quinta-feira, 3 de março de 2022

Sou octogenário

 Transcrevo aqui no meu blog o excelente artigo do meu amigo Doutor Valentino Viegas, escritor de mérito confirmado, e publicado no Diário de Notícias em Fevereiro passado. Neste artigo, o meu amigo Valentino, tem a amabilidade de evocar o meu nome, o que agradeci com muita amizade.

Sou octogenário

Valentino Viegas


Caros amigos, estou de parabéns, que maravilha, sou octogenário!

Só me apercebi e me consciencializei que, precisamente, uma semana depois iria ser octogenário, quando li o editorial intitulado "Itália e a sabedoria dos octogenários" de Leonídio Paulo Ferreira, no jornal Diário de Notícias, datado de 7 de Fevereiro de 2022.

Naquele memorável dia 11 de Julho de 1982, data em que se realizou a final do campeonato do mundo da partida de futebol, entre a Itália e a Alemanha Ocidental, no estádio madrileno de Santiago Bernabéu, recordado naquele editorial pela pena do jornalista Leonídio, quantos adultos não teriam tido inveja do então Presidente da República Italiana, Sandro Pertini, por não terem a coragem nem espontaneidade para saltar publicamente da cadeira, extravasando vibrantemente as suas emoções, só porque a bola entrara na baliza da equipa alemã e a sua Itália, que tanto amava, podia ser sagrada campeã do mundo?

Também eu vi no ecrã televisivo as comoventes e inesquecíveis manifestações de regozijo daquele octogenário italiano, festejando com gestos eloquentes e expressivos o hino à alegria, como tanto gostamos de ver quando espelhado no sorriso radioso de um bambino de olhar inofensivo e rejubilante.

Não há nada como ter a ousadia de nos comportarmos do jeito das crianças quando necessitamos de fazê-lo, mesmo que não possamos ser rotulados de catraios apenas por causa da nossa provecta idade, denunciada pelos cabelos brancos e feições enrugadas.

A criança que transportamos em nós por demasiado tempo adormecida, em virtude da obrigação do cumprimento das severas regras impingidas pela sociedade, merece ser libertada, trazida à superfície, incentivada a levantar voos arrojados, sempre que precisamos dela para nos consciencializarmos e sermos iguais a nós próprios quando queremos.

É preferível esse comportamento excêntrico do que ouvir lamentos, ao vivo ou ao telefone, daqueles que não amam a vida e passam o tempo inteiro a queixarem-se como se fossem as criaturas mais infelizes do mundo, só por serem dotadas de idade avançada, retratada nas rugas do corpo e sofrida nas cicatrizes da alma.

Pessoalmente, gosto mais daquelas pessoas que me respondem, quando simplesmente as cumprimento, dizendo que tirando dói aqui, dói ali, está tudo bem, do que aquelas a quem basta doer um bocadinho a ponta da unha do dedo do pé para começarem logo a lamuriar, despejando ladainhas de queixas irrelevantes e lamentando que está tudo mal. Embora afirmem não ser masoquistas, têm a sublime arte de se vitimizarem e descobrirem sempre alguma razão para nos garantir que sofrem horrivelmente, parecendo que o mundo nasceu unicamente para as perseguir e maltratar.

Com a finalidade de não ser contagiado por essas mentes doentias, que encontram sempre motivos para nada produzirem, prefiro observar e seguir, por exemplo, a atitude de Adriano Moreira, estadista e estudioso de assuntos da política internacional que, embora daqui a poucos meses venha a fazer cem anos, continua a brindar-nos com belos textos nos jornais, assim como do meu querido amigo e Professor, o historiador António Borges Coelho que, embora seja nonagenário, vai lançando, regularmente, além de outros trabalhos dispersos, livros sobre a História de Portugal.

E, a propósito de amigos e de octogenários, não consigo deixar de mencionar o novo amigo que ganhei na piscina do Complexo Desportivo de Benfica, o coronel aposentado Rui Cabral Telo, excelente conversador e cultor da palavra, tanto lida como escrita, nosso animador por ser possuidor de genuíno talento para contar anedotas, cuja presença nos entusiasma e encanta, notando-se logo a sua ausência, porque o balneário rapidamente se metamorfoseia e se transforma em autêntico velório.

Alertam-nos a nós, octogenários, que não podemos levar a vida de forma desregrada e irresponsável, apresentando como cómoda justificação e desculpa a provecta idade que sentimos nos ossos doridos do corpo, ou em cima dos ombros prenhes de fadiga. Necessitamos de nos consciencializarmos que, no cenário global do envelhecimento populacional, a nossa faixa etária apresenta a maior incidência de quadros demenciais.

Para não sermos uma carga demasiado pesada para a sociedade, aconselham-nos os entendidos, em matéria da saúde, que nos devemos manter fisicamente activos, participar em actividades sociais e procurar melhorar a qualidade de vida, ou seja, viver sim, mas com autonomia, criando novos projectos pessoais, acompanhando as mudanças e concorrendo para possuir boa saúde física e mental.

Acrescentam também que é necessário sabermos aceitar e viver com o inadiável caminhar para a velhice, associado à inevitável diminuição de algumas funções vitais, e não pretendermos querer rejuvenescermos à custa de sacrifícios inglórios pois, por mais que labutemos, jamais poderemos desfrutar de um envelhecimento juvenil.

Tenho para mim que não nos devemos preocupar demasiado com o futuro nem com o tempo, porque o tempo é como o vento que passa sem ser visto e a inevitável morte, o caminho seguro, porventura delineado à nascença, que nos indica o fim do jornadear da nossa existência.

Por isso proponho que, nós, os octogenários, com um sorriso nos lábios, lutemos para valorizar e optimizar a vida que fruímos.

 

 

 

 

 

quinta-feira, 6 de janeiro de 2022

Santa Helena


Isto do Messenger, Facebook, etc. presta-se a algumas confusões. Estava eu no Facebook quando leio uma mensagem privada que tomei como sendo de um amigo e não era. Esse meu amigo é casado com uma senhora de nome Helena, que ele trata carinhosamente por Lena. Acontece que a senhora é crente e vai à missa todos os domingos. O meu amigo não é nada disso e até brinca um pouco com o assunto. A msg dizia: “A Lena fartou-se de descobrir relíquias e sítios santos”. Pensando que a msg era do meu amigo e que a sua mulher teria andado pesquisando na Net, respondi: Ela que leia O Baudolino do Umberto Eco que fica logo a saber como se fizeram as relíquias”. Muito espantado fiquei quando recebo de volta uma msg do meu filho a dizer que falava da Santa Helena mãe do imperador Constantino. Bronca! Assim metemos a pata na poça e enviamos msgs para pessoas que nada têm com isso. O certo é que me despertou a curiosidade e fui estudar essa santa Helena que eu desconhecia. Falemos da santa:
A Helena, também chamada Helena de Constantinopla, casou ou viveu com Constâncio Cloro Imperador de Roma que a repudiou para casar com uma princesa, Teodora Flávia qualquer coisa. A repudiada passou a cuidar apenas de seu filho Constantino que sucedeu a seu pai tornando-se imperador. Foi este que promoveu o concílio de Niceia e lançou as bases da religião cristã (ICAR). Julga-se que Helena já era seguidora dos cristãos, mas há quem afirme que foi o filho que a influenciou a professar tal religião. Helena adquiriu poder e influenciou seu filho para a reconstrução da cidade a que deu o nome de Constantinopla. A partir daí deve ter viajado para caraças porque segundo se diz andou pela palestina onde descobriu o santo lenho, o local da natividade em Belém e o santo sepulcro em Jerusalém. Parece que foram descobertas três cruzes no monte Gólgota e a nossa Leninha chamou uma doente de pele, talvez leprosa, que ao tocar numa das cruzes ficou curada. Vai daí a Lena catalogou essa cruz como santo lenho. Mais tarde apareceram tantos bocados que davam para fazer uma floresta (ler Baudolíno de Umberto Eco). Não sei como descobriu o local da natividade nem o santo sepulcro. A senhora deveria ser grande arqueóloga e também paleontóloga, pois só deveria haver ossos ou nem isso dado que JC se evolou. Parece que também deve ter andado pela Rússia onde foi descobrir as relíquias dos reis magos, os tais que ninguém sabe quem eram nem a que reinados pertenciam. Na palestina mandou erigir vários templos, tais como a Igreja da Natividade e a do Santo Sepulcro. Não sei quem a beatificou, mas com tantos atributos foi fácil fazê-la santinha. E assim, com uma confusão de msgs, fiquei mais culto.

José Luis Cruz, Ernani Balsa e 14 outras pessoas
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domingo, 19 de dezembro de 2021

Gato Preto, Gato Branco.

 

Já há muito que o meu filho me tinha falado num filme que classificou de excepcional e eu não cheguei a ver. “Gato Preto, Gato Branco” de Emir Kusturica, foi há alguns anos um êxito de bilheteira no nosso País. O filme tinha sido agraciado com um Leão de Ouro no festival de Veneza e teve excelentes classificações dos críticos. O Cinema Ideal na Rua do Loreto colocou novamente em exibição o filme agora com uma cópia restaurada. Desta vez não me escapou e fui vê-lo ontem. Depois de um trânsito infernal, nesta época anda tudo doido, consegui chegar à Praça de Camões para pôr o carro no parque. Tive de deixar a Catarina na esquina e que fosse andando para o cinema que eu tinha de guardar o carro. Conclusão: levei montes de tempo para entrar. Ora estava completo, ora livre, mas entrava-se a um e um. Lá consegui um lugar no piso -4 e tive de utilizar o elevador para sair e tentar “correr” até ao cinema. Cheguei uns bons minutos atrasado, coisa que me provoca um stress dos diabos. Ainda tive de mostrar o certificado de vacinação antes de me poder sentar. Parece que não perdi muito do filme. Mas falemos do dito:

No início o ambiente choca-nos um pouco pelo insólito das personagens, trajes e ambiente. A pouco e pouco vamos entrando na “história” e o choque vai-se desvanecendo. Numa comunidade cigana, penso que meios sérvios, que vive numa terreola à beira do Danúbio, vive-se de esquemas, trafulhices, roubos, festa e música. As pessoas, quase todas, feias, desdentadas, divertidas,  e trajadas de cores garridas, vão fazendo negócios duvidosos com soldados russos, tais como desviar comboios de vagões de gasolina. Um dos ciganos envolve-se num negócio com outro, “ganster”, rico, cocainómano e devasso, e fica a dever-lhe bastante dinheiro que não tem como pagar. O Malandro apresenta-lhe uma solução, casar o seu filho com a sua irmã mais nova, mas que não deve muito à beleza e é meia anã. Mas nem a anã, nem o filho do nosso cigano querem casar, uma porque está à espera do seu príncipe encantado e o outro apaixonado por uma linda rapariga filha da dona de uma tasca onde vende comida, bebida e cujo divertimento era, munida de uma carabina, atirar nos barcos que passam no rio destruindo os pertences dos seus proprietários. A partir daqui é o granel total. No casamento a noiva foge com o apoio do noivo e acaba por ser apanhada pelo filho de um outro “ganster”, esse ainda mais rico, altíssimo e de grandes bigodes e é o amor à primeira vista. Desata tudo aos tiros, mas lá se acalmam e resolvem por bem fazer dois casamentos. A música no filme é primordial e desde uma banda atada nas alturas ao tronco de uma árvore e de irem buscar um avô ao hospital com uma fanfarra a tocar por ali dentro e a tocarem nas festas, está sempre presente. No meio daquilo tudo dois gatos um macho branco e uma fêmea preta andam por ali como que a gozarem a maluqueira dos humanos, aproveitando tudo a que podem deitar a unha e fazendo “amor”. No fim acabam como testemunhas do casamento do rapaz. Cenas insólitas como uma partida que os noivos fazem ao “ganster” armadilhando-lhe a retrete de madeira  acabando o malogrado por cair dentro do “caldo”  interior e mal cheiroso à ressurreição de dois avôs que se pensavam mortos e tinham sido colocados num sótão com gelo em cima para que os funerais não adiassem o casamento, tudo aconteceu.

Dito assim parece uma comédia burlesca, mas não é, está lá muito ensinamento da vida. É realmente um filme insólito mas interessantíssimo. Valeu a pena.

domingo, 5 de dezembro de 2021

Tim-Tim

 

Até que enfim consegui ir ver a exposição do Tim-Tim que está na Gulbenkian. Uma exposição bastante completa e bem apresentada, mas é mais sobre Hergé e a sua dedicação à banda desenhada do que propriamente ao seu herói. Para alguém como eu, fã incondicional do Tim-Tim, não acrescentou muito.

Quando nasci, o meu herói já andava lá por casa. A revista O Papagaio apareceu em 1935 e a minha irmã também. A nossa tia e madrinha, irmã do meu pai, trabalhava na renascença e tratou de fazer uma assinatura, a que tinha direito, em nome da primeira sobrinha. Todas as semanas recebíamos pelo correio a revista que o funcionário dos CTT anunciava gritando “Pacagaio” o que nos fazia rir, mas corríamos a ir buscar a revista que nos deliciava. A primeira aventura de Tim-Tim publicada foi Tim-Tim no Congo que no Papagaio foi apresentada como Tim-Tim em Angola. A primeira aventura deste herói foi Tim-Tim no País dos Sovietes, mas Hergé deixou da editar por achar que era demasiado crítica e, portanto, já estava fora de contexto. Ainda não sabia ler e era minha mãe que me lia as filacteras e eu fazia-a voltar atrás quando algo não era para mim muito perceptível. Aos 6 anos entrei na primária e julgo que foi a vontade de ler sozinho as suas aventuras que me fez aprender a ler bastante depressa. Ficámos com as encadernações anuais da revista papagaio (11 volumes) que muito triste me deixou quando acabou. Todas as aventuras foram mais tarde redesenhadas e modernizadas por Hergê e passei a comprar os álbuns editados pela Casterman na sua versão brasileira. Muito mais tarde apareceu a revista Tim-Tim editada pela Bertrand. Era semanal e até em Angola a recebia enviada “religiosamente” por um tio da minha mulher, que líamos primeiro só depois a passando para o nosso filho. Infelizmente essa revista também acabou. Ficámos com cerca de 29 volumes que mandei encadernar e que ainda existem em casa do meu rapaz. Tudo o que saiu respeitante ao Tim-Tim eu adquiri ou me foi oferecido, inclusive alguns estudos apresentados por “experts” em Banda desenhada. O Tim-Tim era um herói infantil, mas muito lida também por adultos que viram nela não só aventuras infantis, mas também algo do íntimo de Hergé. Este foi por muitos acusado como anti-semita, misógino, etc. Chegaram a acusá-lo de alguma aproximação ao partido nazi. Penso que isso se deveu ao facto de querer continuar a trabalhar sem ser boicotado. Para mim, Tim-Tim ficou sempre o meu herói preferido. Para quem quiser ficar a saber muito do Tim-Tim, e seu “pai” Hergé, vale a pena visitar a exposição.

segunda-feira, 29 de novembro de 2021

Orfeu

 Orfeu

Não acredito em coincidências, mas algumas há que me encantam. Estava na Wikipédia a ler sobre Orfeu. Gosto imenso de mitologia grega e pena tenho de não a ter estudado em profundidade. Estava, pois, embrenhado na ida do dito aos infernos para resgatar a sua Eurídice, quando na TV a meu lado oiço uma música excelente e espantado fico quando vejo: “Descida de Orfeu aos infernos de Offenbach”. Não é extraordinário? Não fosse eu um impecável ateu e diria que aqui andaria o divino a mostrar-me os horrores infernais. Foi como se a lira de Orfeu me tivesse encantado. O trecho de Offenbach é curto, mas interessantíssimo, aliás de Offenbach além dos seus “Contos de Hoffmann”, conheço pouco. Fiquei agora mais culto. A propósito da Wikipédia, tenho reparado que, se soubermos aproveitar o que de bom tem, poderíamos tirar qualquer curso. Sorte têm os estudantes de hoje por terem à mão fontes tão interessantes de saber. Orfeu, talvez levado por Caronte, o barqueiro de Hades, não se safou. Trouxe realmente Eurídice, mas o malvado do demo obrigou-o a caminhar sempre à frente dela e só poder olhá-la quando chegasse ao mundo exterior. A paixão cegou-o e não conseguiu. Olhou-a antes e perdeu-a para sempre. Pobre Orfeu e, nem a sua lira, cuja melodia se sobrepunha às vozes das ninfas encantadoras, permitindo a passagem dos argonautas de Jasão, foi capaz de fazer regressar das profundezas a sua querida Eurídice. Triste. Lembrei-me agora do excelente livro de Orlando da Costa, pai do nosso primeiro, “Podem chamar-me Eurídice”. A personagem feminina, tal como a adorada de Orfeu, não podia voltar ao mundo exterior. Aproveitem e leiam-no.

sábado, 6 de novembro de 2021

O Último Duelo

 

Ontem foi sexta-feira, o dia em que normalmente vou ao cinema. Olhando para o cartaz resolvi ir ver O Último Duelo do Ridley Scott. Não ia muito entusiasmado, mas acabei por ver um belíssimo filme. Uma história de traição e vingança passada na França do século IV em plena guerra dos cem anos. Scott apresenta um filme tecnicamente muito bem feito, com cenários impecáveis que nos transportam para a vida nos castelos em plena Idade Média, com o seus cavaleiros e damas excelentemente bem ataviados nas suas armaduras e vestidos sumptuosos, mas ao mesmo tempo num ambiente demasiado sórdido e de pouca limpeza que nos dá a ideia que debaixo daqueles adereços muita sujidade e maus cheiros devem abundar. A história é baseada num livro de Eric Jager que por sua vez relata factos reais.

Matt Damon é Jean de Carrouges, um cavaleiro nobre que casa por interesse com Marguerite (Jodie Comer), mulher muito bela por quem acaba por se apaixonar sendo correspondido e ficando a viver no castelo da família juntamente com sua mãe, figura um pouco sinistra de sogra que se sente segunda figura com a entrada de Marguerite. Este cavaleiro combate o lado de Jacques Le Gris (Adam Driver) um escudeiro culto e de rara inteligência, de bela figura muito falado entre as damas da corte, mas cuja fama de mulherengo as afasta. A corte é na Normandia nos domínios do Conde Pierre d’Alençon (Bem Affleck) protector de Le Gris e invejoso de Carrouges. Le Gris cobiça Marguerite e acaba por violá-la numa altura em que Carrouges está fora e a sogra a deixa só no Castelo deslocando-se com todos os criados e aias. Heroicamente e com coragem Marguerite acusa Le Gris junto do marido exigindo castigo e reparação. Marguerite e o marido ainda não tinham conseguido uma gravidez, que tardava o desejo de terem um varão, engravida precisamente nessa altura. O cavaleiro de Carrouges acredita na sua mulher e para que não lhe fique a sensação última de ter sido possuída por um violador exige que sua esposa se lhe submeta sexualmente apesar dos protestos desta. Quanto a mim uma violação a seguir a outra, mas marido era dono e senhor. Numa época em que a mulher era completamente dependente do marido, quase seu dono, em que a sociedade não lhe dava crédito e a Igreja Católica as condenava logo de início, como pecados vivos, o assunto acaba exposto ao rei adolescente, em Paris, Carlos VI que autoriza o julgamento, que segue sob o jugo da Igreja expondo Margarite a situações absolutamente impensáveis, mas esta suporta heroicamente a situação. Como Le Gris nega que tenha sido violação, Carrouges exige um duelo de morte deixando a Deus o apuramento da verdade. O rei acaba aceitando essa prática que há muito estava posta de parte e os esbirros da ICAR fazem ver a Margarite que, caso o seu marido seja derrotado ela será supliciada e queimada viva. Muito simpáticos, aqueles pequenos.

O interessante do filme é que a história é narrada por cada um dos protagonistas vendo-se em “flash back” as imagens dessa narração.

O Duelo realiza-se com uma violência atroz. Excelentes cenas que colocam o expectador na liça.

Como sei que os meus leitores facebuquianos não vão ao cinema vou contar o final.

Le Gris acaba morto por Carrouges. Este e Margarite saem aclamados pelo povo.

No final ficamos a saber que Carrouges morre numa cruzada dois anos depois e que Margarite vive mais 30 anos com o seu filho, governando excelentemente as suas terras.

Resta-me referir que as cenas de guerra são tremendamente reais e que, para mim fica a ideia que a violação, não muito violenta, não tenha sido totalmente desagradável a Marguerite (enfim pensamentos de um pecador).