Recordações...
quarta-feira, 24 de março de 2021
Kon-Tiki
terça-feira, 26 de janeiro de 2021
Karnal e Eu.
Não conhecia Leandro Karnal. Normalmente não me interesso muito por intelectuais brasileiros. Encontrei-o na Net e o facto de ser ateu moveu a minha curiosidade. Logo numa das primeiras audições achei que homem tinha tido uma experiência religiosa muito parecida com a minha. O homem é um portento. Historiador, filósofo e professor, fala com uma dicção excelente e uma clareza extraordinária. Claro que comparar Karnal comigo é um abuso da minha parte. Até devia mudar o título deste meu texto. A sua estrutura intelectual não tem nada a ver comigo. Karnal fala com todos de uma forma tão serena e atenciosa que prende crentes e não crentes. Conhecedor da história das religiões, ao falar não hostiliza ninguém e apresenta factos das religiões como se os considerasse totalmente verdadeiros. E é aqui que está uma grande diferença de mim quando falo de religiões. Eu sou muito mais acutilante e às vezes demasiado agressivo na apresentação das minhas ideias. “Mea culpa”. Karnal fez-me ver que tentar incutir na cabeça dos outros aquilo que nós cremos ser a verdade, é errado. Mas, se pudesse estar a sós com Karnal, gostaria imenso de lhe fazer umas perguntas. Vamos ver se consigo expor as minhas ideias. Karnal, em várias das suas exposições, apresenta passagens dos evangelhos, como se as mesmas tivessem sido verdades, não sei se para colocar nas mentes dos ouvintes a ideia de que aquilo de que fala é uma forma de regra social, se acredita mesmo na veracidade do facto. E isso confunde-me. Vamos, pois, tentar criar em pensamento, uma sala onde eu e Karnal estivéssemos juntos. Então eu teria uma pergunta para ele:
“Dr. Karnal, o senhor nas suas
dissertações cita muitas vezes frases e actos de Jesus. E, nessas citações, dá
a ideia que acredita na veracidade daquilo que foi dito. Sendo o Senhor, além
de filósofo um historiador, de certeza sabe que está provado que o evangelho
mais antigo, foi escrito 70 anos depois da pretensa data da morte de Jesus, e o
último cerca de 100 anos depois. Também sabe que os mesmos não foram escritos
por Mateus, Marcos, Lucas e João, mas sim segundo estes. Portanto, estes homens,
se por acaso seguiram Jesus, teriam na altura no mínimo 20 anos. Parece-me que
pessoas com 90 anos ou mais não estariam em condições de relatar com exactidão
tudo aquilo que está escrito em grego, por escribas que certamente ouviram
estes relatos em aramaico, língua que se falaria nessa época na Palestina. Por
outro lado, também certamente sabe que evangelhos houve muitos, mas canónicos
só esses quatro, por serem os únicos que endeusavam Jesus. Como grande historiador
que é e, também um excelente conhecedor da história das religiões, certamente
se apercebeu da similitude da história de Jesus com outros deuses redentores,
tais como Hórus, Mitra, Dionísio e mais alguns. Quer-me parecer, portanto, que
tais escritos não passam de mitologias tais como a vida dos deuses, egípcios,
gregos, romanos, etc… será assim?”
Não sei o que me responderia, mas
certamente não me deixaria na ignorância.
Aproveito para recomendar que vão
à Net ver e ouvir Leandro Karnal. Vale a pena.
sexta-feira, 18 de dezembro de 2020
Goa: quase seis décadas depois
Hoje tomei a liberdade de postar aqui no meu blog uma carta publicada no Diário de Notícias, da autoria do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas, cidadão português originário de Goa.
"18 Dezembro 2020 — 10:24
Em finais de 1960, quando vivia em Goa, creio que nem o governo português nem eu imaginávamos que um ano depois, precisamente no dia 18 de Dezembro de 1961, Goa pudesse ser invadida, conquistada e anexada pela União Indiana, pois o intransigente Salazar acreditava que a Inglaterra e a NATO dissuadiriam Nehru de tomar essa iniciativa e este não gostaria de ver o seu nome manchado com prática de uma política belicista. Todavia, a realidade é por demais conhecida: após consumação do facto, uma montanha de gelo interpôs-se entre os dois países.
Com a revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal, na pessoa do seu Ministro
de Negócios Estrangeiros, Dr. Mário Soares, em 31 de Dezembro desse mesmo ano,
aceitou de forma oficial a integração e reconheceu a situação de facto
existente em Goa, sem conhecimento nem mandato dos goeses, e sem negociar e
garantir um estatuto especial para Goa.
Todavia, no artigo IV do "Decreto n.º 206/75 do Tratado entre a Índia
e Portugal Relativo ao Reconhecimento da Soberania da Índia sobre Goa, Damão,
Diu, Dadrá e Nagar Aveli e Assuntos Correlativos", consta:
Será concluído o mais brevemente possível um acordo cultural entre Portugal
e a Índia. As Partes Contratantes acordam em tomar medidas para desenvolver
contactos no campo cultural e, em particular, na promoção da língua e cultura
portuguesas e na conservação de monumentos históricos e religiosos em Goa,
Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli.
Assim, mais uma vez, desde a conquista portuguesa daquela terra oriental,
Portugal e Índia decidiram sobre Goa e jamais consentiram que os goeses
deliberassem sobre o seu futuro.
Como escreveu o general António Ramalho Eanes, Presidente da República
Portuguesa, "Outro destino merecia Goa, bem diferente do que
sofreu"..."possuía ou podia criar todas as condições para decidir
sobre o seu futuro e viver em paz e progresso"...faltou a Salazar o golpe
de asa para fazer de Goa o Brasil do Oriente ("A injustiçada Goa", in
Revisitar Goa, Damão e Diu, pp. 15-19).
Entretanto, lutando pelos seus direitos, no "The Goa Opinion
Poll", - que na prática tratou-se de um referendo -, realizado em 16 de Janeiro
de 1967, os goeses decidiram permanecer na União Indiana, votando contra a sua
fusão no Estado de Maharastra; posteriormente, em 30 de Maio de 1987,
conseguiram que Goa fosse declarado Estado autónomo; e em 20 de Agosto de 1992
o concani foi reconhecido como língua oficial.
Contudo, a negligência no cumprimento do artigo IV do Decreto n.º 206/75,
designadamente, "na promoção da língua e cultura portuguesas",
revelou-se por uma lenta agonia da utilização da língua portuguesa nos meios de
comunicação social em Goa que até o resistente O Heraldo, primeiro diário de
todo o Ultramar português, em 1983, deixou de publicar na língua de Camões.
Porém, Homem Cristo Prazeres da Costa, filho do falecido Amadeu Prazeres da
Costa, antigo redactor principal e editor de O Heraldo, com apoio do actual
editor Alexandre Moniz Barbosa e de Raúl Fernandes, dono e editor-chefe do
mesmo jornal, a partir de 6 de Setembro de 2020, introduziram, nesse jornal,
uma secção semanal em língua portuguesa, que tem vindo a ser publicada
regularmente.
Sabemos que existe um plano de infra-estruturas para Goa, - com conversão
de auto-estrada NH4A em quatro faixas, a duplicação da linha férrea, para
acelerar o processo do transporte de carvão, e instalação da linha de
transmissão eléctrica para facilitar esse transporte -, que ameaça a floresta e
a vida selvagem da área protegida do santuário "Bhagwan Mahaveer" e
Mollem National Park, e poderá provocar o corte de muitas dezenas de milhares
de árvores.
Sabemos também que de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2021, Portugal vai
assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, cujo lema será:
«Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital».
António Costa, primeiro-ministro português, numa conferência realizada na
Universidade Católica, em Lisboa, defendeu que "Portugal destacou-se
sempre na Europa como uma plataforma de ligação à escala global" e afirmou
que "em matéria de política externa, a jóia da coroa da presidência
portuguesa será a realização da cimeira de todos os líderes europeus com o
primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em 08 de Maio, no Porto".
Em relação ao lema português, as palavras de António Guterres,
secretário-geral da Organização das Nações Unidas, avalizam a justeza e o valor
dos objectivos traçados, em contraposição com os da Índia, quando afirma que a
Índia precisa de parar de construir infra-estruturas baseadas em carvão e
focar-se na geração de energia renovável para ajudar na luta global contra as
mudanças climáticas e tirar a sua população da pobreza. Acrescentando
"Investir em combustíveis fósseis significa mais mortes, doenças e aumento
dos custos de saúde". "Resumidamente, é um desastre humano e ruim
para a economia".
Como português e goês, que prezo ser, gostaria de lembrar ao meu
primeiro-ministro, Dr. António Costa, que Portugal deve honrar os seus
compromissos, designadamente o artigo IV do Decreto n.º 206/75, e jamais
esquecer que Goa foi a jóia da coroa portuguesa, terra que deu fama e glória a
Portugal em todo o mundo.
Por isso, gostaria de lhe fazer dois pedidos:
Primeiro: - Como a língua é uma mais-valia universalmente reconhecida e o
português é a sexta língua mais falada no mundo, - para benefício da Índia e
Portugal, que propusesse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a feitura
de um acordo conjunto entre Portugal, Índia e Goa para a promoção e dinamização
da língua e cultura portuguesa em Goa.
Segundo: - Como o lema da presidência portuguesa será: «Tempo de agir: por
uma recuperação justa, verde e digital», - e o transporte de carvão importado
para a Índia é também feito através do território de Goa, a partir do porto de
Mormugão, com grave prejuízo para a saúde dos goeses -, que sensibilizasse e
solicitasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que seguisse o conselho
do Dr. António Guterres e poupasse Goa mandando reavaliar o nefasto problema do
transporte de carvão através do território goês, que tem provocado doenças
respiratórias graves e protestos populares, havendo até quem escreva nos
jornais, em Goa, dizendo que estamos perante um novo colonialismo.
Tomo a liberdade de lembrar ao Dr. António Costa, primeiro-ministro
português, que, tendo Portugal uma dívida de gratidão para com Goa, não pode
abandoná-la, permitindo que seja sujeita a uma política governamental
perniciosa para a sua biodiversidade e saúde populacional."
Historiador
sexta-feira, 4 de dezembro de 2020
Carpe Diem
Raramente posto aqui no meu blog algo que não seja meu. Hoje vou aqui transcrever um artigo do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas. Um português natural de Goa. Historiador, escritor e meu companheiro diário da piscina de Benfica. Aqui vai. Apreciem:
segunda-feira, 30 de novembro de 2020
Tomaz Alcaide
Hoje, ao ouvir Biemiamino Gigli, lembrei-me do nosso esquecido Tomaz Alcaide https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_Alcaide
domingo, 15 de novembro de 2020
A quinta do meu padrinho
Quando nascemos temos de ser
registados. Nesse registo eram necessárias duas testemunhas. Não sei de onde
veio o conhecimento, mas um dos meus padrinhos foi Joaquim Ribeiro de Carvalho https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Ribeiro_de_Carvalho.
Na quinta da Bela Vista passei muitos dias de brincadeira e assisti à feitura
de vinho, matança de porco, etc. Lembro-me que não gostei nada da primeira
matança a que assisti. O pobre bicho fez tal berraria quem me impressionou
imenso. O meu padrinho morreu em 1942. Eu tinha ido para o Cacém em 1941 com
apenas 4 anos. Conheci-o, portanto apenas um ano, mas tenho na memória a sua
figura. Era um homem imponente, alto, já um pouco gordo. Usava óculos e andava
sempre pela quinta dando ordens e verificando os afazeres dos empregados. Usava
botins de cano, de atanado, com solas cardadas. Gostava de o ver, mas infundia,
na minha mentalidade de criança, um misto de respeito e receio. Um dia, o seu
motorista, com um carro enorme, americano, tipo Dodge ou coisa parecida, fez um
curto recuo para arrumar o carro, não reparando que o meu padrinho estava atrás
e tocou-lhe nas pernas desequilibrando-o. Homem pesado como era, caiu
desamparado e bateu com a cabeça na estrutura do carro, naquele tempo em chapa
muito forte. Chamaram-se os bombeiros pois a ferida na cabeça era um pouco
grande e sangrava imenso. Foi operado no Hospital de São José a um traumatismo
craniano com fractura. Veio para casa em recobro. Lembro-me de estar ao pé dele, sentado na
varanda ao sol, onde passava os dias lendo. Passados uns tempos, sentindo-se
mal, voltou ao hospital tendo sido operado de novo. Nessa operação
extraíram-lhe uma lasca óssea que tinha passado despercebida na primeira intervenção.
Já não regressou e morreu pouco tempo depois. No Cacém houve grande
consternação pela sua morte.
Continuei a visitar a quinta mas,
já não com assiduidade. A quinta era grande e havia zonas da mesma que nós, os
rapazes da zona, frequentávamos saltando os muros e fazendo as nossas
explorações. Foi num desses “assaltos” que descobri uma enorme gruta onde se
encontrava uma cama já meio desfeita, uma mesa e alguns utensílios de cozinha.
Viam-se também alguns livros meio desfeitos e manchados pela humidade. Mais
tarde vim a saber que era um refúgio onde o meu padrinho se escondia da polícia
política, a famigerada PIDE. Como podem ver no artigo da Wikipédia, Ribeiro de
Carvalho foi um defensor da 1ª República e obviamente um elemento contra ao
Estado Novo. O jornal República foi muitas vezes censurado e o meu padrinho
procurado pela PIDE. Os seus companheiros de luta contra Salazar, Araújo e Sá e
o Dr. Ramon de La Feria, passaram alguns anos na prisão, mas Ribeiro de
Carvalho nunca era encontrado por se esconder na tal gruta que não era fácil de
descobrir. Nunca soube se o meu Pai foi ou não incomodado por essa amizade. No
Cacém, a quinta da Bela Vista, foi sempre apelidada por Quinta Ribeiro De
Carvalho e a minha rua também tinha o seu nome. O seu filho, Rui Ribeiro de
Carvalho, não residindo lá, manteve a quinta durante muitos anos. Foi nessa
quinta que comecei a treinar os meus tiros às rolas, pois ali era um ponto de
passagem. O filho mais velho do motorista, cuja família continuou a morar numa
das residências, era um grande caçador e deu-me algumas lições de como atirar.
Dei cabo de muitos cartuchos ao meu Pai. Desde que a minha mãe e irmã morreram,
que deixei de ir ao Cacém, mas quando por lá passava, junto aos muros de
bonitos azulejos portugueses, lembrava sempre a figura de Ribeiro de Carvalho,
na sua imponência, com as calças metidas para dentro dos botins, a comandar as
operações. Os seus amigos diziam que o homem tinha sido assassinado por
propositadamente lhe terem lá deixado a esquírola óssea. Claro que não acredito
que médicos tivessem entrado nessa. Ribeiro de Carvalho foi uma figura que me
marcou, mais pelo que vim a saber do que pelo pouco que conheci dado a idade
que tinha. Hoje, ao fazer umas pesquisas na NET reencontrei-o.
segunda-feira, 2 de novembro de 2020
O COVID
Pois. Esse bicho ranhoso e
peganhoso, com cara de extraterrestre com cornetas nos cornos, esse miasma
peçonhento que mata que se farta, principalmente velhos. E continuo a dizer,
pois! Se me apanha lá vou para o bé-lé-léu, mais a mais com a pneumonia que
tive vai para 13 anos. Estávamos em 2007, era o último dia de caça e tínhamos
marcado a reunião de prestação de contas e eu era o tesoureiro. Estava
constipado, a mulher idem e a sogra também. Claro que não deixei de ir mesmo
com uma tosse de cão e a espirrar de 5 em 5 minutos. Esta mania do espírito de
missão. Cacei a manhã toda, estava uma ventania do caraças. Após almoço fizemos
a nossa reunião e eu apresentei contas. Tínhamos uma máquina de lançar pratos e
alguém sugeriu que fizéssemos um torneio. Com tossidela daqui e espirro dali
ainda ganhei o torneio a 15 pratos. Fui o único a partir 10. No fim do torneio
a tosse era cavernosa. No dia seguinte tive de mandar a minha sogra para o
hospital e eu fui à consulta urgente. Mandaram-me para casa com montes de
comprimidos e xaropes. Entretanto a minha Sogra faleceu. No dia do velório uma
médica amiga ao ver a minha tosse diz-me que me quer ver no dia seguinte no
Pulido Valente onde prestava serviço. Já não saí de lá. Foram 10 dias para me
restabelecer. Nem fui ao funeral. E agora? Se este Covid me pega…
Pois. Lá estou eu com o pois.
Pois é. Houve uma suspeita de contágio e eu “corro” para o hospital. A mulher
dá positivo e eu negativo. Grande caca. Divido a casa ao meio, vou dormir para
o maple… pois sim, no dia seguinte começo com febre e no outro dia volto ao hospital.
Ora toma; Positivo. E agora? Benuron, Brufene e nada mais. Digo-vos: Tive
constipações mais chatas. Ao fim de 10 dias não tinha sintomas, ao fim de 14
estava com alta. Isto é que era o Covid? Afinal mata velhos, mas não todos.
Estou convencido que só indivíduos diminuídos fisicamente ou com outras
doenças, são apanhados pela foice covídica.
Ouvindo as notícias parece que 96%
dos “agarrados” são tratados em casa apenas pelo tempo. Dos outros 4% que são
hospitalizados só 0,5% vai para os cuidados intensivos.
E pronto, lá mandámos o Covid ás
couves e o gajo nem quis saber se eu já tinha sido ou não um pneumónico. A
grande chatice é que isto é altamente contagiante e o pessoal tem que entrar em
confinamento e não trabalha, o que pode fazer parar um país. Agora vou
sossegadamente esperar por uma vacina e, se vier o tal remédio do Trampas,
vamos todos tomá-lo que o rapaz precisa de reactivar a economia. Cuidem-se.
