domingo, 24 de janeiro de 2016

Direita! Esquerda volver!


Confesso que ainda não percebi bem o que se passa em Portugal em termos de Direita e Esquerda. Penso que os portugueses ainda não se livraram do Salazarismo nem do comunismo.
Mesmo aqueles que nasceram depois do 25 A, ou que eram muito pequenos, ouvem dos pais que naquele tempo é que era bom porque havia ordem e respeito. Ora, ordem e respeito é aquilo que há nos cemitérios. Outros misturam socialismo com comunismo e este é igual a: União Soviética, Lenine, Trotsky, Stalin e gulags.
Comunistas? Brrrrr; Ai que me tiram tudo; Ai que comem criancinhas ao pequeno-almoço; Ai que mandam os dissidentes para a Sibéria; Ai que nos obrigam a andar todos de ganga ordinária; Ai Jesus que nos acuda de tal desgraça…
Estes, que assim pensam, esquecem que estamos no século XXI e em democracia.
O pior de tudo isto é que vejo tipos que se intitulam de direita e esquecem a sua ascendência humilde que lutou arduamente para lhes dar uma educação que os guindou aos lugares que hoje ocupam, muitos deles até, correndo riscos de serem apanhados e torturados pela polícia política pela ânsia que tiveram de liberdade. Passei a minha juventude nos Pupilos do Exército, onde o meu Pai me meteu para que eu tivesse a melhor educação possível e não andasse cá por fora a fazer asneiras para as quais era um pouco propenso. Lembro-me muito bem que os maiores maldizentes da alimentação que nos era servida serem, na sua maioria, os que em casa só comiam sopa e batatas cozidas por não haver dinheiro para mais. Sempre comi o que me deram e diga-se que até com bastante apetite e na minha casa nunca se comeu mal. O meu Pai era civil e ganhava bastante bem para na época poder pagar os 500$00 da mensalidade e os 6000$00 de enxoval. Isto em 1948.
Hoje, coronel reformado vejo-me aflito para viver com uma pensão que não leva aumentos desde as calendas gregas e ainda foi sujeita a cortes e impostos elevadíssimos. Mas tenho a consciência que até sou um privilegiado ao pé daqueles que ganham ordenados e reformas miseráveis.
A rapaziada acha muito bem que se viva com 500 €, mas vivem com mais de 5000 € e ainda querem muito mais. Isto para não falar das grandes fortunas que por aí grassam. Por isso são de direita. Por isso defendem salários baixos, precariedade de emprego, possibilidade de despedimentos ao critério do patrão, privatização de todas as empresas estatais, tudo privado, nada no estado. São racistas e xenófobos porque raças diferentes têm costumes diferentes e estragam-lhes o conjunto. Africanos devem voltar para a África, estrangeiros para a terra deles e ciganos são para matar à nascença. Lutam contra o direito ao aborto, mas as suas mulheres fazem-nos em boas clínicas. As outras que tenham filhos, mesmo que não tenham dinheiro para os sustentar nem possibilidades para os criarem condignamente. Por isso são contra os que são de esquerda porque esses são pobres, mal vestidos e mal cheirosos.
Mas esquecem que ser de esquerda é ter sensibilidade, é ter consciência de ver que é necessário apoiar o povo, dando-lhe educação, trabalho, pão, habitação, cultura, paz, harmonia, justiça e saúde. Que todos têm direitos que não devem ser usurpados, que é preciso receber condignamente os que nos procuram dando-lhes apoio mas também castigo se não viverem segundo padrões da legalidade. Mas ser de esquerda também é limitar a ganância e fazer com que aqueles que conseguem grandes fortunas, muitas vezes sabe-se lá como, sejam obrigados a contribuir para o estado com impostos elevados e, isso sim é social-democracia.

Portanto, não tenham medo da esquerda porque essa não vos vai tirar os BMW para ficarem com eles e darem-vos os Fiat 500. A esquerda só é feia porque a maioria é pobre, mas não é pobre de espírito. Lavem-lhes a cara, eduquem-nos e vistam-lhes “smokings”. Vão ver que também conseguem ficar bonitos.

quinta-feira, 31 de dezembro de 2015

Fim de Ano


E lá chegamos nós ao fim de um ano e começo de outro. Mas anda aqui uma grande confusão entre a astronomia e o calendário gregoriano. Este último acaba a 31 de Dezembro mas o reinício do movimento de translação da terra não é no dia seguinte. Aliás, esse reinício, muda de ano para ano. E aí temos os Periélios e Afélios. Em 2016 a translação reinicia-se a 4 de Janeiro. Seria neste dia que teríamos de comemorar o novo ano. Por imperativos de calendário que o Gregório instituiu, vamos comemora-lo hoje às 24H. Espero que não acabemos todos a chamar pelo Gregório que é o que normalmente acontece nestas festividades. Dedicamos demasiado tempo a comemorar Baco e depois os vapores alcoólicos tomam conta de nós. Se tal acontecer deixem os carros estacionados junto dos antros de perdição e tomem um táxi. Cuidado porque o taxista pode também ter dado vivas a Baco e lá sai bacorada. Ainda em termos de calendário, sou mais de opinião que os anos se deviam medir entre solstícios de Inverno. Tudo ficaria mais certinho, mas quem sou eu para me meter nestes assuntos. Espero que os astrónomos não me dêem muito na cabeça. Mas isto, no fim, não interessa nada. Tudo isto não passa de convenções que nós, animais pensantes, estabelecemos para nos convencermos de que as coisas mudam quando nada muda. É mais uma rotação da terra e mais uma translação. O tempo passa inexoravelmente e nós continuamos à espera que os fantasmas em que acreditamos nos auxiliem a viver melhor. Devíamos era ser mais solidários e olharmos para o planeta com olhos de ver para tentarmos melhorar a vida dos que nada têm e nada conseguem ter porque os abutres tudo lhes comem e nada lhes dão. Olhem também para a forma como vivem e deixem-se de superficialidades não consumindo excessivamente nem deitando fora o que ainda está bom para comprarem o mais bonito ou o que está na moda e, se o fizerem, peguem no que já não querem e distribuam pelos que pouco têm ou nada conseguem. Lembrem-se que, para uns viverem com 5, 10, 15 ou mais milhares de euros por mês, outros têm que dar de comer à família com ordenados mínimos. O mundo humano foi mal concebido. O tal grande arquitetcto, o dos maçons, construiu tudo mal, ou deixou que o contrapoder (demo) tomasse conta da situação. Seria bom que a mente humana nada pensasse, pois assim deus não existia e já não haveria a quem deitar culpas. Mas o homem é supersticioso e tentou sempre atirar as culpas para seres superiores inexistentes que nada fazem porque de nada são capazes. Quem não existe nada faz, ou então existe mas é mau obreiro porque o produzido não tem cura.

Deixemo-nos de filosofias baratas e partam para o “réveillon”. Comam e bebam à tripa-forra e durmam como os anjos, que é como quem diz, durmam sem culpas, o que me parece difícil.

quinta-feira, 17 de dezembro de 2015

Incongruências evangélicas


Muito se fala do nascimento de Jesus, da gruta, do burrico e da vaca, dos “reis” ditos magos (?), da estrela anunciadora, etc.
Ninguém fala do massacre dos inocentes. Segundo os evangelhos, o Herodes (o Grande), chateado por lhe terem ido dizer que nascera o rei dos judeus, quando o rei era ele, portanto, se nascera outro só poderia ser um usurpador e, como tal, teria de ser suprimido. Assim mandou assassinar todos os bebés nascidos nos últimos dias. Falava-se em cerca de trezentos mas depois devem ter caído em si pois naturalmente nem trezentas mulheres em idade de conceber haveria na Galileia. Agora já se diz que foram cerca de dezassete e até já li que teriam sido catorze. Fossem 300 ou 14, aquilo não se faz pois foi uma grande maldade. Penso que Deus (pai) devido à sua condição de omnipotente e omnisciente, nunca o permitiria. Então para salvar um (o seu divino filho) matavam-se outros? Claro que no tempo em que se escreveram os evangelhos (cerca de setenta ou noventa anos DC) matar era ainda mais comum do que hoje e praticava-se a torto e a direito para preservar interesses. Esqueceram-se de que, mais tarde, os exegetas estudariam todos esses assuntos e que poriam em causa muito do que se escreveu. Houve exegetas tendenciosos, que tudo endeusaram, mas também houve muitos que chegaram à conclusão da não veracidade evangélica.
Naquele tempo (governava o tetrarca Herodes Antipas, filho de Herodes o Grande), andava por ali um orador, um tal João a quem mais tarde chamaram o Baptista. Era um profeta revolucionário que falava ao povo pondo em causa a governação do território. Segundo Flávio Josefo, historiador judeu da época, Herodes foi alertado para os discursos subversivos do João e, para evitar males maiores, mandou prendê-lo, tendo o pobre sido encerrado na fortaleza de Maqueronte na província de Pereia onde mais tarde foi executado, não referindo que ficou com ou sem cabeça.
Segundo o evangelho de Marcos, o tetrarca (governador de uma quarta parte de determinado território) Herodes deu uma festa de aniversário na Galileia, provavelmente na capital Tiberíades, onde a sua mulher Herodíade, (ex-mulher do seu meio-irmão também chamado Herodes) em conluio com a sua filha Salomé, depois de esta ter executado uma célebre dança dos sete véus, pediu a seu pai a cabeça de João Baptista numa bandeja. O papá mandou decapitar o pobre João e lá vem a cabeça na bandeja para gáudio das mulheres e dos convivas. Ora ou Mateus ou Flávio Josefo estão a mentir. Não acredito que a ser verdade o que Josefo escreve, e esse era historiador, tenham ido a cerca de 180 Km buscar a cabeça e trazê-la a tempo de ser apresentada ainda na festa onde os convivas, chateados, já se teriam pirado ou se encontravam a dormir curando-se das bebedeiras que certamente apanharam. A Herodíade não gostava de João por ele considerar ilegal o seu casamento e a Salomé que se apaixonou pelo dito parece que foi repudiada pelo rapaz. Houve, portanto um conluio antecipado entre mãe e filha para tratarem da saúde ao pobre João.

Marcos refere que João estava preso por andar a recriminar o rei Herodes pelo seu casamento com a mulher do irmão, o que seria contra as normas judaicas em vigor, o que não é referido por Josefo. Aqui há também uma incongruência, uma vez que Marcos chama rei a Herodes Antipas quando ele era apenas tetrarca. Pois é! Mais uma vez parece provar-se que os ditos evangelhos não passam de mitos baseados em lendas. Até aquilo que aparece nos escritos de Flávio Josefo sobre Jesus Cristo (cerca de três ou quatro parágrafos) não resistiu a estudos e provas grafo-técnicas tendo-se provado a adulteração dos textos. Daqui se infere que Jesus continua a não ter veracidade histórica e que a igreja se tem esforçado a criar eventos e até adulterações para construir a historicidade de Jesus. Mas há mais…
Esta história do banquete parece ter sido inspirada num episódio do Antigo Testamento no livro de Ester, que fui respigar na Internet:
Conta-se que um rei, casado com uma bonita mulher, para suscitar a inveja dos seus nobres, organiza um banquete e faz vir a rainha à sua presença para a mostrar, de modo a que todos a admirassem. Durante esse banquete o rei pergunta à rainha: “Faz um pedido bela Ester que ele te será concedido, mesmo que desejes metade do meu reino”. Tudo se passa como na versão de Marcos, só que a rainha, em vez de pedir cabeças degoladas, pediu a libertação do povo judeu.

Mais uma vez se verificam cópias quase integrais de factos de uma religião para as outras. É por estas e outras que não tenho nenhuma e dou-me muito bem com isso.
Tentei também saber qual o sobrenome do dito João, mas não cheguei lá. Baptista foi o apelido que lhe foi atribuído pelo hábito que tinha em mergulhar as gentes no rio. O pai era Zacarias e a mãe Isabel, mas não encontrei nome de família. Baptismo deriva do grego e mais tarde também adoptado pelos romanos, mas tinha vários significados, entre eles lavar, mergulhar, purificar, etc. O hábito tornou-se comum como cerimónia iniciática de várias religiões (purificação) e depois adoptado também pelos cristãos devido ao episódio do Baptismo de Jesus narrado em três dos evangelhos (Mateus, Lucas e Marcos).


Enfim, incongruências.

segunda-feira, 14 de dezembro de 2015

Pensamentos

Encontrei estes pensamentos de vários homens sábios. Julgo que foram coligidos por Luís Grave Rodrigues que é o autor do último. Como têm muito a ver com tudo aquilo que penso, aqui ficam:


«Acreditar em Deus é desprezar todos os mistérios do mundo e todos os desafios à nossa inteligência. Simplesmente desliga-se a mente e diz-se: foi Deus que o fez».
Carl Sagan

«A fé é a grande escapatória, a grande desculpa para se fugir à necessidade de pensar e avaliar as evidências. A fé é acreditar? Apesar de? E até talvez precisamente? Por causa? Da falta de provas».-
Richard Dawkins

«Com ou sem religião teremos sempre boas pessoas a fazer coisas boas e más pessoas a fazer coisas más. Mas para termos boas pessoas a fazer coisas más, para isso é preciso uma religião».
Steven Weinberg

«Eu sou contra a religião porque ela nos ensina a contentarmo-nos com a nossa incompreensão do mundo»
Richard Dawkins

«Eu não tento imaginar um Deus pessoal; para mim é suficiente contemplar em admiração a estrutura do mundo na medida em que os nossos inadequados sentidos nos permitirem apreciá-lo».
 Albert Einstein

«A ideia de Deus sempre me foi completamente estranha e parece-me até muito ingénua»
Albert Einstein

«Talvez haja fadas no fundo do jardim. Não há provas disso, mas como também não podemos provar que não as há, deveremos então ser agnósticos no que respeita a fadas?».
 Richard Dawkins

«Se por Deus se entender um conjunto de leis da física que regem o Universo, então esse Deus claramente existe. Mas esse Deus é emocionalmente insatisfatório... não faz muito sentido rezar à lei da gravidade»
Carl Sagan

«Penso que na discussão dos problemas da natureza deveríamos começar não pelas escrituras, mas antes pelas experiências e demonstrações».- Galileo Galilei

«Penso que nenhuma forma de religião deveria ser ensinada nas escolas públicas»
 Thomas Edison

«A maior parte das pessoas pensa que é preciso Deus para explicar a existência do mundo e especialmente a existência da vida. Estão erradas, embora a educação que recebem não lhes permita aperceberem-se disso».
Richard Dawkins

«Eu não acredito na imortalidade do homem; e considero que a ética é um conceito exclusivamente humano e não diz respeito nem depende de qualquer autoridade sobrenatural».
 Albert Einstein

«Se as pessoas são boas porque temem uma punição ou porque esperam uma recompensa, então somos todos, de facto, uma espécie lamentável».
Albert Einstein

«Sempre que a moralidade se basear na teologia, sempre que a razão estiver dependente de uma autoridade divina, as coisas mais imorais, injustas e infames podem ser estabelecidas e justificadas»
Ludwig Feuerbach

«Quando as pessoas não aprendem os instrumentos para julgarem por si próprias e seguem unicamente as suas esperanças, então estão semeadas as sementes para a sua manipulação política»
 Stephen Jay Gould

«Se foi algum espírito que criou o Universo, então foi um espírito muito malévolo».
Quentin Smith

«Qualquer das grandes religiões da actualidade é, no sentido Darwiniano, uma vencedora da sua luta entre as culturas; de facto, nenhuma delas floresceu por tolerar as suas rivais».
Edward O. Wilson.

«Podemos citar centenas de referências que demonstram que o Deus bíblico é um tirano sanguinário; mas basta alguém encontrar duas ou três passagens que digam que Deus é amor, para nos acusarem de fazer citações fora do contexto».
Dan Barker

«Pensar que Deus vai acorrer em auxílio de alguém e vai violar as leis da natureza para o ajudar, é o cúmulo da arrogância»
Dan Barker

«Acredito que muitas pessoas se afastam daquilo que está estabelecido como religião simplesmente pelas suas implicações morais e intelectuais»
John Dewey

«É às religiões que se deve esta inédita disparidade entre o homem e a mulher»
 Taslima Nasrin

«Toda a concepção de Deus é derivada dos antigos despotismos orientais. É uma concepção inteiramente indigna de homens livres. Quando vemos na igreja pessoas a menosprezarem-se a si próprias e a dizerem que são miseráveis pecadores e tudo o mais, isso parece-me desprezível e indigno de criaturas humanas que se respeitem».
Bertrand Russell
«A ideia de Deus é um conceito antropológico que eu não consigo levar a sério»
Albert Einstein

«Eu não preciso do conceito de Deus para explicar o mundo em que vivo» Salman Rushdie

«Vocês acreditam num livro que fala de feiticeiros, bruxas, demónios, paus que se transformam em cobras, animais que falam, comida que cai do céu, pessoas que caminham sobre a água e toda a espécie de histórias mágicas absurdas e primitivas e depois vêm dizer que nós é que precisamos de ajuda?»
Dan Barker

«O que eu fiz foi demonstrar que é possível determinar pelas leis da ciência o modo como o Universo começou. Neste caso, não é necessário apelar a Deus para explicar como começou o Universo. Se isto não prova que Deus não existe, pelo menos prova que Deus não é preciso para nada»
Stephen Hawking

«Uma assunção generalizada, e que a maior parte das pessoas da nossa sociedade aceitam, é que a fé religiosa é especialmente vulnerável à ofensa e deve ser protegida por uma parede de respeito incrivelmente espessa; um respeito tal, que é até diferente daquele que as pessoas devem umas às outras».
Richard Dawkins

«Acusam-me repetidamente de blasfémia. Mas o que é facto é que eu não posso ser condenado por um crime contra uma vítima inexistente».
Dan Barker

«O ridículo é a única arma que pode ser usada contra proposições ininteligíveis»
Thomas Jefferson

«Deus não passa de uma infame chantagem de medo, de um amesquinhamento ignóbil e indigno de quem tem um mínimo de respeito por si próprio, não é mais do que uma desculpa cobarde de quem não tem a coragem e a dignidade suficientes para olhar a morte de frente e para, antes, aproveitar e desfrutar em liberdade cada um dos momentos que a vida nos proporciona».
LGR


quinta-feira, 10 de dezembro de 2015

Erro na publicação dos ensaios de Ingersoll

As minhas desculpas mas uma das partes dos ensaios do Ingersoll ficou como rascunho e  não publicada. Penso ainda ir a tempo. Assim foi hoje publicada a Parte VII em falta. 

ENSAIOS DE ROBERT G. INGERSOLL OS DEUSES (1872) - Parte VII

(continuação)

Sem duvidar, os religiosos insistem que nada pode existir sem uma causa; excepto a causa, e que esta causa sem causa é Deus. Para isto nós novamente respondemos: Toda causa tem de produzir um efeito, porquanto até que produza o efeito, não é uma causa. Todo efeito tem, por seu turno, tornar-se uma causa. Portanto, na natureza das coisas, não poderá haver uma última causa, pela razão de que a chamada última causa necessariamente produziria um efeito, e este efeito necessariamente se tornaria uma causa. o contrário destas proposições tem de ser verdadeiro. Todo efeito tem de ter tido uma causa, e toda causa tem de ter um efeito. Portanto, não poderá existir uma primeira causa. Uma primeira causa é tão impossível quanto um último efeito.
Além do Universo não há nada e dentro do Universo o sobrenatural não existe nem pode existir. No momento em que estas grandes verdades forem entendidas e admitidas, a crença numa providência geral o especial tornar-se-á impossível. A partir desse instante o homem cessará os seus esforços vãos para agradar a um ser imaginário, e gastará o seu tempo e atenção para os afazeres deste mundo. Ele abandonará qualquer esforço de conseguir qualquer objectivo pela oração e súplica. O elemento de incerteza será, em grande parte removido do domínio do futuro e o homem, ganhando coragem a partir de sucessivas vitórias sobre as obstruções da natureza, atingirá uma serenidade totalmente desconhecida aos discípulos de qualquer superstição. Os planos da humanidade não sofrerão mais a interferência de uma suposta omnipotência, e ninguém acreditará mais que nações ou indivíduos são protegidos ou destruídos por qualquer divindade. Ciência, protegida das algemas de fregueses devotos ou evangélicos preconceituosos, será, dentro da sua esfera, suprema. A mente investigará sem reverência e publicará as suas conclusões sem medo. Agassiz não hesitará em declarar o mosaico da Cosmogonia totalmente inconsistente com as verdades demonstradas da geologia e cessará de fingir qualquer consideração pelas Escrituras Judaicas. No momento em que a ciência for bem-sucedida em negar à Igreja força à maldade, os verdadeiros pensadores triunfarão. As pequenas bandeiras da trégua, carregadas por tímidos filósofos desaparecerão, e a discussão covarde dará lugar à vitória duradoura e universal. Se admitirmos que um ser infinito controla o destino de pessoas e povos, a história se tornará uma farsa sangrenta e cruel. Eras após eras, os fortes triunfaram sobre os fracos; os poderosos e sem coração atacaram e escravizaram os simples e inocentes, e em nenhum lugar dos anais da Humanidade, se tem notícia de qualquer deus que tenha apoiado os inocentes e oprimidos. O homem cessará de esperar apoio dos céus. A partir daí ele compreenderá que os céus não possuem ouvidos para ouvir, ou mãos para ajudar. O presente é a criança necessária de todo o passado. Não há qualquer chance e não haverá qualquer interferência. Se abusos são destruídos, o homem deverá destruí-los. Se escravos são libertados, o homem deverá libertá-los. Se novas verdades são descobertas, o homem deverá descobri-las; Se os nus são vestidos; se os famintos são alimentados; se a justiça é feita; se o trabalho é remunerado; se a superstição é expulsa da mente; se os indefesos são protegidos e se o correcto finalmente triunfa, tudo terá sido obra do homem. As grandes vitórias do futuro serão vitória dos homens, e somente deles. A natureza, até onde sabemos, sem paixão e sem intenção, forma, transforma, retransforma para sempre. Ela nunca chora nem se alegra. Ela produz o homem sem propósito, e o obstrui sem arrependimento. Ela não conhece distinção entre o benéfico e o pernicioso. Veneno e nutriente, dor e alegria, vida e morte, sorrisos e lágrimas são a mesma coisa para ela. Ela não é nem piedosa nem cruel. Ela não pode moldar-se por oração nem ser amolecida por lágrimas. Ela não conhece sequer a finalidade da reza. Ela não diferencia o veneno das presas da serpente da misericórdia do coração do homem. Só através do homem a natureza toma conhecimento do bem, da verdade, da beleza; e até onde sabemos, o homem é a maior inteligência. E no entanto o homem continua a acreditar que há uma força independente e superior à natureza, e ainda procura, pela cerimónia, súplica, hipocrisia e sacrifício, obter ajuda dela. As suas melhores energias têm sido desperdiçadas em benefício desse fantasma. Os horrores da bruxaria se originaram de uma crença ignorante na existência de um ser depravado superior à natureza agindo independentemente das suas leis. E todas as religiões supersticiosas têm na sua base a crença em dois seres, um bom e outro mau, cada qual de sua maneira possuindo poderes para mudar a ordem da natureza. A história das religiões é simplesmente a história dos esforços humanos de todas as épocas para evitar uma dessas forças e pacificar a outra. Ambas as forças têm inspirado menos que o medo abjecto. A esperteza fria e calculista do diabo, e a ira de Deus, são igualmente terríveis. Em qualquer situação, o destino do homem teria sido fixado para sempre por uma força desconhecida superior a todas as leis e a todos os factos. Até que esta crença seja afastada, o homem deve considerar-se um escravo de mestres fantasmas  nenhum dos dois promete liberdade nem nesta vida nem numa outra. O homem precisa aprender a confiar em si próprio. Ler a Bíblia não o defenderá dos rigores do Inverno, mas sim casas aquecidas, lareiras e roupas adequadas. Para evitar a fome um arado vale mais que mil sermões e os medicamentos curam muito mais doentes que todas as orações já proferidas desde o princípio do mundo. Apesar de muitos homens terem tentado harmonizar a necessidade de livre arbítrio, a existência do mal, a infinita força e bondade de Deus, eles têm conseguido apenas produzir e aprender as falhas evidentes. Imensos esforços têm sido lançados em reconciliar ideias totalmente inconsistentes com os factos dos quais nós estamos cercados, e as falhas das pessoas que têm fracassado em perceber a suposta reconciliação têm sido acusados de infiéis, ateus e zombadores. Toda a força da Igreja tem sido lançada para atingir filósofos e cientistas para impeli-los a negar a autoridade da demonstração, e a induzir algum Judas a trair a razão, um dos salvadores da Humanidade. Durante aquela assustadora época chamada de "Era das Trevas", a fé reinava com quase nenhuma acção de rebeldia. Os seus templos eram atapetados com joelhos e a riqueza das nações adornavam os seus incontáveis santuários. Os grandes génios imortais prostituíram-se para imortalizar os seus caprichos, enquanto os poetas a santificavam em canção. Com as suas ofertas, cobriram a terra com sangue, as escalas da justiça se modificavam com o seu ouro, e para o seu uso foram inventados os mais ardilosos instrumentos de tortura. Ela construiu catedrais para Deus. E masmorras para os homens. Ela povoou as nuvens com anjos e a terra com escravos. Por séculos o mundo tem retraçado os seus passos  indo directamente de volta à noite de barbárie! Uns poucos infiéis  uns poucos hereges gritaram: "Pare!" Para a grande turba de devoção ignorante, e tornaram possível para os génios do século dezanove revolucionar as crenças cruéis e supersticiosas da Humanidade.
As ideias do homem, com objectivo de ter real valor, devem ser livres. Sob influência do medo, o cérebro fica paralisado, e em vez de resolver corajosamente um problema sozinho, trémulo, adopta as soluções de outro. Desde que a maioria dos homens se curvam sobre o chão diante de qualquer príncipe ou rei, o que deverá ser sua infinita insignificância de suas pequenas almas diante de seu suposto criador ou Deus? Sob tais circunstâncias que valor terão as suas ideias? A originalidade da repetição, e o vigor mental da aquiescência é tudo o que temos direito de esperar do mundo cristão. Desde que todas as perguntas possam ser respondidas pela palavra "Deus", pesquisa científica é simplesmente impossível. Tão logo os fenómenos são satisfatoriamente explicados, o domínio da força suposta de ser superior à natureza decresce, enquanto o horizonte do conhecimento deve continuamente alargar-se. Não é mais possível descrever a queda e ascensão de nações dizendo: "É o desejo de Deus". Esta explicação coloca ignorância e educação em situação de igualdade, e elimina na verdade a ideia de realmente explicar qualquer coisa que seja. Irá o religioso fingir que a finalidade real da ciência á assegurar como e por que Deus age? A ciência, sob este ponto de vista, consistiria em investigar a lei da acção arbitrária, e uma grande busca para assegurar as leis necessariamente obedecidas por um infinito capricho. Sob um ponto de vista filosófico, ciência é o conhecimento das leis da vida; das condições de felicidade; dos factos que nos cercam, e as relações que mantemos entre homens e coisas; o homem pode por assim dizer, dominar a natureza e dobrar as forças elementares para o seu benefício, tornando forças cegas ao serviço da sua mente. A crença numa providência especial deita fora o espírito de investigação e é inconsistente com o esforço pessoal. Por que o homem enfrentaria os desígnios de Deus? Qual de vocês, ao pensar, poderia adicionar um pouco que fosse a sua estatura? Sob a influência desta crença, o homem, aquecendo-se sob o sol da ilusão, olha os lírios do campo e se recusa a ter qualquer pensamento sobre o amanhã. Acreditando-se sob influência de uma força infinita que pode, a qualquer momento, atirá-lo até as profundezas do inferno ou elevá-lo às alturas dos céus, ele abandona, necessariamente, a ideia de realizar algo que seja por seu próprio esforço. Quando esta crença era geral, o mundo era preenchido com ignorância, superstição e miséria. As energias do homem eram gastas em esforço vão para obter a ajuda desta força, suposta de ser superior à natureza. Por muito tempo até seres humanos eram sacrificados nos altares deste deus impossível. Para agradá-lo, mães derramavam o sangue dos seus próprios bebés; mártires cantavam canções triunfantes no meio das chamas; padres molhavam-se de sangue; freiras renunciavam ao êxtase do amor; velhos homens trémulos imploravam; mulheres soluçavam e suplicavam; todas as dores eram suportadas e todo o horror era perpetrado. Por todos os longos anos que já passaram, a humanidade sofreu mais do que podemos conceber. O maior do sofrimento foi experimentado pelo fraco, o amoroso e o inocente. Mulheres foram tratadas como bestas venenosas, e criancinhas esmagadas como se fossem vermes. Milhares de altares foram tingidos com o sangue até de bebés; belas donzelas eram oferecidas a serpentes pegajosas; povos inteiros condenados a séculos de escravidão, e em toda a parte havia ultraje além da força do génio para exprimir. Durante todos esses anos os sofredores suplicavam; os lábios secos da fome rezavam; as vítimas pálidas imploravam, e os céus permaneceram cegos e surdos.

(continua)

domingo, 6 de dezembro de 2015

Sobre os ensaios de Ingersoll.



Acabei de publicar neste blog os ensaios de Ingersoll sobre os deuses. Não me move qualquer animosidade contra os crentes, antes pelo contrário. Como ateu aceito e respeito todas as crenças, mas acho-me no direito de mostrar aquilo que penso. Ingersoll, líder político, livre-pensador e excelente orador norte-americano, já no século 19 dissertava sobre estes assuntos e com um poder de argumentação que eu, com muita pena minha, não possuo. Com tudo isto apenas quero demonstrar que o homem não necessita de ser religioso, nem crente, para viver dentro dos parâmetros do bem e da ordem. Na minha opinião o homem crente não é livre, estando sempre dependente do julgamento de um deus e como tal limitado, com medo de infringir as leis divinas. Podem dizer-me que também estamos sujeitos às leis dos homens. Pois estamos, mas nessas, através da democracia, podemos interferir. Votamos naqueles que julgamos serem os melhores para governarem e, se uma lei for considerada má ou injusta, há formas de lutar para que seja modificada ou revogada desde que se queira e tenha vontade disso. As leis de deus, que até foram pensadas e escritas por homens, são consideradas irrevogáveis e aí, quem delas se desviar, sofre o castigo dos infernos, da excomunhão, da luta com a sua própria consciência e o medo da punição. Isso não é liberdade, é estar sujeito a uma entidade na qual acreditam que vela por nós e rege os nossos procedimentos. Por causa dessas crenças é que surgem os fundamentalismos e muito mal se faz aos outros por se pensar que é deus quem assim manda. Felizmente que, na actualidade, o deus dos cristãos é o mais moderado, mas o dos judeus e o dos muçulmanos continuam demasiado fundamentalistas e é o que se vê por esse mundo fora. A animosidade entre crentes dos diversos deuses é tremenda, sendo as religiões do livro as piores nesse aspecto. Hindus, taoistas, budistas, baai, e outras, não se hostilizam salvo muito raras excepções. Perdoem-me pois a ousadia e mais uma vez o meu obrigado pela vossa paciência.