sábado, 8 de junho de 2013

Conflito de gerações, medo ou irreverência?


Todos os dias, estando em Lisboa, vou nadar à piscina da Junta de Freguesia de Benfica. Vou a pé, de saco às costas, faço exercício físico e volto a casa mais bem-disposto. Ando nisto vai para três anos. Neste espaço de tempo e, acabei de escrever uma calinada porque tempo não tem espaço, direi antes, por todo este tempo, já fiz conhecimento com muitos dos companheiros que, como eu, gostam também de fazer o seu exercício físico. Eu sou dos mais velhos, mas aparecem lá de todas as idades. Todos nos cumprimentamos mesmo que sejamos desconhecidos. O “Bom dia” á chegada e o “Até à próxima” à saída, não custa nada a dizer e fica bem a todos. Enquanto nos despimos ou vestimos e até enquanto tomamos banho de chuveiro, vamos dizendo as nossas piadas e contando umas anedotas e, muitas vezes as conversas ficam bastante interessantes pelos temas versados.
Vem tudo isto para contar o seguinte episódio: Um destes dias, ao entrar, disse bom dia a três jovens, talvez na casa dos 16 aos 18, que já se encontravam equipados para irem nadar. Apenas um me respondeu e muito sumidamente, como se dizer-me bom dia lhe metesse medo ou se lhe caíssem os parentes na lama por cumprimentar um desconhecido. Regressámos findos os três quartos de hora de exercício e os rapazotes continuaram conversando entre eles animadamente. Após o banho e vestirem-se, saíram sem dizer água-vai. Ainda gritei bem alto “ Bom dia”, mas qual-quê, nem um foi capaz de me responder.
Uma das coisas que os meus pais me ensinaram, e depois todos os meus mestres, professores e militares dos Pupilos do Exército, onde estudei, foi que devíamos ser afáveis e educados para toda a gente, cumprimentando, agradecendo e pedindo as coisas por favor. Mais tarde tive oportunidade de leccionar, quer no Colégio Militar quer em instituições militares por onde passei e, aos meus alunos transmiti sempre que a educação cívica não fica mal a ninguém ao contrário da má educação que só afasta as pessoas e classifica muito mal quem a pratica.
O que será que leva a juventude a proceder assim? Não sou psicólogo nem sociólogo para os poder classificar, mas dá-me a sensação que agem assim por medo. E este medo é o da aproximação. Talvez não se queiram aproximar por depois não serem capazes de estabelecer ligações com pessoas estranhas ao seu meio e com conhecimentos e gostos diferentes. Será? Mas também poderá ser por irreverência. Os mais velhos estão fora do seu mundo e eles não querem que se metam nele… será?
Outra coisa que reparei foi que os rapazes não se despiram ao pé de nós. Ali todo o mundo anda nu à frente uns dos outros e ninguém tem vergonha de mostrar as “desgraças”. Para mim o nu nunca me fez confusão, nascemos nus, andamos nus em pequenos e só nos tapamos quando tomamos consciência do sexo. A educação judaico-cristã tornou o sexo impuro e, a partir daí escondemos os órgãos sexuais sendo considerado pecado mostrá-los despudoradamente. Talvez a educação num colégio interno me tenha varrido essa ideia da cabeça. Mas, os homens juntos não têm pudor e as mulheres também não (às vezes). Estes rapazes tomaram duche e ensaboaram-se de fato de banho vestido e despiram-no de toalha enrolada à cintura fazendo uma autêntica dança do ventre para conseguirem retirar o fato. Tornou-se caricato. Fiquei a matutar naquilo. Porquê? Medo das comparações? Educação  demasiado clássica? Se foi por isso não se compreende o não “Bom dia” a ninguém. Olha! Estou-me nas tintas. A má educação só fica mal a quem a pratica.

Pelo menos o episódio já teve o mérito de me ter feito encontrar assunto para escrever no “blog”, coisa que não fazia já há uns tempos.

sábado, 4 de maio de 2013

Manhã de sábado


Hoje a hora da piscina é tardia e não dá nenhum jeito. Substituo as mais de 30  piscinas, que normalmente faço, por um passeio a pé aproveitando um salto à “Evian” para tomar café. O rapaz atrás do balcão não precisa que lhe diga nada e tira a “bica” escaldada como a aprecio. Os rostos nas mesas são os mesmos do costume, penso para comigo como é que no meio da crise as pessoas ainda tomam pequenos-almoços na pastelaria. Deixo rapidamente o balcão e continuo o passeio. Passo pelo busto do fundador do Uruguay, José Artigas, e pergunto-me o que tenho a ver com aquele “gajo”, penso melhor e até tenho, foi um lutador determinado por uma causa e é um ser humano, só por isso já o merecemos ali, na avenida com o nome do seu País, é também um homem que ficou na história e, portanto, o conhecê-lo uma forma de cultura. Muito aprenderíamos se olhássemos a estatuária da cidade com olhos de ver, só que passamos por elas e não ligamos demasiado ocupados com a vida quando na nossa cidade e, só notamos os pontos de interesse quando nos deslocamos a outras terras. Passo na banca do alfarrabista e dou uma vista de olhos aos livros velhos vendidos a um euro não descobrindo nada de interesse, também para que quero mais livros se ando a ler dois em simultâneo e já não tenho móveis nem espaço para meter mais. Sigo até ao largo da igreja de Benfica onde ao sábado, há bancas de artesanato e bijutarias. Deixo para trás o velho chafariz, onde os pombos, cabisbaixos, permanecem esperando a comida que dantes lhes caía do céu qual maná no deserto, bem podem aguardar, a edilidade cortou-lhes a ração oferecida atirando cá para fora uma postura proibitiva. Neste país tudo se proíbe, esquecendo que “o proibido é o mais apetecido”. Ali, e neste caso, não, a polícia anda por perto e actua, os pobres bicharocos alados é que não esquecem que ali é que era bom, ficando a aguardar que um transeunte mais afoito lhes deite algo comestível como antigamente. Passo pelo quiosque e paro atrás de uma fila que lê os jornais expostos em duas colunas presos com molas de roupa, “alfinetes, como a minha avó lhes chamava, alfinetes porquê se aquilo nada tem de semelhante coisa? talvez por serem para a roupa, pois nessa é que se espetam alfinetes, coisa de costureira com certeza. À esquerda os jornais com a crise, nas primeiras páginas mais cortes anunciados pelo governo, à direita as “façanhas” do Nosso Benfica abençoado por “Jesus”. Deviam estar ao contrário, o governo à direita e o futebol à esquerda, pois esse é que é do povo, o outro é do capital. Não leio nada de novo que não tenha visto já na TV. Vou um pouco mais longe até ao jardim junto do mercado onde a junta de freguesia promove actividades desportivas e culturais, para lá chegar passei junto ao mercado onde à volta enxames de ciganos e passantes se entrecruzam, uns vendem outros compram ou discutem preços. Raparigas de cor com saias curtas e “collants” justos, deslocam-se meneando as ancas. Mais à frente, debaixo de toldos, montes de bancas dos ciganos vendedores de roupas numa algaraviada de pregões e chamamentos. No jardim, matronas sessentonas com camisolas vermelhas e iguais, distribuídas pela junta, correm atrás de bolas tentando metê-las em exíguas balizas balanceando e sacudindo as carnes já volumosas. Mais à frente ainda, alguns garotos, em cima de um xadrez gigante, movem e brincam com as peças não sabendo o que fazem. Nas mesas de pedra, tabuleiros de xadrez, tristes por abandonados, deviam ter sido substituídos por damas ou gamão, jogos mais ao gosto dos reformados deste país, para jogar xadrez seria preciso outra cultura ou outras gentes, isto aqui não é a Rússia. Deixo o jardim e entro no mercado onde a azáfama é enorme, bancas cheias esperam os clientes que muito passam mas pouco compram, provando que esta crise não é o caminho certo. Olho os carapaus e penso que os estaria assar se estivesse na minha aldeia saloia, Assafora, onde se “assa fora” de casa, será que vem daí o nome?
Já dentro do portão da mata de Benfica sento-me num banco olhando os altos cedros e eucaliptos recordando a infância quando no “Pilão” saltava o muro para ir ali aos ninhos que referenciava memorizando árvores e locais. Num banco ao perto, um casal de namorados, de pernas entrelaçadas, lambuza-se e apalpa-se num jogo desenfreado de desejo incontido, alheios a tudo e a todos e estando-se nas tintas para quem observa. Recordo os meus namoros de juventude quando procurávamos esconderijos para trocar uns beijos e outras pequenas malandrices que agora nos parecem demasiado ingénuas. Penso que os jovens de agora são mais sãos, mostram o que fazem sem medo nem vergonha.
A manhã já vai adiantada e resolvo voltar a casa. Na estrada de Benfica passo por um pedinte, de meia-idade, sentado num pano junto à parede, mostrando um coto de perna que já foi. Uma caixa de cartão contém alguns cêntimos e até uma moeda de euro. Conheço aquele homem há anos e penso que já deve estar rico. Alapardado junto à parede nem se dá ao trabalho de pedir, quem se condoer que poise o óbolo, mais valia que lho metessem sob a língua, para que Caronte lhe transportasse a alma até ao descanso eterno. Entretanto vai-se dedicando a limpar o nariz atirando as excrescências macacoides das fossas nazais, contra a parede com um “plic” de unha bem aplicado. Aquela parede já deve estar bem revestida e muito trabalho dará aos arqueólogos daqui a uns milhares de anos, quando desenterrarem ruínas de Lisboa soterrada por sucessivos terramotos, senão destruída por qualquer conflito atómico, para descobrirem porque numa parede se encontra ADN humano.
Volto para casa mais enriquecido. Ligo a TV, os “passos” do Passos continuam a lixar-nos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril, que saudade…


Recordo Nampula quando nas nossas reuniões secretas, para nós, porque a PIDE sabia bem delas, o meu amigo Gabriel Teixeira, grande militar, corajoso, de bom-senso e probo, que presidia, dizia: “Será que temos de pintar estes gajos de preto para conseguirmos fazer-lhes frente”. Hoje a frase parece-me estúpida e certamente também acontecerá o mesmo aos outros que por lá militavam. A guerra tinha sido e era feita contra pretos. No início, os acontecimentos, marcaram as pessoas que foram para aquela guerra cheios de razão e dever pátrio. Coitados dos nossos irmãos angolanos de pele escura que tinham muito mais motivações para fazerem aquela guerra do que nós. Pena que tenham começado tão mal e tenham encontrado pela frente, um dirigente português, obtuso e casmurro Hoje, certamente, pensarão que terão de pintar os seus dirigentes de branco para acabarem com eles, pois governam enriquecendo e deixando o povo na miséria. Certamente hoje teríamos dito o mesmo de outra maneira. O 16 de Março deixara-nos tristes e estupefactos e havia em nós o sentimento que era preciso fazer algo. Felizmente não foi necessário porque o 25A chegou. Grande alegria e muita esperança. Esperança nos homens lusos que haveriam de transformar o nosso país em algo bem diferente do que fora até ali.
Infelizmente, a partidarite começou a tomar conta das coisas. Invadiram os centros de poder e dividiram os militares que se deixaram partidarizar. Mais uma vez, os militares de Abril, e desta nem todos, colocaram as coisas no são. Mas por pouco tempo. Os políticos, alguns do 26 de abril, começaram, tal qual saturno, a engolir os filhos fazedores da revolução. Enquanto não correram com os militares dos centros de poder não descansaram, e não só correram com eles, como surdamente começaram uma campanha contra a tropa, que ainda hoje perdura. Mordem a mão que lhes deu a liberdade.
Tenho saudades de homens como Gabriel Teixeira, de quem já falei, Ramalho Eanes, grande e valente militar com também grande senso político, Melo Antunes, infelizmente já desaparecido mas excelente pessoa, bem politizada e mentor do programa do MFA e documento dos 9, Vítor Alves, homem culto e com ideais de justiça e, muitos, muitos outros. Outros ainda andam por cá e com voz, que nunca lhes doa, Vasco Lourenço, Presidente da A25A e grande crítico da actual situação e, até Otelo Saraiva de Carvalho que, infelizmente andou por caminhos um pouco ínvios, mas é também uma voz crítica do sistema.
Poderia falar de muitos mais. Penso não ser necessário. Esta república está a ficar igual à 1ª. Tenho muito receio que seja preciso acabar com ela. Se for, que tenhamos o bom-senso de não descambarmos para a ditadura. Aliás, isso hoje já não é tão possível como naquela época, mas nunca se sabe.
Que apareçam novos políticos de mentes abertas, sem ânsia de poder e dinheiro, que consigam trabalhar em prol da nossa população e comunidades. Que privilegiem a educação e cultura para que as populações se consciencializem do que é melhor para elas, de forma a obterem o que lhes é de direito, sem recurso a estratagemas de obtenção de dinheiro fácil. Um povo culto e educado facilmente transforma uma sociedade. Como estamos não vamos lá. A qualidade do nosso povo é baixa. Basta andar de autocarro para o verificarmos. Mas já há uma boa camada de juventude bem preparada que poderá fazer algo por este país, se não se concentrar só na obtenção do seu próprio bem-estar. Devíamos aproveitar estes para começarmos. Não será no meu tempo, mas gostaria que o meu filho ainda pudesse vir a viver numa sociedade transformada. Para o bem, claro. Viva o 25 de Abril.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

O MELRO

Aqui, nesta aldeia saloia às portas de Lisboa, durmo melhor. O sossego, a menos claridade no quarto, uma cama maior e colchão mais rijo, dão-me melhor descanso. Levanto-me cedo para quem nada tem a fazer. Menos das oito já estou na banheira e pelas nove, de pequeno-almoço tomado, saio para cumprimentar os cães amigos que ansiosamente já me esperam ao portão. Depois dos latidos de satisfação e de muitas festas, atravessamos a estrada, direitos aos campos. Contentes, correm à minha frente, farejando tudo quanto é sítio, como se cães de caça fossem. No campo, vários homens plantam cebolos em regos direitinhos. Uns vão colocando os cebolos, lado a lado e equidistantes, enquanto os outros os seguem cobrindo as raízes com terra. Observo-os durante uns instantes e olho o mar, um pouco longe. Uma mancha de nevoeiro, a algumas milhas da costa vai direita à Ericeira passando por Mafra e segue continuando pelas terras que ladeiam o IC19. O dia aqui está lindo e descansa-me. Como é bom poder usufruir desta paz. Um casal de perdizes corre à minha frente, certamente terão ninho que deve estar perto. Nesta época, normalmente, ainda chocam os ovos, mas têm de comer e abandonam o ninho durante alguns instantes. Raramente levantam voo e correm sempre numa direcção contrária à do ninho. Depois, quando o perigo passa, é que lá se dirigem. Deixo os campos e volto à estrada para ir tomar café. Os meus companheiros caninos esperam-me junto à porta abanando os rabos de contentamento quando volto para junto deles. Ao chegar a casa oiço um esvoaçar numa palmeira que tenho num mini-jardim em frente à casa. Deve haver ninho por aqui. Oiço de novo o esvoaçar e acho estranho. Então o pássaro não foge? Um pipilar não normal aguça-me a curiosidade. Lá está ele. Um melro ainda bebé, que deve ter ensaiado os primeiros voos há bem pouco tempo, está preso com uma asa espetada num espinho da palmeira. Vou buscar um banco e consigo soltar o pobre bicho, não sem me picar bastante. Enquanto isso, os pais esvoaçam e chilreiam por cima de mim. Pouco faltou para me agredirem. Uma das asas está muito maltratada. Fico sem saber o que fazer. Se o deixo no chão os cães apanham-no e era uma vez. Se o escondo demais os pais não o veem e acaba por morrer. A natureza é cruel. O pobre bicho não vai sobreviver. Ainda penso em tentar criá-lo mas é muito difícil. Se fosse um pintassilgo, mas o melro tem uma alimentação muito variada. Temos de apanhar minhocas, formigas, gafanhotos, etc.. Também comem fruta e algumas gramíneas, mas…
Deveria haver um deus dos pássaros que tomasse conta destes abandonados da sorte. Mas deus anda tão ocupado com os deserdados deste país, que infelizmente cada vez são mais, e esquece o resto. Pobre bichano, não se vai safar. Um dia tão bonito como este não deveria ser estragado com esta situação. Estou aqui sentado em casa a escrever isto e o pobre passaroco não me sai da cabeça. Terei de ir buscá-lo ao canteiro onde o deixei e, pelo menos, dar-lhe água. Será o mínimo que poderei fazer por ele. Dei-lhe água directamente da minha boca. De início tentou bicar-me os lábios, depois acabou por beber. Tentei fazer um ninho com um cesto e uns panos. Tratei-lhe a asa com Betadine e coloquei-o lá, mas foge sempre e tenho de apanhá-lo novamente. Entretanto, a cadela, já anda de olho nele e se não tenho cuidado lá se vai o pássaro. Os pais já não andam por aqui. Como não o encontram vão para outras bandas. Acabam por desistir. O que fazer? Parece-me que não tenho outro remédio senão abandoná-lo ao seu destino. Através da janela vejo um dos pais pousado num fio. Olha em volta mas não o vê. Se ao menos o pequenote piasse… mas não, está mudo e quedo. Vai ser mesmo necessário um milagre. Como milagres não existem, temos de deixar a natureza seguir o seu curso. É assim que fazem os naturalistas que estudam a vida animal. Nunca interferem, deixando sempre que tudo aconteça naturalmente limitando-se a criar ou melhorar os ambientes para a sobrevivência das espécies. Terei de fazer o mesmo e esquecer o bicharoco ou então vou ficar muito deprimido. Que diabo, um dia que começou tão bem…
Está a morrer. Dei-lhe mais água. Ainda bebeu mas já não tenta fugir quando o agarro. Coloquei-o no ninho improvisado. Não tenho coragem para lhe acabar com o sofrimento. Vou deixá-lo acabar calmamente.
Morreu. Porque me sinto tão mal? Sou caçador e caço perdizes, pombos, rolas, tordos, etc. Mas ver um melro morrer assim, depois de tanto trabalho que os progenitores tiveram. Fazer um ninho, pôr ovos, chocá-los, alimentar os recém-nascidos, fazê-los sair do ninho ensinando-os a voar, continuar a alimentá-los ensinando-os a procurarem a comida por si próprios. Tanta canseira para um deles acabar espetado numa árvore. Não devia acontecer, mas acontece com todos os animais e até connosco. São as circunstâncias da vida. Nascer e morrer. Uns com um período intermédio mais prolongado outros, mais curto. Este melrinho teve um período curto demais. Tive pena. Amanhã vou com os canitos, tentar encontrar de novo as perdizes…


O Langão II




O Langão regressou de mais uma das suas digressões nocturnas. Veio curvadito, cabeça baixa mas com ar satisfeito abanando o rabo. Uma das cadelas das redondezas deve ter tido uma noite basto erótica. O Langão não deixa os seus créditos por patas alheias. Tem um nariz maravilhoso. Cheira uma namorada disponível a quilómetros de distância. Nem come como deve. Volta à sua zona de vez em quando para meter algo no bucho e lá vai ele de novo. Antes de sair ainda tem tempo para “cumprimentar” os amigos humanos que aqui o receberam como hóspede permanente. Um dos habitantes dá-lhe de comer. Onde comem quatro também comem cinco. Dorme na garagem onde faz companhia a uma cadelita já residente antiga. Brinca com os canitos do seu anfitrião e sai comigo a dar umas passeatas juntamente com a sua companheira de hospedaria. Todas as manhãs vem bater-me ao portão para me chamar. Já há dois dias que não o fazia. Sabendo das suas digressões amorosas não me preocupei muito. O dono adoptivo avisou-me que já não dormia em “casa” há duas noites seguidas. Grande Langão, isso é que se chama um cão das arábias. Já andava mais gordito e direito e agora regressou bastante mais magro e curvilíneo. Grandes noitadas deve ter tido. Aqui pela terra começam a aparecer uns cachorros muito parecidos com ele. As pessoas, donas das bichitas, já dizem: “ Esse “seu” cão cobriu-me a cadela e tenho ali uns filhotes bem parecidos com ele”. Faço-lhes ver que o cão não é meu, que é só um amigo que gosta de mim e me segue para todo o lado, mas qual quê. Anda comigo, tem de ser meu. E lá me vejo qual “pai” acusado de ter um filho abusador das “donzelas” canídeas cá do burgo. Um tipo até queria que eu levasse o filhote comigo. O bicho era giríssimo e tal e qual a “cara” do pai. Tivesse eu local para o ter e até nem me importaria. Andar cá e lá de cachorro atrás e ter de viver com ele num andar em Lisboa, já não é para a minha idade. Assim quase que me vejo a desculpar-me das escapadelas amorosas do Langão, como se tivesse alguma coisa com isso. Passo a vida a “falar” com ele em conversas tipo: “ Grande malandro! Vê lá se começas a refrear esses teus instintos de conquistador, porque eu é que oiço os donos recalcitrantes. Tem mas é juízo pois já não és criança nenhuma e estava na altura de seres mais comedido. Olha que ainda não há viagra para cães e isso qualquer dia acaba-se”.
Pois sim! O amigo Langas, eufemismo que uso como forma carinhosa de o tratar, está-se nas tintas e continua com os seus amorosos devaneios. É um autêntico Casanova canino. Estou convencido que, se vivesse em Veneza, nem os canais seriam entraves às suas divagações. Acabo por ter muito orgulho neste meu amigo.

sexta-feira, 29 de março de 2013


TENTATIVAS POÉTICAS

Quase todos estes “versinhos” foram elaborados como réplicas ao meu recente amigo, que se intitula Frassino Machado (PoetAmigo)

A CRISE TEM BELEZA?

Se uma crise tem beleza
Então sou mau sonhador,
Pois só m´assalta a tristeza
E isto sem desprimor
P’ra quem versos m’envia
Cheios de força e amor
Encontrando fantasia
Com vontade e com valor
Com a força e coração
Com ideias e magia…
P’ra casos sem solução.

Bem mentem eles, os tais
Que mandam neste país
Na Tv soltam “postais”
-- “Não está assim porque quis”.
Dizem eles: “foram outros
Que a crise construíram”.
Uns sacanas, uns garotos,
E depois os cus nos viram.
Só sei que desde há décadas
Os proventos se nos evolam
E nós ficando “carecas”
Por todos que nos amolam.

Soubesse eu o que isto dava
Não tinha metido a cabeça,
Por certo ainda estava
À espera de que aconteça.
Podia ser que entretanto,
Gente honesta aparecesse
Tornando o país, portanto,
Algo que apetecesse;
Um país cheio de vida
Com gente honesta a mandar,
Legislação consentida
Para o povo governar.

Se as portas, Abril abriu,
Veio gente p’rás fechar,
Vão p’rá pata que os pariu,
Não estou p’rós aturar.
Só me apetece é cobrir
As mães que vos pariram,
Talvez os que hão-de vir
Façam esquecer que partiram
Os coveiros da Nação,
Que era bela e bem ridente,
Estando agora um buracão
Sem alegria e diferente.

Beleza? Não vejo não!
Vejo vergonha e tristeza
Pelo estado da Nação.
Sem fantasia e beleza.
Façamos pois os possíveis
De correr esta maralha.
Talvez fiquem permissíveis
A ouvir a quem trabalha.
Se entretanto quiserem
Ficar, sendo incompetentes,
Que fiquem, para levarem
Porrada e ficar sem dentes.

A VIDA

(“Poema de pé quebrado” de má rima e pior métrica)

A vida quando vivida
Com gosto, com harmonia
Com fazer e desfazer
Com amor, com valentia
Sem medo e sem destino
Sem vendas e sem temor
Sem nenhum manto divino
Sem donos e sem senhor
Dá-nos descanso tamanho
Dá-nos tremendo vigor
Para aceitar o calor
Da força da natureza
Que em toda sua beleza
Nos conduz, com a certeza
De um belo fim sem temor.
Pena que é que o vil metal,
“Satanás” que o inventou
Pra atazanar nossa vida,
Nos cause tremendo mal
E nos faça em desatino
Alterar nosso destino
E provoque uma corrida
Sem retorno, contra o vento,
Para ganhar o sustento
Para conseguir comida
Para encontrar alento
De dar guarida e sustento
Àqueles que nos são queridos
E sem os quais não vivemos
Pois com eles, nós sabemos,
Que os queremos ao pé de nós
Prá vida ser bem vivida
Sem nos dar um fim atroz.
Bom seria atrás voltar
E nas cavernas viver,
Andar no mato e caçar
Todo o alimento preciso
E viver no paraíso
Sem um senhor a mandar
Que nos tolha a consciência,
Nos obrigue a trabalhar
E nos provoque a demência
Da riqueza procurar.
  
ESPERANÇA

Não quero deixar de ser o rapaz que sempre fui
Quero rir, quero viver, quero ir por aí dizer
A vida é bela é risonha, correndo o tempo e o sonho
Para tal é que estou vivo, para a vida quero trazer
A alegria e a esperança de um percurso que flui
Com bonança e fantasia e de modo não tristonho.

Mas, a desgraça é imposta por gente sem fantasia
Que nos corta a felicidade tirando-nos o ganha-pão
Cortando rente a esperança do raio de sol refulgente
Em nossa vida tão quente, que escaldava o coração.
Que esperam estes tartufos de política tão vazia?
Tirar-nos o gosto da vida? A nós e a toda a gente?

A alegria com que vivi, com gozo e muito amor
Torna-se pesado fardo, transforma-se lentamente
Em algo triste, denso, pesado, incerto e vacilante
Sem gosto, sem esperança, sem sentido e repelente.
Matam em mim a criança, matam em mim o fulgor.
Voltarei a ser capaz de sonhar e ser gigante?

Vou tentar… serei capaz… voltarei a ser menino e tornarei a sorrir.

(O seguinte foi a propósito de um poema que Frassino escreveu para o dia da mulher. Os versos não sei se estão bem, mas é o que sinto.)


Se Camões, nosso poeta, vivesse nestas épocas bem confusas,
Olhasse as nossas mulheres, veria com surpresa e espanto
Que suas Ninfas lindas, amorosas, Tágides emergentes e Lusas,
Continuam belas, refulgentes, esplendorosas e nos dão tanto.
Trabalham, cuidam, parem e amam sendo por vezes obtusas
Ao despotismo estúpido, cruel e marialva, que por enquanto,
Não foi das mentes machistas excluído, extirpado ou apagado,
Causando muita dor aos belos seres que queremos a nosso lado.

Diz Frassino: “Mulher total, senhora de paixões, mulher de lutas”
Capaz de sacrifícios mil, pelo seu amor, por seus filhos e anseios.
Vencedoras da vida, de tormentos, de doenças, guerras e labutas,
Amando, sofrendo, gozando, parindo e criando com seus seios
Os filhos que lhes damos e deixamos a seu cuidado, por astutas
Que são, em formá-los para a vida com zelo, por todos os meios
Que conseguem encontrar na força que dentro têm para dar.
Grandes companheiras. Mulheres nossas que devemos adorar


(Esta foi pelo dia de reis)


Os três reis do Oriente
Tal como os Mosqueteiros
Eram quatro realmente
Mas três foram primeiros

O quarto era Artaban
Seguidor de Zoroastro
Deixou de ser Taliban
Resolveu seguir o Astro

Lá na Pérsia ele vivia
E sem camelo partiu
Pois camelos não havia
E num cavalo saiu

Bom rapaz este reizinho
No caminho ajudou gente
Tratando e dando carinho
Lá seguiu todo contente

Mas por via do destino
O Artaban se atrasou
Bem procurou o menino
O estábulo vazio achou

Pobre rei peregrino
Já à Pérsia não voltou
Para encontrar o menino
Trinta e três anos levou

Encontrou-o finalmente
Numa cruz dependurado
Parece que aquela gente
Não o ouviu com agrado

Pregando de Deus a lei
Pobre de Jesus, coitado
Por se dizer dos Judeus Rei
Acabou cruxificado

E Artaban persistente
Já no Golgata o encontrou
Mas terminou, felizmente
A missão que o lá levou

Foram assim quatro os reis
Guiados por aquela estrela
Que levaram os “anéis”
Numa história qu’é balela

(Frasino Machado versejou sobre as mulheres que usam demasiado metal espetado pelo corpo. Réplica a Frassino sobre “ACESSÓRIOS, SIM OU NÃO”
Com “ piercing” no umbigo
Não gostaria de ter
Uma amante comigo
Nem que fosse só p’ra ver

Se além de ver lhe tocasse
E o “piercing” se abrisse
Talvez picado ficasse
Num sítio que não se visse

Prefiro pois sem metais
Carne rósea bem lisinha
E sendo assim, como mais
Sem usar a camisinha

Porque se camisa uso
E tem “piercing” pelo meio
Acabo ficando confuso
Logo se acaba o recreio

A coisa a borracha pica
Fica aquilo sem efeito
E o trabalho logo fica
Nunca lá muito a preceito

Quero tudo ao natural
Como manda a natureza
Sem camisa e sem metal
Com amor e com beleza.

( A que se segue foi escrita a propósito das magras compras do Natal passado)

Fui á rua pra comprar
Mas o bolso foi vazio
Acabei por só levar
Uma vela sem pavio

A vela assim não dá luz
Não alumia corações
Não tem chama, não seduz
Só nos traz desilusões

Já não há prendas bonitas
Nem nos parece Natal
Vamos como parasitas
Vai vazio nosso bornal

Resta-nos a amizade
Alegria e muito pão
Tempo de austeridade
Só nos parte o coração

Frassino poeta Amigo
Eu verso não sei fazer
Amizade trago comigo
Dá para dar e vender

Que o Gaspar vá bugiar
E o primeiro vá embora
Que o PR vá ao ar
É o que quero pr’ agora

Que melhor ano aí venha
E também novo Primeiro
Mas que não traga a manha
De levar nosso dinheiro

Frassino, és como Aleixo
Agora vou acabar
Abraço  eu aqui deixo
Porque não sei versejar


(Esta foi dedicada ao meu amigo Frassino que versejou sobre Madalena Arrependida)


MARIA

Maria de Magdala, mulher feliz e perfeita
Viu Jesus e, a paixão em seu peito floresceu
Com desmedida força. E Jesus correspondeu
Também. Enamorado, seu amor não enjeita.

Seguidora de seu Mestre, cuja palavra venera
Dá-lhe amor, carinho, apoio, força e vontade
De levar aos seguidores, discurso que regenera
Os homens, os eleva e lhes dá a majestade.

Mas seus discípulos machistas, ocos e ciumentos
Não aprovam tal amor, que lhes rouba os momentos,
Que consideram só seus, únicos e exclusivos.

Mais tarde, Imperadores misóginos, donos da igreja,
Maria prostituta tornam, inventando povo que apedreja
Aquela que foi amor dele, mas não agradou aos altivos.

(Soneto inspirado em Dan Brown “In Código Da Vince”)                   


quarta-feira, 6 de março de 2013

Concurso Literário Manuel Maria Barbosa du Bocage

Pela primeira vez vou postar aqui, neste meu “blog”, algo que não é de minha autoria. O meu camarada e amigo António José Barradas Barroso, era conhecido nos Pupilos do Exército, onde fomos alunos contemporâneos, pela acunha de “Tiago”. De tal modo este “nome-alcunha” lhe ficou entranhado, que ainda hoje o usa como pseudónimo e até a sua mulher o trata carinhosamente por Tiago.
O meu amigo Tiago é poeta e dos bons. Em Setembro último foi o vencedor do prémio literário internacional Manuel Maria Barbosa do Bocage. A organização deste prémio, editou em livro os trabalhos apresentados pelo meu amigo. Da apreciação deste trabalho pelo júri, aqui transcrevo uma pequena parte e dois dos seus sonetos:
“…
O tema por sua vez é-nos muito querido e é a razão geral deste prémio Bocage, que já vai na sua XIV edição. Aborda-se a obra de Bocage procurando excertos dos seus poemas, retirando do soneto os dois tercetos e destes escolhendo o verso de fecho do último terceto, verso que sabemos de capital importância e que no soneto faz a síntese do mesmo.

O autor pega nesse verso e transpõe-no como motivo iniciando outro soneto da sua autoria. Depois toma as rédeas e cavalga na imaginação, discorre sobre o estado de espírito de Bocage, compondo-o com a habilidade e saber de tudo o que o homem é feito na sua circunstância.
…”

                          (...)
                          Aqui onde o que o peito abrange e sente,
                          Na mais ampla expressão acha tristeza,
                          Negra ideia do abismo assombra a mente.

                          Difere acaso de infernal tristeza
                          Não ver terra, nem céu, nem mar, nem gente,
                          Ser vivo, e não gozar da natureza?
                                                                                 Bocage

                          Ser vivo e não gozar da natureza?
                          Pois, na prisão, o poeta se lamenta
                          Daquela solidão que o atormenta,
                          Daquele afastamento, e da tristeza.

                          Sentir, no peito, a perda da beleza
                          Na lúgubre prisão que o apoquenta,
                          Sem poder ver o céu que, a alma, sustenta,
                          Ou esse mar que brama com rudeza.

                          É perda atroz que nem sequer a gente
                          Que passa, que se toca e que se sente,
                          Se tem, para esquecer a solidão.

                          Depois, há uma quebra de amizade,
                          A mágoa por se não ter liberdade,
                          Amarrado à clausura da prisão.
                                                                              Tiago

[ ...... ]

                                 Devoto incensador de mil deidades
                                 (Digo, de moças mil) num só momento,
                                 E somente no altar amando os frades,

                                 Eis Bocage, em quem luz algum talento,
                                 Saíram dele mesmo estas verdades,
                                 Num dia em que se achou mais pachorrento.
                                                                               Bocage

                                 Num dia em que se achou mais pachorrento,
                                 Bocage, em verso, fez o auto retrato
                                 Sem nada pôr, de si, a bom recato,
                                 Apenas com verdade e sentimento.

                                 E a descrição, guardada pelo vento,
                                 Nos versos que editou, com fino trato,
                                 Se o descrevem fiel ao celibato,
                                 Tem deidades, porém no pensamento.

                                 Confessa ele, de início, que é meão,
                                 Que segue mais a fúria que a razão,
                                 Que só perante as moças se enternece.

                                 Se, na biografia que ele traça,
                                 Existe algum humor e certa graça,
                                 Também algum talento reconhece.
                                                                               Tiago

Estes sonetos ficam aqui ao dispor dos meus amigos e também dos componentes da “Tertúlia Poética Ao Encontro de Bocage” que, o meu amigo Francisco de Assis Machado “Frassino” fará o favor de divulgar. Vou tentar colocar um “link” desta página no “Facebook”.