Recordo Nampula quando nas
nossas reuniões secretas, para nós, porque a PIDE sabia bem delas, o meu amigo
Gabriel Teixeira, grande militar, corajoso, de bom-senso e probo, que presidia,
dizia: “Será que temos de pintar estes gajos de preto para conseguirmos
fazer-lhes frente”. Hoje a frase parece-me estúpida e certamente também
acontecerá o mesmo aos outros que por lá militavam. A guerra tinha sido e era
feita contra pretos. No início, os acontecimentos, marcaram as pessoas que
foram para aquela guerra cheios de razão e dever pátrio. Coitados dos nossos
irmãos angolanos de pele escura que tinham muito mais motivações para fazerem
aquela guerra do que nós. Pena que tenham começado tão mal e tenham encontrado
pela frente, um dirigente português, obtuso e casmurro Hoje, certamente,
pensarão que terão de pintar os seus dirigentes de branco para acabarem com
eles, pois governam enriquecendo e deixando o povo na miséria. Certamente hoje
teríamos dito o mesmo de outra maneira. O 16 de Março deixara-nos tristes e
estupefactos e havia em nós o sentimento que era preciso fazer algo. Felizmente
não foi necessário porque o 25A chegou. Grande alegria e muita esperança.
Esperança nos homens lusos que haveriam de transformar o nosso país em algo bem
diferente do que fora até ali.
Infelizmente, a partidarite
começou a tomar conta das coisas. Invadiram os centros de poder e dividiram os
militares que se deixaram partidarizar. Mais uma vez, os militares de Abril, e
desta nem todos, colocaram as coisas no são. Mas por pouco tempo. Os políticos,
alguns do 26 de abril, começaram, tal qual saturno, a engolir os filhos
fazedores da revolução. Enquanto não correram com os militares dos centros de
poder não descansaram, e não só correram com eles, como surdamente começaram
uma campanha contra a tropa, que ainda hoje perdura. Mordem a mão que lhes deu
a liberdade.
Tenho saudades de homens como
Gabriel Teixeira, de quem já falei, Ramalho Eanes, grande e valente militar com
também grande senso político, Melo Antunes, infelizmente já desaparecido mas
excelente pessoa, bem politizada e mentor do programa do MFA e documento dos 9,
Vítor Alves, homem culto e com ideais de justiça e, muitos, muitos outros. Outros
ainda andam por cá e com voz, que nunca lhes doa, Vasco Lourenço, Presidente da
A25A e grande crítico da actual situação e, até Otelo Saraiva de Carvalho que,
infelizmente andou por caminhos um pouco ínvios, mas é também uma voz crítica
do sistema.
Poderia falar de muitos mais.
Penso não ser necessário. Esta república está a ficar igual à 1ª. Tenho muito
receio que seja preciso acabar com ela. Se for, que tenhamos o bom-senso de não
descambarmos para a ditadura. Aliás, isso hoje já não é tão possível como
naquela época, mas nunca se sabe.
Que apareçam novos políticos
de mentes abertas, sem ânsia de poder e dinheiro, que consigam trabalhar em
prol da nossa população e comunidades. Que privilegiem a educação e cultura
para que as populações se consciencializem do que é melhor para elas, de forma
a obterem o que lhes é de direito, sem recurso a estratagemas de obtenção de
dinheiro fácil. Um povo culto e educado facilmente transforma uma sociedade.
Como estamos não vamos lá. A qualidade do nosso povo é baixa. Basta andar de
autocarro para o verificarmos. Mas já há uma boa camada de juventude bem
preparada que poderá fazer algo por este país, se não se concentrar só na
obtenção do seu próprio bem-estar. Devíamos aproveitar estes para começarmos.
Não será no meu tempo, mas gostaria que o meu filho ainda pudesse vir a viver
numa sociedade transformada. Para o bem, claro. Viva o 25 de Abril.