sábado, 19 de setembro de 2015

Leituras de praia


(Rui à beira-mar)

Poderia começar este post com o título acima entre parênteses dado que nestas férias, em cadeirinha à beira dos mares do sul, li nada mais, nada menos do que três livros de Haruki Murakami e assim, parafraseando o título do livro dele de que mais gostei, vou tentar falar-vos um pouco de cada um:

Em Busca do Carneiro Selvagem
A Sul da Fronteira a Oeste do Sol
“After Dark” Os Passageiros da Noite

Com os excelentes “Kafka à Beira-mar” e “O Impiedoso Mundo das Maravilhas e O Fim do Mundo”, que li primeiro e sobre os quais já aqui falei, Haruki Murakami, já se me tinha exposto como um escritor fascinante. Os seus romances, sempre passados no Japão, poderiam ter sido escritos em Nova York ou qualquer outra cidade americana. As suas personagens movimentam-se num Japão moderno, ao som de “blues” ou música clássica, em ambientes de cafetarias ou clubes nocturnos com um estilo de vida completamente americanizado. Mas o fascinante de Murakami é que consegue criar no leitor um interesse crescente pelas histórias, nas quais alia a realidade com o fantástico colocando nas mesmas, ao mesmo tempo, um certo fascínio oriental.
Assim, vai crescendo no leitor o interesse pelo fim da história, como se de um policial se tratasse, e chega ao fim completamente encantado com o irreal da narrativa, com o seu quê de sobrenatural aceitável.

No primeiro livro que refiro, a personagem principal, um publicitário que usa uma fotografia com uma imagem rural de um rebanho onde sobressai um carneiro diferente dos restantes, vê-se impelido, praticamente obrigado por uma poderosa personagem, a encontrar esse animal. Durante essa procura apaixona-se por uma rapariga de orelhas fascinantes, que o ajuda. Só que o animal procurado não é real mas sim com poderes sobrenaturais. Inverosímil? Não. Absolutamente fascinante.

O segundo livro é praticamente uma história de amor. O narrador Hajime, de seu nome, na adolescência conhece uma rapariga, Shimamoto, com a qual faz amizade estudando juntos e ouvindo músicas, especialmente um original de Nat King Cole South of the Border, West of the Sun”.
Aqui, meto a minha colherada, como elemento já velhote, dado que esta canção com o título “South of the Border, Down Mexico Way” é um original de um filme do célebre cowboy “Hopalong Cassidy” muito em voga nos anos 30/40.
Por circunstâncias diversas Shimamoto desaparece da vida de Hajime, vindo mais tarde a encontrar-se recordando esta canção no bar que entretanto Hajime explorava. Há aqui uma enorme relação com o célebre Casablanca e o seu “As Time Goes Bye”. Sendo um romance menos misterioso que os anteriores, não deixa de ser uma excelente história de encontros e desencontros e pleno de sensualidade.

Ao começar a ler “After Dark”, veio-me logo à ideia o filme “Nova York Fora de Horas”. Nota-se aqui o interesse do autor pela história que Scorcese tão bem colocou em cinema. O livro foca a noite de Tóquio com os seus mistérios, sonhos, violência, etc. Uma prostituta chinesa brutalmente agredida, a gerente de um hotel do amor, um técnico informático, uma empregada de limpeza em fuga, um músico tocador de saxofone, etc. Todas estas personagens se movimentam numa noite de Tóquio como num sonho cujas imagens se vão repetindo sempre com o seu quê de fantástico mas ao mesmo tempo reais.


Murakami é um escritor que nos subjuga pelos seus temas nebulosos e oníricos mas ao mesmo tempo tão reais. Valeram a pena os tempos que passei, tal como Kafka, à beira-mar.

domingo, 23 de agosto de 2015

Sheherazade de Nicolaj Rmskij Korsakov


Estou ao computador e a ouvir no canal Mezzo a Sheherazade de Nicolaj Rimskij Korsakov. Este poema sinfónico levou-me a recordar os anos do Pilão e da Escola do Exército em que as minhas saídas, quando não para casa, eram aproveitadas para ir ao cinema. Entrei em 1948 e lembro que nesse ano ou nos dois seguintes estreou o filme “A Canção de Sherazade” com o francês Jean Pierre Aumont a interpretar Rimsky Korsakov e a Yvonne de Carlo no papel de uma espanhola por quem se apaixona. Yvonne de Carlo era então chamada da Estátua de Carne pelo seu físico e beleza. Yvonne era canadense mas radicou-se nos States. Também relembro, e agora confirmei na Net, que Jean Pierre Aumont era casado com outra diva, esta da república Dominicana, de seu nome María África Gracia Vidal de Santos Siles Y Gracia que todos nós conhecemos como Maria Montez, linda e escultural como a Yvonne. Este filme é uma história ficcionada sobre o famoso compositor que também foi oficial da marinha imperial russa. Numa das suas viagens Rimsky passa em Espanha e conhece a mulher dos seus sonhos por quem se apaixona e dedica esta famosa obra Sheherazade. Não sei se a história tem algo de verdade, os americanos eram useiros em desvirtuar as vidas dos famosos desde que isso lhes pudesse trazer lucros nas explorações dos filmes, mas que a história aliada à música nos empolgou na época isso é verdade. O filme já era em Tecnicolor e a beleza da De Carlo fazia o resto. Agora, a ver e ouvir o Mezzo, senti-me transportado aos meus 12/13 anos olhando embasbacado para aquela mulher, mas também emocionado pelas belas melodias de Rimsky Korsakov. Com a idade estou a tornar-me demasiado sentimental e um grande chato. Qualquer facto me transporta ao passado e as coisas boas que recordo empolgam-me e emocionam-me. Deve ser da velhice, mas o gosto pela bela música já por lá andava.
Fiquem bem e obrigado aos que ainda têm a pachorra de ler estas minhas recordações. Se vos apetecer recordar esta bela melodia, aqui fica o link:


sábado, 22 de agosto de 2015

A Morte de Um Herói


(Frank Ronan)

“EIS O VERBO DA MINHA BOCA E O LABOR DOS MEUS OLHOS, conjugados de forma que todos fiquem a saber o que aconteceu. Esta é a história de um homem que conseguiu apaixonar-se. Não se riam. É a história da sua morte, dos que desejariam ter sabido como ocorreu e dos que preferiam que tivesse sido um mistério.”…
“Talvez seja melhor apresentar-me. É um sinal dos tempos que correm que precise de o fazer. A maioria das pessoas conhece-me por Deus e, por agora, essa identificação vai ter de chegar-vos.”…

Parece incrível mas estas palavras são de Deus pois é Deus que vos vai relatar esta história. Quando tirei o livro da estante da casa do meu filho, não fazia qualquer ideia do autor. Frank Ronan nada me dizia. Fui mais atraído pela capa do livro. Um cenário em azul, verde mar e laranja mostrava um carro, um “Lância” descapotável azul, um sprite, precipitando-se de um penhasco com o condutor de camisa vermelha agarrado ao volante. O cenário deu-me a ideia de um policial e como já há muito não lia um, trouxe-o comigo. Esteve muito tempo na minha estante. Li dois ou três antes deste. Após tês grandes autores, Murakami, Umberto Eco e o nosso Mário Cláudio, resolvi pegar neste policial para amenizar. Surpresa das surpresas vou ficando quase sem fala ao embrenhar-me na trama que envolve o tema e vou cada vez ficando mais surpreendido pelos conceitos que o “Narrador” vai revelando.
O tema poderia até ser tomado como vulgar, se não fosse o narrador. Um tipo nascido nos campos da Irlanda e que cresce sem problemas tornando-se um ser óptimo, adorado por todos, sem quaisquer complexos, vencedor nato, um arquitecto de sucesso e um exemplo para todos. Não há quem não o adore e todos se deixam cativar pela sua personalidade. Acaba despenhado, no seu carro e morre curiosamente não da queda mas por afogamento quando a água cobre o carro preso nas rochas. Suicídio? Crime? Só uma pessoa observa tudo e só no fim se sabe quem é. A partir daqui, Deus descreve a vida deste tipo e aí começa o interesse do romance, pois que nos mostra um Deus completamente hedonista, descomplexado e até afastado da sua “criação”, que acha os católicos e judeus uns chatos mas que acaba percebendo que os ateus eram as únicas criaturas com quem valia a pena perder algum tempo. À medida que o romance se vai desenvolvendo vamos aprendendo a conhecer, através do ser divino, um tipo encantador, desprovido de complexos, usando o sexo sem quaisquer problemas com todos os que se rendem ao seu encanto, quer com as mulheres quer com os amigos e que acaba por ter sexo com a própria filha sem recurso à força ou qualquer outra forma de violentação, mas antes pelo contrário de uma forma consentida e apreciada. Com tudo isto Deus contemporiza, um pouco contristado é certo por nada ter com isso pois não interfere com a forma como a sua “criação” se comporta uma vez que apenas os criou e não para os controlar. A filha, talvez arrependida da sua ligação com o pai, acaba mal casada e descontente da vida que levou e decide acabar com ela não o conseguindo, pois alguém se adianta realizando o trabalho por ela.
“O AMOR NÃO DEVIA SER UMA COISA TÃO MÁ COMO É. Para que raio serve, afinal, o amor não passa disto? Fui o primeiro a meter-me nessa coisa do amor, antes dos românticos, antes do “Roman de La Rose” antes da canção de Salomão e da epopeia de Gilamesh. Quando vós começastes a sentir o instinto e uma espécie de fome entre as pernas, já eu era uma vítima calejada, um Epicuro amolecido; o que pretendo dizer é que fui o primeiro a sentir a solidão.
Os cristãos convictos dirão que Deus é amor, como se eu tivesse sido dominado pela doença do amor, como se fosse uma caixinha de chocolates em forma de coração e forrada a cetim, como se fosse possível esquecer que em tempos fui considerado o flagelo das nações, como se a palavra AMOR não estivesse presente em todos os escritos da inquisição como a palavra LIBERDADE nos campos de concentração, como se eu estivesse investido de uma simplicidade que não existe em coisa alguma. O céu tornou-se de tal modo uma figura de celulóide, tão pouco credível, que só me faltou ter um artigo de duas páginas na “Holla”.
No fim, quando tudo se esclarece e após um “flash back”, desculpem-me a analogia, do carro precipitando-se no vazio, Deus diz:

“Perdi-o e não posso trazê-lo de volta. Sou apenas Deus, e não fui eu que fiz as regras.”

Lindo!

Frank Ronan é um irlandês nascido em 1963. Escreveu já inúmeros romances e recebeu bastantes prémios.

No Times Literary Supplement pode ler-se:

Depois da Morte de um Herói ficamos tremendamente impacientes por ver aquilo com que Frank Ronan nos presenteará a seguir.”


quarta-feira, 29 de julho de 2015

Baudolino


Acabei agora de ler este excelente romance de Umberto Eco. Nunca levei tanto tempo para ler um livro. Na verdade, parecendo um romance de aventuras, é tão denso que nos leva a parar e voltar a ler após um período de descanso. Só uma mente superior como a do semiótico Eco seria capaz de escrever um romance ao mesmo tempo histórico, de aventuras, descritor de mitos, religiões, criador de factos que alteraram a história, misturador de realidades com mentiras num ambiente de guerras pela conquista de poderes, quer de dirigentes políticos, quer religiosos.
Todo o livro é o relato que Baudolino faz a Niceta Coniates, historiador bizantino, durante a destruição de Constantinopla pelos Cruzados:

Baudolino, um campónio dotado de imaginação e inteligência, consegue aproximar-se de Frederico o Barba-Ruiva, imperador do sacro-império Romano-Germânico e rei da Itália, através de uma predição que dá certo, e de tal modo se insinua que Frederico o adopta como filho e o manda estudar para Paris. Altamente dotado para o estudo das línguas, consegue uma cultura excelente que lhe permite criar nos outros a ânsia de conhecimentos, não só do que existe, mas também daquilo que a sua imaginação vai criando. Torna-se pois um criador de documentos e relíquias cristãs, apresentando-as como autênticas para que todos o sigam na procura do reino do Prestes João, que se dizia existir no Oriente mas que nunca ninguém conhecera. Baudolino é realmente um mitómano nato que usa as suas mentiras para criar factos tomados como verdadeiros e com isso ir alterando a história. Consegue, pois, que Frederico deixe a destruição das cidades italianas que, obedecendo ao papa, não se submetiam ao seu poder e se dedique a uma expedição para encontrar o Prestes das Índias. Em Paris, Baudolino e companheiros forjam uma carta em que o Prestes João convida Frederico a visitá-lo e, apresentando-a como autêntica, incitam-no a iniciar viagem. No empreendimento Frederico morre em circunstâncias estranhas, mas Baudolino não desiste e continua em demanda do reino do Prestes João, que ele acredita existir mesmo. Nesta viagem encontra povos e seres estranhos que Niceta não chega a saber se são realmente verdadeiros ou nascidos da imaginação criadora do narrador. Nesta odisseia, Baudolino apaixona-se, casa, conhece Hipácia, uma bela mistura de mulher e fauno que vive num reino só de Hipácias, todas fêmeas e seguidoras de Hipácia de Alexandria. Junto a este reino, um outro também cristão, povoado por estranhos seres tais como, Ciápodes, Blémios, Gigantes e Pigmeus, é atacado pelos Hunos-brancos. Baudolino ajuda-os na luta mas perde. É pois rechaçado e obrigado a empreender uma fuga regressando à sua origem.

O leitor deste pobre artigo, nesta altura, dirá para si próprio que afinal isto é um livro de aventuras e de ficção científica. Nada mais falso. Durante toda a narrativa, os factos descritos por Eco são totalmente históricos e mostram como ao longo das épocas os homens se foram servindo dos mitos para construírem acontecimentos fictícios que levassem outros a seguirem-lhes as ideias, não só para tomarem decisões políticas, como também para aceitarem como válidas as religiões que iam construindo. A criação de relíquias, tais como cabeças de João Baptista, santos lenhos, cálices Graal e sudários de Cristo, são exemplos disso.
No fim, os factos que deram origem à morte de Frederico são desvendados à custa de um cérebro privilegiado de um conhecido de Niceta, um tal Pafnúcio, que à semelhança de Guilherme de Baskerville e Adso, do “Nome da Rosa”, tudo descobre. Este final é, como no “Nome da Rosa”, uma homenagem de Eco a Sir Arthur Conan Doyle criador de Sherloke Holmes. Lembrem-se de que o nome de BasKerville foi retirado do livro “O Cão dos BarsKerville” e Adso, o nome do jovem frade seu ajudante, penso que em grego ou aramaico, já não lembro, quer dizer ”elementar”, parafraseando Holmes quando dizia: “elementar, meu caro Watson”.

É pois um excelente romance que recomendo para ler numas férias à sombra de um chaparro no Alentejo ou de um guarda-sol na praia. E preparem-se para uns bons 15 dias de leitura. Ah! Já esquecia: Um bom dicionário, enciclopédia ou internet, também darão jeito.

quarta-feira, 8 de julho de 2015

Estado da Nação


Não é necessário ser comunista para crer nas declarações de Jerónimo de Sousa proferidas durante a sessão do estado da Nação. Nada melhorou neste país. Antes pelo contrário tudo está pior do que antes apesar das promessas, não cumpridas. Esta semana foi só de tristezas. Tivemos e temos o problema da Grécia com toda a espécie de chantagens da EU. Tivemos a notícia de que o nosso país recuou para níveis de 1990. Morreu Maria Barroso mulher lutadora, democrata, culta e com a humildade suficiente para nunca ter tentado guindar-se a níveis que nada lhe diziam. Temos a nossa comunicação social a publicitar sondagens que nos alarmam. Será que o povão ainda é capaz de acreditar que esta direita é a salvadora da pátria? Por outro lado o PS também não nos dá garantias de melhorias. Não à austeridade, não ao corte de pensões e salários, reposição de direitos e garantia de não cortes, mas por outro lado sabemos que teremos a continuação de subserviência aos nossos credores europeus. Programas para incentivar a agricultura, pescas, etc. igual a zero. Reestruturação da dívida é conversa mole para boi dormir. A CS assusta-nos com os avanços do Estado Islâmico e com a situação em todo o médio Oriente. Em toda a Europa reina a insegurança e as religiões continuam a ser pomo de discórdias. Como mudar tudo isto? Em quem votaremos? No BE? No PC? No Livre? Se o fizermos estaremos a tirar votos ao PS e a coligação esfregará as mãos. Parece-me que realmente este regime está condenado. Esta democracia não serve. Democracias parlamentares em que os partidos formam coligações absurdas para poderem governar com maiorias, não me parecem credíveis. Aliás maioria é igual a ditadura, só que mais “soft”. Os votos em branco, nulos e as abstenções também não nos servem. Os partidos são eleitos com os votos expressos e os outros não contam. Poderemos ter governos eleitos com menos de 30% de eleitores. Penso pois que só uma mudança de regime nos salvará. Para isso era necessário mudar a constituição e isso os partidos nunca permitirão. O poder é aliciante, as mordomias e prebendas também. Revolução? Quem a fará?
Em 74 tínhamos uma ditadura e as FA actuaram em nome do povo. E agora? Como levaremos o povo a votar tipo Grécia num Syriza português que seja capaz de bater o pé à Europa. E se tivéssemos como seria depois do Euro? Será que o povo aceitaria voltarmos a um novo estado de pobreza igual ao que tínhamos antes do Estado Novo? Estou descrente. Larguem as bombas atómicas...


segunda-feira, 8 de junho de 2015

O Inimigo do Povo


 Fui ao S. Luiz ver “ O Inimigo do Povo”, uma peça de Henrik Ibsen. Ibsen foi um dramaturgo Norueguês nascido na primeira metade do século dezanove e falecido já no século vinte (1906). Nascido na Noruega, viveu muitos anos na Itália e na Alemanha. Foi considerado por muitos o melhor dramaturgo depois de Shakespeare. Fui à estreia, onde inúmeros artistas do nosso teatro e TV davam grande apreço às interpretações dos actores em palco.
Ibsen  coloca nesta obra a sua visão da governabilidade dos povos, realçando a dicotomia entre poder e povo, sendo este representado pelas elites, já que se deixado à sua mercê será levado a aceitar o que o poder demagogicamente lhe tentará impingir, auxiliado por uma imprensa que manipula.
A peça é passada numa cidade onde o Intendente (o poder) põe em execução uma obra megalómana (a estância balnear) fonte de diversão para o povo, mas também geradora de grandes rendimentos para a comunidade pelo incremento do turismo. À frente do pelouro que garante a qualidade sanitária da estância, coloca o seu irmão médico (Dr. Stockmann) que acaba por descobrir, por algumas doenças surgidas, que a qualidade da água que abastece a estância, está poluída desde a fonte e como tal imprópria. No princípio, apoiado pelo responsável pelo jornal “ O Mensageiro do Povo” que, arvorado em divulgador da notícia “salvadora”, se presta a ajudá-lo em toda a sua campanha, pretende que toda a canalização seja mudada e a água tratada, o que levará a fechar a estância durante pelo menos dois anos. Começam aqui as divergências com o seu irmão Intendente. Este tenta chamar o médico à razão, nunca dizendo que a obra não terá de fechar, mas que esse fecho será demasiado penoso para a comunidade, incluindo o próprio povo, pelo que será talvez de ponderar a questão e deixar andar pois o problema poderá ser resolvido ainda que mais lentamente mas sem atitudes alarmistas muito prejudiciais. O nosso médico, de início apoiado por toda a família, jornal e até pelo tipógrafo que edita o jornal, acaba por via da demagogia do seu irmão Intendente, por ser abandonado nas suas ideias por toda a comunidade incluindo a sua própria mulher, preocupada com o bem-estar familiar, se ele for despedido como o irmão o ameaça. Apenas a sua filha, recém-formada como professora primária, mulher revolucionária e liberal, segue as suas ideias políticas e não o abandona.
Mas, tudo isto seria muito simples se não passasse daqui. Só que a peça tem outras implicações;
Tudo é, pelo Dr. Stockmann, pensado em nome do povo e para o povo, mas ele sabe que o povo será levado a pensar o contrário devido à demagogia do poder. Ele diz: “no povo há os rafeiros e os caniches, os rafeiros deixam-se levar porque não pensam e são tolos, serão os caniches, as elites, a terem de decidir por eles”. Ele, portanto, será um dos caniches. Tem aqui muito que se lhe diga em termos políticos…
A peça tem um momento alto, em que é convocada uma assembleia, onde vários artistas se espalham pela plateia e o Dr. Stockmann profere importante discurso, sendo muitas vezes interrompido com tentativas para calarem e até ofuscarem as suas ideias. Aqui, o espectador, quase salta na cadeira com vontade de interferir. Toda a comunidade acaba contra, incluindo a imprensa e o tipógrafo, que não passa de um burguês que diz: “tudo deve ser feito com moderação que é a primeira virtude de um cidadão”. O médico passa a ser considerado “O inimigo do Povo”.
Mas Stockmann não desiste… no fim diz: “…o homem mais forte do mundo é aquele que está mais sozinho.”
Achei que muitas situações, talvez propositadamente, se adaptavam ao nosso momento político.
O público aplaudiu de pé com três chamadas ao palco de todo o elenco. Valeu a pena.


quinta-feira, 14 de maio de 2015

HARUKI MURAKAMI (O Impiedoso País das Maravilhas e o Fim do Mundo)


Este livro de Murakami é intrigante, não fácil, alegre, divertido, perturbante e fascinante. Duas histórias contadas alternadamente capítulo a capítulo que, parecendo diferentes se completam por serem uma só. Murakami consegue contar-nos uma história futurista sem ser propriamente de ficção científica. Neste formidável romance está lá tudo. Um país, Japão, e uma cidade, Tóquio, onde todos parecem viver bem, sem grandes problemas mas que acabam por serem governados por um poder dentro do poder, o “Sistema”, que utiliza os seus programadores, informáticos cujo computador é o próprio cérebro capaz de codificar dados e proceder a lavagens cerebrais passando-os de um hemisfério para o outro. Com uma técnica chamada “shuffling” conseguem encriptar os dados de tal maneira que só eles serão capazes de os descodificar. Como contra-poder existem os “Semióticos” dentro de uma organização chamada Fábrica que, não olhando a meios, tenta apoderar-se de toda essa tecnologia. Estes Semióticos, tal como o nome indica (a semiótica é a ciência da interpretação de sinais) possuem nas suas fileiras indivíduos altamente treinados e eficientes. Como seres maléficos há os Invisíveis, cuja existência é subterrânea e que a todo o custo tudo querem destruir. No meio de tudo isto, um idoso cientista, biólogo, monta um laboratório subterrâneo onde estuda crânios e palatos de animais com vista a tentar perceber e codificar o som dos ossos, para que, prescindindo do som, possa através deles recolher toda a informação dos cérebros.
Este velho cientista contrata um rapaz programador para que através da lavagem cerebral e do “shuffling” possa guardar todo o seu estudo com o fim de o resguardar dos Semióticos e dos Invisíveis.
Toda a acção é narrada por este programador, que acompanhado pela jovem neta do velho cientista, depois da entrevista com este, volta ao mundo da superfície a fim de realizar o seu trabalho.
Paralelamente outro jovem narrador vivendo no “Fim do Mundo” é contratado como leitor de sonhos que se encontram encerrados em crânios de unicórnios depositados e devidamente catalogados numa biblioteca. Este “Fim do Mundo” é uma cidade rodeada de uma muralha totalmente intransponível que só os pássaros ultrapassam, onde as pessoas são separadas das suas sombras que ficam detentoras dos corações. As sombras ao morrerem deixam os seus pares totalmente incapazes de recuperarem o coração. Os leitores de sonhos absorvem e acumulam-nos mas não os decifram nem compreendem. A cidade possui um guardião das sombras que alimenta os animais, unicórnios, e os queima quando morrem guardando os crânios. Nesta cidade a vida é normal, sem carências mas também sem emoções nem sentimentos. A rapariga da biblioteca dos crânios acaba por ser o motivo do narrador, com a sua sombra ainda viva, tentar recuperar o seu coração.
Entretanto em Tóquio, o nosso programador vai vivendo uma vida normal, sofrendo a perseguição dos semióticos, comendo, bebendo, fazendo amor e ouvindo música. Aliás o livro está recheado de alusões à boa comida e à boa música ocidental contemporânea. Referências a Bob Dylan, Bing Crosby, Duran Duran são frequentes. Na música clássica apenas a referência aos concertos Brandburgueses de Bach.

A entrosagem entre as duas histórias começa a vislumbrar-se quando o velho cientista confessa que falhou no sistema que tentou implementar no programador sem ele saber e, que essa falha vai provocar o Fim do Mundo, não o fim do mundo real mas o fim do mundo na sua consciência tornando-se noutra pessoa a viver como numa cidade rodeada por uma grande muralha não se recordando da sua vida passada. Intrigante. Como se diz na contra-capa, este livro é uma alegoria sobre os tempos modernos. Eu diria que para além disso, é também uma alusão ao que as políticas, as novas tecnologias e o avanço da ciência nos poderão conduzir.