segunda-feira, 3 de maio de 2021

 

Nomadland (Sobreviver na América)

Depois de tanto recolhimento obrigatório, lá consegui ir ao cinema.

O filme é realizado por uma chinesa de 39 anos, já com algumas realizações na América, baseado num livro de várias estórias de Jessica Bruder, mas esta imaginada e trabalhada pela própria realizadora e produzida por ela e pela actriz principal Frances MacDormand, que já nos tinha dado magníficas interpretações como no excelente filme 3 Cartazes à Beira da Estrada.

Numa cidade do Nevada completamente baseada numa importante empresa, que se desmorona e cessa a actividade, uma trabalhadora Fern (Frances MacDormand) apanhada de surpresa como tantas outras, fica desempregada e opta pela reforma antecipada. Depois da morte, por cancro, do seu companheiro, não conseguindo continuar a viver ali, deixa a sua casa desfazendo-se de quase todos os seus haveres e, ficando apenas com uma velha carrinha que transforma numa pequena autocaravana, deita-se à estrada e passa viver como nómada parando nos diversos parques de caravanas, onde outros nómadas como ela, vivem em pequenas comunidades com os seus líderes, uns de carácter religioso, outros mais filosóficos como condutores de gente sem rumo. Nos entrementes vai empregando-se na gigante Amazon de comércio electrónico.

Quem for à espera de um filme altamente dramático com grandes e histriónicas cenas, sai de lá altamente frustrado pois, apesar de um drama, tudo se passa num ambiente sereno e calmo em que a arte dramática da actriz se revela nas suas expressões faciais.

O filme retracta uma América triste, centrada nas suas grandes empresas empregadoras de milhares de americanos, mas que os descartam assim que as coisas descambam. Vêem-se, pois, estes empregados a braços com o desemprego e com as pequenas reformas que mal lhes dão para viver.

Uma excelente fotografia, uma realização serena e calma, uma excepcional actriz, numas paisagens frias e inóspitas dos grandes desertos americanos, em que a linha das estradas é o único sinal de civilização. Fern, a nossa personagem, é bem acolhida por todos. Inclusive, passa por casa da sua irmã, uma burguesa abastada e bem casada, que a convida a viver com eles dado que tem uma bela casa. Fern permanece uns dias, mas não consegue. Uma noite regressa á sua carrinha e volta á estrada. Fern não se considera uma sem abrigo, apenas uma sem casa.

Um filme que vale a pena, mas em que tantos óscares me parecem um pouco descabidos.

 

 

 

quarta-feira, 24 de março de 2021

Kon-Tiki

 Recordações...

Em 1947 o aventureiro norueguês Thor Heyerdahl construiu uma jangada em madeira de balsa e folhas de palmeira e fez-se ao mar a partir da América do Sul e navegou no pacífico durante 101 dias cerca de 4300 milhas até um atol na Polinésia. Heyerdahl quis provar que, no período pré-colombiano, os povos sul americanos, poderiam muito bem ter navegado com meios muito rudimentares até àquelas paragens. Não sei se isso foi real, mas o certo é que Heyerdahl conseguiu. Esta odisseia sempre me fascinou e muito gostaria de ter podido fazer parte de tal expedição.
Em Vilanova de Milfontes, teria o meu rapaz uns 6 a 7 anos, pus toada a família e amigos a apanhar paus dos gelados que por ali abundavam e enchi um saco deles. Depois de bem lavados, desinfectados e bem secos, meti-me na construção de algo parecido com o Kon-Tiki e, enquanto o construía, a minha imaginação levava-me com ventos e marés pacífico fora, arrostando perigos e tempestades. Com um bocado de tecido de nylon branco, construí uma vela onde desenhei um inca que copiei da aventura do Tim-Tim O Templo do Sol. E até não estava mal de todo dado que Kon-Tiki seria um dos nomes do deus Inca Pachacamac ou Viracocha.
Para fazer flutuar a embarcação, colei-lhe no casco umas placas de esferovite e “brinquei” mais o meu filho várias vezes em lagos e tanques. O meu Kon-Tiki andou cá por casa vários anos, até que cheio de pó e com imensas equimoses, ficou tão degradado que, com muita pena minha, tive de o deitar fora. Tenho pena de não o ter fotografado.
Estas lembranças vieram à tona por ter feito umas pesquisas na Net e, sem querer, ter dado com a expedição do norueguês. Não sei se o homem era rico para poder meter-se numa aventura daquelas, mas pobre não seria. Eu penso como bom seria ter dinheiro, tempo e coragem para me meter numa aventura daquelas. Em tempos de confinamento a minha mente navegou durante um bom bocado, na jangada Kon-Tiki.
Vivi em locais difíceis e passei alguns perigos. Tive aventuras de caça incríveis em zonas de guerra, mas nada se deve comparar ao que aquele maduro e os seus companheiros viveram durante 101 dias em pleno Pacífico. Recordo agora que já tinha escrito algo sobre o meu Kon-Tiki. Não importa, recordei-o de novo.


João Paulo Telo, Ernani Balsa e 17 outras pessoas
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terça-feira, 26 de janeiro de 2021

Karnal e Eu.

 

Não conhecia Leandro Karnal. Normalmente não me interesso muito por intelectuais brasileiros. Encontrei-o na Net e o facto de ser ateu moveu a minha curiosidade. Logo numa das primeiras audições achei que homem tinha tido uma experiência religiosa muito parecida com a minha. O homem é um portento. Historiador, filósofo e professor, fala com uma dicção excelente e uma clareza extraordinária. Claro que comparar Karnal comigo é um abuso da minha parte. Até devia mudar o título deste meu texto. A sua estrutura intelectual não tem nada a ver comigo. Karnal fala com todos de uma forma tão serena e atenciosa que prende crentes e não crentes. Conhecedor da história das religiões, ao falar não hostiliza ninguém e apresenta factos das religiões como se os considerasse totalmente verdadeiros. E é aqui que está uma grande diferença de mim quando falo de religiões. Eu sou muito mais acutilante e às vezes demasiado agressivo na apresentação das minhas ideias. “Mea culpa”. Karnal fez-me ver que tentar incutir na cabeça dos outros aquilo que nós cremos ser a verdade, é errado. Mas, se pudesse estar a sós com Karnal, gostaria imenso de lhe fazer umas perguntas. Vamos ver se consigo expor as minhas ideias. Karnal, em várias das suas exposições, apresenta passagens dos evangelhos, como se as mesmas tivessem sido verdades, não sei se para colocar nas mentes dos ouvintes a ideia de que aquilo de que fala é uma forma de regra social, se acredita mesmo na veracidade do facto. E isso confunde-me. Vamos, pois, tentar criar em pensamento, uma sala onde eu e Karnal estivéssemos juntos. Então eu teria uma pergunta para ele:

“Dr. Karnal, o senhor nas suas dissertações cita muitas vezes frases e actos de Jesus. E, nessas citações, dá a ideia que acredita na veracidade daquilo que foi dito. Sendo o Senhor, além de filósofo um historiador, de certeza sabe que está provado que o evangelho mais antigo, foi escrito 70 anos depois da pretensa data da morte de Jesus, e o último cerca de 100 anos depois. Também sabe que os mesmos não foram escritos por Mateus, Marcos, Lucas e João, mas sim segundo estes. Portanto, estes homens, se por acaso seguiram Jesus, teriam na altura no mínimo 20 anos. Parece-me que pessoas com 90 anos ou mais não estariam em condições de relatar com exactidão tudo aquilo que está escrito em grego, por escribas que certamente ouviram estes relatos em aramaico, língua que se falaria nessa época na Palestina. Por outro lado, também certamente sabe que evangelhos houve muitos, mas canónicos só esses quatro, por serem os únicos que endeusavam Jesus. Como grande historiador que é e, também um excelente conhecedor da história das religiões, certamente se apercebeu da similitude da história de Jesus com outros deuses redentores, tais como Hórus, Mitra, Dionísio e mais alguns. Quer-me parecer, portanto, que tais escritos não passam de mitologias tais como a vida dos deuses, egípcios, gregos, romanos, etc… será assim?”

Não sei o que me responderia, mas certamente não me deixaria na ignorância.

Aproveito para recomendar que vão à Net ver e ouvir Leandro Karnal. Vale a pena.

sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Goa: quase seis décadas depois

 

Hoje tomei a liberdade de postar aqui no meu blog uma carta publicada no Diário de Notícias, da autoria do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas, cidadão português originário de Goa.


"18 Dezembro 2020 — 10:24

Em finais de 1960, quando vivia em Goa, creio que nem o governo português nem eu imaginávamos que um ano depois, precisamente no dia 18 de Dezembro de 1961, Goa pudesse ser invadida, conquistada e anexada pela União Indiana, pois o intransigente Salazar acreditava que a Inglaterra e a NATO dissuadiriam Nehru de tomar essa iniciativa e este não gostaria de ver o seu nome manchado com prática de uma política belicista. Todavia, a realidade é por demais conhecida: após consumação do facto, uma montanha de gelo interpôs-se entre os dois países.

Com a revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal, na pessoa do seu Ministro de Negócios Estrangeiros, Dr. Mário Soares, em 31 de Dezembro desse mesmo ano, aceitou de forma oficial a integração e reconheceu a situação de facto existente em Goa, sem conhecimento nem mandato dos goeses, e sem negociar e garantir um estatuto especial para Goa.

Todavia, no artigo IV do "Decreto n.º 206/75 do Tratado entre a Índia e Portugal Relativo ao Reconhecimento da Soberania da Índia sobre Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli e Assuntos Correlativos", consta:

Será concluído o mais brevemente possível um acordo cultural entre Portugal e a Índia. As Partes Contratantes acordam em tomar medidas para desenvolver contactos no campo cultural e, em particular, na promoção da língua e cultura portuguesas e na conservação de monumentos históricos e religiosos em Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli.

Assim, mais uma vez, desde a conquista portuguesa daquela terra oriental, Portugal e Índia decidiram sobre Goa e jamais consentiram que os goeses deliberassem sobre o seu futuro.

Como escreveu o general António Ramalho Eanes, Presidente da República Portuguesa, "Outro destino merecia Goa, bem diferente do que sofreu"..."possuía ou podia criar todas as condições para decidir sobre o seu futuro e viver em paz e progresso"...faltou a Salazar o golpe de asa para fazer de Goa o Brasil do Oriente ("A injustiçada Goa", in Revisitar Goa, Damão e Diu, pp. 15-19).

Entretanto, lutando pelos seus direitos, no "The Goa Opinion Poll", - que na prática tratou-se de um referendo -, realizado em 16 de Janeiro de 1967, os goeses decidiram permanecer na União Indiana, votando contra a sua fusão no Estado de Maharastra; posteriormente, em 30 de Maio de 1987, conseguiram que Goa fosse declarado Estado autónomo; e em 20 de Agosto de 1992 o concani foi reconhecido como língua oficial.

Contudo, a negligência no cumprimento do artigo IV do Decreto n.º 206/75, designadamente, "na promoção da língua e cultura portuguesas", revelou-se por uma lenta agonia da utilização da língua portuguesa nos meios de comunicação social em Goa que até o resistente O Heraldo, primeiro diário de todo o Ultramar português, em 1983, deixou de publicar na língua de Camões.

Porém, Homem Cristo Prazeres da Costa, filho do falecido Amadeu Prazeres da Costa, antigo redactor principal e editor de O Heraldo, com apoio do actual editor Alexandre Moniz Barbosa e de Raúl Fernandes, dono e editor-chefe do mesmo jornal, a partir de 6 de Setembro de 2020, introduziram, nesse jornal, uma secção semanal em língua portuguesa, que tem vindo a ser publicada regularmente.

Sabemos que existe um plano de infra-estruturas para Goa, - com conversão de auto-estrada NH4A em quatro faixas, a duplicação da linha férrea, para acelerar o processo do transporte de carvão, e instalação da linha de transmissão eléctrica para facilitar esse transporte -, que ameaça a floresta e a vida selvagem da área protegida do santuário "Bhagwan Mahaveer" e Mollem National Park, e poderá provocar o corte de muitas dezenas de milhares de árvores.

Sabemos também que de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2021, Portugal vai assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, cujo lema será: «Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital».

António Costa, primeiro-ministro português, numa conferência realizada na Universidade Católica, em Lisboa, defendeu que "Portugal destacou-se sempre na Europa como uma plataforma de ligação à escala global" e afirmou que "em matéria de política externa, a jóia da coroa da presidência portuguesa será a realização da cimeira de todos os líderes europeus com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em 08 de Maio, no Porto".

Em relação ao lema português, as palavras de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, avalizam a justeza e o valor dos objectivos traçados, em contraposição com os da Índia, quando afirma que a Índia precisa de parar de construir infra-estruturas baseadas em carvão e focar-se na geração de energia renovável para ajudar na luta global contra as mudanças climáticas e tirar a sua população da pobreza. Acrescentando "Investir em combustíveis fósseis significa mais mortes, doenças e aumento dos custos de saúde". "Resumidamente, é um desastre humano e ruim para a economia".

Como português e goês, que prezo ser, gostaria de lembrar ao meu primeiro-ministro, Dr. António Costa, que Portugal deve honrar os seus compromissos, designadamente o artigo IV do Decreto n.º 206/75, e jamais esquecer que Goa foi a jóia da coroa portuguesa, terra que deu fama e glória a Portugal em todo o mundo.

Por isso, gostaria de lhe fazer dois pedidos:

Primeiro: - Como a língua é uma mais-valia universalmente reconhecida e o português é a sexta língua mais falada no mundo, - para benefício da Índia e Portugal, que propusesse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a feitura de um acordo conjunto entre Portugal, Índia e Goa para a promoção e dinamização da língua e cultura portuguesa em Goa.

Segundo: - Como o lema da presidência portuguesa será: «Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital», - e o transporte de carvão importado para a Índia é também feito através do território de Goa, a partir do porto de Mormugão, com grave prejuízo para a saúde dos goeses -, que sensibilizasse e solicitasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que seguisse o conselho do Dr. António Guterres e poupasse Goa mandando reavaliar o nefasto problema do transporte de carvão através do território goês, que tem provocado doenças respiratórias graves e protestos populares, havendo até quem escreva nos jornais, em Goa, dizendo que estamos perante um novo colonialismo.

Tomo a liberdade de lembrar ao Dr. António Costa, primeiro-ministro português, que, tendo Portugal uma dívida de gratidão para com Goa, não pode abandoná-la, permitindo que seja sujeita a uma política governamental perniciosa para a sua biodiversidade e saúde populacional."

Historiador


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Carpe Diem

 Raramente posto aqui no meu blog algo que não seja meu. Hoje vou aqui transcrever um artigo do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas. Um português natural de Goa. Historiador, escritor e meu companheiro diário da piscina de Benfica. Aqui vai. Apreciem:


 Carpe Diem
A eternidade é ilusão que alimenta os seres humanos.
Ao invocar as recordações da meninice navego nas águas serenas da perenidade da vida.
Não me recordo a partir de quando é que ganhei consciência de não sermos eternos e comecei a enfrentar a realidade, segundo a qual, quem nasce, fatalmente morre, nem sei se a partir dessa tomada de consciência a minha atitude perante a vida sofreu alterações substanciais ou mudanças radicais.
Embora a finitude da existência humana seja uma verdade inquestionável, comporto-me como se a morte só dissesse respeito aos outros e continuo a planificar os meus passos como se o futuro não tivesse balizas temporais e pudesse ser gerido a meu bel-prazer.
Quando me questiono se tenho medo da morte, para ser sincero, não sei como responder. Claro que se um médico, da minha inteira confiança, me dissesse que teria no máximo um mês de vida, apanharia um grande susto. Todavia, creio que encararia a situação, por ele considerada irreversível, de uma forma racional, tentando recompor-me do choque e começando a definir prioridades.
A primeira seria como prolongar a vida de forma responsável, – não apenas com ausência da doença, mas sobretudo com bem-estar físico, mental e social -, porque acredito que possuímos forças internas suficientes capazes de fintar ou atrasar a morte desde que saibamos como recorrer e utilizá-las.
Durante o período da guerra, no teatro de operações em Angola, nos momentos mais difíceis, não me lembro de ter pensado na minha morte. Sabia que ela podia ocorrer a qualquer momento, mas por razões intuídas que não sei explicar, estava seguro de ser um assunto que não me dizia respeito.
Embora não seja adepto das redes sociais, no entanto, troco correspondência electrónica com amigos e conhecidos.
Desde que a Covid-19 invadiu o mundo, disseminou os seus malefícios e começou a fazer parte do nosso vocabulário quotidiano, tenho recebido mensagens dos meus correspondentes que me aconselham “carpe diem”, citando parte de uma das Odes do poeta latino Horácio “carpe diem quam minimum credula postero”, ou seja, aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã.
Realmente existem pessoas que não se cansam de descobrir motivos para andarem preocupadas, tristes e angustiadas. Tudo lhes causa transtorno e provoca medos. No dia-a-dia vivem apavoradas por quererem movimentar-se e não conseguirem, porque transportam às costas uma volumosa mochila carregada de culpas e recriminações. Andam deprimidas por não poderem libertar-se dos traumas incriminatórios que os afligem. Acusam-se constantemente por terem tomado determinadas atitudes e decisões, em certo momento de vida, em vez de outras, como se pudessem mudar o passado e, a partir daí, reconstituir a vida rumando noutra direcção.
Essa situação torna-se ainda mais grave, quando vivem também ansiosas pois, além de transportarem a mochila às costas, carregam ainda um pesado saco, pendurado ao pescoço e colocado na dianteira do peito, onde atafulham planos futuros, com estabelecimento de metas complicadas e difíceis de serem cumpridas.
Apetece-me perguntar-lhes: acham que podem andar, ou dar o primeiro passo, sem se libertarem do pesado fardo da mochila e do saco pendurado ao pescoço?
Todavia, nas redes sociais, há respostas para todos os gostos e, como sou alvo preferencial de Covid-19, despacham-me com carpe diem.
Na verdade, com a minha provecta idade, depois de ter estudado em tantos livros, investigado em numerosos arquivos, discutido inúmeros assuntos, esclarecido algumas dúvidas, conhecido muitos países e meditado diversas vezes, inferi que, em termos de conhecimento e sabedoria, ando a subir o primeiro degrau de uma extensa escadaria em ziguezague cujo termo não consigo enxergar.
Como a experiência me foi revelando que o futuro, mesmo quando planificado, pode ser imprevisível, há muito cheguei à conclusão de que o melhor é desfrutar o dia-a-dia e tirar o melhor partido dos encantos da vida. Por isso, sorrio e procuro ser positivo, como me recomendam os entendidos.
Continuo na ilusão de que, enquanto lerem este ou outros textos meus ou se lembrarem de mim, hei-de permanecer vivo.
Porém, há quem seja mais sofisticado e se apegue ao conceito de transmigração, segundo o qual quando um indivíduo morre, morre apenas o seu corpo, mas o espírito liberta-se do corpo e transmigra, integrando-se num outro invólucro em função do valor das acções praticadas durante a sua existência, reiniciando assim um novo ciclo de vida. Outros ainda vivem esperançados que, depois da morte, a sua alma suba aos céus e viva em comunhão com Deus.
Enquanto vivo no meio desta pandemia com as minhas dúvidas e inquietações, resta-me participar na cultura de responsabilidade, individual e colectiva, contribuindo para impedir a disseminação de Covid-19 pois, como dizem as autoridades oficiais, “cuidar de si é cuidar de todos”.
Valentino Viegas
Lisboa, 2 de Novembro de 2020.
Luis Vicente

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Tomaz Alcaide

Hoje, ao ouvir Biemiamino Gigli, lembrei-me do nosso esquecido Tomaz Alcaide https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_Alcaide

Um dos melhores intérpretes das óperas, principalmente de Geatano Donizetti. Parece impossível, mas um cantor como ele, foi completamente esquecido pelo público português. Conta-se que Gigli em Milão, teve uma constipação e a ópera Elixir do Amor de Donizetti, teria de ser interrompida. Alguém lembrou que havia um cantor português que interpretava muito bem as óperas deste autor. Foi chamado à pressa e substituiu de tal maneira o Gigli que, quando este melhorou, o público já não permitiu a troca e Tomaz Alcaide continuou. Tomaz Alcaide foi considerado o cantor que melhor interpretava as árias "Spirto Gentile" da ópera Favorita e "Una furtiva lágrima" do Elixir do Amor, ambas de Donizetti. Curiosamente Alcaide foi aluno do Colégio Militar e cursou medicina, abandonando depois para seguir canto em Itália. Cantou e foi apreciado em quase todo o mundo. Em Portugal foi mais conhecido pelas canções que interpretou no Cinema e no Teatro, como podem ler na Wikipédia. Tratámos sempre muito mal os nossos bons artistas. https://www.youtube.com/watch?v=7av7jSARpw8
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domingo, 15 de novembro de 2020

A quinta do meu padrinho

 


Quando nascemos temos de ser registados. Nesse registo eram necessárias duas testemunhas. Não sei de onde veio o conhecimento, mas um dos meus padrinhos foi Joaquim Ribeiro de Carvalho https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Ribeiro_de_Carvalho. Na quinta da Bela Vista passei muitos dias de brincadeira e assisti à feitura de vinho, matança de porco, etc. Lembro-me que não gostei nada da primeira matança a que assisti. O pobre bicho fez tal berraria quem me impressionou imenso. O meu padrinho morreu em 1942. Eu tinha ido para o Cacém em 1941 com apenas 4 anos. Conheci-o, portanto apenas um ano, mas tenho na memória a sua figura. Era um homem imponente, alto, já um pouco gordo. Usava óculos e andava sempre pela quinta dando ordens e verificando os afazeres dos empregados. Usava botins de cano, de atanado, com solas cardadas. Gostava de o ver, mas infundia, na minha mentalidade de criança, um misto de respeito e receio. Um dia, o seu motorista, com um carro enorme, americano, tipo Dodge ou coisa parecida, fez um curto recuo para arrumar o carro, não reparando que o meu padrinho estava atrás e tocou-lhe nas pernas desequilibrando-o. Homem pesado como era, caiu desamparado e bateu com a cabeça na estrutura do carro, naquele tempo em chapa muito forte. Chamaram-se os bombeiros pois a ferida na cabeça era um pouco grande e sangrava imenso. Foi operado no Hospital de São José a um traumatismo craniano com fractura. Veio para casa em recobro.  Lembro-me de estar ao pé dele, sentado na varanda ao sol, onde passava os dias lendo. Passados uns tempos, sentindo-se mal, voltou ao hospital tendo sido operado de novo. Nessa operação extraíram-lhe uma lasca óssea que tinha passado despercebida na primeira intervenção. Já não regressou e morreu pouco tempo depois. No Cacém houve grande consternação pela sua morte.

Continuei a visitar a quinta mas, já não com assiduidade. A quinta era grande e havia zonas da mesma que nós, os rapazes da zona, frequentávamos saltando os muros e fazendo as nossas explorações. Foi num desses “assaltos” que descobri uma enorme gruta onde se encontrava uma cama já meio desfeita, uma mesa e alguns utensílios de cozinha. Viam-se também alguns livros meio desfeitos e manchados pela humidade. Mais tarde vim a saber que era um refúgio onde o meu padrinho se escondia da polícia política, a famigerada PIDE. Como podem ver no artigo da Wikipédia, Ribeiro de Carvalho foi um defensor da 1ª República e obviamente um elemento contra ao Estado Novo. O jornal República foi muitas vezes censurado e o meu padrinho procurado pela PIDE. Os seus companheiros de luta contra Salazar, Araújo e Sá e o Dr. Ramon de La Feria, passaram alguns anos na prisão, mas Ribeiro de Carvalho nunca era encontrado por se esconder na tal gruta que não era fácil de descobrir. Nunca soube se o meu Pai foi ou não incomodado por essa amizade. No Cacém, a quinta da Bela Vista, foi sempre apelidada por Quinta Ribeiro De Carvalho e a minha rua também tinha o seu nome. O seu filho, Rui Ribeiro de Carvalho, não residindo lá, manteve a quinta durante muitos anos. Foi nessa quinta que comecei a treinar os meus tiros às rolas, pois ali era um ponto de passagem. O filho mais velho do motorista, cuja família continuou a morar numa das residências, era um grande caçador e deu-me algumas lições de como atirar. Dei cabo de muitos cartuchos ao meu Pai. Desde que a minha mãe e irmã morreram, que deixei de ir ao Cacém, mas quando por lá passava, junto aos muros de bonitos azulejos portugueses, lembrava sempre a figura de Ribeiro de Carvalho, na sua imponência, com as calças metidas para dentro dos botins, a comandar as operações. Os seus amigos diziam que o homem tinha sido assassinado por propositadamente lhe terem lá deixado a esquírola óssea. Claro que não acredito que médicos tivessem entrado nessa. Ribeiro de Carvalho foi uma figura que me marcou, mais pelo que vim a saber do que pelo pouco que conheci dado a idade que tinha. Hoje, ao fazer umas pesquisas na NET reencontrei-o.