sábado, 15 de novembro de 2014

Israel, um estado construído por direito divino.


De um amigo Pilão recebi um mail com este link:


É realmente impressionante o que os judeus fizeram em Israel, mas não posso deixar de pensar nos Palestinianos.
Nada está historicamente provado da origem do povo judeu. Nem a arqueologia nem os registos egípcios têm qualquer referência ao povo judeu. Portanto, nada se sabe antes, nada se sabe depois. Tudo o que conhecemos é o que vem escrito nos chamados documentos “sagrados”. A Bíblia, supostamente começada por Moisés, personagem cuja existência nunca foi provada, foi depois continuada por escritos de profecias várias que naquele tempo proliferavam, dizem. Claro que esses escreviam aquilo que lhes interessava fazerem crer. Como nada está registado, não se sabe quem governava o Egipto no tempo em que as escrituras referem o êxodo. Atribui-se, sem qualquer confirmação, que seria Ramsés II, no entanto, nada na história da governação desse faraó, nem na arqueologia, há referências a esse povo. Há, no entanto, indícios de várias tribos escravizadas e, provavelmente a tribo dita judaica seria uma delas. Há quem refira que essa tribo foi uma das que não aceitou o regresso ao politeísmo aquando da morte de Aquenáton (Amenófis IV, foi Faraó da XVIII dinastia do Egito) que assim passou a chamar-se por ter determinado que no seu reino só se adoraria um Deus, Aton o sol. Os egípcios adoravam vários deuses e não ficaram lá muito satisfeitos com esta determinação, assim, após a morte de Aquenaton, tudo voltou à mesma com seu filho Tutancamon, que morreu cedo. Há pois defensores de que a tribo “judaica” continuou monoteísta e devido a essa teimosia foram dominados e escravizados. Mas tudo isto não passa de conjecturas. O nascimento das doze tribos de Israel formadas pelos doze filhos de Isac filho de Abraão, também são referências bíblicas não confirmadas. Aliás Abraão seria Caldeu pois teria nascido em Ur na Mesopotâmia. Teria sido também do seu filho Ismael que nasceria a religião dos muçulmanos. Assim sendo seriam duas religiões irmãs e deveriam dar-se bem. Pois sim…
Não podemos pois tomar como certas as “histórias” da fuga do Egipto e da chegada à terra prometida, quanto mais acreditar naquela balela da travessia do Mar Vermelho.

A divisão dos reinos]

Com o descontentamento constante das tribos sob o domínio de Salomão, o reino se divide em duas partes sob o governo do filho de Salomão, Roboão. Dez Tribos se rebelam contra impostos cobrados por Salomão e reivindicam a Roboão negociá-las. Diante da negativa do jovem rei Roboão, dez tribos se rebelam um formam um reino à parte. Assim, duas tribos ficam com Roboão, continuando Jerusalém como sede do reino (I Reis 12),reino de Judá ao sul e o reino de Israel, tendo Samaria como sede e Jeroboão, como rei. Jeroboão era filho de Nebate, efrateu de Zereda, servo de Salomão (I Reis 11:26; 12:19-20) reino de Israel ao norte. Diversas crises políticas e religiosas acabam levando à decadência dos dois reinos: o reino de Israel é destruído pelos assírios, enquanto o reino de Judá é destruído pelos babilônios. No exílio, o povo israelita começa a tomar consciência do seu papel no "Plano de Deus" e, após alguns anos, retornam para sua terra e reconstroem o Templo, reorganizando suas Escrituras. Com estes fatos encerra-se a história do período das Escrituras Hebraicas.
A era talmúdica
Com o retorno de algumas comunidades judaicas para a Judeia, uma renovação religiosa levou a diversos eventos que seriam fundamentais para o surgimento do Judaísmo como uma religião mundial. Entre estes eventos podemos mencionar a unificação das doutrinas mosaicas, o estabelecimento de um cânon, a reconstrução do Templo de Jerusalém e a adoção da noção do "povo judeu" como povo escolhido e através do qual seria redimida toda a humanidade.
A comunidade judaica da Judeia cresceu com relativa autonomia sob o domínio persa, mas a história judaica tomará importância com a conquista da Palestina por Alexandre Magno em 334 AC. Com a morte de Alexandre, o seu império foi dividido entre seus generais, e a Judeia foi dominada pelos Ptolomeus e depois pelos Selêucidas, contra os quais os judeus moveram revoltas que culminaram em sua independência (ver Macabeus).
Com a independência e o domínio dos Macabeus como reis e sacerdotes, surgem as diversas ramificações do judaísmo da época do Segundo Templo: os fariseus, os saduceus e os essénios. As diversas intrigas entre as diversas divisões do judaísmo levou à conquista da Judeia pelo Império Romano.”
Isto é o que refere a Wikipédia.
Daqui se infere que naquele tempo a Palestina era uma grande “salsada” habitada por imensas tribos semitas entre as quais as de Judá e Israel que afinal se separavam como fariseus, saduceus e essénios.
A diáspora.
De acordo com a Bíblia, a Diáspora é fruto da idolatria e rebeldia do povo de Israel e Judá para Deus, o que fez com que este os tirasse da terra que lhes prometera e os espalhasse pelo mundo até que o povo de Israel retornasse para a obediência a Deus, onde seriam restaurados como uma nação soberana e senhora do mundo. De acordo com a Moderna Historia, a diáspora judaica aconteceu pelo confronto do povo judaico com outros povos que desejavam subjugar sua cultura e dominar o seu território.
Geralmente se atribui o início da primeira diáspora judaica ao ano de 586 A.C., quando Nabucodonosor II — imperador babilônico — invadiu o Reino de Judá, destruindo a Jerusalém, e o Templo; e deportando os judeus para a Mesopotâmia. Mas esta dispersão se inicia antes, em 722 A.C., quando o reino de Israel ao norte é destruído pelos assírios e as dez tribos de Israel são levadas como cativas à Assíria e Judá passa a pagar altos impostos para evitar a invasão, o que não será possível negociar com Nabucodonosor II.”

Mais uma vez recorri à Wikipédia para que se perceba a diáspora do povo hebraico. Confrontos, escravidão, subjugação de uns povos aos seus conquistadores, provocaram grandes diásporas na história. Na Palestina só os não judeus ficaram, não sei o porquê, talvez os nossos mestres em história me possam colmatar esta minha ignorância. No entanto, penso que foi a religião que os juntou mas também que os fez fugir e separarem-se. A sua religião e o isolamento a que foram sujeitos nos países de acolhimento, fê-los dedicarem-se ao estudo, à cultura, e a criarem um espírito de obtenção de riqueza que lhes desse um “status” para se imporem num ambiente hostil. Essa forma de vida tramou-os. Hitler não viu com bons olhos tanta acumulação de proventos num povo que dizia ser impuro. Seis milhões de judeus foram mortos e muitos outros tiveram de deixar os países onde se encontravam.
Após a segunda guerra mundial muitos começaram a dirigir-se à Palestina governada pelos Ingleses. Aí iniciaram uma campanha recorrendo muitas vezes a actos de terrorismo para tentarem que lhes fosse reconhecido o direito de ali viverem num estado independente. Em 1948 a ONU deu-lhes esse direito. Em Janeiro de 1948, Ben Gurion, um judeu polaco e comunista que muito cedo se refugiou na Palestina, depois de ter comandado muitas acções contra os Ingleses tornou-se o primeiro presidente do novo estado de Israel. Para os Palestinianos das outras tribos, agora muçulmanos, que nunca de lá saíram, começou o infortúnio.
Não sou historiador. Tudo o que para aqui escrevi é capaz de enfermar de muito erro. Por isso peço desculpa. Nada me move contra os Judeus, povo ao qual reconheço, inteligência, cultura, determinação e dinamismo, mas não aprovo que façam aos verdadeiros senhores daquela terra o que os outros povos lhes fizeram a eles. São diferentes? Pois são. Não são tão trabalhadores? Talvez não sejam, mas nunca beneficiaram das fortunas acumuladas por muitos judeus de diversas partes do mundo, principalmente dos USA e têm todo o direito de ali viverem. Se a ONU criou um estado de Israel, porque não teve o cuidado de criar outro para os palestinianos? Por serem muçulmanos? Ah! Deve ser por isso. São infiéis.









domingo, 19 de outubro de 2014

“LE NOZZE DI FIGARO”


Fui até à Fundação Calouste Gulbenkian para, no grande auditório, assistir à projecção em grande ecrã, das “Bodas de Fígaro” do tão conhecido génio Wolfgang Amadeus Mozart. Estas transmissões, que se realizam aos sábados umas vezes pelas 17H30 outras pelas 18 horas, são uma excelente iniciativa da Fundação que mais tem contribuído para a divulgação de eventos culturais no nosso país. Bilhetes relativamente baratos proporcionam salas esgotadas com uma frequência de bons apreciadores. As transmissões são feitas a partir do “The Metropolitan Opera” de Nova York, umas vezes em directo outras em diferido. Claro que não é bem a mesma coisa do que ver ao vivo, mas torna-se bastante aceitável e com o decorrer do espectáculo até nos esquecemos que estamos a ver uma projecção que dura das 18H até às 21H45 com um intervalo de mais ou menos meia hora.
Orquestra sob a direcção de “James Levine”, um excelente baixo/barítono, “Ildar Abdrazakov”, no papel de Fígaro, uma talentosa soprano/actriz, “Marlis Peterson” num papel muito vivo e bem interpretado de Susana. A parte mais negativa foram as legendas em português do Brasil, feitas muito em cima do joelho, trocando constantemente os géneros. No intervalo excelentes entrevistas aos protagonistas, não legendadas, mas num inglês perceptível que dá para apanhar duas no cravo contra uma na ferradura. A música é excelente num libreto cómico, talvez um pouco banal, mas que faz sorrir. Não nos podemos esquecer que, à época, a ópera era o teatro do povo.

Ao intervalo, ouviam-se comentários, que aquela não era história do Barbeiro de Sevilha, que a de Rossini é que era, etc. As pessoas muitas vezes desconhecem que, os libretos foram escritos por pessoas diferentes com intervalos de 30 anos, ambos adaptações de duas peças de Beaumarchais sob o mesmo tema. A primeira “O Barbeiro de Sevilha” e a segunda “As Bodas de Fígaro”. Curiosamente Mozart compôs sob a segunda, em 1785/86, sob libreto de Lorenzo da Ponte e, Rossini compõe sob a primeira em 1816, com libreto de Cesare Sterbini. Temos assim duas óperas em que a primeira é sob uma história continuação da outra que deu origem à segunda. Torna-se pois um pouco confuso para quem já viu as duas e não sabe disto. Na ópera de Mozart o nosso Fígaro já não é barbeiro, mas sim camareiro do Conde de Almaviva, já casado com Rosina, a quem ajudou, ainda como barbeiro, na sua conquista. Curiosamente, o Barbeiro de Sevilha será transmitido sábado 3 de Jan de 2015. Valeu pois a pena ir até à Gulbenkian ouvir Mozart e ver teatro musicado e cantado, com uma boa encenação já transportada para uma época mais moderna, o que se nota pelos trajes. Vão à ópera.

sábado, 11 de outubro de 2014

A morte do pombo


À morte ninguém escapa nem o Rei nem o Papa…”. Lembrei esta cantilena de miúdos ao encontrar um pombo morto na rua, durante o meu passeio matinal de sábado, esmagado por um automóvel. Pobre pombo que certamente andaria tão satisfeito procurando o seu sustento e a arrastar a asa à sua única companheira, sim porque os pombos são monogâmicos, assim como os católicos dizem que são, mas só perante os homens, porque perante o seu Deus muito têm que se desculpar, mas, dizia eu, ia o nosso pombinho feliz e contente e zás… “Mas eu sim escapo dela, compro uma panela que me custe um vintém…”. Será que se me meter numa panela que me comporte… “Meto-me dentro dela e tapo-me muito bem…” Bah! Não acredito, a morte vai dar por mim e lá vou eu para o bé-lé léu. A morte é mesmo uma chatice, acaba connosco em menos de um fósforo, transforma-nos em excrementos ou em cinza e lá acabamos. Há um pobre de um espermatozoide, um campeão, que corre que nem um desalmado para ser o primeiro a atingir a meta, consegue, entra no ovinho e lá ficamos nós para nascer em menos de nove meses. É pouco tempo comparado com aquele que se leva, às vezes para morrer. O nosso espermatozoide, com muito esforço, muitas das vezes debalde porque o conduzem para caminhos errados, lá consegue fazer com que do nada possa surgir a nossa vida e, depois, tarde ou cedo, lá vem a morte e puf… Será que haverá a tal panela?
Passa a morte e diz: Aqui não está ninguém…”. Pois! Fia-te nessa. Tal como o pombo vais morrer, só que eu sei disso e o pombo não sabia, ninguém tem culpa de o meu cérebro processar esse conhecimento. O pombo também já viu outros dos seus morrerem, só que não processa o conhecimento de que a ele também vai acontecer o mesmo. Já nós passamos todo o tempo a tentar, filosoficamente, encontrar formas de nos perpetuarmos. A morte é mesmo uma chatice e temos de a aguentar, a não ser que a panela funcione e, “Boa tarde meus senhores passem todos muito bem…”. Era  bom,  mas não funciona assim e o pobre do pombinho não tem uma alma para se evolar subindo até uma nuvem onde um fatito branco imaculado e uma lira o esperem condenando-o a tocar eternamente… Que chatice!

sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ANA


(capítulo de Pedras Negras de Vermelho)

Como não me acho capaz de escrever um romance, fiz uma tentativa de escrever um policial. Sempre é mais fácil e com um pouco de imaginação, consegue-se engendrar uma historieta sem queimar muito os neurónios. Escrevi pois uma aventurada policial em que o Inspector Anselmo, da Judiciária, investiga um crime englobado numa teia de traficância de diamantes de Angola para Portugal. Aqui deixo um capítulo.

Anselmo estava em casa quando teve uma ideia. Lembrou-se de Ana, a rapariga que lhes falara de Zaída. Pegou num telefone e ligou para o Elefante Negro. Reconheceu a voz do Olegário quando este atendeu. Anselmo procurou disfarçar um pouco a voz e arriscou; – Sou um cliente já antigo da Ana, estou a precisar da companhia dela, posso falar-lhe? Ana veio ao telefone, Anselmo disse chamar-se Simões e que era amigo de um indivíduo que lhe dissera muito bem dela. Estava a precisar de companhia e perguntou-lhe se podia aparecer hoje à noite para jantar. Depois de uma pequena espera Ana disse que sim, que estava livre e tinha muito gosto. Anselmo deu-lhe a morada e que aparecesse às oito e fosse pontual. Os tempos deviam estar maus para o negócio. A miúda nem lhe perguntara quem era o amigo e ainda bem. Se o tivesse feito não saberia o que dizer.
Eram precisamente oito da noite quando a campainha tocou. Anselmo atendeu e depois de ouvir a voz da rapariga disse: – Suba.
Anselmo abriu a porta e a moça recuou admirada; – Inspector?
– Sim. Entre.
– Mas eu vim pensando ser um cliente. Disseram-me ser um senhor Simões.
– Sim, foi o nome que dei. Mas não se preocupe porque o seu tempo será pago. Como queria conversar consigo a sós sem que outros soubessem, achei por bem traze-la aqui. Estamos mais à-vontade e a Ana vai estar mais descontraída. Vamos ter uma conversa informal. Ponha-se tranquila que aqui nada de mal lhe acontece. Tire o seu casaco e sente-se aí no maple. Que quer tomar?
– Que bom, assim posso tomar um whisky a sério. Lá no Elefante servem-nos chá. Estamos proibidas de beber da garrafa dos clientes.
– Deixe-se estar que eu preparo as bebidas.
Junto ao armário onde estava o bar, Anselmo enquanto servia as bebidas olhava de soslaio para a moça. Era um belo exemplar de mulher. Bem-feita, elegante, alta mas não muito, bem vestida e calçada, fazia um belo par para acompanhar qualquer homem e em qualquer ambiente. Tinha uma voz doce e um bonito sorriso, apesar de uma certa melancolia quando não sorria.
Anselmo entregou-lhe as bebidas e levantou o seu copo para uma saúde. A moça sorriu e agradeceu.
– Não temos que forçosamente começar a falar no caso que me preocupa. Temos muito tempo. Marquei o nosso jantar num restaurante perto para as nove e meia, portanto, falemos de nós. Eu sou separado. Estamos a tratar da separação oficial. Vivo aqui sozinho, tenho uma empregada umas horas, três dias por semana. Como por fora e quase só uso esta casa para dormir. Agora diga-me. Quando pensa deixar esta vida e tomar juízo? Desculpe a pergunta mas acho que a Ana merece melhor.
– Isso é bom de dizer, mas mais difícil de fazer do que simplesmente falar do assunto. Estudo de dia. Estou na faculdade a fazer psicologia. Gostava de me licenciar e empregar-me no “metier”. Já não tenho pai e a minha mãe é muito pobre. Vive com o dinheiro que lhe mando. Infelizmente só a visito umas duas ou três vezes por ano. Vive perto de Vila Real de Trás-os-Montes. É muito longe para poder ir lá mais vezes. Pagar casa, roupa, alimentação, estudos, mais o que mando para a mãe, custa muita massa. Tenho de me virar.
– Claro. Estou a ver. Pode ser que apareça alguém que se apaixone por si, não deve ser difícil.
– Já muitos manifestaram paixões, mas não passam de ataques de machismo encapotado. Príncipes encantados já não há.
– A Ana tem razão, mas assim que puder largue tudo isso. Quando achar que tem um pecúlio que se veja, vá para ao pé da sua mãe e procure fazer vida por lá. Vila Real é uma cidade linda. Veja se consegue colocação no ensino.
– Pois. – Disse a rapariga com ar nostálgico. – Primeiro tenho de licenciar-me e ainda falta um bocado.
– Faça por isso. Agora vamos sair. Vai saber-nos bem andar um bocado a pé e vamos fazendo horas para o jantar.
Já na rua, Anselmo deu-lhe o braço, o que agradou sobremaneira à moça. Sentiu-se protegida e aconchegada. Pensou que bom seria ter assim um companheiro, educado, agradável e protector.
Ao entrarem no restaurante um empregado dirigiu-se-lhes.
– Senhor Inspector, a sua mesinha está pronta.
Durante todo o jantar falaram de trivialidades. Comeram, conversaram e riram como se já fossem conhecidos de há muito.
Regressaram a casa pelo mesmo caminho. Já na sala a moça começou; – Inspector.
– Trate-me por Anselmo. Eu já lhe chamo só Ana. Deixemo-nos de formalismos.
– Esta bem. Eu só lhe queria agradecer os bons momentos que estou a passar aqui, o Anselmo é um cavalheiro e eu estou a adorar cada bocadinho.
– Obrigado. Só que agora temos de falar de coisas sérias, pode ser?
– Claro Anselmo. Ajudarei em tudo o que puder.
– Diga-me então. Quem acha que manda no Elefante Negro? Que pensa do Olegário e do gerente? Já alguma vez viu o António Melo?
– Vou tentar responder por ordem. Quem manda ali é o gerente, o senhor Fonseca. É ele que põe e dispõe e dá as ordens.
– É a primeira vez que lhe oiço o nome. – Disse Anselmo.
– Também o soube da única vez que vi o senhor Melo. Foi pelo nome que ele o tratou. Estou convencida que quem puxa os cordelinhos é o tal Melo.
– E o Olegário?
– Esse é um traste nojento. Completamente bicha, anda sempre a roçar-se pelos clientes para ver se arranja engate.
– E arranja?
– Penso que sim. Pelo menos com um ou dois parece que resultou. Muitas vezes aparece de olhos negros. Os tipos que engata tratam-no mal e muitas vezes roubam-no. É um desgraçado mas tem mau fundo. Está sempre mal-humorado e trata-nos mal. Além de maricas é completamente misógino. Poderia ser apenas homossexual, ninguém lhe levaria isso a mal, mas assim…
– Tem noção que possa haver por ali negócios além do normal funcionamento da casa. Já viu ou ouviu algo de suspeito?
– Da parte do Fonseca acho que não. Só o oiço falar dos assuntos da casa. Mesmo ao telefone com o Melo, no pouco que tenho ouvido, só mesmo sobre trabalho. Já do Olegário não digo o mesmo, está sempre ao telemóvel a falar em voz baixa e quando nos aproximamos, volta-se e finge falar de trivialidades, mas nota-se que há algo de estranho.
– Há droga lá no bar?
– Tráfico não há. Consumo já houve, mas o Fonseca correu com duas ou três que consumiam e agora anda tudo bem.
– Alguma vez notou que se negociasse algo lá dentro. Tipo joias, pedras ou qualquer outra coisa que dê dinheiro grosso?
– Nunca dei por isso. Os clientes normalmente querem é beber e fingir que nos namoram. A maioria não tem dinheiro para pagar os nossos preços.
– E o Miguel? Conhecia-o bem?
– O Miguel era especial. Alegre, bem-disposto, malandreco, mulherengo. Ia com todas e tratava-nos por princesas. Tinha uma característica muito peculiar, tenho até alguma vergonha de falar nisso…
– Já sei. Vi-o nu na mesa de autópsias. Era realmente bem dotado.
A moça riu-se. – Era isso! – Disse Ana, rindo com uma mão na frente da boca. – Todas nós falávamos e ríamos do mesmo. Chamávamos-lhe o três-pernas. Ao pé dele ninguém estava sério. E na cama era um brincalhão. Com ele tudo era riso.
– Ele nunca mostrou atracção especial por alguma em particular?
– Nunca. Era igual para todas. Mas penso que existia alguém. Em Angola!
– Como sabe?
– Porque ela telefonava e ele fazia sinal com o dedo nos lábios a pedir silêncio. Pela forma como falava notava-se que havia algo diferente. A moça chamava-se Sara. Era o nome que ele lhe chamava ao atender. Nós brincávamos perguntando se era a tal mas ele dizia que nada tínhamos com isso e não dava mais aso a conversas. Muitas vezes perguntava se a sua terra continuava linda. E que o fosse esperar ao aeroporto quando chegasse. Foi aí que soubemos que ela era de lá.
Anselmo passou para o mesmo maple sentando-se ao lado da rapariga. – E a Ana, alguma vez se apaixonou por algum cliente?
– Nunca. Para mim isto é um emprego. Tive um namorado lá na terra de quem gostei muito. A coisa não deu. Foi mais por ele que me vim embora.
– E nunca ninguém lhe fez propostas para levá-la dali e viver em exclusividade?
– Isso sim. Já vários. Mas finjo que não dou por isso e troco-lhes as voltas.
– Tem algo mais que queira dizer-me?
– Não
– Quer ir embora? – Anselmo ao perguntar isto chegou-se um pouco mais e passou-lhe a mão pelo cabelo. Estranhamente a moça corou e deixou pender a cabeça no seu ombro e disse muito baixinho; – Não.
Anselmo levantou-lhe o queixo e beijou-a docemente na boca. Depois o beijo entrou em crescendo e virou arrebatamento. Cingiram-se quase com violência e escorregaram para o chão rebolando pela alcatifa.
No dia seguinte, Anselmo deixou-a no apartamento onde vivia.
Nota: Tenho o livro em pdf que posso enviar a quem estiver interessado.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A tristeza do Mundo em que vivemos e a continuação da vida.



Este mundo está a deixar-me triste e zangado. A fúria exacerbadamente capitalista centrada na exploração, a todo o custo, do petróleo, “construiu” a chamada “primavera árabe” para afastar do poder os ditadores, que mantendo governos laicos, conseguiam conduzir os seus países na senda do progresso e estabilidade. Onde havia paz hoje há guerra e destruição. Cidades consideradas património mundial, como Alepo por exemplo, aparecem-nos nas imagens como montes de ruínas sem qualquer consideração pela cultura que desde há séculos nos maravilhavam com testemunhos de civilizações passadas. Milhares de pessoas, despojadas de bens e habitação, tornam-se refugiados, fugindo atravessando fronteiras, em busca de local onde possam sobreviver, deixando para trás as suas terras, as suas tradições e os seus mortos. O meu país está a morrer também a uma velocidade assombrosa. Governados por liberais encapuçados de social-democratas, vamos cada vez mais enfeudando-nos a uma Europa, mal construída, que trata mal os que pouco têm em detrimento dos abastados. O desemprego é tremendo, a fuga de capitais e inteligência é constante. Vemos os pobres ladrões serem condenados por pequenos crimes que, muitas vezes, cometem para poderem sustentar as famílias, quando o grande capital se consegue livrar da justiça por enormes crimes económicos cometidos apenas pela ganância do lucro desmedido ou para aumentarem o seu poder que esmaga e oprime os que pouco têm. A classe média vai-se extinguindo sugada pelos governantes que poupando o grande capital que os sustenta a vai tornando cada vez mais pobre com o excesso de impostos e de cortes nos rendimentos. O crime aumenta. As notícias mostram-nos horrores. Pais metem filhos em água a ferver, matando-os ou violando-os. Cônjuges matam-se uns aos outros por interesses materiais ou por ciúmes exacerbados. Os jovens, abandonando a escola, formam gangues que, desprovidos de escrúpulos, roubam, saqueiam, violam, atacam, sem qualquer medo de uma justiça, que baseada nos direitos do cidadão, os protege e liberta sem os recuperar. As autoridades, cada vez mais desprovidas de força, acabam por se tornarem demasiado complacentes com medo da tal justiça benévola demais com os criminosos, mas demasiado severa para com os que, tentando cumprir o seu dever, se vêm forçados a tomar atitudes às vezes mais duras e tomadas no fervor de lutas. Os governantes maltratam os professores e educadores sendo demasiado complacentes para com os alunos, normalmente maus alunos e indisciplinados. Pois é, não vejo soluções para este país enquanto nos governarmos com esta “democracia”. Enquanto não formos capazes de mudar este regime e construir outro baseado na seriedade, competência e vontade de fazer progredir este país, sem que os governantes só pensem no poder partidário e no seu próprio enriquecimento a todo o custo, não poderemos crescer como povo voltado para valores da cultura e nobreza de sentimentos, para construirmos uma sociedade justa, solidária e virada para o progresso sem veleidades de obtenção de lucros fáceis. Viver com dignidade, justiça, protecção social, estudo, cultura e trabalho seria o desejável. Todos vamos ter o mesmo fim, ninguém é eterno e se houver trabalho, protecção social, justiça e ensino capaz, não será necessária a preocupação de amealhar para deixarmos a quem nos sobrevive. Quem fica continuará a vida como nós a vivemos. Para ajudar a esta triste “festa”, o clima maltratado pelos humanos, manifesta-se provocando cada vez mais cataclismos. Furacões devastam regiões. Chuvas torrenciais destroem culturas, infraestruturas e matam. Tsunamis arrasam, destroem e ceifam vidas. Enfim, tudo isto me deixa triste mas não acabado.
Com tudo isto, apesar de os tolerar e aceitar, cada vez compreendo menos os crentes. Como acreditar na existência de um deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e bom? Como acreditar num deus protector de cada um de nós mas que permite tudo isto? Um deus a quem se pedem favores para nós e os nossos mas a quem nada pedimos para os outros? Enfim, medos da humanidade que sempre atemorizou os homens com o “mistério” da morte e a tentativa de perpetuação para além dela.
Como a idade já não me permite, nem a democracia deixa, meter-me em políticas que levem à criação do tal estado no qual gostaria de viver, volto-me para mim próprio continuando a fazer aquilo de que gosto. Com a informática vou tendo oportunidade de criar e melhorar sistemas que implementei. Melhoro, troco, estudo e construo. O computador serve-me também como meio complementar de comunicação entre mim, os meus amigos e familiares. A leitura continua a ser o meu descanso de alma (que é coisa que não existe mas é um lugar-comum) e aprendizagem da vida. Leio tudo o que me parece bom e que me possa aumentar o conhecimento. Um amigo emprestou-me um bom livro que “devorei” em poucos dias “A Verdadeira História da Terra” de Chistopher Lloyd, um relato histórico-científico desde o “Big Bang” até aos nossos dias. Um manancial de cultura e conhecimento. Descobri na minha estante, entre os livros herdados de um tio da minha mulher, um livro que me passou despercebido e que estava entre os não ainda lidos; “Deuses, Túmulos e Sábios” o romance da arqueologia, escrito em 1959 por um alemão, C. W. Ceram. Outro receptáculo de história e conhecimento de como o homem, através das descobertas arqueológicas, foi entendendo e conhecendo o mundo em que vive.
Termino este meu escrito ainda triste pelo mundo que me rodeia, mas acompanhado por aquilo que me aumenta o conhecimento através do que vou lendo, por aquilo que ainda vou construindo, trabalhando e pela companhia e contacto com os meus amigos e família. Conversar e discutir, no bom sentido, ainda é um grande prazer.

Vamos vivendo…

sábado, 19 de julho de 2014

A Selva


O passarito “piripilava” todo contente. A manhã estava radiosa e o esvoaçar de ramo em ramo através da floresta, dava-lhe uma enorme sensação de liberdade. O calor solar dava-lhe alento e exercitava as suas asitas, ainda com alguma penugem por ter abandonado o ninho há pouco. Viu um insecto que distraído pousara um pouco à sua frente e, lembrando-se do que os pais lhe ensinaram, fingiu-se distraído e, zás, com um pequeno salto abicou o incauto. Não tinha muita fome pois os pais tinham acabado de o alimentar, mas este insecto veio a calhar e serviu de treino para o futuro. Com estas cogitações não reparou numa cobra que sorrateiramente vinha subindo a árvore, tentando alcançar o repasto gordito e anafado que à sua frente lhe fazia crescer água na boca. Só quando o réptil, talvez por falta de treino, fez restolhar um ramo ao dar o bote, é que, por instinto, esvoaçou para o ramo da árvores em frente onde pousou ainda a tremer com a assustadora visão daquela fauce escancarada que só não o engoliu por pouco. Maldita cobra, pensou o passarito, que anda aqui a comer-nos. Vá mas é caçar ratos, esses é que servem para repasto de cobras e, dando apenas um pulito, abicou mais um gafanhoto que rapidamente deglutiu. Ainda sentia na barriga os fémures serrilhados do orthoptero, quando, a sua consciência lhe colocou a incongruência. Pois é, os pobres insectos devem ter sentido o mesmo pânico que ele sentira ao ser atacado pela cobra. E agora? Como poderia continuar a alimentar-se com este dilema na consciência? Tomou uma solução. Passaria só a comer sementes gramíneas e cereais pois havia muitos por aqueles campos fora. E a cobra? Pensaria o mesmo? Estava nestas conjecturas quando, olhando para baixo, viu um urso que comia estraçalhando um bom pedaço de carne. Desceu o máximo que pôde, tomando cuidado para não ficar ao alcance das garras do plantígrado, e resolveu falar-lhe:
—Amigo urso, o que estás a comer?— O urso, um pouco espantado por lhe dirigirem a palavra, e logo um passarito com uma voz tão fininha que mal se ouvia, olhou para cima e resolveu responder: —Estou a comer um pequeno veado  que acabei de caçar.
— Não tiveste pena de matar o pobre animal? És um malvado sem coração, o bichinho naturalmente tinha família e agora os pobres pais estarão com uma dor imensa por terem perdido o seu filhote.
Não querem lá ver, agora vem para aqui este chatear-me ainda por cima quando estou a comer e me estava a saber tão bem. Queria lá saber dos pais do veadito, que se lixassem, tinha que comer e toda a gente sabe que os ursos gostam de carnuça. Mas o passarito continuou:
—Olha! Ainda há pouco tomei a decisão de passar a ser vegetariano e deixar de comer insectos. Se todos fizéssemos o mesmo, não seria necessário matarmo-nos uns aos outros.
—Pois. Disse o urso. —Se todos como tu o fizerem, vai haver um excesso de insectos que comerão tudo o que é verde e ficarás sem nada para comer. Se a cobra deixar de comer pássaros, um dia destes não caberão todos no céu e não terão cereais e gramíneas para comerem pois os ratos, também deixados em paz, comerão tudo. Este mundo ficará um deserto e qualquer espécie animal não terá futuro. Lembra-te que as espécies vão aparecendo e transformando-se por evolução e vão vivendo de outras espécies, que por sua vez se vão renovando através de outras que vão deglutindo. Chama-se a isto um ecossistema.
—Bolas que este urso é evoluído. Pensou o passarito. Vou mas é deixar-me de pensamentos filosóficos e continuar a comer uns bicharocos. Cada um que se cuide.

Depois disto, eu o homem, fiquei a perceber melhor a humanidade. Deixámos de ser canibais, mas encontrámos formas de equilibrar o mundo. Afinal dilúvios, terramotos, incêndios, epidemias e guerras são necessárias. Será bom é que não exagerem senão só ficam os passaritos a conversar com os ursos…


domingo, 13 de julho de 2014

B16 versus F1


Parece que o B16 e F1 não vão ver juntos a final Alemanha/Argentina. O F1 confessou que o B16 não era grande fã e que seria quase pecado obrigá-lo a um esforço demasiado. Mas julgo que o motivo não foi bem esse. Parece que nenhum deles quer invocar Deus para que lhes conceda a benesse de uma vitória. Aliás, era maldade que não se fazia, colocar Deus perante tal dilema. Ainda se fosse com a Argélia ou com a Costa do Marfim, sempre era Alá vs Javé ou Jeová como preferirem. Aí sim, já não havia grande problema. Parece pois que o F1 vai ver o jogo sozinho e já pode pedir ajuda ao seu Deus. Aliás, católicos contra luteranos já pode ser, pelo menos ao longo da história muito confronto houve e infelizmente ainda há. Assim o nosso F1 está à vontade e nem se lembra dos outros confrontos que no momento se estão a dar. Acho que os F18 dos de Jeová se confrontam com os mísseis dos do Alá lá para as bandas da Palestina. Pois!
Quem não vai ver o jogo devem ser as criancinhas palestinianas que, coitadas, já nem electricidade devem ter e nem podem colocar as cabeças de fora. Os judeus, esses sim, vão ver e, penso eu, devem todos pugnar pela a Argentina, pois a visão do holocausto ainda está muito próxima. Enfim, grandes confrontos à vista, pena que nem todos sejam só com bolas. Os judeus estão seguros porque o sistema de defesa antimíssil está com uma eficácia de 99,9%, até aqui só um passou. Do outro lado é que é a gaita, não há sistema que os guarde.
Pois é meus amigos, esperemos que os nossos Papas (agora há dois) apliquem toda a sua fé para desejar que o mundo se deixe de gladiar infelizmente, muitas vezes, devido a diferenças de crença religiosa. Para quando ficarmos todos ateus? Não seria melhor?