até muitas vezes com humor subtil usando a amizade de duas mulheres que se reencontram passados alguns anos de afastamento. Serve-se de duas actrizes de mão cheia, Julianne Moore e Tilda Swinton, que dão um “show” de bem representar.

Uma escritora de algum sucesso, Ingrid (Juliane Moore), através de uma admiradora, acaba por saber que uma antiga amiga, Martha (Tilda Swinton), uma jornalista de guerra, está no hospital com um cancro terminal. Resolve visitá-la e é recebida com imensa alegria pela sua amiga que, após contar o que foi a sua vida até ali, confessa-lhe que sabe que vai morrer, mas que o quer fazer com dignidade e não se sujeitar a uma morte com degradação total. No entanto, informa-a que não o quer fazer sozinha e precisa de alguém que passe com ela os seus últimos dias e que ela saiba que estará no “quarto ao lado”. Após alguns excelentes diálogos Ingrid aceita a terrível incumbência de a acompanhar no seu desejo de morrer enquanto tem alguma dignidade como ser vivo. Martha aluga uma vivenda nos arredores de NY, no campo, e aí rodeadas dos cantos dos pássaros e de magnificas vistas, Martha diz a Ingrid que conseguiu através da “dark internet” um comprimido de eutanásia e quando ela vir a porta do seu quarto fechada será o sinal que o tomou e estará morta.

Entretanto, um ex-namorado que foi das duas, primeiro de Martha e depois de Ingrid, visita-a e sabendo do caso pede-lhe que tome providências pois irá ser interrogada pela polícia assim que esta souber do suicídio ali considerado crime e arranja-lhe uma advogada para a defender caso seja acusada como cúmplice.

Um Dia Ingrid chega a casa e a porta do quarto de Martha está fechada…

Aí vemos a diferença entre seres livres e inteligentes e um polícia retrógrado, católico fervoroso completamente “tapado” pelos seus conceitos religiosos.

E mais não conto. Vão ver o filme que vale a pena pela forma interessante como Almodóvar coloca uma questão tão controversa…

Um bonito filme muito bem conseguido.


Os nomes de família e as “peneiras”

 

Em conversa com o meu filho, ele chamou-me a atenção de que falo demasiadas vezes nos nomes dos meus ancestros e que isso pode ser levado por quem me ouve ou lê, como peneiras. Quem me conhece sabe perfeitamente que se há algo que não tenho são peneiras. Tive a sorte de receber como legado de uma tia minha, uma obra genealógica de um parente meu, que me deu a conhecer os meus ancestros desde o final do século XVI e isso é que me deu muito gozo. Conhecer as nossas raízes é bastante interessante. Tenho tanto ou mais orgulho no meu Avô materno, que foi guarda da PSP e acabou reformado como sub-chefe, do que tenho no meu Bisavô paterno que foi padre até falecer, mas que teve a capacidade de fazer frente ao sistema e ter vivido com uma nobre senhora criando dois filhos com quem sempre viveu e lhes ter proporcionado uma educação que os levou a licenciaturas.

Pena tenho eu de não conhecer quem foram os pais e avós do meu avô polícia que se orgulhava de ter amparado o Presidente Sidónio Pais no seu assassínio e ter prendido o célebre assaltante nocturno de Lisboa, o famigerado galego Ramon.

Pois é meus caros Amigos, não tenho peneiras nenhumas e falo no meu bisavô padre, que era o 2º de nove filhos de José de Sacadura Cardoso Cabral e Albuquerque assim como falo no meu avô polícia que conheci muito bem pois brinquei, em criança, com o seu apito que ele guardava religiosamente por muitas vezes ter servido para chamar auxílio em situações de aperto.

Nós somos aquilo que nos tornámos ao longo da vida e peneiras devemos ter por termos exercido uma profissão, chamar-lhe-ia mais um sacerdócio, que levámos a bom termo e com dignidade. Os nomes dos familiares ficaram para trás.

Ah! E tenho realmente peneiras de ter tido um excelente filho que só me deu alegrias e hoje é alguém. “Toma lá esta para não me chamares peneirento…”