sábado, 24 de novembro de 2012

Poseidon versus Neptuno

Poseidon estava sentado sobre um casco de navio afundado quando reparou que uma concha puxada por golfinhos se aproximava. Era Neptuno que o vinha visitar. Poseidon preparou-se para o receber. Já sabia que iam discutir. Nunca se entendiam. Cada um reivindicava a supremacia sobre os mares.
-- Olá Poseidon – disse Neptuno. – Sentado num casco de navio? Que fazes aí?
-- Este, onde me sento, foi baptizado pelos homens com o meu nome. Quem os autorizou a isso? Darem o nome do deus dos mares a uma casca de noz. Como se um simples objecto criado pelos mortais merecesse o meu nome. Para provar que sou o mais poderoso, virei-o ao contrário afundando-o. Foi giro ver todos aqueles seres mesquinhos e pequenotes a tentarem salvar a pele. Morreram quase todos e, não foram todos porque alguém tinha que ficar para contar a história. Vens tu agora, usurpador do meu trono, ou por outra, em tentativa de usurpares o meu trono, colocar algo em causa?
-- Estais enganado, o rei dos mares sou eu, assim determinaram os senhores do mundo, que me criaram. Os Romanos assim o quiseram e assim será.
-- Rapazola de um raio, quando apareceste já eu reinava há muito sobre os mares. Os meus criadores, os Gregos, eram os detentores das ciências, das filosofias e das artes. Os teus senhores, esses miseráveis Romanos, vieram muito depois usurpar tudo o que de bom os gregos deixaram. Criaram então deuses para substituírem todos aqueles que já por cá andavam, mas as bases são gregas e os principais deuses também. O reino dos mares é meu quer tu queiras ou não.
-- Isso veremos. Fui eu que deixei ou permiti que muitos povos percorressem os mares. Fui eu o cantado por Camões e, até Fernando Pessoa, o ilustre poeta português, me colocou em terra personificado no “mostrengo”, aquele que defendia dos mortais o cabo tormentoso, só se tornando de “Boa Esperança” depois de eu deixar passar aquele povo heroico que descobriu mais de meio mundo. Eu permiti a passagem aos homens, tu mataste-los por ignomínia. Tu que foste engolido pelo teu pai à nascença. Tu que só por bondade de Zeus foste regurgitado por Cronos. Não tens direito a reinar aqui.
-- Ah! Ah! Ah! Pobre réplica de mim. A história está cheia de réplicas de deuses como tu. Foi a nossa história, que os teus pais romanos estudaram. Foi essa que copiaram para fazerem seus os nossos deuses. Fizeram-te filho de Saturno e irmão de Júpiter e Plutão. Chamaram-te deus das fontes das águas e também dos terremotos. Que tinha a terra a ver com o mar. Esses romanos eram loucos. Tenho a impressão que houve já alguém a dizer isto… Parece-me que foi o Asterix…
-- Asterix? Não conheço.
-- Claro! És um ignaro e uma fraude. Asterix foi um que nunca se subjugou aos teus patrões e sempre os combateu nunca lhes permitindo ocupar a sua Gália. Foram homens como ele e os seus pares, os percussores da vossa queda. O pior é que outros vieram e outros deuses também criaram, tornando a nossa história em mitologia. Um dia os deuses deles também virarão mitologia e outros deuses aparecerão. Parece que a humanidade, esses pobres seres, não sabem viver sem deuses.
-- Caro Poseidon, antes que os nossos tridentes se cruzem, vou dar uma volta por aí. Vai mas é para Copenhague e deixa-te lá ficar sobre um pedestal, eu volto para Florença. Fico numa das fontes que criei.
O fundo da piscina reflectia raios dourados como hexágonos que ora se alongavam ora se contraíam como raios eléctricos, chamando-me à realidade. Perdi de vista os deuses que me ocuparam a mente durante segundos e saí para o balneário. Já debaixo do chuveiro constatei que o Asterix também não tinha toda a razão. Não só os Romanos eram loucos, toda a humanidade também…
(Bem, se me chamarem maluco digo que não fui eu que escrevi isto...)

sábado, 10 de novembro de 2012

A Junta, o Bocage e aqueles que arquitectaram uma tertúlia que lhe é dedicada.

Hoje, fui até ao auditório Carlos Paredes, a convite de um dos meus mais recentes conhecimentos, que espero se venha a tornar numa salutar amizade, Francisco de Assis Machado, que conheci na piscina da Junta de Freguesia de Benfica, que ambos frequentamos e onde se situa também o auditório. Francisco Machado é uma pessoa interessantíssima e multifacetada. Professor, poeta, cantor e músico é também um utilizador experiente das Novas Tecnologias (NT), com um blogue na Internet e contas no Facebook, entre as quais uma de que é colaborador assíduo e que se intitula “Tertúlia Poética “Ao Encontro de Bocage”.
Antes de continuar este meu apontamento, quero aqui deixar a minha homenagem à Junta de Freguesia de Benfica que mantém diversas estruturas sociais, lúdicas e culturais, apoio a idosos, várias actividades dedicadas a jovens, etc… As minhas costas, já um pouco castigadas pela idade e pelas atrocidades que lhes preguei nas picadas de além-mar, quer pela actividade profissional quer pelo exercício da caça, agradecem o benefício que a natação oferece. Mas, continuemos…
Francisco Machado, que se intitula PoetAmigo Frassino Machado, é um entusiasta colaborador da tertúlia já referida, que todos os meses realiza um espectáculo cultural constante de declamação de poesia, canções, dança e música. Estes eventos são dirigidos e apresentados por América Miranda, também poetisa, criadora da tertúlia.
Confesso que o espectáculo me surpreendeu pela positiva. América Miranda deixou uma imagem de entusiasmo contagiante e foi uma apresentadora e colaboradora de excelência. Os declamadores, quase todos também autores, estiveram muito bem, os cantores, todos amadores, portaram-se como profissionais e o nosso Frassino Machado, declamou, cantou e acompanhou-se à viola, fazendo-o, quer na sua poesia, quer nas músicas de Adriano, uma das quais com texto seu, com um laivo de intervenção política, muito a ver com a situação que actualmente vivemos. E isto protagonizado, na grande maioria, por pessoas da chamada meia-idade.
O ambiente fez-me recordar a minha infância, onde na terra, havia uma sociedade recreativa à qual chamávamos “Grémio” que nos proporcionava espectáculos idênticos. O meu bem-haja a todos os criadores e artistas intervenientes. Fiquei cliente e, sempre que puder, lá estarei em eventos futuros.
Obrigado Frassino por me ter proporcionado este bom momento.

quinta-feira, 1 de novembro de 2012

O Powerpoint do momento

Um amigo enviou-me um mail com um anexo de um powerpoint com o nome em epígrafe. Aliás é um mail já bem conhecido visto já ter recebido muitas mensagens com o dito. Partindo do princípio de que nem todos o receberam, vou tentar deixar aqui o respectivo link, se estas novas tecnologias funcionarem como espero:
Como estava com a chamada veia, resolvi responder a esse meu amigo, que devido à salutar confiança que temos, não levou a mal esta verborreia, se a um escrito lhe posso chamar tal. Depois de lhe responder, achei que tudo o que lhe escrevi também servia para todos aqueles que já me enviaram tal powerpoint. Por não ser razoável e até ser impossível agora, saber quais os que o fizeram, resolvi colocar a resposta aqui no blogue:
“Pois! Vão divulgando. Entretanto o OE foi aprovado. Ah! Mas agora na especialidade... Pois! Vão esperando... Ah! Mas o PR vai mandar para o TC... Pois! Continuem a esperar... Entretanto vamos pagando com língua de palmo. Pois! Faz poupanças. Não gastes. Não gastar em quê? Já pouco dá para não gastar. E se só gasto para comer, para ter casa, electricidade, água e internet... (OLHA LÁ! Queres Internet para quê?) de que vale viver? 
Se calhar tenho que cortar tb a NET. Porra! E depois não faço mesmo nada. Está bem...vou esperar a morte calmamente a ver filmes na ZON. ZON? Para que queres essa merda? Não te chegam 4 canais generalistas? 4? Qualquer dia são só 3, talvez não fique por ali, e por esses pagas muito e não bufas.
Olha meu filho, arranja é lá maneira de pagares os medicamentos que é aquilo que tens mais certo até chegares ao fim...Ah! Ainda tens Deus. Vira-te para ele. Pois. Por mais que tente virar-me ele ainda não arranjou nenhum para as despesas e continuo na mesma. Ah! Mas e o consolo? Tá bem pronto! Tou consolado... só que com dívidas e nem ao menos me sai o euromilhôes.. se me sai tenho que entregar 20% a estes fdp. Olha lá! Não blasfemes. Tens de lhes pagar para estares vivo. E para estar morto tb e não tenho dinheiro para o funeral. Tá bem. Essa é uma despesa que não vai de certeza dar-te preocupação.

Que tal? Gostou? Quer que continue? Bah! Não vale a pena…

Abrç”

Nota: Os negritos são a fala do divino…

E agora tenham paciência e não me batam muito, mas ponham-se a pau…

quarta-feira, 24 de outubro de 2012

O Nada

Hoje não me apetece escrever. Não tenho motivo, não tenho paciência, não tenho nada. O nada às vezes é óptimo. Dá para preguiçar, ler, pensar, passear e para dormir. Estou sem sono não durmo, estou sem paciência não escrevo, estou com preguiça não passeio. Enfim, um cérebro totalmente desocupada e apanhado pela ausência ou “enchimento” de coisa nenhuma. Vou ao computador e vejo as msgs a entrar, uma duas, três, ena tantas… Já ando nisto há muito, as msgs são conhecidas e algumas repetidas. Parece-me até impossível como é que tanta gente ainda não as conhece. Pelo número de vezes que já aqui entraram custa a crer que tipos que, como eu, que já cultivam este “vício” desde há muito, nunca as tenham recebido. Talvez andem esquecidos ou gostem tanto delas que não são capazes de as apagar sem as reencaminhar. Lá me aparece uma ou outra inédita para mim. Repasso aquela a que acho graça ou que tenha algum conteúdo sério. A outra não merece repassar. Dei comigo a olhar o monitor e a não ver nada. Sacudi a cabeça e abri um word. Nada me abre a mente, mas já que tenho o word aberto vou escrevendo isto. Que não é nada. Já que não tenho nada, escrevo sobre o nada. O que se pode escrever sobre o nada? Acho que nada. Está bem, pronto! Vou tentar. O nada é apenas uma palavra e as palavras podem ter vários significados;
- Que fazes hoje? - Acho que nada. - Que faz o peixe? - Nada.
Às vezes substitui interjeições fortes; - Nada! (p….) Aleijaste-me! Outras vezes: - Vais sair? – Qual nada! – Foste para a cama com ela? – Fui. – E então? – Nada!
De qualquer maneira e seja qual for o contexto, o nada é quase sempre igual a zero.
A propósito do zero! Aí está uma forma de escrever algo sobre algo que é nada. Será?
- Quanto dinheiro tens? – Zero. Aqui está! Dinheiro zero = a nada. – Quanto dinheiro tens? – 10 Euros. Aqui está um zero que afinal já não é o mesmo que nada. Quem inventou o zero? Parece que foram os árabes. Ou terão sido os hindus?
Fomos à NET:
“ … aproximadamente no ano 500, textos gregos usavam o ômicron, que é a primeira letra palavra grega oudem (“nada”). Anteriormente, o ômicron, restringia a representar o número 70, seu valor no arranjo alfabético regular.
Talvez o uso sistemático mais antigo de um símbolo para zero num sistema de valor relativo se encontre na matemática dos maias das Américas Central e do Sul. O símbolo maia do zero era usado para indicar a ausência de quaisquer unidades das várias ordens do sistema de base vinte modificado. Esse sistema era muito mais usado, provavelmente, para registrar o tempo em calendários do que para propósitos computacionais. 
É possível que o mais antigo símbolo hindu para zero tenha sido o ponto negrito, que aparece no manuscrito Bakhshali, cujo conteúdo talvez remonte do século III ou IV d.C., embora alguns historiadores o localize até no século XII. Qualquer associação do pequeno círculo dos hindus, mais comuns, com o símbolo usado pelos gregos seria apenas uma conjectura.  
Como a mais antiga forma do símbolo hindu era comumente usado em inscrições e manuscritos para assinalar um espaço em branco, era chamado sunya, significando “lacuna” ou “vazio”. Essa palavra entrou para o árabe como sifr, que significa “vago”. Ela foi transliterada para o latim como zephirum ou zephyrum  por volta do ano 1200, mantendo-se seu  som mas não seu sentido. Mudanças sucessivas dessas formas, passando inclusive por zeuero, zepiro e cifre,  levaram as nossas palavras “cifra” e “zero”. O significado duplo da palavra “cifra” hoje - tanto pode se referir ao símbolo do zero como a qualquer dígito - não ocorria no original hindu.

Parece pois que o “nada” preocupou muitas mentes antes da minha. Gostava era mesmo de saber como é que os romanos faziam divisões. E como é que os grandes matemáticos gregos, antes de 500, se safaram sem o zero?

E com isto ainda fiquei mais vazio. Estou a zero. Não resolvi nada e nada disse. Também não me importo. O que estava mesmo era a dissertar sobre o nada…

sábado, 20 de outubro de 2012

O Cavalo que não quis ser burro


(dedicado à crise)
O Cavalo estava lindo, luzidio, gordo, livre e feliz. O seu dono tirava-o todas as manhãs das baias e levava-o para o pasto onde podia correr, escolher a melhor erva, espinotear e até espojar-se na terra do prado. Tinha água fresca no tanque que, para o efeito, enchiam todos os dias, uma manjedoura com ração e alfarroba para entremear com o pasto e palha fresca para se deitar quando lhe apetecia. Agradava-lhe sobremaneira ser aparelhado e levado ao picadeiro onde os netos do seu dono o montavam na aprendizagem da nobre arte de dominar um cavalo. Vivia, portanto, feliz e contente, num correr dos dias suaves e mornos, acompanhado às vezes pelo burro que, ao contrário dele, pouco tempo passava no prado, pois tinha que puxar o arado, rodar a nora, carregar os alforges cheios de hortaliças e outros artigos, muitas vezes demasiado pesados para as suas pobres costas. O pobre bicho também puxava uma enorme e pesada carroça enquanto ele passeava o dono e os netos numa elegante e leve charrete, bem pintada e reluzente.
Mas, começou a sentir que algo estava a mudar. O seu dono andava cabisbaixo e meditabundo. Quando normalmente o escovava, estava sempre cantando e a dizer-lhe palavras bonitas que o incentivavam a portar-se cada vez melhor e a querer ser cada vez melhor cavalo. Agora, além de o fazer menos vezes, fazia-o cabisbaixo, calado e triste. Que se passaria?
Um dia, ao lavá-lo e escová-lo, enquanto lhe passava a brussa pelo lombo, começou com uma conversa esquisita. De voz um pouco embargada, foi-lhe dizendo que as coisas estavam mal, as vendas andavam a baixar, as pessoas tinham pouco dinheiro e compravam menos, os intermediários cada vez queriam os produtos mais baratos, o estado aumentara-lhe os impostos, etc… enfim, as coisas andavam mal e as despesas da quinta cada vez eram mais elevadas e as receitas minguavam a olhos vistos. Um tipo do banco passara por lá, propusera-lhe um empréstimo, pagaria pouco por mês, mas tinha de dar a quinta como hipoteca. Fora na conversa e realmente, no início, tudo ficara melhor, mas agora via que fora uma ilusão, tudo estava pior e nem conseguia pagar o empréstimo. Tinha de cortar nas despesas. Não aguentaria continuar com tantos animais. Pensou vendê-lo a ele, mas não foi capaz. A amizade que lhe tinha era muita e partia-se-lhe a alma só de pensar em perdê-lo. Teria de vender o burro, a charrete, diminuir as vacas, porque o leite também já aumentara e não conseguia vendê-lo todo, desfazer-se das cabras e ficar só com meia dúzia de ovelhas. Assim, pedia-lhe desculpa, mas ele, que era o seu querido cavalo e seu orgulho, como tinha mais força, teria de fazer todo o trabalho.
O nosso pobre cavalo, que adorava o seu dono, disse para consigo que teria todo o gosto em o ajudar e que não se importasse. Iriam conseguir.
A partir daí tudo mudou. Puxou arados e carroças, moveu a nora para as regas, acartou alforges para a praça, deixou de comer alfarroba e nem forças tinha para se deslocar até ao prado deixando-se ficar na cocheira, entre baias, triste e cabisbaixo. O seu lindo pelo tornou-se baço por falta de tratamento, lavagem e escova. Tinha sido cavalo e passara a burro. Via agora quão difícil era a vida daquele animal que se fora dali. Onde estaria? Certamente já morto nalgum matadouro. Talvez tivesse sido a melhor sorte. Na quinta já nem apareciam os netos do seu dono. As selas, sempre limpas e luzidias, já não se viam penduradas na parede, tinham sido vendidas para ajudar nas despesas. Os campos, até ali sempre verdes e viçosos, pareciam agora terra seca e erma apenas com carrascos e estevas acastanhadas. Seria que as coisas iriam continuar assim ou o seu dono conseguiria dar a volta por cima e mudar o rumo dos acontecimentos?
O tempo foi passando e tudo piorou. O nosso cavalo mudara para burro e teria de continuar assim. Como era difícil. O seu dono, não aguentava a tristeza de ter de entregar a casa e a quinta ao banco e caiu à cama bastante doente. A filha, que morava na cidade, não tinha tempo nem sabia tratar da quinta. A bicharada foi desaparecendo a pouco e pouco. Um dia, de uma velha e desengonçada carroça, saiu um homem moreno e barba rala, vestido de negro, acompanhado de uma mulher também de negro e saia até aos pés. Falava com a filha do seu dono, numa algaraviada esquisita mas deu para entender que vinham buscá-lo.
Não o levariam. Estava solto e livre. Ganhou forças e correu saltando por cima da cerca da portada. Correu como o vento sentindo-se cada vez mais livre. Não seria mais burro. A brisa, com cheiro a mar, chegou-lhe às ventas e deu-lhe mais forças para a corrida. Chegou à orla marítima, a um ponto da falésia que conhecia de passeios que ele e o dono davam antigamente. Uma rocha saliente formava uma plataforma. Nem abrandou. Chegado à ponta saltou, caindo na água com alguma violência.
Com os olhos no horizonte, nadou, nadou, nadou… o seu amigo burro talvez o esperasse lá bem no fim…
Já estava longe da costa quando olhou para trás. Se continuasse morreria. Se voltasse talvez as coisas se recompusessem. Pensando no seu dono e na tristeza de o deixar, ganhou forças e voltou. Já na praia, deixou-se ficar recompondo as forças. Galopou até à quinta. O dono estava melhor, em pé na varanda como se esperasse por ele. Com um relincho aproximou-se colocando-se de modo a que o dono o pudesse montar. Partiram os dois rumo ao desconhecido. Amanhã seria outro dia e juntos haveriam de sobreviver.

domingo, 14 de outubro de 2012

O Pardal

Parei, como habitualmente nos meus passeios matinais, em frente da livraria alfarrabista. Chamou-me a atenção “ A Origem do Homem” de Charles Darwin. Como ando a ler um livro que a ele alude inúmeras vezes, “Breve história de quase tudo” de Bill Brysson, pensei em comprá-lo mas depressa engoli essa vontade. A “crise” que actualmente se vive, até esses pequenos prazeres me está a tirar. O dinheiro que penso gastar em livros e outras actividades culturais ou de prazer, faz-me falta para prover às necessidades diárias de manutenção de uma casa e família. Maldito dinheiro! Maldito capitalismo exacerbado! Malditos os governos que nos conduziram a isto! Maldita a vida que teima em acabar assim!
Dava mais uma vista de olhos pelas outras publicações quando, reflectido na vidraça da montra, reparei num velho pardal que debicava a terra junto de uma das árvores do passeio. Era um pardal dos velhos, já com gravata preta. Um macho, “senhor” do seu forte bico, procurando algo que lhe pudesse servir de repasto. Fiquei ali, embevecido, a olhar o bicho. O gato, à porta da livraria, olhava também. Não mostrou qualquer sinal de que pretendia atacar o passarito e eu congratulei-me com isso. Certamente vivia bem e não tinha fome, não precisando de caçar para comer. Naquele momento, dei conta de como a minha sensibilidade se tinha alterado. Como caçador, abato as espécies cinegéticas, sem ficar com qualquer problema de consciência, aqui na cidade, enterneço-me por ver um pardalito, bem vivinho, procurando sobreviver. Nem sempre foi assim…

− Pai. Dá-me dez tostões.
− Para que queres o dinheiro?
− Para comprar elásticos para uma fisga. Vou fazer uma como as que os rapazes daqui usam. Aquela que me compraste, com elásticos redondos e aquele cabo enorme, não serve. Custa a esticar e não dá pontaria nenhuma. Os rapazes usam elásticos de câmara-de-ar que compram no ferro-velho. O tipo corta um bocado que dá para dois elásticos e ainda sobram umas tiras para as ataduras. Com uma forqueta feita de uma haste de acácia e um bocado de cabedal duma lingueta de um sapato velho, faço o resto.
− Estou a ver. E depois vais para aí atirar fisgadas a torto e a direito e partir os vidros aos vizinhos. Não me arranjes sarilhos que já bastam os que tenho.
− Não. A fisga é para ir à caça dos pássaros, mais os rapazes daqui.
− Bem, toma lá e constrói a tua fisga. Depois mostra-ma para ver como ficou.
O puto correu ao ferro-velho e de lá trouxe o bocado de câmara-de-ar. Com uma tesoura que pediu à mãe, cortou os elásticos, foi à acácia mais próxima e escolheu uma forqueta bem apertada, cortou-a de cabo curto tirando-lhe a casca alisando-a com o canivete. De um sapato velho cortou a lingueta e com a tesoura cortou a sola da fisga. Montou tudo utilizando “cordões” do próprio elástico e saiu para a rua onde a experimentou. Estava óptima.
Com essa fisga, depois de alguns treinos, tornou-se um exímio atirador. Apanhou imensos passaritos pequenos procurando-os esgueirando-se por debaixo das oliveiras e outras árvores. O produto da caça era normalmente por ele preparado e depois frito pela mãe. Mas o puto andava triste. Nunca tinha sido capaz de caçar um pardal velho. Só os muito novos, quase acabados de sair do ninho, se deixavam surpreender por ainda não terem calo nem esperteza. Os pardais velhos eram demasiado matreiros e esgueiravam-se não se deixando caçar. Muitas horas foram gastas tentando enganar os pardalões. Um dia conseguiu.
Numa oliveira alta o pardal piava. O puto esgueirou-se por entre as árvores de modo a não ser pressentido. Já debaixo da grande árvore foi um sarilho para vislumbrar o bicho. Até que o viu. Piava olhando em frente e deixava a descoberto o peito roliço. O miúdo esticou os elásticos, apontou bem e desferiu a fisgada. A pedra atingiu o pardal em cheio, produzindo um ruído cavernoso. O pardal caiu entrechocando-se com os ramos, abatendo-se morto aos pés do rapaz, cujo coração batia com tal intensidade que quase se podia ouvir no silêncio do campo.
A alegria foi tanta que correu logo para casa para mostrar à mãe.
− Olha mãe! Consegui apanhar um pardal velho. Tenho de o mostrar ao pai.
− O teu pai hoje vem tarde. Fica a trabalhar e quando vier jantar já estarás deitado.
Foi uma tristeza para o puto, mas não se deu por vencido. Escreveu um bilhete a descrever a caçada e deixou-o em cima da mesa, no lugar do pai, com o pardal em cima…


Uma ambulância passou, com o seu desagradável “pi-nó-ni” afugentando o pardal. As minhas recordações foram-se desvanecendo. Hoje não faria tal coisa, mas caçar aquele pardal deu tanto prazer como actualmente abater uma perdiz em voo. Pode ser que um dia sinta pelas perdizes o que agora sinto pelos pardalitos.
Recomecei a caminhada. A porcaria da crise retornou à minha cabeça.
Ah! A fisga ainda a tenho, os elásticos foram mudando mas o cabo e o cabedal são os mesmos. A consciência é que já é outra. Não sei se para pior…

sábado, 29 de setembro de 2012

Como se sai da crise?


O Homem, entre todas as espécies animais, foi das que evoluiu, em alguns aspectos, com grandes diferenças. Não fisicamente, muitas outras foram muito mais favorecidas. Um cérebro grande e desenvolvido e um código fonético muito completo, permitiram-lhe, pela vivência em comum, desenvolver uma inteligência que aliada à capacidade de construir objectos, capacidade essa só possível pela oponência do polegar aos outros dedos, um modo de vida muito diferente dos outros animais.
Terá isso sido benéfico?
Vejamos:
Os nossos primitivos ancestros eram nómadas e caçadores recolectores. Iam vivendo nos sítios onde havia caça e produtos que podiam colher e consumir. Quando as coisas começavam a correr mal e esses recursos rareavam, mudavam de local. Exactamente o que as outras espécies, ditas selvagens, ainda hoje fazem e naquele tempo ainda não existiam deuses a quem pedir auxílio.
Como tinham um bom cérebro e viviam em comum, foram aprendendo e desenvolvendo pensamentos e ideias que os levaram a tornarem-se sedentários. Começaram a construir habitações, a recolher espécies que criavam em cativeiro e descobriram a agricultura. Uns tinham uns recursos, outros tinham diferentes e começaram a trocá-los entre si. Tudo isso dava uma trabalheira. Plantar batatas e trocá-las por porcos, fazer vestuário e trocá-lo por vacas, enfim, um trabalhão…
Para obviar esse inconveniente inventaram o dinheiro. Pronto! Lixaram tudo!
A inteligência deu-lhes para o egoísmo, para o roubo, para a vigarice. Uns começaram a ter muito dinheiro, outros pouco, e os endinheirados a explorarem a maioria dos que pouco tinham e eram os que mais trabalhavam. Aí, os mais desventurados inventaram deuses a quem se dirigiam para obterem benesses. Infelizmente os deuses são surdos.
Nas suas organizações, inventaram também os líderes. Estes começaram por ser os mais fortes fisicamente que empunhavam as maiores mocas para acalmarem as cabeças dos que tentavam fazer-lhes frente. Mas os líderes também se cansavam e então inventaram os apaniguados. Estes eram aqueles que, debaixo da autoridade dos líderes e beneficiados por estes, impunham a sua vontade geralmente pela força. Daí nasceram os governos. Quando a maioria se revoltava contra os líderes, arranjavam outro para se opor ao que estava e daí às guerras foi um pequeno passo.
Assim que os novos líderes se impunham voltava tudo à mesma. Os poderosos com muito e os outros trabalhando que nem cães, com muito pouco. Foi o princípio do capitalismo nascido da iniciativa privada.
Era preciso mudar as coisas.
Inventaram o comunismo.
Nada privado, tudo era de todos, trabalhava-se para a comunidade. Mas a classe dirigente não pôde deixar de existir. Só que essas classes começaram também a serem privilegiadas em relação às maiorias que obrigadas a viver segundo os padrões estabelecidas por aquelas não estavam satisfeitas. Tinham trabalho, comida, guarida, educação mas faltava-lhes a liberdade de poderem decidir serem pobres mas poderem ter o que quisessem adquirir. Também deu buraco.
Os capitalistas defendiam; só nós damos as oportunidades. Connosco podem optar pelo que quiserem. Era o lema de “pobrete mas alegrete”. Os bancos deram créditos, o povão gastou mais do que devia, os endividamentos cresceram, etc… deu também buraco. Os ricos continuaram ou ficaram mais ricos, o povão foi empobrecendo e os governos para tentarem superar a crise, tiram aos pobres para emagrecerem a despesa do estado. Só que com tal política também baixam as cobranças continuando e agravando a crise.
E agora? Qual o “ismo” que se segue?
Para mim será o “cavernismo”, isto é, voltarmos às cavernas.