domingo, 27 de outubro de 2013

O Sexo


Estive a ouvir, na rádio, Júlio Machado Vaz a falar sobre sexo na rubrica “O Amor É…” Antigamente falar de sexo era pecado. Fazer sexo também era, a não ser que fosse entre um casal heterossexual e tinham de estar unidos por matrimónio católico e, mesmo assim, só podia ser com intuitos procriativos. O prazer estava negado aos humanos, ou seja, à mulher, porque os homens podiam tê-lo à vontade. Falar de sexo era tabu e quando o faziam era como se falassem com o demo. Sexo oral (que raio de nome) era pecado mortal (ainda o é nos USA) e quem o praticasse tinha aberto o caminho das profundas dos infernos. Tudo isto conduziu a um obscurantismo total do sexo. A maioria das mulheres partiam para o casamento sem saber o que isso era. Até as mães tinham vergonha de falar disso com as filhas. A maioria dos homens chegava ao casamento e tinha obrigação de fazer sexo com a mulher, quisesse ela ou não. E ai de quem se recusasse. Daí partiram montes de casamentos desgraçados com mulheres sem chegarem a saber o que era um orgasmo. Para a maioria, sexo era obrigação devida ao marido. Eles, por sua vez, procuravam fora, normalmente recorrendo à prostituição, aquilo que não encontravam, nem podiam encontrar, no casamento. E ai da mulher que na cama com o marido se mostrasse demasiado ousada, ia parar de novo a casa da mãe conotada como leviana ou ninfomaníaca. Perder a virgindade antes do casamento era ficar com a marca de prostituta. Pobre daquela que fosse na conversa do namorado e acabasse por não casar. Nunca mais casaria. Mulher usada já não servia para casamento.
Tudo isto devido à educação judaico-cristã, ou melhor, mais à cristã, porque os judeus seguiam a bíblia, e essa nunca mandou casar ninguém, antes pelo contrário, até aconselhava a bigamia e o adultério. “Se a tua mulher não te der filhos deita-te com a tua serva”. Está lá escrito, mas escrito só para os homens. Mulheres continuavam a ser escravas do lar em todos os sentidos e parideiras.
Felizmente hoje, na grande maioria dos casos, tudo mudou. Fala-se de sexo em todo o lado e abertamente. Fala-se na TV, os pais falam com os filhos, os filmes  para maiores de doze anos mostram sexo quase explícito e o sexo pratica-se em liberdade total. Há médicos psiquiatras e psicólogos especialistas em sexologia. Há conselheiros sexólogos para casais com problemas e os queiram resolver. Os costumes mudaram e ainda bem.
As raparigas mandaram a virgindade às couves e agora, aos 16 anos, ou até antes, todas experimentam para saberem com o que contam aquando do casamento ou vivência em comum. Os homens já se estão nas tintas para isso. Se antes se casava com viúvas e divorciadas, porque não agora casarem-se com as não virgens? Valha-nos a liberdade.
Hoje o sexo é livre. Sexo oral todos praticam. Os casais, entre quatro paredes, não têm tabus, e fora delas, às vezes, também. As mães industriam as filhas sobre sexo mas não as coíbem. Basta ensinar-lhes que devem praticá-lo apenas quando gostarem realmente de alguém e que o façam seguramente. É preciso cuidado com as doenças sexualmente transmissíveis. Os crentes chamam-lhes castigos de deus. Eu chamo-lhes apenas erros de deus. Antigamente homossexualidade era perversão, doença, malignidade. Hoje é liberdade. Cada um ama quem quer. As famílias já não consideram proscritos os seus membros homossexuais. Os pais não deixam de amar um filho pelas suas escolhas. Poderá  haver desgosto, mas não há abandono nem proscrição. Quais os melhores tempos? Os de agora ou os de antigamente?
Ninguém tem que ter na testa a marca das suas preferências, nem tem que falar delas ou mostrá-las. Mas se as coisas vierem a lume não têm que o esconder ou envergonhar-se. Sejam normais e vivam a vida como gostam. Já o grande poeta Ary dos Santos dizia: “Os homossexuais são homens e portam-se como tal. As “bichas” é que não. Mas essas não são homens”.

Se querem ser infelizes sigam a bíblia. Se querem ser felizes façam sexo. Muito. Sem tabus. Da forma que gostarem mais. Com quem quiserem. O sexo é o repouso do guerreiro. O Dr. Júlio Machado Vaz sabe do que fala.

domingo, 20 de outubro de 2013

“Vai Falar com o Camões”

Ultimamente ando tão descorçoado com toda a situação do meu País, que me estou a tornar um chato difícil de tragar. Todas as minhas conversas tendem a descambar para o que o governo nos anda a fazer, sonegando-nos grande parte dos nossos já parcos proventos. Dizem alguns: “ Olha que há quem esteja muito pior do que tu, pois ganhando menos também lhes tiram e não é pouco”. Pois. Sei disso e tenho pena de todos, mas costuma-se dizer; “quanto maior é a barca maior é a tormenta”. E é bem verdade. Quem ganha mais, quando lhe tiram algo, tem os mesmos problemas dos que ganham pouco. Andar de cavalo para burro custa muito. Num destes dias, a discussão era tanta que o meu interlocutor me gritou: “É pá, vai falar com o Camões!”. Claro que não lhe levei a mal, o tipo também tinha problemas e em duplicado, pois a mulher também era reformada do estado. Fiquei a matutar naquilo. Falar com o Camões pareceu-me boa ideia. A época dele foi muito má, além das dificuldades de sobrevivência, a saúde não era boa e a independência nacional estava em perigo. Como gosto de andar pela cidade, desloquei-me até à baixa e dei comigo a caminhar até ao largo com o nome do nosso grande poeta e chegado lá encostei-me ali ao gradeamento a olhar para o grande épico criador daquela obra imortal que ainda hoje é um dos meus livros de culto e que, em destaque na estante lá de casa, consulto amiúde, lendo e relendo imensas estrofes.
Estive ali imenso tempo observando os passantes, quase todos cultivadores da noite, muitos de passagem para o Bairro Alto. Toda aquela malta me parecia de uma futilidade imensa, armados em finos mas com uma linguagem de fazer inveja a um carroceiro do antigamente. E isto, tanto eles como elas, com a agravante de as raparigas, além de futilidade e incultura total, trajarem como algumas prostitutas não gostariam de trajar e portavam-se como se quisessem levar para a cama todos aqueles com quem se cruzavam e trocavam algumas estúpidas frases.
Quando três desses, do tipo degenerescente masculino, passaram por mim com atitudes parvas e imbecis, olhei para o poeta e disse para mim próprio como se com ele falasse: “Triste sorte a tua teres sido colocado num local que se tornou ponto de encontro e passagem de tais aberrantes personagens”. Disse isto com um sorriso meio irónico nos lábios, mas fiquei sério de repente pois até me pareceu que o vate, além de sorrir também, deu uma piscadela de olho, perdão de pala, pois foi no olho direito que me pareceu algum movimento. Dei comigo a dizer-lhe: “Concordas? Então diz de tua justiça. Que achas destes tipos? Desta geração perdida?
Não sei bem o que se passou. Foi como se o tempo parasse e as pessoas desaparecessem. Do cimo da estátua, uma voz serena e límpida exclamou:

“Os parvalhões imbecis embasbacados
Que muito vazia têm a tramontana
Cujos neurónios, há muito ultrapassados
Nem conseguem furar a vã membrana
cerebral, e em gestos e dizeres disparatados
Mostram toda a torpeza humana
Entre gente decente só mostraram
A  trampa em que este País tornaram. “

Boa! Além de comunicar comigo, falava em estrofes de oitavas como se estivesse a recordar o seu primeiro canto dos Lusíadas. Tentei entrar em diálogo perguntando-lhe: “ Amigo Luís Vaz, e o que me dizes das mulheres, estas parvas que por aqui andam, devem ser muito diferentes das mulheres que conheceste, não?”
E a voz, lá do alto, falou:

“E também com vestes vaporosas
Aquelas que por aqui vão passando,
Mostram quão elas  são viciosas
Por homens e sexo procurando.
E aquelas que em curvas sinuosas
Se vão de bolsa alheia aproveitando.
Agora estátua, não espalharei a arte
E a poesia terei de pôr de parte.”

Coitado do poeta. Desiludido e transformado em rígido pedregulho, até nem quer continuar a sua arte. Já agora, que Camões se decidiu a falar comigo, vamos a ver o que ele pensa da situação que me traz preocupado, o País e este estado de coisas. Nem precisei de formular a pergunta, como se me tivesse ouvido, disse:

“Cessem, grandes nabos  do Troikano
As estragações enormes que fizeram;
Cale-se o Passos e mais o Plano
Dos orçamentos torpes que pariram;
Que eu canto o peido triste Lusitano,
Que estão dando os que obedeceram.
Cesse tudo, porque a merda é tanta
Que já nem o pau se lhes alevanta.”

Dei comigo a rir que nem um perdido. Afinal o grande poeta tinha um imenso sentido de humor e estava a par da situação política do País. Também ele via a inépcia dos dirigentes que democraticamente tomaram conta do poder para se governarem a si e aos seus apaniguados e não governarem os que, trabalhando, conseguem o pão que eles comem. E o resultado da sua falta de visão, em todas as áreas, foi a manutenção de um povo deseducado, amorfo, a roçar a imbecilidade. As mulheres de hoje, falando das jovens, cultivam-se com novelas e revistas de fofocas, copiando as artistas que vêem, convencidas que a mostrar e dar o corpo é que conseguem ser alguém na vida. Tanto oferecem que vão tirando a vontade aos destinatários da oferta. Foi então que Camões continuou:

E vós, mulheres minhas, pois cuidado
Não tragam em vós desejo ardente,
De sexo sem amor não desejado.
Ficará em vós lembrança tristemente,
Do que ser podia e foi estragado.
Tragam sim amor na vossa mente,
Que se consuma em chama perene
Vos encha o coração e a mente ordene.

“Tens razão meu infeliz cantador da raça Lusa. O povo que cantaste já perdeu a gana da conquista e da vitória”.
 Arranjaram-nos uma forma de nos espartilhar. A democracia deveria servir para podermos alterar a forma de sermos governados, mas afinal é apenas uma forma da continuidade. A partidocracia tomou conta disto e arranjou maneiras legais de se perpetuar no poder. Partidos que se digladiam agora, fazem amanhã o que o antecedente fez, dando o dito por não dito com desfaçatez inaudita. Pudesse eu voltar atrás, no tempo em que a tropa era povo, ainda me metia noutra revolução. Mas o poder já não seria entregue a estes energúmenos. Só seria entregue quando a democracia fosse mesmo arma do povo e este pudesse eleger mas também demitir. Partidos no governo nunca mais. Teríamos de eleger um representante responsável perante o povo, que formasse governo tecnocrático, isento e não corrupto. Deixaríamos a AR para os partidos poderem votar leis, que só seriam aprovadas depois de passarem por todos os crivos que o povo exigisse colocando numa nova constituição os mecanismos necessários. Tivesse eu forças…
Preparava-me para deixar o recinto, quando…

Se uma fúria grande e poderosa
Me vem à mente, eu peço ajuda
Salto do pedestal  com gana belicosa,
Ou vai ou racha q’ isto não é  barbuda;
Troco por G3 a pena e a rosa
Imploro a Marte que me dê ajuda;
Parto esta merda de verso a reverso,
Nem que tenha de acabar o Universo.


Afinal parece que arranjei um companheiro. Pena estar morto.

sábado, 14 de setembro de 2013

As Pedras da Minha Rua

A morte do companheiro Langão trouxe-me tristeza, a tristeza trouxe-me saudade, a saudade trouxe-me isto:

As pedras da minha rua esfolavam-me os joelhos. De tanto por lá cair e roçar a pele, aquilo já era uma postela completa. A desinfecção era a língua do meu cão: “Anda cá Black, lambe aí”; e lambia, lambia até ficar tudo limpinho e desinfectado. Mas as pedras também serviam para serem atiradas pelas fisgas e fundas. Lembro-me de uma funda que fabriquei com base num desenho tirado da Bíblia das Escolas. Já naquele tempo me interessava pela história dos povos e pelas religiões. Aquela bíblia, obrigatória nas aulas de religião e moral, era para mim melhor do que uma história em quadrinhos. Sanção, David e Golias eram as minhas preferidas. Nesta última tinha um pretenso desenho da funda com que David matou Golias. Coitado do bom gigante que mais não fez, como bom soldado, que obedecer a ordens superiores e ir lutar contra um espirra-canivetes da tribo vizinha. O certo é que essa funda era especial e admirável. Até ali, as nossas fundas limitavam-se a duas cordas de juta atadas a um quadrado de cabedal, normalmente de uma lingueta de um dos nossos sapatos. Resolvi que a minha havia de ser especial. Já não me lembro onde encontrei a tira de cabedal que lhe deu origem. Cortei-a com um canivete afiado, deixando no meio um rectângulo suficiente para comportar as pedras e, com três tiras para cada lado, impecavelmente entrançadas, foram feitos os tirantes que terminavam num olhal num dos lados, para enfiar o dedo médio e, do outro o terminal para segurar enquanto se volteava por cima da cabeça ou ao lado do corpo. Após as voltas consideradas necessárias e em consonância com a velocidade pretendida para o arremesso, o terminal era largado, desferido o “tiro” ficando a funda agarrada à mão pela argola enfiada no dedo. Depois de vários treinos, a rapaziada ganhava uma pontaria de mestre e conseguíamos acertar num pau-de-fio, a cinquenta, sessenta metros de nós. Era obra, e muita cabeça foi partida. Ainda hoje não posso cortar demasiado o cabelo para não deixar à mostra as marcas dessas “brincadeiras”. Belos tempos esses em que os papás se limitavam a curar-nos as feridas sem importunarem os papás dos outros pelas culpas no cartório. Nós também tínhamos as nossas.
Atirámos demasiadas pedras e nunca conseguimos “limpar” a rua, pois elas pareciam nascer-nos debaixo dos pés. Já naquele tempo a minha rua era a mais atrasada do Cacém. Chamava-se Ribeiro de Carvalho, meu padrinho de registo, ateu, republicano anti-fascista e director do Jornal República. Passou toda uma vida a fugir à famigerada PIDE que nunca o conseguiu engaiolar. Tinha excelentes pontos de fuga e umas cavernas lá na quinta, que mais tarde vim a conhecer. Outros amigos, como Araújo e Sá, meu vizinho e Ramon de La Féria, médico, passaram alguns anos a ver o sol aos quadradinhos. Dizia-se que a rua não era arranjada devido ao nome que tinha. Depois de um triste acidente, Ribeiro de Carvalho sofreu um traumatismo craniano e morreu uns meses depois de ter sido operado. Lembro-me de Araújo e Sá, pai de quatro meus amigos de infância, dois rapazes e duas raparigas, dizer que o tinham assassinado. Não acredito muito, mas…
Naquelas pedras, brinquei, corri, caí, saltei ao eixo, às fogueiras dos santos populares e namorei. Lembro os fins-de-semana, quando vinha do “Pilão”, Instituto dos Pupilos do Exército, onde estudei, reunir-me com os amigos, rapazes e raparigas, encostados ao muro de minha casa, conversar, namorar e fumar uns cigarritos sempre de costas para a janela para o meu Pai não ver ou fingir que não via. As vidraças dos vizinhos, os beirais dos telhados, os pardais e as cabeças dos companheiros, foram os alvos daquelas pedras. Já contei demasiadas vezes o que aquela rua era para mim. Hoje já lá não tenho ninguém, mas a casa ainda lá está. A rua já não tem pedras e continua com o mesmo nome, felizmente, agora mais respeitado. O asfalto, os muros arranjados e pintados deram-lhe um cunho diferente que já não me diz muito. As recordações foram-se com as pedras. A fisga ainda existe, mas a funda, aquela bonita funda que era o meu orgulho e a inveja de muitos, já não. O entrançado veio a servir de trela dos cães e acabou como tudo, com o tempo. Os amigos do Cacém ainda estão no meu pensamento, mas afastados pelas circunstâncias da vida. Continuam meus amigos e se precisarem de mim estou cá. As pedras estarão hoje enterradas sob o asfalto. Talvez ainda tenham vestígios do meu ADN. Quem sabe…

    



                         

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Langão (III)




O meu amigo Langão não vai mais conquistar as cadelitas aqui da aldeia. Um terrível vírus (seria?) paralisou-o quase totalmente. A médica veterinária, depois de vários exames, não lhe encontrou salvação. Durante dois dias, o vizinho que cuidava dele, a mulher e a filha, tudo tentaram. Foi impossível. Não havia salvação e foi abatido. Custou muito. Todos sofreram. Felizmente, quando morreu, já eu estava em Lisboa, mas o desgosto apanhou-me lá. Agora, já por aqui, olho para o recinto onde os seus companheiros por cá andam e parece-me que ainda o vejo sempre brincalhão e prazenteiro, desengonçado na sua magreza, mas alegre e satisfeito por ter encontrado tantos amigos que lhe proporcionaram estabilidade e modo de sobrevivência, sem ter que assaltar capoeiras para matar a fome. Mas o Langão já cá não está. Amanhã já não estará ao meu portão, como sempre fazia, latindo de satisfação quando saía de casa para o nosso passeio matinal. Vou sentir-lhe a falta. Irei com a Nina, a cadelinha sua companheira de “quarto” e, juntos, lembraremos o nosso Langão que tanta companhia nos fez. Era só um animal, mas deu-me a sua amizade sem nada pedir em troca, apenas querendo festas e passeatas. Durante uns tempos, os meus passeios vão ser mais tristes mas terei a Nina como companheira. Parece-me que também ela está triste. A saudade também será canina. É em alturas, como esta, que relembro o meu Setter Irlandês que me morreu nos braços, levado por uma terrível cirrose. Na época, não tive a coragem para o mandar abater, sempre convencido que seria capaz de o recuperar. Não fui e o meu amigo morreu com demasiado sofrimento. Tantos anos passados e ainda o recordo. Muitos anos passarão e o Langão continuará ser recordado. Adeus Langão, o teu céu será o meu pensamento.

domingo, 9 de junho de 2013

O Espaço-Tempo


Após ter escrito no meu anterior “post” que o tempo não tinha espaço, fiquei matutando no assunto pois recordei ter lido num livro, que o meu filho me ofereceu, escrito pelo cientista tetraplégico Stephen Hawking “ O Universo Numa Casca De Noz”, a noção de Espaço-Tempo. Disse logo para mim próprio que tinha metido água e, que alguns dos meus amigos mais atentos poderiam vir a dar-me na cabeça por aquela afirmação feita de ânimo leve. Fui logo buscar o livro, que tenho sempre à mão para consulta, não é coisa para ler de seguida, e abri-o no capítulo 2 “ A forma do tempo”
Segundo a relatividade generalizada de Einstein. O tempo tem forma. Ora logo aqui se compreende se há uma forma tem de haver espaço. No início de capítulo S. Hawking escreve:
“O que é o tempo? Será um ribeiro eterno que leva todos os nossos sonhos, como diz um hino antigo? Ou será antes uma linha de caminho-de-ferro com circuitos fechados e ramais, na qual é possível regressar a uma estação por onde já passámos sem inverter o sentido da marcha?”
Só aqui, meus caros amigos, já dá para ficar baralhado. Antes o tempo era distinto do espaço e visto como se fosse uma única linha de caminho-de-ferro infinita em ambos os sentidos. O tempo era considerado eterno. Einstein veio mudar tudo isto quando disse:
“ O espaço e o tempo estão inextricavelmente ligados. Não é possível curvar o espaço sem alterar também o tempo. Logo o tempo tem uma forma”
Isto baralha qualquer um. Pelo menos aqueles que como eu são leigos na matéria, mas dá para compreender se pensarmos um pouco. Fui depois à net procurar algo sobre o espaço tempo, e encontrei um site http://www.valdiraguilera.net/conceitos-fisica-moderna-4.html bastante interessante.
Ali li o seguinte:
A Física moderna, inaugurada com os trabalhos geniais de Einstein, veio mostrar-nos que nossos conceitos clássicos de espaço e tempo estavam equivocados. Da mesma forma que as três dimensões do espaço (largura, profundidade e altura) são convenções puramente subjetivas – não podemos separá-las, estão interligadas –, também não podemos separar o espaço do tempo. Espaço e tempo estão interligados. Não existe nada no espaço que também não tenha existência no tempo; e nada pode ter ocorrido no tempo que não tenha sido em algum lugar no espaço.
E mais:
Considere a seguinte situação: alguém pára seu carro num posto de gasolina na estrada e pergunta ao frentista (deve ser o empregado que está na frente): "A que distância está tal lugar?" Pode receber a seguinte resposta: "Está a cinco minutos daqui". O frentista (empregado) quantificou uma distância em termos de tempo!
Já deu para ver como eu estava enganado? Pois! Quem manda meter-me em caminhos ínvios?

Agora, meus caros, toca a ler sobre o assunto e queimar alguns neurónios. Não tenham medo que eles renovam-se pelo exercício mental.

sábado, 8 de junho de 2013

Conflito de gerações, medo ou irreverência?


Todos os dias, estando em Lisboa, vou nadar à piscina da Junta de Freguesia de Benfica. Vou a pé, de saco às costas, faço exercício físico e volto a casa mais bem-disposto. Ando nisto vai para três anos. Neste espaço de tempo e, acabei de escrever uma calinada porque tempo não tem espaço, direi antes, por todo este tempo, já fiz conhecimento com muitos dos companheiros que, como eu, gostam também de fazer o seu exercício físico. Eu sou dos mais velhos, mas aparecem lá de todas as idades. Todos nos cumprimentamos mesmo que sejamos desconhecidos. O “Bom dia” á chegada e o “Até à próxima” à saída, não custa nada a dizer e fica bem a todos. Enquanto nos despimos ou vestimos e até enquanto tomamos banho de chuveiro, vamos dizendo as nossas piadas e contando umas anedotas e, muitas vezes as conversas ficam bastante interessantes pelos temas versados.
Vem tudo isto para contar o seguinte episódio: Um destes dias, ao entrar, disse bom dia a três jovens, talvez na casa dos 16 aos 18, que já se encontravam equipados para irem nadar. Apenas um me respondeu e muito sumidamente, como se dizer-me bom dia lhe metesse medo ou se lhe caíssem os parentes na lama por cumprimentar um desconhecido. Regressámos findos os três quartos de hora de exercício e os rapazotes continuaram conversando entre eles animadamente. Após o banho e vestirem-se, saíram sem dizer água-vai. Ainda gritei bem alto “ Bom dia”, mas qual-quê, nem um foi capaz de me responder.
Uma das coisas que os meus pais me ensinaram, e depois todos os meus mestres, professores e militares dos Pupilos do Exército, onde estudei, foi que devíamos ser afáveis e educados para toda a gente, cumprimentando, agradecendo e pedindo as coisas por favor. Mais tarde tive oportunidade de leccionar, quer no Colégio Militar quer em instituições militares por onde passei e, aos meus alunos transmiti sempre que a educação cívica não fica mal a ninguém ao contrário da má educação que só afasta as pessoas e classifica muito mal quem a pratica.
O que será que leva a juventude a proceder assim? Não sou psicólogo nem sociólogo para os poder classificar, mas dá-me a sensação que agem assim por medo. E este medo é o da aproximação. Talvez não se queiram aproximar por depois não serem capazes de estabelecer ligações com pessoas estranhas ao seu meio e com conhecimentos e gostos diferentes. Será? Mas também poderá ser por irreverência. Os mais velhos estão fora do seu mundo e eles não querem que se metam nele… será?
Outra coisa que reparei foi que os rapazes não se despiram ao pé de nós. Ali todo o mundo anda nu à frente uns dos outros e ninguém tem vergonha de mostrar as “desgraças”. Para mim o nu nunca me fez confusão, nascemos nus, andamos nus em pequenos e só nos tapamos quando tomamos consciência do sexo. A educação judaico-cristã tornou o sexo impuro e, a partir daí escondemos os órgãos sexuais sendo considerado pecado mostrá-los despudoradamente. Talvez a educação num colégio interno me tenha varrido essa ideia da cabeça. Mas, os homens juntos não têm pudor e as mulheres também não (às vezes). Estes rapazes tomaram duche e ensaboaram-se de fato de banho vestido e despiram-no de toalha enrolada à cintura fazendo uma autêntica dança do ventre para conseguirem retirar o fato. Tornou-se caricato. Fiquei a matutar naquilo. Porquê? Medo das comparações? Educação  demasiado clássica? Se foi por isso não se compreende o não “Bom dia” a ninguém. Olha! Estou-me nas tintas. A má educação só fica mal a quem a pratica.

Pelo menos o episódio já teve o mérito de me ter feito encontrar assunto para escrever no “blog”, coisa que não fazia já há uns tempos.

sábado, 4 de maio de 2013

Manhã de sábado


Hoje a hora da piscina é tardia e não dá nenhum jeito. Substituo as mais de 30  piscinas, que normalmente faço, por um passeio a pé aproveitando um salto à “Evian” para tomar café. O rapaz atrás do balcão não precisa que lhe diga nada e tira a “bica” escaldada como a aprecio. Os rostos nas mesas são os mesmos do costume, penso para comigo como é que no meio da crise as pessoas ainda tomam pequenos-almoços na pastelaria. Deixo rapidamente o balcão e continuo o passeio. Passo pelo busto do fundador do Uruguay, José Artigas, e pergunto-me o que tenho a ver com aquele “gajo”, penso melhor e até tenho, foi um lutador determinado por uma causa e é um ser humano, só por isso já o merecemos ali, na avenida com o nome do seu País, é também um homem que ficou na história e, portanto, o conhecê-lo uma forma de cultura. Muito aprenderíamos se olhássemos a estatuária da cidade com olhos de ver, só que passamos por elas e não ligamos demasiado ocupados com a vida quando na nossa cidade e, só notamos os pontos de interesse quando nos deslocamos a outras terras. Passo na banca do alfarrabista e dou uma vista de olhos aos livros velhos vendidos a um euro não descobrindo nada de interesse, também para que quero mais livros se ando a ler dois em simultâneo e já não tenho móveis nem espaço para meter mais. Sigo até ao largo da igreja de Benfica onde ao sábado, há bancas de artesanato e bijutarias. Deixo para trás o velho chafariz, onde os pombos, cabisbaixos, permanecem esperando a comida que dantes lhes caía do céu qual maná no deserto, bem podem aguardar, a edilidade cortou-lhes a ração oferecida atirando cá para fora uma postura proibitiva. Neste país tudo se proíbe, esquecendo que “o proibido é o mais apetecido”. Ali, e neste caso, não, a polícia anda por perto e actua, os pobres bicharocos alados é que não esquecem que ali é que era bom, ficando a aguardar que um transeunte mais afoito lhes deite algo comestível como antigamente. Passo pelo quiosque e paro atrás de uma fila que lê os jornais expostos em duas colunas presos com molas de roupa, “alfinetes, como a minha avó lhes chamava, alfinetes porquê se aquilo nada tem de semelhante coisa? talvez por serem para a roupa, pois nessa é que se espetam alfinetes, coisa de costureira com certeza. À esquerda os jornais com a crise, nas primeiras páginas mais cortes anunciados pelo governo, à direita as “façanhas” do Nosso Benfica abençoado por “Jesus”. Deviam estar ao contrário, o governo à direita e o futebol à esquerda, pois esse é que é do povo, o outro é do capital. Não leio nada de novo que não tenha visto já na TV. Vou um pouco mais longe até ao jardim junto do mercado onde a junta de freguesia promove actividades desportivas e culturais, para lá chegar passei junto ao mercado onde à volta enxames de ciganos e passantes se entrecruzam, uns vendem outros compram ou discutem preços. Raparigas de cor com saias curtas e “collants” justos, deslocam-se meneando as ancas. Mais à frente, debaixo de toldos, montes de bancas dos ciganos vendedores de roupas numa algaraviada de pregões e chamamentos. No jardim, matronas sessentonas com camisolas vermelhas e iguais, distribuídas pela junta, correm atrás de bolas tentando metê-las em exíguas balizas balanceando e sacudindo as carnes já volumosas. Mais à frente ainda, alguns garotos, em cima de um xadrez gigante, movem e brincam com as peças não sabendo o que fazem. Nas mesas de pedra, tabuleiros de xadrez, tristes por abandonados, deviam ter sido substituídos por damas ou gamão, jogos mais ao gosto dos reformados deste país, para jogar xadrez seria preciso outra cultura ou outras gentes, isto aqui não é a Rússia. Deixo o jardim e entro no mercado onde a azáfama é enorme, bancas cheias esperam os clientes que muito passam mas pouco compram, provando que esta crise não é o caminho certo. Olho os carapaus e penso que os estaria assar se estivesse na minha aldeia saloia, Assafora, onde se “assa fora” de casa, será que vem daí o nome?
Já dentro do portão da mata de Benfica sento-me num banco olhando os altos cedros e eucaliptos recordando a infância quando no “Pilão” saltava o muro para ir ali aos ninhos que referenciava memorizando árvores e locais. Num banco ao perto, um casal de namorados, de pernas entrelaçadas, lambuza-se e apalpa-se num jogo desenfreado de desejo incontido, alheios a tudo e a todos e estando-se nas tintas para quem observa. Recordo os meus namoros de juventude quando procurávamos esconderijos para trocar uns beijos e outras pequenas malandrices que agora nos parecem demasiado ingénuas. Penso que os jovens de agora são mais sãos, mostram o que fazem sem medo nem vergonha.
A manhã já vai adiantada e resolvo voltar a casa. Na estrada de Benfica passo por um pedinte, de meia-idade, sentado num pano junto à parede, mostrando um coto de perna que já foi. Uma caixa de cartão contém alguns cêntimos e até uma moeda de euro. Conheço aquele homem há anos e penso que já deve estar rico. Alapardado junto à parede nem se dá ao trabalho de pedir, quem se condoer que poise o óbolo, mais valia que lho metessem sob a língua, para que Caronte lhe transportasse a alma até ao descanso eterno. Entretanto vai-se dedicando a limpar o nariz atirando as excrescências macacoides das fossas nazais, contra a parede com um “plic” de unha bem aplicado. Aquela parede já deve estar bem revestida e muito trabalho dará aos arqueólogos daqui a uns milhares de anos, quando desenterrarem ruínas de Lisboa soterrada por sucessivos terramotos, senão destruída por qualquer conflito atómico, para descobrirem porque numa parede se encontra ADN humano.
Volto para casa mais enriquecido. Ligo a TV, os “passos” do Passos continuam a lixar-nos.