segunda-feira, 23 de junho de 2014

A BOLA



“A bola é mulher não sabe o que quer”. Que me perdoem as minhas queridas amigas que sabem que não sou nada machista. A frase foi escrita por To Sam, pessoa admirável que tive o prazer de conhecer, numa “charge” ao futebol carregada de humor. To Sam além de decorador, foi pintor, ilustrador, escritor e principalmente um humorista de craveira ímpar. Tudo isto a propósito dos futebóis, tema em que não me sinto nada à vontade por perceber pouco do assunto. Mas realmente a bola é redonda e não sabe mesmo o que quer, pois muitas vezes os que a pontapeiam querem que ela vá para um lado e ela teimosamente vai para outro, sem conta nem medida. Mesmo percebendo pouco do assunto, acho que para se jogar é necessário possuir-se jeito, muita perna e maior pulmão. Os nossos rapazes da selecção têm imenso jeito. Já quanto a perna parece que todos as perderam e quanto a pulmão nem se fala. Quando todos ansiavam por uma vitória, ela esfumou-se e vá lá, evitou-se a derrota. É assim, para uns ganharem outros perdem e às vezes empata-se. Os adversários não são paralíticos e cada vez sabem mais daquilo. Mas não foi para isto que resolvi escrever este texto.
Nós, os portugueses temos todos a mania que somos os melhores do mundo e que havemos levar de vencida tudo e todos, mas não somos. A comunicação social e o zé povinho endeusam tudo e todos e esquecem-se das nossas limitações. O desporto, principalmente o futebol, faz libertar nos indivíduos todas as paixões reprimidas pelas frustrações da vida, levando para os estádios, ansias e desejos incontidos, que depois explodem e levam as massas a comportarem-se quase como selvagens. O povinho, explorado por patrões e governantes gananciosos e corruptos, vive triste e continua inculto pela educação que lhes falta em casa e nas escolas, onde, mais uma vez o poder, cego pela contenção orçamental, déspota nas decisões, não deixa a educação evoluir, limitando os educadores a regras e normas emanadas dos órgãos centrais. Por outro lado, a história que nos foi ensinada fez-nos crer que um povo descobridor e aventureiro como o nosso, poderia levar de vencida todas as tarefas. Esqueceram-se que os homens iam para as caravelas, para poderem comer e tentar trazer de outras bandas aquilo que não conseguiam para sustentar a família. Tivemos realmente meia dúzia de iluminados e estudiosos, que sabiam de antemão aquilo que podiam vir a encontrar e daí tirarem o melhor proveito. E realmente tiraram. Só que, mais uma vez, não foi o povo que beneficiou. A corte enriqueceu e por encosto o clero também com os agradecimentos às divindades pelos conseguimentos. O povão continuou paupérrimo e ainda hoje continua. Depois apareceu um poeta, demasiado lírico, que enalteceu de tal forma os feitos dos portugueses, que todos nós lemos e estudámos, acabando por colocarmos o livro debaixo do braço, mostrando a tudo e todos: — Vejam, os portugueses, nós, somos assim; Destemidos, valentes e determinados. Vencemos tudo e todos.— Santa desilusão, somos iguais aos demais, com as nossas incapacidades e fragilidades.
Olha! Resta-nos dizer aos rapazes quando regressarem a Portugal:-- Deixem lá, a culpa foi do Camões.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Como se faz um santo?


Santo António de Lisboa (ou Pádua?)

António, de nascimento Fernando, não se lhe conheceram pais, mas mais tarde foram-lhe atribuídos como sendo Martins ou Bulhões (Martinho de Bulhões e Maria Teresa Taveiro). Foi um frade, o que faz supor um nascimento pobre, pois eram estes os educados nos conventos. Mas, dada a nobreza dos seus supostos pais, foi-lhe conferida uma suposição de pessoa bem nascida. Muito cedo os seus educadores se aperceberam da extraordinária apetência que o noviço tinha pelo estudo e da grande capacidade de aprendizagem que revelava. Foi primeiro frade Agostinho, mas mais tarde, em Assis, sob a égide de São Francisco, mudou para Franciscano. Devido à sua grande cultura e excelente exegeta, proferiu excelentes sermões ainda hoje tidos como dos melhores e mais profícuos, tendo sido espalhados por vários países, pois parece que o piedoso taumaturgo viajou imenso nos apenas perto de 40 anos que viveu.
A sua grande fama de taumaturgo vem das inúmeras “lendas” passadas de boca em boca dos seus bastantes milagres. Acho que refez um pé amputado a uma rapariga, fez uma mula ajoelhar perante a hóstia sagrada e até lhe apareceu o Menino Jesus quando orava numa Igreja. Ficou como santo padroeiro dos amputados, dos animais, das grávidas, dos idosos e dos fracos e oprimidos e é normalmente invocado pelas moças solteiras para arranjar casamento e para encontrar objectos perdidos. A sua iconografia, é geralmente apresentada com o menino ao colo devido à tal aparição. Só não sei porque numa das mãos uma vez lhe colocam a cruz outras vezes um ramo de açucenas. Dada tanta profusão de milagres foi canonizado pelo Papa Gregório IX, em 1232, ano seguinte ao da sua morte a 13 de Junho.
Este grande mestre do saber da Igreja, ainda teve tempo para converter hereges Cátaros ou Albigenses e tendo assentado praça como soldado chegou a Coronel do Exército.
Todo este arrazoado, vem a propósito do dia de hoje, 13 de Junho, e das festas de Lisboa, na véspera, em honra deste Santo Homem. E aí eu pergunto: Como se faz um santo?
Homens bons, cultos, solidários, dedicados à humanidade, sempre houve, mas daí a serem considerados santos… bem, parece que têm que ter outros predicados. Mas será que os santos os tinham? Era necessário ser casto, coisa muito difícil, pois a tentação da carne é grande e moças atiradiças nunca faltaram, então o frade Fernando que até pregava partidas às raparigas. Parece que, tal como o João, também partia as bilhas nas fontes e as recompunha perante a consternação das moças que lhe agradeciam encarecidamente, depois arranjava-lhes casamentos. Tinham também de realizar milagres, o que era difícil e muito pouco natural. Não acredito em pés restaurados depois de uma amputação, já fazer ajoelhar uma mula é fácil, nos circos até os elefantes andam de bicicleta. Parece também que o santo gostava de comer e beber e devia gostar imenso de sardinha assada e vinho tinto. Só que morreu cedo e ainda por cima com hidropisia, uma doença de excesso de água no corpo. Devia ter abusado mais do vinho.
Claro que, na idade média, época em que viveu, o povo era ignorante e supersticioso em demasia, ainda hoje é, e a igreja encarregava-se de empolar situações que ajudassem a criar santidades. Criaram tantos que penso haver um santo diferente para cada dia do calendário.
Não sou crente e obviamente também não acredito em santos, mas admiro este homem por aquilo que foi e aquilo que fez numa época obscurantista, em que a igreja guardava para si e para os seus apaniguados, toda a forma de saber e ciência. Este teve a coragem de tentar ensinar aos outros tudo aquilo que aprendeu. Terá sido exactamente assim? Não se sabe, mas pelo que se disse e escreveu até parece. Teve pelo menos o grande mérito de deixar em Lisboa a boa tradição folclórica das festas bem comidas e regadas.

Por aquilo que foi deixo aqui a minha homenagem a Fernando de Bulhões.

domingo, 1 de junho de 2014

Tintim antes, durante e agora


Em 1935, no mês de Agosto, nascia a minha irmã. Eu fiquei para mais tarde, apenas 19 meses depois. No ano em que a minha irmã nasceu, a nossa Tia e Madrinha, irmã de meu Pai, era funcionária da Emissora Nacional onde Adolfo Simões Muller era Director do Gabinete de Estudos e Programas. Este escritor, jornalista e pedagogo foi editor e fundador da revista de banda desenhada “O Papagaio” fundada nesse ano, tendo sido a primeira revista não francófona a publicar as aventuras de Tim-Tim. A minha Tia, amiga de Simões Muller, fez uma assinatura da revista em nome da minha irmã.
Quando nasci, já Tim-Tim, como então se escrevia, andava lá por casa acompanhado do seu cão Terrier “Milou”, que, no Papagaio era, erradamente, apelidado  de “Rom-Rom” que toda a gente pensava ser cadela.
Cedo comecei a devorar aqueles bonecos e Tim-Tim passou a meu herói. Não fui um sobredotado, mas aos seis anos já conseguia ler os “balões” com as falas das personagens e, julgo que foi o interesse nas histórias que me levou a aprender a ler depressa.
Tim-Tim foi uma criação do ilustrador belga Georges Remi (Hergé, pronuncia das suas iniciais do seu nome R e G) no suplemento infantil “Petit Vingtième” do jornal diário belga “Le XXe  Siècle”. Hergé foi o primeiro ilustrador de BD a pôr as falas a saírem directamente da boca das personagens através dos balões “filacteras”. A primeira aventura deste jovem jornalista foi Tintim no País dos Sovietes.
O meu Pai mandava encadernar as revistas de cada ano tendo no término da mesma um total de 13 volumes e alguns números soltos. No Papagaio publicaram-se 9 das aventuras do meu herói:

Tim-Tim na América, inicio no nº 53.
O Charutos do Faraó, nº 115 ao 161.
O Lótus Azul, nº 166 ao 205.
Tim-Tim em Angola (Tintim no Congo), nº 209 ao 244.
Tim-Tim e o Mistério da Orelha Quebrada (A Orelha Quebrada), nº247 ao 298.
Tim-Tim na Ilha Negra (A Ilha Negra), nº 301 ao 359.
Tim-Tim no Deserto (O Caranguejo das Tenazes de Ouro), nº 366 ao 426.
A Estrela Misteriosa, nº 435 ao 540.
O Segredo do Licorne, nº 617 ao 679.

Todas estas histórias foram os desenhos originais. Mais tarde, Hergé reformulou todas, modernizando-as para serem publicadas em álbuns.
Conheci assim, todas as versões do meu Tim-Tim e Rom-Rom que depois passaram a Tintim e Milou.

Todas as semanas, o carteiro tocava à porta e anunciava “Pacagaio”, trocando as letras ao nome, o que nos fazia sempre rir, e fazendo-nos correr para ver quem conseguia ser o primeiro a ler. Foi através das histórias de Tintim que “fiz” as primeiras viagens. Andei por Nova Yorque, Xangai, Port- Said, Singapura, Nova Deli, Katmandu, Tibete, Escócia, Congo e sei lá por onde. Mais tarde, já na minha vida militar, reconheci vários desses pontos através dos traços característicos de Hergé. Lembro-me de estar sentado no porto de Singapura e pensar para comigo “Já estive aqui”.
Após o Papagaio foram publicadas as seguintes aventuras:

O Ceptro de Ottokar
O Tesouro de Rackham o Terrível
As Sete Bolas de Cristal
O Templo do Sol
No País do Ouro Negro
Rumo à Lua
Explorando a Lua
O Caso Girassol
Carvão no Porão
Tintim no Tibete
As Jóias da Castafiori
Voo 714 para Sidney
Tintim e os Pícaros
E, a título póstumo, Tintim e a Alph Atrt

Só muito mais tarde, foi reeditado o álbum de Tintim no País dos Sovietes, que Hergé considerava ter sido uma crítica demasiado feroz ao regime comunista da União Soviética e, portanto, estar ultrapassado.

Mas foram as personagens companheiras de Tintim que mais me fascinaram. O Capitão Haddock, os detectives gémeos Dupond & Dupont, o professor Tournesol, o mordomo Nestor, o rouxinol milanês Bianca Castafiori, os Generais Alcazar e Tapioca, o famigerado Dr. Muller, o português Oliveira da Figueira, o japonês Mitsuhirato, o bondoso Sr. Wang, o adorável Tchang, o Xeque  Bem Kalish Ezab e o traquinas do seu filho Abdalah, o terrível Rastapopoulos, o miserável e milionário Carreidas, o sinistro Coronel Sponz, enfim tantos outros cheios de vida e humanidade que me cativaram e enriqueceram a juventude, continuaram a prender-me a atenção pela vida fora e ainda hoje revejo com interesse e emoção.

Tintim foi publicado em mais revistas portuguesas até aparecer a revista Tintim, da Bertrand, que adquiri desde o exemplar nº1. Mesmo em Angola, recebia-a semanalmente, pois um familiar encarregou-se de ma enviar sem falhar um nº. Dessa revista, o meu filho possui ainda todos os números encadernados em 26 volumes. Possui também todos os álbuns editados pela Casterman na sua versão brasileira.


Foi este herói e os seus companheiros que me ajudaram a moldar o meu carácter. Mais tarde apareceu Asterix de que muito gosto, mas não substituiu o meu querido Tintim, aquele impetuoso e generoso jovem jornalista de cabelo ruivo com poupa, calças à golf castanhas e camisola azul, defensor dos fracos e oprimidos, implacável para com os criminosos, mas sempre de uma humanidade a toda a prova.

segunda-feira, 19 de maio de 2014

Os Meninos, a Festa e a Tragédia


A menina não cabia em si de contente. A mãe vestira-lhe o traje domingueiro e penteara-a a preceito. Na escola, no dia anterior, a professora dissera-lhes que iriam ter uma festa na igreja onde o pastor faria uma dissertação sobre Deus Jesus e como era bom estar em estado de graça com fé nesse Deus feito homem que morrera para remissão dos pecados humanos. Não percebera lá muito bem o que isso queria dizer, mas sabia que estaria com os outros meninos e meninas, todos amigos, num passeio domingueiro. A mãe, no início, não achou lá muito bem. Passeios de autocarro, só com crianças e naquelas estradas, poderia ser bem perigoso, mas a sua menina tanto implorou que, condoída, lá condescendeu. Orou devotadamente à mãe de Cristo que acompanhasse os garotos e que rogasse a seu Filho, a protecção daquelas crianças inocentes. Sabia que Nossa Senhora, como mãe, os acompanharia e protegeria.
No autocarro, uma auxiliar nomeada pela escola, sentou-os e pediu-lhes para apertarem os cintos, pois assim estariam mais protegidos e que teriam de permanecer nos lugares. A estrada estava bastante degradada e os solavancos eram constantes devido aos inúmeros buracos. Cantaram e brincaram proferindo graçolas de uns para os outros e nem deram pelo tempo da viagem. O condutor seguia devagar, com ar carrancudo e preocupado. Deixaria as crianças na Igreja e depois teria que ir receber a mercadoria, num serviço que lhe tinha sido pedido e para o qual lhe pagaram bem.
Na Igreja, o bom pastor, recebeu as crianças com palavras cristãs e muitos afagos nas cabecitas cheias de alegria devido à sensação de liberdade que aquela manifestação religiosa lhes proporcionava, podendo abandonar por algumas horas, a pobreza das suas casas e, juntamente com os seus amigos, usufruírem da companhia uns dos outros fora da obrigatoriedade dos deveres escolares.
O Pastor, entre cânticos, foi falando da sensação que, aos crentes, causava a fé em Deus, a quem deveriam rezar e glorificar, para serem por Ele protegidos e, assim, em estado de graça, poderem viver em paz e conforto celestial. Finda a homília, foram distribuídas, para gáudio de todos, guloseimas e refrigerantes.
À hora marcada, o condutor esperava em frente á Igreja, já com a sua preciosa carga acondicionada e escondida de olhares curiosos.
Durante todo o regresso, o velho autocarro seguiu bastante mais devagar, como se o peso dos anos, ou talvez da carga extra, lhe vergasse as molas já bastante pasmadas.
O motor começou a falhar e uma ruga de preocupação alterou a testa do motorista. Após uma curva e já próximo de uma povoação, parou mesmo e não cedeu às sucessivas tentativas de arranque. O motorista saiu e fechou a porta, não fosse algum dos estouvados miúdos dar-lhe para sair e depois lá viriam com as culpas para cima dele. Abriu o capou e desapertou o tubo do acesso da gasolina ao carburador vendo que a gasolina saía normalmente. Não havia entupimento antes, deveria haver depois. Desapertou o tubo de saída e, como deixara a chave ligada, acionou o motor de arranque. Uma faísca saltou incendiando de imediato a gasolina entornada. Uma imensa chama fez o motorista saltar para trás. Como se de um dragão enfurecido se tratasse, as chamas rapidamente penetraram no autocarro pegando-se de imediato às vestes dos pequenos passageiros que, apanhados desprevenidos, nem tempo tiveram para se soltarem dos cintos. Alguns, antes de serem totalmente apanhados pelo fogo inexorável, ainda bateram com as mãos e com as próprias cabeças, tentando quebrar os vidros que lhes permitissem uma fuga para fora daquele inferno que os queimava e asfixiava. Alguns populares ainda tentaram retirar algumas crianças mas rapidamente tiveram de se afastar devido à rapidez com que as mesmas se propagavam e aumentavam. O crepitar dos materiais do veículo abafava os gritos dos pobres garotos. Certamente algo de muito inflamável estaria dentro daquele carro para que o fogo se tivesse propagado tão rapidamente.

Do autocarro só sobraram destroços calcinados. Dos passageiros só corpos carbonizados. No interior da viatura apenas se notaram duas faltas: Do condutor, que a tempo e cobardemente fugiu e de deus por não existir…

quarta-feira, 30 de abril de 2014

2014 Odisseia no Ministério das Finanças



(ou “A (bug)unçada computorizada do Estado”)

Certamente todos se lembram, pelo menos os mais cinéfilos, da história de 2001 odisseia no espaço, que Stanley Kubrick tão excelentemente realizou em filme. Aí o computador “Hal 9000”, incomodado com o rumo que os homens estavam a dar à missão, resolveu rebelar-se passando à acção e tomou conta das operações. Foi preciso esperarmos 13 anos para que a profecia do filme, isto é, os computadores passarem a ter vontade própria, se concretizasse, e logo havia de ser no Ministério das Finanças. Os computadores zangaram-se com os governantes, que haviam dado certamente um prazo demasiado curto para reembolso do IRS, e criaram um “bug”, trocando as voltas aos cuidadosos e pressurosos senhores que queriam que o povo fosse reembolsado a tempo e horas.
Lembro-me de, em tempos idos, quando fiz um curso na IBM, levado por um amigo que lá trabalhava como programador do “Service Bureau”, os computadores ainda serem estimulados por cartolinas perfuradas e os programas completamente lineares, serem elaborados de fio a pavio, isto é, com instruções em ASSEMBLER ou COBOL, começando na 1ª linha e terminando na última. Quando os erros sucediam, o meu amigo e os companheiros, chegavam a estar uma noite inteira a resolver o problema, pois era necessário rever a programação do princípio ao fim, encontrar o erro, identificar o cartão com os buracos a menos ou a mais, fazer novos cartões, correr as rotinas de novo até tudo estar correcto. O certo é que nenhuma empresa ficou sem o trabalho feito dentro do prazo porque a IBM não brincava em serviço e os seus funcionários não se poupavam a esforços para resolver os problemas.
Agora, quando os programas são elaborados por módulos e com linguagens muito mais acessíveis, vem o Ministério das Finanças declarar que, devido a um erro informático, não é possível reembolsar o IRS aos cidadãos por crédito em conta bancária, ficando os pagamentos adiados, mas que serão pagos por cheque no mais breve prazo possível, que terá de ser no máximo até ao fim da semana segundo um pressuroso Secretário de Estado, que, claro está, se armou em coitadinho, como não tendo qualquer culpa, passando esta apenas para o desgraçado computador do MF.
Não brinquem comigo, sou informático, sei do que falo. Ou o computador resolveu imitar o “Hal” tomando conta das operações para lixar o povão, ou os técnicos de informática do MF tiraram os cursos juntamente com o Relvas, ou ainda o Governo está a brincar connosco.
Hoje, um erro, num programa há muito elaborado e testado, só acontece quando a esse programa é feita qualquer alteração e, as alterações normalmente são elaboradas nos módulos, apenas naqueles que são passíveis de alteração. Se o erro aparece, basta procura-lo nos módulos alterados e quaisquer duas ou três horas chegam para isso e, se não chegarem, trabalhem de noite que não lhes faz mal nenhum. Não me venham dizer que não podem creditar as nossas contas devido a um erro. Enquanto o MF, tenta resolver o malfadado erro, o nosso dinheirinho continua nas mãos do Estado e nós à espera dele para pagarmos ao senhorio, à mercearia, à oficina do carro ou para comprarmos os preservativos ou viagra para nos irmos entretendo a fazer amor enquanto o tempo passa (As time goes by).

O MF tem as costas largas e os pobres computadores também. Os técnicos passam por ineptos (coitados são funcionários públicos e como tal nada fazem), entretanto o governo vai-se governando e continuando a mentir aos portugueses. Não me copulem sem que eu queira senão é violação.

sábado, 19 de abril de 2014

Para Quê?


Junto da cama, olhava aquele corpo magro, esquelético até, ali, quase estático, sem nada dizer, nada fazer, interrogando-me se pensaria e se o fizesse em quê. Perguntava à auxiliar o porquê daquela magreza, como se ela pudesse saber… “Que comia e bem, tinha uma boca santa, tudo o que lhe levavam à boca ela engolia…”
Perguntei se queria chocolate, disse sim sumidamente, sempre adorara chocolate…
Fico por ali com os meus pensamentos, tentando perscrutar o seu íntimo, tentando adivinhar o que pensará ou sentirá.
Recordei a nossa infância, aquele sábado fatídico em que, por não termos aulas fomos até ao ringue de patinagem alugar patins com alguns trocos que os pais nos deram, a queda que deu, como a olhar-lhe a perna vi logo a fractura da canela. Gritei para que chamassem os bombeiros que nos levaram a Lisboa para S. José. Lembrei a ansiedade enquanto esperava, como entrei por ali dentro contra tudo e contra todos, o porteiro atrás de mim… “Que não podia entrar ali, que era proibido, que“ …Que se lixasse!... o médico estava junto da minha irmã, atendeu-me apesar dos meus 14 anos, que teria de ser operada pois a fractura era grave.
Lembro de ainda ter uns trocos e ir à cabine telefonar para casa, felizmente foi o meu pai que atendeu, a mãe entraria em pânico.
Levou cerca de três meses sem se levantar da cama, não conseguia andar com o gesso, desequilibrava-se, pensávamos nós que pelo medo. Já anteriormente aquela rapariga caía imenso, andava sempre de joelhos esfolados. Depois da fractura passou a ter um andar ainda mais desequilibrado, partia a loiça e deixava cair as coisas das mãos.
Depois de imensos exames médicos foi-lhe diagnosticada uma atrofia cerebelar congénita. Que a doença não tinha cura e que seria progressiva mas lenta. E foi. Porquê?
O congénito não é necessariamente hereditário, ninguém da família padecia ou padeceu desse mal. Deixou de estudar e passou a ficar ao cuidado da nossa mãe que acabou por ser demasiado protectora ao ponto de a tornar um pouco egoísta e bastante agressiva na sua maneira de ser. Era uma rapariga interessante sem ser uma beleza. Apenas ano e meio mais velha do que eu, demasiado magra e alta não passava despercebida aos rapazes. Casou com um oportunista convencido que o meu pai tinha dinheiro. Quando viu que dali nada ganharia saiu de casa e desapareceu. Divorciou-se e, mais tarde, o tipo morreu. Não tiveram filhos porque ela não os podia ter. Voltou para casa dos meus pais.  Consegui arranjar-lhe emprego como dactilografa num dos serviços por que passei. Após alguns anos já não conseguia escrever à máquina por errar muitas teclas. Continuou como telefonista e até foi prestando um serviço razoável. Andar de comboio todos os dias para Lisboa era um perigo, mas pior seria ficar em casa sem nada fazer. Deu imensas quedas e partiu mais alguns ossos. Para cúmulo, outra doença apareceu, sem ter nada a ver com a cerebelose. Esclerose do nervo óptico. Outra também incurável e progressiva. A cegueira foi tomando conta dela. A minha mãe, até uma idade muito avançada foi a sua guia. Após a morte de minha mãe ainda tentei que ficasse em casa. Depois de demasiadas quedas e muitas idas para o hospital, desisti internando-a. Durante alguns anos ia vê-la duas vezes por semana levando-a a almoçar, muitas vezes acompanhado do meu filho, que também visitava a tia nos meus impedimentos. Com o agravar da doença, cada vez era mais difícil conduzi-la e ampará-la. A falta de vista nada ajudava. Deixámos de sair e as visitas faziam-se apenas na instituição.
Agora piorara e ali estava, acamada, completamente cega, drogada, com calmantes e ansiolíticos, sem nada dizer nem fazer. Porquê e para quê?
A médica diz que já há demência senil. Com 78 anos? Por quê? Será que tanto medicamento a tornou assim? Fará o cerebelo falta ao cérebro? Não sei. Só sei que estou a perder a irmã.
Todas as semanas lá estou. Levo-lhe chocolate que continua a comer mas sem o agrado de antigamente. Não reage quando lhe digo que tenho de ir embora. Também não reage quando chego. Digo-lhe olá que ela repete sem qualquer indicação de alteração do seu íntimo. Será que pensa? Julgo que o cérebro humano, enquanto há vida, está sempre activo. Será? Não parece. Isto que eu vejo e sinto não é vida, e pergunto mais uma vez; Para quê?

Claro que, como não crente, sei que não tem de haver uma razão para a vida, somos animais e como animais, vivemos, adoecemos, morremos e desaparecemos. Mas, como ser pensante, custa-me assistir a tanta degradação e tanto tempo para chegar ao fim. Viver assim não interessa. Para quê? É minha irmã e gosto muito dela, mas por isso é que gostaria que acabasse rápido e sem sofrimento. Assim, para quê? Não é viver.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

CHOCOLATE


Num destes dias revi na TV o filme que dá título a esta crónica. Quanto mais o revejo mais o aprecio. O sueco Lasse Hallström, coloca muito bem em imagens o que o preconceito, exacerbado pelos costumes católicos, provoca nos comportamentos das pessoas e ainda mais quando o medo a deus, é aproveitado pelos caciques, de modo a levarem os seus conterrâneos a portarem-se da forma que lhes convém, isto é, fazendo apenas aquilo que eles querem, de forma a tornarem-se nos chefes totalitários e fascistas senhores de tudo e de todos.
Mostra também, como uma mentalidade aberta e liberta de preconceitos, chega a uma aldeia rural em França e, pelo seu comportamento e maneira de ser, começa a fazer ver àquelas mentes fechadas, que a vida poderá ser vivida de forma muito diversa daquilo que o padre, sujeito ao cacique, determina. A pouco e pouco, sem nada impor, Vianne Rocher, excelentemente interpretada por Juliette Binoche, vai transformando aquelas mentalidades. Pelo seu comportamento, aberto e independente, em contraste com o apreço da maioria, vai ganhando o ódio do cacique, conde  Paul de Reynaud numa interpretação soberba a que Alfred Molina nos habituou, vendo na bela Vianne, uma intrusa que poderá vir a ser um sério obstáculo ao seu poder e ainda mais raivoso fica quando Vianne enceta uma relação amorosa com Roux (Johnny Depp), um músico nómada pertencente a uma comunidade, por eles proscrita, que vive em barcos a quem os habitantes da aldeia chamam “ratos do rio”. Vianne impõe-se também por ajudar as mulheres da aldeia a libertarem-se dos maridos prepotentes que as maltratavam sujeitando-se a todas as ignomínias, não conseguindo libertarem-se, mais pelo medo do castigo divino por quebrarem os laços sacramentais, do que do medo dos respectivos cônjuges, que já pouco respeito lhes infundiam. Tudo isto é catalisado pelo chocolate que Vianne prepara na sua loja a que chamou Maya, em homenagem à sua avó descendente dessa etnia e, que a nossa heroína, teve a ousadia de abrir mesmo em frente à Igreja, desafiando os habitantes que, no início, consideraram uma afronta, por ter sido colocado o pecado, na forma de gula, mesmo em frente a deus e durante a quaresma. Mas o chocolate é afrodisíaco e viciante e, a pouco e pouco, os aldeões vão perdendo o medo e cometendo o “pecado”, de deglutir, com volúpia, os excelentes doces que Vianne tão bem confeciona. Admirável também a sua relação com a filha, que educa de forma aberta e livre sem deixar de ter mão no controlo dessa liberdade. A garota não dorme sem que a mãe, a quem adora, lhe conte pela enésima vez, a história do seu Avô, que teve a coragem de casar com uma mestiça descendente de uma princesa Maya, o que lhe trouxe a animosidade das comunidades onde viveu e o fez tornar-se um nómada. Vianne, que devido à sua maneira livre de viver e pensar, também se viu obrigada a mudar várias vezes de local, resolve deixar a aldeia e recomeçar tudo de novo, mas, levada pela aceitação da comunidade, decide continuar e assentar de vez.
Um filme que nos mostra um lado sórdido de uma igreja que se junta ao poder, exercendo um papel castrador de mentalidades, impondo aos crentes a sua vontade pelo medo da não obtenção do perdão e apoio divino, beneficiando assim de todas as benesses que o cacique local lhe garante.
O realizador, servindo-se do chocolate, tal como outros nórdicos, segue o tema da gastronomia,  como catalisador de excelentes histórias. Este, consegue ombrear com o magnífico filme dinamarquês “A Festa de Babette” dirigido por Gabriel Axel, baseado num conto de Karen Blixen a carismática personagem de “África Minha”.

Chocolate, um doce divinal para comer e um filme sempre a rever.