sexta-feira, 29 de março de 2013


TENTATIVAS POÉTICAS

Quase todos estes “versinhos” foram elaborados como réplicas ao meu recente amigo, que se intitula Frassino Machado (PoetAmigo)

A CRISE TEM BELEZA?

Se uma crise tem beleza
Então sou mau sonhador,
Pois só m´assalta a tristeza
E isto sem desprimor
P’ra quem versos m’envia
Cheios de força e amor
Encontrando fantasia
Com vontade e com valor
Com a força e coração
Com ideias e magia…
P’ra casos sem solução.

Bem mentem eles, os tais
Que mandam neste país
Na Tv soltam “postais”
-- “Não está assim porque quis”.
Dizem eles: “foram outros
Que a crise construíram”.
Uns sacanas, uns garotos,
E depois os cus nos viram.
Só sei que desde há décadas
Os proventos se nos evolam
E nós ficando “carecas”
Por todos que nos amolam.

Soubesse eu o que isto dava
Não tinha metido a cabeça,
Por certo ainda estava
À espera de que aconteça.
Podia ser que entretanto,
Gente honesta aparecesse
Tornando o país, portanto,
Algo que apetecesse;
Um país cheio de vida
Com gente honesta a mandar,
Legislação consentida
Para o povo governar.

Se as portas, Abril abriu,
Veio gente p’rás fechar,
Vão p’rá pata que os pariu,
Não estou p’rós aturar.
Só me apetece é cobrir
As mães que vos pariram,
Talvez os que hão-de vir
Façam esquecer que partiram
Os coveiros da Nação,
Que era bela e bem ridente,
Estando agora um buracão
Sem alegria e diferente.

Beleza? Não vejo não!
Vejo vergonha e tristeza
Pelo estado da Nação.
Sem fantasia e beleza.
Façamos pois os possíveis
De correr esta maralha.
Talvez fiquem permissíveis
A ouvir a quem trabalha.
Se entretanto quiserem
Ficar, sendo incompetentes,
Que fiquem, para levarem
Porrada e ficar sem dentes.

A VIDA

(“Poema de pé quebrado” de má rima e pior métrica)

A vida quando vivida
Com gosto, com harmonia
Com fazer e desfazer
Com amor, com valentia
Sem medo e sem destino
Sem vendas e sem temor
Sem nenhum manto divino
Sem donos e sem senhor
Dá-nos descanso tamanho
Dá-nos tremendo vigor
Para aceitar o calor
Da força da natureza
Que em toda sua beleza
Nos conduz, com a certeza
De um belo fim sem temor.
Pena que é que o vil metal,
“Satanás” que o inventou
Pra atazanar nossa vida,
Nos cause tremendo mal
E nos faça em desatino
Alterar nosso destino
E provoque uma corrida
Sem retorno, contra o vento,
Para ganhar o sustento
Para conseguir comida
Para encontrar alento
De dar guarida e sustento
Àqueles que nos são queridos
E sem os quais não vivemos
Pois com eles, nós sabemos,
Que os queremos ao pé de nós
Prá vida ser bem vivida
Sem nos dar um fim atroz.
Bom seria atrás voltar
E nas cavernas viver,
Andar no mato e caçar
Todo o alimento preciso
E viver no paraíso
Sem um senhor a mandar
Que nos tolha a consciência,
Nos obrigue a trabalhar
E nos provoque a demência
Da riqueza procurar.
  
ESPERANÇA

Não quero deixar de ser o rapaz que sempre fui
Quero rir, quero viver, quero ir por aí dizer
A vida é bela é risonha, correndo o tempo e o sonho
Para tal é que estou vivo, para a vida quero trazer
A alegria e a esperança de um percurso que flui
Com bonança e fantasia e de modo não tristonho.

Mas, a desgraça é imposta por gente sem fantasia
Que nos corta a felicidade tirando-nos o ganha-pão
Cortando rente a esperança do raio de sol refulgente
Em nossa vida tão quente, que escaldava o coração.
Que esperam estes tartufos de política tão vazia?
Tirar-nos o gosto da vida? A nós e a toda a gente?

A alegria com que vivi, com gozo e muito amor
Torna-se pesado fardo, transforma-se lentamente
Em algo triste, denso, pesado, incerto e vacilante
Sem gosto, sem esperança, sem sentido e repelente.
Matam em mim a criança, matam em mim o fulgor.
Voltarei a ser capaz de sonhar e ser gigante?

Vou tentar… serei capaz… voltarei a ser menino e tornarei a sorrir.

(O seguinte foi a propósito de um poema que Frassino escreveu para o dia da mulher. Os versos não sei se estão bem, mas é o que sinto.)


Se Camões, nosso poeta, vivesse nestas épocas bem confusas,
Olhasse as nossas mulheres, veria com surpresa e espanto
Que suas Ninfas lindas, amorosas, Tágides emergentes e Lusas,
Continuam belas, refulgentes, esplendorosas e nos dão tanto.
Trabalham, cuidam, parem e amam sendo por vezes obtusas
Ao despotismo estúpido, cruel e marialva, que por enquanto,
Não foi das mentes machistas excluído, extirpado ou apagado,
Causando muita dor aos belos seres que queremos a nosso lado.

Diz Frassino: “Mulher total, senhora de paixões, mulher de lutas”
Capaz de sacrifícios mil, pelo seu amor, por seus filhos e anseios.
Vencedoras da vida, de tormentos, de doenças, guerras e labutas,
Amando, sofrendo, gozando, parindo e criando com seus seios
Os filhos que lhes damos e deixamos a seu cuidado, por astutas
Que são, em formá-los para a vida com zelo, por todos os meios
Que conseguem encontrar na força que dentro têm para dar.
Grandes companheiras. Mulheres nossas que devemos adorar


(Esta foi pelo dia de reis)


Os três reis do Oriente
Tal como os Mosqueteiros
Eram quatro realmente
Mas três foram primeiros

O quarto era Artaban
Seguidor de Zoroastro
Deixou de ser Taliban
Resolveu seguir o Astro

Lá na Pérsia ele vivia
E sem camelo partiu
Pois camelos não havia
E num cavalo saiu

Bom rapaz este reizinho
No caminho ajudou gente
Tratando e dando carinho
Lá seguiu todo contente

Mas por via do destino
O Artaban se atrasou
Bem procurou o menino
O estábulo vazio achou

Pobre rei peregrino
Já à Pérsia não voltou
Para encontrar o menino
Trinta e três anos levou

Encontrou-o finalmente
Numa cruz dependurado
Parece que aquela gente
Não o ouviu com agrado

Pregando de Deus a lei
Pobre de Jesus, coitado
Por se dizer dos Judeus Rei
Acabou cruxificado

E Artaban persistente
Já no Golgata o encontrou
Mas terminou, felizmente
A missão que o lá levou

Foram assim quatro os reis
Guiados por aquela estrela
Que levaram os “anéis”
Numa história qu’é balela

(Frasino Machado versejou sobre as mulheres que usam demasiado metal espetado pelo corpo. Réplica a Frassino sobre “ACESSÓRIOS, SIM OU NÃO”
Com “ piercing” no umbigo
Não gostaria de ter
Uma amante comigo
Nem que fosse só p’ra ver

Se além de ver lhe tocasse
E o “piercing” se abrisse
Talvez picado ficasse
Num sítio que não se visse

Prefiro pois sem metais
Carne rósea bem lisinha
E sendo assim, como mais
Sem usar a camisinha

Porque se camisa uso
E tem “piercing” pelo meio
Acabo ficando confuso
Logo se acaba o recreio

A coisa a borracha pica
Fica aquilo sem efeito
E o trabalho logo fica
Nunca lá muito a preceito

Quero tudo ao natural
Como manda a natureza
Sem camisa e sem metal
Com amor e com beleza.

( A que se segue foi escrita a propósito das magras compras do Natal passado)

Fui á rua pra comprar
Mas o bolso foi vazio
Acabei por só levar
Uma vela sem pavio

A vela assim não dá luz
Não alumia corações
Não tem chama, não seduz
Só nos traz desilusões

Já não há prendas bonitas
Nem nos parece Natal
Vamos como parasitas
Vai vazio nosso bornal

Resta-nos a amizade
Alegria e muito pão
Tempo de austeridade
Só nos parte o coração

Frassino poeta Amigo
Eu verso não sei fazer
Amizade trago comigo
Dá para dar e vender

Que o Gaspar vá bugiar
E o primeiro vá embora
Que o PR vá ao ar
É o que quero pr’ agora

Que melhor ano aí venha
E também novo Primeiro
Mas que não traga a manha
De levar nosso dinheiro

Frassino, és como Aleixo
Agora vou acabar
Abraço  eu aqui deixo
Porque não sei versejar


(Esta foi dedicada ao meu amigo Frassino que versejou sobre Madalena Arrependida)


MARIA

Maria de Magdala, mulher feliz e perfeita
Viu Jesus e, a paixão em seu peito floresceu
Com desmedida força. E Jesus correspondeu
Também. Enamorado, seu amor não enjeita.

Seguidora de seu Mestre, cuja palavra venera
Dá-lhe amor, carinho, apoio, força e vontade
De levar aos seguidores, discurso que regenera
Os homens, os eleva e lhes dá a majestade.

Mas seus discípulos machistas, ocos e ciumentos
Não aprovam tal amor, que lhes rouba os momentos,
Que consideram só seus, únicos e exclusivos.

Mais tarde, Imperadores misóginos, donos da igreja,
Maria prostituta tornam, inventando povo que apedreja
Aquela que foi amor dele, mas não agradou aos altivos.

(Soneto inspirado em Dan Brown “In Código Da Vince”)                   


quarta-feira, 6 de março de 2013

Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage

Pela primeira vez vou postar aqui, neste meu “blog”, algo que não é de minha autoria. O meu camarada e amigo António José Barradas Barroso, era conhecido nos Pupilos do Exército, onde fomos alunos contemporâneos, pela acunha de “Tiago”. De tal modo este “nome-alcunha” lhe ficou entranhado, que ainda hoje o usa como pseudónimo e até a sua mulher o trata carinhosamente por Tiago.
O meu amigo Tiago é poeta e dos bons. Em Setembro último foi o vencedor do prémio literário internacional Manuel Maria Barbosa do Bocage. A organização deste prémio, editou em livro os trabalhos apresentados pelo meu amigo. Da apreciação deste trabalho pelo júri, aqui transcrevo uma pequena parte e dois dos seus sonetos:
“…
O tema por sua vez é-nos muito querido e é a razão geral deste prémio Bocage, que já vai na sua XIV edição. Aborda-se a obra de Bocage procurando excertos dos seus poemas, retirando do soneto os dois tercetos e destes escolhendo o verso de fecho do último terceto, verso que sabemos de capital importância e que no soneto faz a síntese do mesmo.

O autor pega nesse verso e transpõe-no como motivo iniciando outro soneto da sua autoria. Depois toma as rédeas e cavalga na imaginação, discorre sobre o estado de espírito de Bocage, compondo-o com a habilidade e saber de tudo o que o homem é feito na sua circunstância.
…”

                          (...)
                          Aqui onde o que o peito abrange e sente,
                          Na mais ampla expressão acha tristeza,
                          Negra ideia do abismo assombra a mente.

                          Difere acaso de infernal tristeza
                          Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,
                          Ser vivo, e não gozar da natureza?
                                                                                 Bocage

                          Ser vivo e não gozar da natureza?
                          Pois, na prisão, o poeta se lamenta
                          Daquela solidão que o atormenta,
                          Daquele afastamento, e da tristeza.

                          Sentir, no peito, a perda da beleza
                          Na lúgubre prisão que o apoquenta,
                          Sem poder ver o céu que, a alma, sustenta,
                          Ou esse mar que brama com rudeza.

                          É perda atroz que nem sequer a gente
                          Que passa, que se toca e que se sente,
                          Se tem, para esquecer a solidão.

                          Depois, há uma quebra de amizade,
                          A mágoa por se não ter liberdade,
                          Amarrado à clausura da prisão.
                                                                              Tiago

[ ...... ]

                                 Devoto incensador de mil deidades
                                 (Digo, de moças mil) num só momento,
                                 E somente no altar amando os frades,

                                 Eis Bocage, em quem luz algum talento,
                                 Saíram dele mesmo estas verdades,
                                 Num dia em que se achou mais pachorrento.
                                                                               Bocage

                                 Num dia em que se achou mais pachorrento,
                                 Bocage, em verso, fez o auto retrato
                                 Sem nada pôr, de si, a bom recato,
                                 Apenas com verdade e sentimento.

                                 E a descrição, guardada pelo vento,
                                 Nos versos que editou, com fino trato,
                                 Se o descrevem fiel ao celibato,
                                 Tem deidades, porém no pensamento.

                                 Confessa ele, de início, que é meão,
                                 Que segue mais a fúria que a razão,
                                 Que só perante as moças se enternece.

                                 Se, na biografia que ele traça,
                                 Existe algum humor e certa graça,
                                 Também algum talento reconhece.
                                                                               Tiago

Estes sonetos ficam aqui ao dispor dos meus amigos e também dos componentes da “Tertúlia Poética Ao Encontro de Bocage” que, o meu amigo Francisco de Assis Machado “Frassino” fará o favor de divulgar. Vou tentar colocar um “link” desta página no “Facebook”.

sexta-feira, 15 de fevereiro de 2013

O (des)acordo, o “Word” e o corrector.

Estou zangado com o meu computador. Quem lhe mandou deixar actualizar o “word” para o (des)acordo ortográfico? Numa altura que até o Brasil já o suspendeu, Angola e Moçambique nunca o adoptaram e nós, teimosamente, continuamos com ele?
Bah! Estou danado. O corrector ortográfico dá um jeitão. A língua portuguesa é difícil e propensa a que se cometam muitos erros na escrita. Trocar alguns gês por jotas, dois esses por cês, o r antes ou depois do e, etc., é muito comum. Claro que há erros de palmatória que procuro não cometer, tais como escrever e dizer póssamos e fáçamos em vez de possamos e façamos, escrever com hífen as segundas pessoas do singular dos pretérito perfeito (ex: deixas-te em vez de deixaste), etc. Este último erro até é muito aborrecido porque o corrector não dá com ele, ambas as palavras existem, só que em tempos diferentes. Eu posso dizer “fazes favor deixas-te disso” ou “ tu deixaste de fazer isso”. O te depois do tracinho é um pronome pessoal/obliquo/ átono, como agora a gramática ensina. No tempo verbal deixaste, o pronome pessoal pode estar antes ou depois, é tu e pode estar subentendido (ex: “tu deixaste a torneira aberta” ou “ deixaste tu, a torneira aberta?” ou simplesmente “deixaste a torneira aberta”.
Muito bem, são erros que o corrector não detecta e passam muitas vezes, ficando o escrevinhador um pouco mal visto, mas agora, o pior, são os avisos do corrector para as palavras escritas da forma anterior ao (des)acordo. Podemos tomar como exemplo as que escrevi anteriormente, corrector e detecta, lá vem o sublinhado a confundir o pobre do escrevente. Mas eu vingo-me! Clico no acrescentar ao dicionário e pronto, lá enganei o “Word”. Para a próxima já não me chateia.
O Vasco de Graça Moura, no CCB, parece que mandou repor o “Word” anterior, com o dicionário na versão antes do (des)acordo. Eu também podia fazê-lo, mas dá muito mais gozo emendar o corrector.
Muitos dos meus amigos também não vão nesse aborto de mau acordo. Já basta os tipos que trabalham no estado e os pobres dos professores. Alguma vez o Reino Unido fez um acordo ortográfico? E os espanhóis? Os americanos que escrevam o inglês como quiserem e os sul-americanos que tratem a língua e ortografia espanhola como lhes apeteça. Os países de onde a língua é originária estão-se nas tintas. Nós, continuamos pobremente, a sujeitarmo-nos às maiorias. Ainda um dia destes verei portugueses a dizerem para a mulher “Senhora, dispa-se que eu quero lhe usar”. Frase muito ouvida na última versão da telenovela Gabriela. Brrrrr!
Entretanto continuo a borrifar-me para o (des)acordo.

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Sobre o que escrever?


Já há muito que nada escrevia para publicar neste "blog". O estado de espírito não tem sido o melhor e a inspiração não aparece. Mas, gosto de escrever e sinto essa necessidade. Penso que escrever é uma forma de comunicação e eu sinto-me um comunicador, mesmo que aquilo que comunique não seja nada de transcendente ou aproveitável. Sou o que se poderá chamar de um conversador, mesmo que sem interlocutor. É isso, gosto de conversar seja naquilo que for. Não é obrigatório conversar sobre temas difíceis ou demasiado intelectualizados. O que importa mesmo é passar momentos óptimos interagindo com os outros. Claro que temos sempre tendência em arrastar as nossas conversas para os temas que mais nos empolgam. É um defeito, mas quem os não tem? O meu então é perigosíssimo, porque adoro uma boa discussão sobre religiões. Sempre me interessei sobremaneira pelo tema. O que levará os homens a necessitarem de uma religião para conseguirem viver consigo próprios? O porquê da necessidade de deuses para complementarem a nossa vida, é para mim um mistério. Vivi até aos dezasseis anos completamente agarrado à religião católica. Sou baptizado, comungado, crismado e casado por essa igreja. Claro que no casamento já me tinha desligado dela, mas a mulher e a família viam nisso uma necessidade e que diferença me fazia a mim? Poderia ter casado por qualquer das igrejas existentes desde que isso fosse da vontade da minha futura mulher. O facto de me ter tornado ateu não criou em mim qualquer animosidade pelos crentes embora não os compreenda. Aliás, não os compreender não é bem. Compreendo que isso os complemente ou que lhes dê alento para conseguirem viver com mais ânimo. Só que não vejo essa necessidade. A vontade própria não chegará? Acreditar em deuses protectores ou redentores é muito difícil para a minha mentalidade. Preciso disso?
Dizem os crentes que deus os ajuda a decidir e traçar rumos para vida que lhes falta viver. Não sinto isso. Com deuses ou sem eles, os factos acontecem e nem sempre nos são favoráveis. Será que, quando o são, foi um deus que os trouxe ao nosso encontro? E quando não são? Foi algum deus que se zangou por não termos vivido segundo os seus preceitos? Mas esses preceitos, os dos deuses, foram estipulados por homens. Será que esses foram iluminados divinamente? Ou souberam aproveitar muito bem os medos humanos e obrigar os homens a seguirem preceitos que lhes serviram para os dominar? É um tema difícil e perigoso. Principalmente perigoso por muitos dos crentes não terem capacidade para aceitarem os que não o são. Muitas vezes um ateu é visto como um anticristo e conotado com o demónio.
Um ateu é aquele, que contrariamente aos crentes, aceita todas as religiões por não acreditar em nenhuma. Todos os outros só aceitam a sua como verdadeira rejeitando todas as outras como não válidas. Se todos pensam assim, logo nenhuma é válida. Tenho montes de amigos crentes e até sei que isso os ajuda a viver. Ainda bem. Sentem-se protegidos. Só que; nos terramotos as igrejas desmoronam-se sobre os crentes e enviam-nos para junto do deus deles, os doidos maléficos desatam aos tiros e enviam também as criancinhas para junto do “criador” e os políticos fazem as guerras e enviam os diversos sacerdotes para os campos de batalha para consolarem os seus apaniguados e ajudá-los a subir para junto dos “divinos chefes” e incutirem aos que não morrem, que a guerra deles é a correcta e, como tal, aceite por deus.
Sempre me interessei por religiões e gosto do tema levando-me a ler muita coisa sobre isso. Acabo por saber mais de algumas religiões do que os próprios seguidores. Mas é um tema polémico e vamos ficar por aqui. Mesmo assim muitos dirão: “Lá está o chato a bater na mesma tecla”. Um amigo até queria que eu desse um curso sobre religiões. Eu? Nem me meto nisso!
Afinal, consegui escrever algo. Ainda bem!

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Dia de Ano Novo

Hoje é dia 1 de Janeiro de 2013. Longe vão os tempos em que acordava na manhã no dia de ano novo e tudo me parecia diferente. Era diferente o ar que respirava, estavam diferentes os amigos, a manhã quase sempre radiosa. Hoje não. Não consigo “ver” assim as coisas. A Terra deu mais uma volta como em todos os outros dias e até a sua órbita não se alterou muito pois o seu ponto de mudança foi no solstício (21 Dez). Diz o povo que “Janeiro fora adianta uma hora” e até é verdade, vamos tendo cada vez mais dia e menos noite, mas eu sinto que a noite, para mim, se está a tornar cada vez maior. Vivi até aqui sempre cheio de esperança e de vontade de realização, agora sinto que a vontade desapareceu e a realização já não é possível. Serão os meus quase 76 anos? Julgo que não. Não me sinto velho nem estou doente, felizmente. A cabeça funciona e os neurónios parecem estar todos arrumadinhos e funcionarem em pleno. Porquê esta sensação de desânimo e impotência?
Chegar até aqui com uma vida mais ou menos estabilizada e razoável, pensar que assim continuaria e verificar que o meu pobre País, em vez de melhorar só piorou, causa-me toda esta tristeza. Como foi isto possível? Onde ficaram os ideais de Abril? Onde ficou a nossa liberdade? O que falhou?
Lembro-me daquela manhã em que todos esperançámos um futuro risonho. Em que todos nos empenhámos nas transformações. Já lá vão quase 39 anos. É uma vida. E que fizeram aqueles a quem livre e democraticamente entregámos o poder? Salvo raras excepções, espoliaram, enriqueceram, criaram leis que os protegem e perpetuam no poder, dão cada vez menos oportunidades democráticas de mudança, enfeudaram-se aos donos do dinheiro no mundo e conduziram o nosso pobre País a esta miséria “salazarenta”.  
Pois. E agora? Como sair disto?
Não lhe encontro solução. Por isso esta manhã de Ano Novo cheira-me a ano velho.
Estou estupidamente à espera da pensão de Janeiro. As notícias são tão más que até ainda não tive coragem de fazer as contas. Mas a minha vida vai ter de mudar. Infelizmente para pior. Será que terei capacidade para aguentar os sacrifícios que se avizinham?
Sei que muitos estarão muito pior do que eu. O desemprego, a diminuição de rendimentos, o aumento de impostos e os aumentos ao consumo, vão atirando com as pessoas para a miséria. Muitos ficaram sem casa por não a poderem pagar, muitos já se alumiam à luz de velas e já nem tomam banho por falta de gás. Muitos vivem na rua. Matam-se filhos por impotência. Os suicídios proliferam. O crime aumenta. E os nossos governantes? Aqueles a quem entregámos o poder? Ter-lhes-á faltado mesa na passagem de ano? Penso que não. E a consciência? Doer-lhes-á? Penso que também não.
Entretanto continua a cheirar-me a ano velho… 2013 vai ser uma tristeza.

sábado, 15 de dezembro de 2012

As crianças, as armas e Deus


Aos 11 anitos dei entrada nos Pupilos do Exército. Aí durante sete anos foram-me incutidas as bases que me permitiram ser o que fui e sou. Logo de início as armas foram-me mostradas, ensinadas e por mim usadas. Tínhamos instrução militar com armas, instrução teórica sobre armamento e prática de tiro com as tão apreciadas deslocações à Serra da Carregueira. Claro que me lembro de em criança já brincar aos “cóbois” com os tão apetecíveis revólveres de barro adquiridos nas feiras da Agualva ou Mercês, depois de muito azucrinar a cabeça ao meu Pai.
Lembro-me dos muitos Pum! Pum! E Pá! Pá! com que brindávamos os nossos “inimigos” quase sempre os que faziam o papel de índios e de bandidos. Eram esses os “maus” que os “western” nos mostravam como não fazendo mal abater. Os “bons” e o “rapaz” nunca morriam.
Nos Pupilos aprendi que as armas, que nos mostravam e ensinavam, serviam apenas para a guerra. Da guerra começámos a ter aquela visão romântica dos “bons” que lutavam contra os “maus” para salvarmos a humanidade de “terríveis” ditadores que se queriam assenhorear do mundo. O inimigo também não fazia mal matar. Esquecíamos que os inimigos também eram homens que também acreditaram nos seus líderes e nos combatiam por motivos idênticos aos nossos. Esquecíamos que o soldado que se abatia com toda a frieza, também tinha Mãe, Pai, mulher ou filhos e que todos os familiares choram os seus mortos.
Por gostar de coisas mecânicas também gostei e gosto de armas e possuo algumas que fui adquirindo ao longo da vida. Fui um bom aluno a armamento e alguns dos meus amigos podem confirmar isso. A maioria estava-se nas tintas para aquilo e nada sabiam, pois não contava para nota. Pratiquei tiro desportivo à bala e a chumbo e ainda hoje caço. Nunca ensinei o meu filho a mexer numa arma, teria tempo para isso se fosse essa a sua vocação. Não só não mexia como sabia que mais ninguém podia mexer e durante anos as armas estiveram expostas em minha casa sem que ele ou algum amigo lhes tivesse tocado. Hoje não só não lhes liga, como abomina qualquer violência, o que me deixa o problema de não saber a quem deixar o arsenal.
Vem todo este arrazoado a propósito do que se passou ontem numa terreola do estado do “Connecticut” nos USA. Porque acontecem coisas destas? O que levará um jovem de 20 anos a massacrar daquele modo Mãe, professores e crianças?
Agora chora-se e todos pensam resolver a situação modificando a lei das armas nos “States”. É certo que há armas a mais e que a sua proximidade e profusão poderá facilitar estes acontecimentos, mas qualquer alteração ou proibição não resolverá nada. O que seria preciso era mudar as mentalidades.
Os USA foram criados à lei da bala. Muitos outros países também, mas não esqueçamos que nos fins do século XIX e princípios do XX, nos USA, ainda se resolviam diferendos e se defendiam honras a tiro, principalmente nas terras do Oeste. O uso da arma sempre foi, para os americanos, a prova de que “tenho uma arma tenho a razão”. Só que os marginais e os doidos também pensam assim. Podem retirar e legislar montes de arrazoados sobre armas mas estas situações irão continuar. Veja-se o que acontece cá com a nova lei das armas, os “bons” não as conseguem mas os “maus” compram-nas por todo o lado. Para o exercício da caça qualquer um consegue uma arma, depois de pagar montes de licenças e exames ao estado. Esquecem-se que as caçadeiras também matam pessoas.
A humanidade é má. Está nos nossos genes. Criámos deuses protectores da nossa vida e também que nos aconcheguem para além da morte, mas esses deuses são só nossos. Para os outros, eles que tratem de lhes pedir protecção e se não a conseguirem que se lixem. Esquecemo-nos de criar deuses que, não só nos protejam, mas que façam com que os mortais sejam bons e não se matem uns aos outros. Para o “índio”, para o “bandido” para o “inimigo” não haverá deuses que os salvem, mas poderíamos ter ”criado” um deus que nos fizesse ter amor e carinho pelos que consideramos diferentes.
Com esta mentalidade continuarão os massacres de inocentes, e mais nos USA do que noutros países onde também os há mas em menor escala.
Mais uma vez “Deus” não esteve lá. E não me venham com a cantilena de que se assim aconteceu foi porque ele quis. Poderia ter encontrado outra forma, menos violenta e traumatizante, para os “chamar” à sua presença.
Os massacres de inocentes continuarão, por mais lágrimas que o Obama verta.

segunda-feira, 10 de dezembro de 2012

Deprimido/Depressivo


Hoje estou deprimido. Deprimido mas não depressivo. Depressão é doença. Deprimido é estado de espírito. Aliás, estado de espírito é lugar-comum. Não há estados de espírito. Não pode haver estados daquilo que não existe. Espírito e alma é linguagem poética ou religiosa. Há formas de como o nosso cérebro reage a factos externos ou internos. Fica-se deprimido quando nos morre alguém de quem gostamos, quando alguém nos magoa ou outros factos da vida nos agridem. O cérebro reage e altera-nos os sentimentos. As situações deprimentes passam com o tempo, com alteração da situação que lhe deu origem, com um pedido de desculpas. As situações de depressão têm de ser tratadas com medicamentos.
Claro que com um espírito forte (vontade) consegue-se sair duma situação de depressão sem medicamentos, mas normalmente necessita-se de ajuda. Para isso existem os psicólogos e psiquiatras. Os primeiros tratam sem medicação, pela palavra, pela ajuda psíquica. Os segundos usam os chamados coletes químicos que substituíram os antigos coletes-de-forças, ambos manietam os pacientes, os químicos menos violentamente.
Não preciso de coletes. O meu estado de deprimido vai passar. Passará com o tempo, com a força de vontade. Mas os estados deprimentes deixam marcas. Tornamo-nos mais duros, mais renitentes, mais calejados.
É no estado de deprimido que tenho mais vontade de deixar no papel as minhas ideias, isto é, “o meu estado de alma” leva-me a isso. O meu cérebro congemina formas de passar ao papel não só o que me atormenta, como contar histórias ou descrever situações vividas e marcantes. Outras vezes acontece-me não contar ou descrever nada mas pura e simplesmente escrever sobre o estado em que me encontro. As situações que vivemos no dia-a-dia muitas vezes agridem-nos de tal modo que nos torna deprimidos. Continuo a referir deprimidos e não depressivos. Muito haveria a dizer sobre isto mas infelizmente não sou um Saramago.
Poderá muitas vezes confundir-se a reacção a certos factos que deprimem, com as idiossincrasias de cada um, mas não é a mesma coisa. As idiossincrasias de um indivíduo ou de um colectivo (povo, estado, nação) são formas de reacção a factos exteriores. As idiossincrasias são normalmente constantes e permanentes ou pouco mudam e quando mudam levam tempo chegando a levar gerações. Os estados deprimentes podem mudar com facilidade. A nossa reacção a um facto, pode ter hoje uma forma, amanhã outra. A propósito, gosto da palavra idiossincrasia. Faz-me recordar um livro de que gostei sobremaneira. “O Que Diz Molero” do Diniz Machado. A personagem principal, “o rapaz”, como Diniz Machado lhe chamou, tinha especial atracção por essa palavra. Eu também. Acho-a excelente. A sua sonoridade transmite-me realmente aquilo que exprime.
Vou, portanto, “matar” o que me deprime e deixar que as minhas idiossincrasias voltem a tomar conta da situação.
Obrigado por terem chegado até aqui. Estou um “chato” do caraças…