domingo, 24 de novembro de 2024

A Vida entre Nós.

 


Farto da cinematografia norte-americana resolvi ir ver um dos filmes franceses que estão no cartaz. Escolhi este, mais pela indicação da menina da bilheteira do que por aquilo que li da crítica.

É uma realização de Stéphane Brizé, até aqui para mim desconhecido. Uma história banal de encontros e desencontros amorosos contada com alguma ironia e também um pouco de humor escondido, mas de forma tão lenta que chega a ser quase insuportável. As cenas são demasiado prolongadas e, pelo menos para mim, bastante desgastantes.

Um actor de cinema na ordem dos cinquenta anos, já com alguns êxitos que o tornam bastante conhecido, é convidado para interpretar uma peça de teatro. Quando tudo já está preparado para começarem os ensaios, o nosso personagem, contra tudo e todos, abandona o projecto e resolve ir para uma vila no Oeste de França, junto ao mar, relaxar num SPA durante duas semanas. Vai telefonando à mulher, que sendo profissional de TV não o acompanhou e se mostra bastante desligada, não achando bem o que ele fez, mas também não o criticando em demasia.

O nosso protagonista descobre que naquela vila reside uma antiga namorada que não vê há cerca de quinze anos Telefona-lhe e ela acede a encontrarem-se. Aqui começa o problema, pois descobrem que ainda se amam apesar de ela estar casada com um médico e ter uma filha adolescente. E é isto, contado muito lentamente sem grandes alterações emocionais apesar de no íntimo dela haver uma certa mágoa por ter sido abandonada. Voltam a dar umas quecas e acaba em separação de novo desta vez consentida pelos dois. Tudo muito lento e cenas prolongadas em demasia. Volta Manuel de Oliveira. Estás perdoado…

 

sexta-feira, 8 de novembro de 2024

A transformação

 

Esta humanidade está podre. Neste mundo nunca houve paz. Os homens, os tais tementes a deus, nunca se entenderam completamente. Sendo um ser gregário, parece que precisa viver em sociedade, mas também em guerra seja com o vizinho seja com quem for. O tal deus protector do homem, é uma fraude. Bem lhe pedem graças, mas ele faz ouvidos moucos e só envia cataclismos e guerras. Presentemente atravessamos uma época perigosíssima. As nações em vez de promoverem a conciliação, dizem que sim e mais que também, mas vão construindo e vendendo armas a quem pagar bem. Falam em paz e promovem a guerra. A sociedade dita capitalista e consumista está com tendência a entrar em crise. Os países asiáticos e mais alguns com visão diferente dos ocidentais estão a unir-se e a antiga ordem mundial está a desaparecer. Os USA cada vez estão mais com políticas que os vão fazer deixar de ser os senhores do mundo. A ganância do negócio vai perdê-los e quando se virem completamente ultrapassados só terão uma solução, a Guerra! O mundo vai colapsar e a porcaria da humanidade existente desaparecerá da face da Terra. Esperemos que outra surja que seja coesa e conciliatória. Não estarei cá, mas gostaria de viver numa sociedade diferente. Nos entrementes deus vai ficar de novo sem nada que fazer durante uns milénios. Também não fará falta…

terça-feira, 15 de outubro de 2024

Lee Miller – Na linha da frente

 

 

Mais uma vez fui ao cinema. Uma biografia de Lee Miller, fotografa da Vogue, baseada numa entrevista que dá ao seu próprio filho.

Realizado por Ellen Kuras, é apresentado em vários “Flasbacks” devido a fotografias que vão sendo apresentadas e relatadas pela protagonista. Bom filme, com uma realização bastante linear que poderia ser, quanto a mim, melhor apresentado e explorado.

Kate Winslet dá vida a Lee Miller, uma modelo da Vogue, que deixa a vida de boémia a que estava habituada e se torna fotografa da revista. Sempre com ânsia de “fazer mais” e já em Londres para onde se deslocou para seguir o seu companheiro, o pintor britânico, Roland Penrose, tenta que a mandem para a frente de combate onde não eram permitidas mulheres. Mas Lee Miller não descansa e se não consegue pela Inglaterra, tenta a Vogue americana e é-lhe conseguida uma autorização. E a partir daí vemos Lee Miller em várias situações perigosas e constrangedoras quando visita os campos de concentração já abandonados pêlos alemães. Mas se Lee Miller se entristece e comove com as cenas que fotografa, acaba também por se mostrar mordaz quando, acompanhada pelo seu compatriota David E. Scherman, também ele fotógrafo de guerra, visitam a casa de Hitler e Eva Braun e se faz fotografar banhando-se na banheira do Fuher com a sua fotografia ao lado.

Lee Miller relata tudo isto a seu filho que, praticamente não conhece a mãe, referindo-lhe episódios da sua vida que nunca contara a ninguém. Ficamos a saber que, em criança, teria sido violada por um visitante habitual da casa de seus pais.

Tudo muito seguido e contado com naturalidade. Como atrás referi poderia ter sido melhor explorado.

Kate Winslet revela-se uma excelente actriz a e sua caracterização entre mulher nova e de meia-idade é muito bem conseguida.

Não é genial, mas vê-se muito bem.

 

sábado, 28 de setembro de 2024

Telhados de vidro


Há muito que não ia ao teatro. Por sugestão do meu filho fomos ao teatro ver a peça Telhados de Vidro, ao Trindade, da autoria de David Hare (giro, David Lebre). O facto de ter como interprete Diogo Infante pesou na minha decisão. Ultimamente não tenho visto muito teatro. Hoje as formas de interpretação, pouco declamada como não era antigamente, fazem com que algumas falas passem despercebidas aos meus ouvidos, talvez um pouco já cansados. Mas, dei por bem empregue o meu tempo. Diogo Infante, hoje director do teatro da Trindade, é realmente um intérprete de excelência, e a Benedita Pereira, que só conhecia de algumas novelas, não lhe fica atrás. Um terceiro actor, Tomás Taborda vai muito bem e é uma revelação.

O tema da peça não é inédito, mas é-nos apresentado de forma moderna, ao mesmo tempo quase caricata, mas no fim trágica.

Um empresário de sucesso, completamente fascista e senhor de si próprio fica viúvo e visita a antiga amante que agora vive só, num pequeno apartamento, mas que viveu muito tempo junto da falecida, sua amiga, que trai mas, que abandona o seu amor ao pensar que a amiga tem conhecimento da ligação.

A conversa entre os dois mostra a distância de vida e pensamento dos ex-amantes, separados por ideologias antagónicas e valores morais, mas ao mesmo tempo com desejos recíprocos que os aproximam. A jovem, no início da peça, também é visitada pelo filho do seu amante, que, abalado pela morte da mãe se mostra bastante traumatizado pelo abandono quase total a que o pai o veta. Esse facto acaba também por ser um dos temas em desacordo entre os ex-amantes.

Ineditamente a peça tem legendas que apresentam ideias ou intenções dos intervenientes, mas que, no fim não se verificam. Interessante.

Ao ler o programa com um singelo resumo dos acontecimentos aprendi uma palavra que desconhecia totalmente, didascália. O meu rapaz sabia (é uma cabecinha d’ouro).

 

PS: Didascália ou rubrica são indicações cénicas para indicar como determinada acção, como determinada cena, como determinado espaço ou como determinada fala devem ser feitos em uma peça de teatro. Wikipédia

 

 

 

domingo, 22 de setembro de 2024

Daddio – Uma noite em Nova Iorque

 


Andava com algum interesse em ver este filme. Sabia-o todo passado num táxi entre o aeroporto JFK e Manhattan. Uma conversa entre uma passageira, cerca de 30 anos loura e bonita e o motorista, homem já para cima dos cinquenta. Pensava eu que ia ver um filme maçudo só de conversa e com pouco interesse. Felizmente estava enganado. A realizadora consegue “segurar” o espectador de modo a não cansar. Não se pode dizer que seja uma obra-prima com diálogos demasiado intelectuais. Não. Acaba por ser uma conversa entre um homem experiente, conhecedor dos seres humanos e duma mulher que tem um amante, homem casado com 3 filhos, mas que procura fora aquilo que acha já não ter em casa. O táxi acaba sendo um divã de psiquiatra em que, tanto a paciente como o médico, explanam as suas angústias, frustrações e modos de vida. O motorista, homem inteligente, consegue da moça confissões de momentos íntimos que nunca confessara a ninguém. Ficamos a saber que regressava da casa de uma meia-irmã,11 anos mais velha onde o pai nunca conseguiu expressar-lhe um carinho tendo apenas, uma única vez, despedindo-se com um aperto de mão.

Enquanto a conversa se processa, a moça mantém com o amante um diálogo, por Messenger, em que se nota o interesse apenas sexual do homem por uma rapariga muito mais nova.

A conversa acaba por ser quase um desafio entre os dois para ver quem se confessa e sobre o quê. A distância é longa e a viagem sofre apenas uma interrupção por motivo de um acidente. O diálogo não é interrompido durante esse hiato e apenas termina no final da viagem. No fim o motorista estende-lhe a mão e moça faz-lhe uma festa na cara. O interessante na realização é que não se vê ali qualquer interesse de ordem sexual, apenas transparecendo o gosto dos dois em conseguirem confissões expressas  a desconhecidos sabendo que, normalmente, nunca mais se encontrarão.

Freud deveria ter gostado. Eu não amei especialmente, mas achei interessante.

 

PS. Procurei o significado de Daddio e acho que é um eufemismo de Pai (Daddy).

domingo, 25 de agosto de 2024

Na Terra de Santos e Pecadores

 


Mais uma vez ia ver um filme e acabei por ver outro. Fui de propósito ao centro das Amoreiras para ver o Anthony Hopkins a fazer o papel de Freud. O filme já lá estava há bastante tempo e fui surpreendido com uma lotação esgotada. Lá acabei por ir ver um filme sobre a Irlanda passado em 1974.

Um grupo armado do IRA, constituído por uma mulher que o chefia e dois homens que a seguem como cordeiros, refugia-se numa aldeia após um atentado em Belfast que acaba matando um grupo de crianças. Nessa aldeia vive um assassino profissional, Liam Neeson, que sendo implacável nas missões em que é incumbido, tem bom coração e acaba ajudando vizinhos e amigos, em particular crianças. É o chamado papel do Bom Malandro, que leva o espectador a pugnar pelo vilão. Obviamente que acaba por se confrontar com o grupo do IRA por ter matado um pedófilo irmão da implacável chefe do grupo.

Numa paisagem rural, com um sossego contrastante com a acção, não peca com demasiados tiroteios a não ser no fim quando tudo se resolve.

Não sendo uma obra de arte, também não é um mau filme e o Neeson vai bem no papel. A melhor actuação vai para a líder do grupo do IRA, muito bem interpretado por uma Kerry Condon, que desconhecia, mas me surpreendeu. Realizado por Robert Lorenz é uma realização muito aceitável.

 

sexta-feira, 16 de agosto de 2024

O Corpo

 


Como impecável ateu totalmente convicto, gosto de temas religiosos e, sempre que posso, procuro ler e estudar esses temas fazendo comparações e tirando analogias. Já há alguns anos vi na TV um filme que, não sendo nenhuma obra de arte, me pareceu interessante pelo tema. Ontem por mero acaso ao fazer um zapping encontrei-o e revi-o. Gosto de rever filmes na TV porque, normalmente, estou mais atento e aprecio mais pormenores.

Em Jerusalém, “sede” das 3 religiões do Livro, um residente muçulmano, resolve abrir uma cave por baixo da sua loja e, ao fazerem-se as escavações, aparecem vários indícios da existência de um túmulo de certeza pertencente a um homem rico. Obviamente o governo de Israel nomeia uma arqueóloga para tomar conta da escavação. Ao derrubar uma parede de argila é encontrado o túmulo onde jaz um esqueleto bem conservado, de corpo inteiro e, com perfurações nos pés e mãos onde se notava alguma ferrugem. Ao mesmo tempo é encontrada uma moeda, normalmente usadas para datação dos túmulos, do tempo de Pôncio Pilatos. Feitas as datações pelo carbono 14 obteve-se a data do século um. Convicta que descobriu o túmulo e o corpo de Cristo, a nossa arqueóloga alerta as autoridades e aí começam as grandes quezílias entre as 3 religiões, não só pela possibilidade de colocar em causa o dogma de ressurreição na igreja católica, mas também as questões políticas, pois os muçulmanos temendo acordos entre cristãos e judeus, vêem em causa a sua determinação de obterem a cidade como sua capital. O Vaticano, a tremer por todos os lados, resolve enviar um padre investigador, sobrinho do papa que, durante a guerra pertenceu aos serviços secretos, com a missão de desmascarar a situação de modo a que se repusesse uma “verdade”, que deixasse tudo como dantes.

Esse padre (António Banderas), junto com a arqueóloga israelita, por acaso bem bonita, continuam as investigações e estudos e cada vez mais a fé do nosso padre começa a esmorecer pois indícios cada vez mais fortes, apontam mesmo para que seja o corpo de Cristo. Entretanto começa a violência. Os ortodoxos atacam todas e quaisquer escavações pois não aceitam que mortos sejam “molestados”. Os israelitas querem a verdade doa a quem doer e os cristãos querem o desaparecimento do “corpo” sem que se chegue a uma conclusão definitiva.

Começa aqui a parte da qual gostei menos no filme. Num dos ataques à escavação, o nosso padre é ferido e a arqueóloga foge com ele e leva-o para sua casa onde vive com um casal de filhos já quase adolescentes. Viúva de um marido morto no Líbano começa a interessar-se demasiado pelo padre e uma noite, enquanto este dorme, beija-lhe as mãos e deposita-lhe um leve beijo nos lábios. Entretanto um chefe muçulmano, rapta os filhos da arqueóloga e exige que o “corpo” lhe seja entregue. Temendo pela vida dos filhos a rapariga mais o dono da loja onde é a escavação, metem os ossos num saco e rumam ao encontro do terrorista. O padre segue-os noutro carro e acaba tudo aos tiros. Os putos são libertados e o padre envolve-se em luta com o terrorista que acaba largando uma granada. Conclusão: O terrorista morre, os nossos heróis ficam feridos e os ossos desaparecem no incêndio que se segue à explosão.

 E assim, um filme que começa interessantíssimo acaba em “coboiada”.

O padre regressa ao Vaticano e chateia-se com bispo que o mandou para lá, pois nem ele nem os Judeus estavam interessados na “verdade”, mas apenas a defenderem os seus próprios interesses.

Acaba tirando o cabeção e atira-o aos pés do bispo.

Mais tarde envia uma msg à arqueóloga, colocando a mão nos lábios como se ainda sentisse o beijo que ela lhe dera.

E dos ossos, mais nada… fim piroso de um tema que merecia mais seriedade.

 

 

Elenco

 

 

Antonio Banderas (Padre Matt Gutierrez)

Antonio Banderas

Padre Matt Gutierrez

Derek Jacobi (Father Lavelle)

Derek Jacobi

Father Lavelle

John Shrapnel (Moshe Cohen)

John Shrapnel

Moshe Cohen

Olivia Williams (Sharon Golban)

Olivia Williams

Sharon Golban

 

 

domingo, 28 de julho de 2024

Underground – Era uma vez um país…

 


 

Um filme de Emile Kusturica. Este realizador sérvio já me tinha surpreendido com Gato preto, gato branco. Com este filme deixou-me completamente arrasado pelo ritmo alucinante que o filme nos mostra, pelo insólito, pelo surreal e delirante das sequências e personagens criadas, misturando cenas completamente caricatas e pouco comuns com um ambiente de guerra que se desenvolve fora do local de vivência de todos os intervenientes.

Após o bombardeamento de Belgrado pelos alemães, um oportunista traficante de armamento, ladrão e sem escrúpulos, encerra amigos juntamente com uma comunidade de habitantes de um bairro, numa cave onde os põe a produzir armas que contrabandeia vendendo-as a quem mais pagar. Toda esta gente vive sem regressar ao exterior durante anos até para além da guerra que não sabiam ter acabado. O ritmo de vida é acompanhado por uma música alucinante tocada por uma charanga de instrumentos de sopro. No meio de tudo isto há paixões casamentos, traições e festas alucinantes com muito álcool e explosões de sentimentos. Entretanto Tito morre, a Jugoslávia desmembra-se e a guerra continua, agora entre Sérvios, Croatas e Kosovares e era uma vez um país…

Tratar da guerra desta forma é completamente surreal, mas Kusturica consegue prender o espectador pela mistura do alucinante com a verdade do conflito.

A meio do filme apeteceu-me dizer “Este gajo é doido”. No fim do filme já não tinha essa opinião.

Acho que a palma de ouro que ganhou no festival de Cannes foi absolutamente merecida. Se gostam de histórias muito certinhas, não vejam. Se querem um filme diferente em ritmo alucinante vão ver que não se arrependem.

segunda-feira, 24 de junho de 2024

Sabor da Vida

 


Juliete Binoche é uma das minhas actrizes preferidas do cinema francês. Andava há uns tempos para ver este filme que já vai há muito no Corte Inglês. Fui ontem e dei o tempo como bem empregue. Um filme onde a culinária é tratada como se um poema fosse. Ao pé disto a Festa de Babette é um lanche. Um aristocrata francês, no seu solar, reúne-se com os amigos para disfrutarem dos bons repastos que a sua cozinheira e amante prepara religiosamente na grande cozinha com uma ajudante e uma aprendiza que tem o dom dos sabores. Os pratos vão saindo daquelas mãos com toda a sua maestria e os sons misturam-se com os sabores levando os espectadores a apreciarem toda a comida mesmo antes desta chegar à mesa dos comensais. O anfitrião, um perfeito gourmet, mas também ele um excelente cozinheiro, goza com os seus amigos descrevendo todos os pratos que vão chegando à sua mesa. Binoche recebe o seu “patrão” na sua cama, mas sempre com uma independência de que não prescinde, apesar das muitas insistências do mesmo para que case com ela. Finalmente decide-se e o gourmet acaba cozinhando para ela, mas a vida é cheia de imprevistos e a saúde dela não é das melhores… será que ele quer uma mulher ou uma cozinheira? Vejam o filme e ficarão a saber. Gostei bastante, mas ia enjoando com tanta comida. Dos filmes sobre culinária, A Festa de Babette e a grande Farra, este para mim foi o melhor, pois mistura sabores com sentimentos.

Juliette Binoche e Benoit Magimel são os protagonistas deste excelente filme e curiosamente já tinham tido uma relação de alguns anos na vida real. O filme é realizado por um vietnamita de quem nunca tinha ouvido falar,  Tran Anh Hung.

quarta-feira, 12 de junho de 2024

A SOMBRA DE CARAVAGGIO

 

FICHA TÉCNICA

Goldenart production e Rai Cinemaapresentam
argumento Sandro Petraglia, Michele Placido, Fidel Signorile 
uma co-produção franco-italiana Goldenart Production 
com Rai Cinema, Charlot Mact Productions, Le Pacte 
em colaboração com Qmi 
com a participação de Canal + - Ciné + Cinécap 4 - Cofimage 32 - Cinéaxe 2 - Palatine Etoile 18 - Indéfilm 9 
produzido por Federica Luna Vincenti 
co-produzido por Antoine de Clermont Tonnerre e Jean &  Anne-Laure Labadie  director de fotografia Michele D’Attanasio 
décors Tonino Zera
montagem Consuelo Catucci
guarda-roupa Carlo Poggioli
música Umberto Iervolino, Federica Luna Vincenti 
produtores executivos Rita Rognoni, Vincenzo Bonomo 
director de produção Riccardo Borni
director de pós-produção Irma Misantoni 
um filme de Michele Placido
Opera Realizzata con il sostegno della Regione Lazio – Fondo Regionale Per Il Cinema e L’AudiovisivoRegione Lazio Avviso Pubblico Attrazione Produzioni Cinematografiche (Por Fesr Lazio 2014-2020) Progetto Cofinanziato Dall’unione EuropeaRegione Campania – Fcrc: Opera Selezionata Nell’ambito Del “Programma Poc Progetti/Eventi Di Promozione Del Turismo Culturale” Poc Campania 2014/2020
vendas internacionais Wild Bunch International
distribuição Midas Filmes 

ITÁLIA/FRANÇA - 2023 - 119' – cor

 

Fui ver. Coloco aqui a ficha técnica e assim escuso de estar a procurar mais informações. Interessante filme sobre a vida do que foi considerado um pintor maldito por ter usado prostitutas e ladrões como modelos dos seus quadros de temas religiosos. Passado nos primeiros anos do século XVII, Caravaggio, um proscrito por Roma, condenado à morte por decapitação pelo Papa, devido a ter matado um homem, vai fugindo pelas cidades italianas, na altura com governos próprios dado que a reunião da Itália só muito mais tarde se concretiza (Século XX), vai esperando por um indulto papal.

Libertino, bêbado, sodomita, vai vivendo junto do submundo, junto de prostituas, pedintes e ladrões, tirando das caras, expressões e olhares dessa ralé, os modelos que depois coloca nas suas telas, normalmente grandes retábulos que vão sendo colocados nas muitas igrejas italianas.

O Papa, em Roma, coloca na sua peugada um investigador conhecido pela Sombra, para lhe fazer um relato da vida que Caravaggio vai levando de modo a que ele possa apreciar um relatório e daí decidir se o deve indultar ou não.

 

Ao investigador vão-se-lhe colocando problemas de consciência dado que retractar a Santa Virgem com modelo de uma prostituta e São Pedro com um ladrão velho e bêbedo, são consideradas heresias que a Igreja não suporta, mas que ao ver a sua arte coloca os seus quadros em destaque nas melhores Igrejas italianas.

O filme vai mostrando a vida libertina de Caravaggio, com as suas lutas, perseguido pelos irmãos do homem que matou, investigado pelo Sombra e apoiado por alguma aristocracia, principalmente por grandes Damas que o admiram e desejam. Só perto do fim Caravaggio se encontra com a sua sombra e tem com ele um diálogo fabuloso que vale a pena interiorizar. Acaba por ser indultado, mas…

Bonita cor, tons escuros q.b. Excelente guarda-roupa, e decoração dentro da época com porcaria e sujidade às vezes quase repugnante.

E mais não conto. Tenho apenas um pequeno reparo, a arte de Caravaggio é apresentada no filme de forma um pouco superficial. Deveria ter tido mais destaque. Vão ver que vale a pena.

sexta-feira, 10 de maio de 2024

O Rapto

 


Fui ao cinema. O rapto passa-se numa época, 2ª metade do século 19, em que Bolonha ainda era uma cidade sob o jugo papal de Pio IX.

Uma servente católica numa família judaica, pensando que um dos filhos da família estava às portas da morte, baptiza-o com água benta para que o menino não vá para o Limbo. 6 anos mais tarde acaba por confessar o facto ao inquisidor mor, que ordena a separação do rapaz da família, pois sendo católico teria de ser educado nessa fé e não nos ritos judaicos que então seguia. O Papa dá o seu aval e o rapaz é retirado à força não podendo a família fazer nada contra. No início o rapaz segue as suas rezas que a mãe lhe ensinou, mas a pouco e pouco, na catequese sofre uma autêntica lavagem cerebral que o tornam um cristão. A família tudo faz para o recuperar, inclusive o irmão mais velho, combatente pelas forças de Victor Emanuel, que acaba mais tarde por sair vitorioso, e tenta levar o seu irmão de novo para o seio familiar, mas este já não quer voltar por a família ir contra as crenças que então já professava.

Drama intenso principalmente da luta do pai e da mãe, esta que se mantém sempre uma judia que não repudia a sua religião e se recusa a tornar-se católica para reaver o filho

O filme está muito bem dirigido e tem actores que interpretam excelentemente os seus papéis. O guarda roupa é perfeito e os ambientes muito bem filmados mostrando a intransigência e prepotência de uma igreja católica que tudo fazia para mostrar ao mundo que uma alma baptizada era para todo o sempre católica, mesmo contra a vontade da família e de uma família judaica que não renuncia às suas crenças mesmo à custa de perderem um filho. Malditas religiões! Boa cinematografia italiana e boa realização de Marco Bellochio. Valeu a pena.

terça-feira, 6 de fevereiro de 2024

Zona de Interesse

 

 

Ontem fui ao cinema. Como de costume fui à Net e escolhi o filme que pela sinopse e pela crítica me pareceu o melhor para ver. “Zona de Interesse”, realizado pelo britânico Jonathan Glazer, mostra-nos a vivência do comandante do campo de morte de Auschwitz, numa moradia, paredes contíguas com o campo, onde ele a mulher e os filhos têm uma vida normalíssima como se ali ao lado fosse uma fábrica normal que ele chefiava. Apenas o ruído dos crematórios, o fogo e o fumo, eram visíveis, mas isso não parecia incomodar a família feliz onde os filhos brincavam com o cão, tomavam banho na piscina, saiam e iam para a escola, etc. A mulher tratava das flores, convidava amigas, falavam de trivialidades, etc. A única nota de mal-estar é dada pela mãe da esposa do militar e avó das crianças, que tendo lá ido passar uns tempos, acaba por desaparecer deixando apenas um bilhete que a matriarca lê, mas o espectador fica sem saber o conteúdo ficando-se por imaginá-lo. Apenas algumas reuniões do comandante com os seus oficiais nos dão a entender o que se passa do outro lado dos muros. Tudo isto filmado com de maneira simples, sem grandes interpretações e forma totalmente fria. O problema surge quando o comandante recebe ordem de transferência e a mulher não quer sair do seu lar acolhedor tendo sido autorizada a permanecer no local como se tratasse viver num bairro normal. Uns gritos e uns tiros dão-nos a entender o que se passa do outro lado dos muros.

 O filme termina subitamente quando Rudolph Hoss é autorizado a regressar ao campo e ao telefone com a mulher refere “Agora, tenho que começar a pensar como vou gasear tanta gente”.

Confesso que percebi a ideia, mas não gostei. Podia ter sido realizado de modo a prender mais o espectador. Querendo mostrar a forma como o extermínio dos judeus não afectava a classe militar e as suas famílias acaba como uma sucessão de imagens demasiado frias e sem grandes interpretações. Teve o condão de não mostrar qualquer imagem do interior do campo. Valeu o meio bife com molhanga, batata frita, esparregado e ovo a cavalo que fomos comer ao Café de São Bento com o casal de amigos que nos acompanhou.

 

Folhas caídas


Quem gostar de filmes de movimento e acção não vá ver. Aki Kaurismäki mostra-nos uma Finlândia completamente diferente daquilo que temos lido sobre este país. Filmado com uma simplicidade incrível em ambientes de emprego/desemprego, um homem e uma mulher encontram-se e desencontram-se devido a uma série de circunstâncias naturais, e possíveis. Um número de telefone perdido, um atropelamento inopinado e o nosso casal vai-se perdendo no meio de um ambiente triste e sem qualquer conforto. O abuso do álcool por um e o pequeno roubo num supermercado de artigos fora de prazo, cujo lugar é o lixo e não o aproveitamento, causam despedimentos. A única parte lúdica do filme são os encontros num café de Karaoke que ambos frequentam e onde acabam por se conhecer. Olhares e poucas palavras servem para criar alguma empatia, mas depressa separada por acontecimentos furtuitos. Uma filmografia ligeiramente chapliana, em que a câmara raramente se desloca, em ambientes frios e com poucos diálogos, um homem e uma mulher reencontram-se e seguem juntos numa imagem de costas que se vai afastando, ele coxo e de bengala e ela segurando uma cadela a que profeticamente chama “Chaplin”.
A música é uma mistura de canções antigas, música clássica e alguma moderna, que pela sua alternância consegue colocar nos ambientes, um pouco frios, algum calor. Uma nota para as notícias na rádio, quase sempre que a ligam, que fala da guerra na Ucrânia com censura ao Sr. Putin.
 Eu gostei. Estranhamente, uma sala das mais pequenas do Corte Inglés, estava quase cheia.