sábado, 31 de dezembro de 2016

A Morte Do Herói Português


(Sobre o livro de Valentino Viegas)

A minha actividade diária de natação, na piscina da Junta de Freguesia de Benfica, tem sido profícua em novos conhecimentos. Desde um professor, músico, cantor, escritor, poeta, Francisco Machado de seu nome e um simpático apicultor que muito me tem ensinado sobre a vida das, como ele, simpáticas abelhinhas, a um ex-funcionário da RTP que cresceu e viveu muitos anos em Marrocos, muitos têm sido os encontros com diversas personalidades que só têm enriquecido os meus conhecimentos. Ultimamente, devido a uma alusão que fiz à beleza das praias de Goa, quando por lá passei há mais de cinquenta e muitos anos, vim a conhecer um goês de nascimento, hoje Professor e Doutor em História, que fez a guerra colonial em Angola, com o posto de Furriel miliciano, por nessa data ainda não ter terminado o curso dos liceus. Como militar de carreira, fiz várias comissões no ultramar, tendo numa delas (1963/65), sido colocado em Nambuangongo, talvez o pior sítio onde fosse possível colocar um militar de Intendência. Devido ao meu espírito demasiado aventureiro aliado ao meu “vício” da caça, não me limitei a passar o tempo dentro do arame farpado e, muitas vezes, acompanhei as tropas operacionais nas suas deslocações, pelo que vivi a guerra de Angola bem por dentro com tudo de mau que teve, mas também com muito de bom que as más situações nos deram de vivência e formação de carácter. Dado tudo isto, eu e Valentino Viegas, assim se chama o nosso Doutor, depressa chegámos a um entendimento enraizado naquela nossa vivência. Foi assim que eu vim a saber que tinha escrito um livro, entre outros, sobre o tema da guerra em África intitulado “A Morte Do Herói Português”, cuja leitura terminei agora e sobre o qual vou tentar escrever algumas palavras. Muito já se escreveu sobre a guerra dita do ultramar e eu próprio também me senti quase na obrigação de o fazer. Muito se disse e infelizmente nem tudo corresponde à realidade. Escritores consagrados, levados talvez pelo seu profissionalismo de ficcionistas, acabaram por escrever textos demasiado floreados, com episódios que, a nós militares, viventes da guerra por dentro, nos aparecem logo como relatos fictícios.
O interessante de Valentino Viegas é que o seu texto nos salta aos olhos logo como verdadeiro e, nós que por lá andámos, acabamos por reviver todas as cenas como se estivéssemos a vivê-las agora. Quer as cenas de guerra, quer as de vivência nos aquartelamentos, aparecem-nos descritas com uma realidade e humanidade impressionantes. Valentino Viegas escreve com uma fluência natural, sem grandes rendilhados nem frases literárias, mas ao mesmo tempo com uma escrita erudita para a qual muito deve ter contribuído a sua posterior formação. Dá-nos, pois, Valentino Viegas, um retracto da nossa gente simples que foi obrigada a partir para um continente inóspito, que nada lhes dizia, sem um queixume, convencidos, pelo regime que aqui viviam, que iam lutar pelo todo da nossa Pátria. Esse retracto mostra-nos, não só o seu comportamento em combate, mas também as influências psicológicas que sofreram pelo afastamento das suas terras e famílias. Chamo a atenção para o capítulo onde se refere a história da Joana, uma criança que foi adoptada pelo militar que lhe matou os pais, episódio excepcionalmente bem escrito e com grande carga psicológica. De realçar o pensamento do autor, quando confrontado com a morte, ao colocar em dúvida os desígnios de Deus, ao perguntar-lhe: “Mas porquê? Porquê?”. Um ateu, como eu, não teria esse problema, agora um crente a quem ensinaram que deveria temer um Deus Todo Poderoso, que tudo pode e tudo comanda, mas que põe e dispõe das vidas de cada um a seu belo prazer, é realmente de causar muitas dúvidas. Valentino Viegas foi condecorado com uma Cruz de Guerra.
O autor não pôde deixar de fazer referência a outra guerra por ele vivida, a invasão de Goa pela União Indiana, e dedica a este evento um capítulo onde descreve a invasão, a sua origem e as suas consequências.
É, pois, uma edição de Livros Horizonte que recomendo para que não se perca o que foi a vivência, à época, dos jovens portugueses que fizeram aquela e outras guerras que não deviam ter acontecido.


sábado, 17 de dezembro de 2016

25 de Dezembro



Em Roma proliferavam, em reuniões subterrâneas, umas profecias atribuídas a um tal Chrestus, do qual falara o historiador judeu Flávio Josefo. Os ouvintes e seguidores das ideias desse profeta, eram principalmente escravos e romanos das classes mais baixas, uma vez que os senhores do império tinham como normas as provenientes dos seus deuses e era nos templos, aos mesmos dedicados, que faziam as suas preces e promoviam rituais. Claro que as regras desses deuses eram estabelecidas mais à medida destes senhores e bastante permissivas com o seu modo de vida em consonância com os seus bacanais e diversões perversas, tais como espectáculos de morte no circo, quer com animais quer com seres humanos. O tal Chrestus, que pregava na palestina, defendia o ascetismo, o despojo de bens materiais em favor dos desprotegidos, a não violência, a prática do bem e a compensação de todas essas virtudes seria uma vida para além da morte cheia de venturas nos céus junto dos deuses. Depressa os seguidores destes princípios se tornaram uma seita religiosa. As suas reuniões eram normalmente secretas e recatadas em catacumbas ou locais não divulgados a não seguidores. Mais tarde, quando essa seita já se tornara uma religião designada por cristã, uma vez que Chrestus se transformou em Cristo, mas isso já é outra história que não cabe aqui, pois dá pano para mangas, Constantino (272 a 337 DC), imperador de Roma a partir de 306, estava farto de problemas que algumas revoltas de escravos causavam ao império e da diversidade de deuses que tudo permitiam aos seus seguidores, tendo conhecimento das ideias professadas por aqueles a que já chamavam cristãos, resolveu fazer com que essa fosse a religião a adoptada por Roma para apaziguar os ânimos. Interessava-lhe mais uma religião que advogava a pobreza, a não violência, sem compensações materiais e apenas compensações celestes. No concílio de Niceia (325) reuniu os vários chefes religiosos já existentes, e aí estabeleceram os primeiros princípios por que se deveriam reger as igrejas e os seus seguidores. A maioria dos Romanos esteve-se nas tintas e, continuou a adorar os seus próprios deuses e, segundo dizem, até o próprio imperador seguindo aquela máxima, faz o que eu digo não faças o que eu faço, dizia-se cristão, mas continuava a adorar os deuses antigos muito mais pacholas e alegres. Só mais tarde em 379, o imperador Teodósio tornou a religião cristã como obrigatória e religião oficial de Roma. Esta religião baseou-se em quatro dos muitos evangelhos que apareceram escritos, mas como eram os únicos que endeusavam o seu personagem principal, Jesus dito o Cristo sinónimo de ungido, foram aqueles declarados verdadeiros tornando-se todos os outros, e foram muitos, apócrifos e ordenada a sua destruição (gostava de saber porque foram escritos tantos e tão divergentes). Esta religião, dita cristã, foi depois espalhada pelo mundo ocidental pelo império romano e depois totalmente imposta pela força na Idade Média. Ai de quem a contestasse, bem era frito e supliciado pelos inquisidores.
Todo este arrazoado histórico, talvez cheio de erros, dado que não sou historiador e apenas vou apanhando umas coisas por aí, serve como intróito para o estabelecimento da data 25 de Dezembro, como nascimento de Jesus qualquer coisa, pois Cristo não era nome.
Esta data foi adoptada como nascimento de Jesus pelo Papa Libério (352 a 366). Portanto, no concílio de Niceia Jesus ainda não tinha data de nascimento.
Na antiguidade, os cultos chamados pagãos, festejavam muito a produtividade, dado que eram a Terra e o Sol os “humos” das culturas necessárias à vida. E assim, todos os deuses solares e redentores tais como, Mitra, Baal, Baco e alguns outros antes e depois, eram festejados no solstício de Inverno, dia em que a luz ganhava às trevas, pois a partir daí o dia começa a ganhar à noite. Era em 25 de Dezembro que estas festas pagãs se realizavam. A Igreja Católica Apostólica Romana (ICAR) tinha todo o interesse em transformar essa data numa festa católica para ir substituindo as comemorações pagãs. Uma vez que esses deuses anteriores eram deuses solares que se representavam com uma auréola irradiante na cabeça, quer Jesus quer os santos passaram também a serem assim representados. Aliás, a ICAR copiou muita coisa de outros deuses, inúmeros nasceram de virgens a 25 de Dezembro, foram anunciados por pássaros, tal como Hórus, por um corvo, eram apresentados com animais, tais como carneiros, morreram supliciados em madeiros, ressuscitaram ao terceiro dia (aqui a ICAR enganou-se escrevendo isso, na prática foi para aí dia e meio). Mitra foi o deus mais copiado e cuja vida tem mais semelhanças com a vida de Jesus. Temos, portanto, uma festa natalícia cuja data foi marcada pelo papado e a partir daí começou o ano um da era de Cristo. E até este ano foi mal calculado. Só em 1582, o papa Gregório XIII, decidiu substituir o calendário da era de César, por um calendário Cristão. Chamou um matemático, o frade Dionisius, o Exíguo, parece que a estatura não era compatível com a sabedoria, e ordenou-lhe que determinasse o nascimento de Jesus. O nosso bom frade fez contas baseando-se em factos descritos nos evangelhos e calculou que estariam 1582 anos depois do nascimento de Cristo. Feitas as contas depois para trás parece que se chegou à conclusão que o bom do fradinho meteu água em quatro anos pois Herodes já teria morrido nesse ano um. Enfim, mais ano menos ano tanto faz.
Transformou-se esta data na festa da família, cada vez mais desvirtuada pelo mercantilismo aproveitador destas efemérides.
Vamos, pois, comemorar os 2016 anos do “nascimento” de Jesus e aproveitem dado que nem todos o podem fazer.



sábado, 12 de novembro de 2016

O Pedinte Esfomeado



Nos meus passeios aqui pelos meus domínios, vou muitas vezes para as hortas em frente ao Colombo. É talvez uma forma de matar saudades do campo onde fui criado e muito aprendi. Vejo casais, ambos a trabalharem, elas de fatos-macaco, alguns até muito sofisticados, eles a cavarem, de luvas, o que revela já uma classe não campesina, mas que tem a sua horta de onde colhe bons frescos e tenta tratar dela sem estragar as mãos para não aparecer no escritório com aspecto de lavrador. Faço uma flexão, direito ao Colombo, onde entro, mudando completamente de ambiente, este já mais sofisticado e citadino, onde montes de gente se desloca de um lado para o outro, fazendo algumas compras ou até não comprando nada. Também nada compro, pois, só o faço quando vou com essa intenção e, nessa altura nada vejo por apenas caminhar direito à loja de destino, comprar e andar. Depois de ver o ambiente e apreciar algumas raparigas bem vestidas, ou seja, às vezes pouco vestidas, mas bem, saio do Centro e sigo pelo passeio passando pelo muro do Hospital da Luz. Junto a este muro está sempre sentado num banquinho, um homem com aspecto de sem-abrigo, com um alguidarinho de plástico na frente e um cartaz onde se pode ler “Estou com fome”. O homem deve ser um esfomeado, pois perto do meio-dia levanta-se pegando na tralha e indo embora. Volta pelas 15H e continua com fome. À hora que deixa o local e depois à hora que volta, dá toda a ideia que vai almoçar, talvez fazendo uma sesta para depois aguentar mais uns tempos até às 8. Penso que o indivíduo ou come pouco ou faz depressa as digestões. Assim que se senta, monta a banca e lá está o cartaz “Estou com fome”. Se come pouco é porque não precisa de mais, ou então é somítico. Não deve ser por falta de dinheiro. Já tenho andado por ali com a pachorra de passar várias vezes e fazer um pequeno cômputo dos seus proventos. Muitas senhoras, que já são “habitués” e o conhecem bem, quase todos os dias lhe deixam o seu óbolo e os passantes aleatórios também vão deixando. Este senhor faz-me lembrar um invisual que tocava violino, muito mal, e todos os dias ia comer uma carcaça, sem nada dentro, ao café onde eu tomava a bica ali para a rua dos Lusíadas quando eu trabalhava na Regina. Pois o Sr. João, assim se chamava o pedinte, entrava, trocava o dinheiro conseguido por notas e comia o tal pão simples que o dono do café não lhe cobrava. Quando se ia embora, eu e o dono da casa ficávamos comentando o porquê do homem não comer nada dentro do pão. Foi então que fiquei a saber que ele o fazia para não ter que pagar o valor da sandes, que lhe seria naturalmente cobrado. Assim, comendo só o pão, ficava de borla. Dizia-me então o Sr. que o “Ti João” era um unhas de fome pois fazia por dia uma boa maquia que trocava ali de manhã, quando vinha da baixa e de tarde quando ficava ali pela zona. Não lembro agora quanto, mas lembro que fiz contas na altura e aquilo dava um bom ordenado ao fim do mês. O homem tocava tão mal que deviam pagar-lhe bem só para não o ouvirem e o “Stradivárius” era já uma rabeca ranhosa com um som de fazer arrepiar os cabelos. Mas, voltando ao nosso pedinte, tenho verificado também que não trabalha aos fins de semana. Não deve precisar. Pelas minhas contas e pelas moedas que vejo colocadas no alguidar, o Sr. deve fazer um bom ordenado. Ah! O “pobre” tem uma coisa boa. Está sempre calado, não precisando de pedir. O cartaz faz isso por ele. Vou muitas vezes dali a pensar que seria uma boa ideia deixar crescer barba e cabelo, vestir calças rotas, ténis velhos e sujos a condizer, pegar no meu banco da caça de espera, e passar ali uns dias, ao solinho, descansando e pensando, para depois produzir uns escritos já em casa e bem instalado. Talvez consiga duplicar a minha pensão. Seria bom.

domingo, 6 de novembro de 2016

A Danação de Fausto


Normalmente, depois de chegar da natação, aproveito as minhas manhãs para vir até ao computador ver os mails, os postes do Facebook e ler algumas noticias. Aproveito também para ligar ao canal Mezzo e assim vou estando entretido com fundos musicais do meu agrado. Hoje, domingo, ao ligar o Mezzo, deparei com o início da ópera “La Damnation de Fausto” de Hector Berlioz. O surpreendente é que apresentava uma encenação totalmente modernista, com projecções computorizadas e cenários envidraçados com armações de latão, fazendo lembrar gaiolas por um lado livres, mas por outro inacessíveis onde raparigas seminuas dançavam de forma erótica e os rapazes, também em reduzidos trajes, tentavam aceder aos seus chamamentos, apenas conseguindo tocar os vidros. Comecei por estranhar, mas aos poucos fui ficando pregado à TV fascinado pelo que ia vendo. Entretanto, num enorme ecrã acima, milhões de espermatozóides travavam a sua luta contra a distância a percorrer na tentativa da criação de uma nova vida. Surrealista sem dúvida.
A história de Fausto tem vindo a ser contada de variadíssimas formas, todas elas baseadas na vida do alemão Dr. Johannes George Faust que foi, médico, alquimista, mago e cientista que viveu entre 1480 e 1540. Dizia-se que punha a ciência e a alquimia à frente de todos os desejos e a sua morte foi considerada como sobrenatural e diabólica. Ficou célebre o poema trágico, em duas partes, de Johann Wolfgang von Goethe.
Baseadas neste poema foram compostas duas excelentes obras musicais da autoria de Charles Gounod e Hector Berlioz. Esta última, apresentada na sua verdadeira versão em 1849, uma ópera também possível para “ballet”, tem tido várias encenações. A que vi no Mezzo, encenada na ópera da Bastilha em Paris, é completamente apocalíptica. O encenador Alvis Hermanis transformou Fausto em cientista deste século, concretamente em Stephen Hawking.
O encenador concebeu a ideia de levar Fausto para Marte, mas sem volta. Foi essa a sua condenação. Ao final da história de Fausto, demasiado extravagante, foi-lhe dado completamente a volta, e Fausto assim, já não desce aos infernos acompanhado de Mefistófeles com melodias satânicas e cantos diabólicos.
Nesta versão vemos Jonas Kaufmann, tenor alemão no papel de Fausto e Bryne Terfel, barítono galês, no papel de Mefistófles. Não identifiquei a cantora que interpreta Margarida. Kaufmann é um tenor de uma voz muito clara, um tenor spinto e Terfel um baixo-barítono muito certo, com uma voz muito agradável e límpida.
Relembro que Fausto, coloca o conhecimento acima de todas as coisas a ponto de entregar a alma ao Diabo em benefício do saber total. Mas o amor a tudo dá a volta e apaixonado por Margarida, tenta convencer Mefistófeles a devolver-lhe a alma. O Ser diabólico não lhe concede o desejo e Fausto acaba por descer aos infernos redimindo a alma de Margarida que alcança o reino dos céus.
Na encenação que agora vi, Fausto é enviado para Marte de onde não regressará. Será, talvez, o reinício da vida, mas noutro planeta. Interessante. A música, além de uma arte sublime, é ao mesmo tempo intemporal e, sobre qualquer delas, seja de que época for, conseguem-se contar as mesmas histórias de forma variada não fugindo à sua essência. Um bom espectáculo que merecia ser visto numa boa sala. Limitei-me à minha sala de estar e já foi muito bom. Para ficarem com um “cheirinho” desta excelente ópera aqui vos deixo um link da marcha Húngara com a orquestra dirigida pelo grande maestro indiano Zubin Mehta:

https://www.youtube.com/watch?v=qhQZn2MWhR8

segunda-feira, 8 de agosto de 2016

Papa Francisco


Lembro-me do padre que dava religião e moral, no Pilão, antes do padre Rui, não lembro agora o nome, talvez Gomes (?), fazer descrições terríveis do inferno. Eram tão aterradoras que Dante, certamente, ficaria arrepiado ao “ouvi-las”. Dizia ele que no inferno só havia trevas e chamas e a minha cabeça pagou caro ter-lhe chamado a atenção que ao pé das chamas não poderia haver trevas. O ponteiro, com a parte grossa virada para a frente, quebrou-se na minha pobre “tola” com grande vigor. Intimamente chamei-lhe aqueles “nomes” que normalmente usávamos para tal gente. Vem esta evocação a propósito das recentes declarações do Papa Francisco de que não há chamas no inferno e que as figuras de Adão e Eva descritas no Génesis, não são reais. Sendo totalmente contra à classe sacerdotal, sejam os de alá, deus, Jesus ou quaisquer outros, admiro a coragem deste padre que, contra a ortodoxia da igreja, vem desmistificar certos dogmas que até aqui eram, pela hierarquia das igrejas, considerados imutáveis.
Só quem não leu a bíblia, com olhos de ver, é que consegue acreditar em tais patranhas. Qualquer cérebro, mesmo de funcionamento mediano, “vê” a incongruência da coisa. Mas, o que me admira no meio de tudo isto, são certos indivíduos, que deveriam ser inteligentes, pela educação recebida, que se abespinham todos contra o Papa Francisco, por fazer tais declarações. Vejam-se as opiniões expressas no Facebook.
Tais opiniões fazem-me lembrar os tempos da idade média, em que a igreja proibia, excomungando, e às vezes “fritando”, todos os que se armavam em exegetas e opinavam sobre o conteúdo do chamado livro “sagrado”. Naquele tempo a Hermenêutica não era ciência que pudesse sair da área da igreja. Ainda bem que, felizmente, aparecem indivíduos como este Papa, para que as nossas criancinhas não sejam educadas a acreditarem em parvoeiras tais como, céu, inferno, purgatório, limbo e outras que tais, como mulheres a engravidarem aos 90 anos e tipos a viverem até os 900, outros a fazerem parar o sol e alguns a terem a coragem de imolar os próprios filhos, em louvor do seu deus. Haja esclarecimento e decência.


terça-feira, 26 de julho de 2016

A Vingança dos Deuses



Como sabem eu sou ateu e, como ateu, tento desmistificar todas as religiões. Mas, aceito-as. Quando digo aceitar é não ostracizar quem as segue e as professa mas, no entanto, não desisto de apresentar os argumentos que penso serem suficientemente evidentes para as colocar no lugar que elas devem ter, isto é, crenças arreigadas pela interferência familiar na infância, depois “enformadas” nos cérebros pelas catequeses ou madraças. A ideia de deus nasce da ignorância. Tudo o que era desconhecido era atribuído a poderes sobrenaturais e aí nasceram miríades de deuses com as diferenças entre eles tal qual as diferenças dos povos que os imaginavam. Deus é um produto da imaginação dos homens. Sem homens não havia deus. Durante os milhares de anos em que não havia homens deus não existia. Aliás, mesmo existindo homens, se estes não tivessem pensamento, deus não existiria também. Os diferentes deuses criados pelo homem sempre se combateram como o homem sempre se combateu. Deus serviu para que algumas elites conseguissem o poder, criando, “mandamentos” que atemorizassem os homens que, tendo consciência da morte, achavam que se deveriam perpetuar para além dela. Essas elites transformaram-se em “igrejas” e estas criaram os seus sacerdotes que até aos nossos dias vão mantendo o poder de “salvar” ou condenar almas aproveitando os medos e superstições. Para atemorizarem os incautos, os deuses foram-se tornando cada vez mais despóticos e cruéis, condenando e eliminando com cataclismos terríveis quem fugisse às suas leis. Quando os homens começaram a “fugir” a esse deus colérico, os sacerdotes tentaram encontrar formas de que os seus deuses mandassem à terra os seus “filhos” que, como deuses enviados, seriam redentores de todos os pecados humanos, pregando uma “salvação” na vida eterna. Assim surgiram ao longo dos tempos, formas antropomórficas de deuses, tais como Hércules, Mitra, Krishna, Jesus, etc… Todos esses deuses “viveram” pouco tempo e todos eles “morreram” de forma violenta. Todos tiveram uma história idêntica, nascendo de “virgens”, no solstício de inverno, pregando o bem, renegando o mal e advogando a pobreza pois assim davam aso a que os seus sacerdotes e, os governantes a quem apoiavam, pudessem usufruir da riqueza que os outros criavam e depois desprezavam. Esses deuses, não passaram de semi-deuses. Parto a cabeça a pensar como é possível aceitar um deus, ser omnisciente, omnipotente e omnipresente, que “faça” um filho numa terrena, para vir em seu nome, tentar fazer o que ele não foi capaz. E depois o que vemos nós? Que fez esse deus homem? Aliás o que faz agora como espírito santo cheio de bondade? O homem continua ignorante, bélico, prepotente e estúpido, mas vai morrer na mesma e por mais que se entregue nas “mãos” de deus não encontrará nada onde se perpetuar. Por mais manifestações antropofágicas nas igrejas, comendo o corpo de deus e bebendo o seu sangue, nunca conseguirá atingir um limbo quanto mais um paraíso. Pó e apenas pó se tornará.
Tudo isto vem a propósito dos recentes atentados que grassam por essa Europa fora. Aproveitam as diferenças religiosas para tentarem justificar estas matanças. Não o façam porque é um erro tremendo. Todos os que praticam estes actos têm apenas motivações políticas ou de vingança pelo que lhes foi infligido pela ganância. É a ganância de poder e bens materiais que leva os povos a guerrearem os outros. Evangelizar? Democratizar? Pois sim! Leiam livros de história, vejam o que foi perpetrado pelos homens desculpando-se com a propagação da fé. Vejam o que os religiosos fizeram, castrando corpos e mentes para conseguirem apaniguados.

Não falem em “guerras” santas. Limitem-se a falar de conquista e de vingança. Os deuses sempre foram muito vingativos.

terça-feira, 12 de julho de 2016

O Castelo



(Gostaria de ser Kafka para poder escrever sobre Kafka)

Já li tanto e afinal tenho lido tão pouco. Fugi sempre de ler Kafka pela fama que o autor tinha de ser demasiado complexo e difícil. Resolvi ler o Castelo e digo-vos que afinal as opiniões estavam certas. O livro é difícil e difícil é escrever algo sobre ele.
Este livro, sendo de uma escrita corrente e descomplicada em termos de cursividade, é duma complexidade tremenda em termos de conteúdo. Um homem, considerado estrangeiro, por ser de fora, chega a uma terra com uma carta de chamada para exercer a profissão de agrimensor.
K, é esse o seu nome apenas, repare-se na inicial, ao chegar, prepara-se para se dirigir ao castelo, origem da carta que tem no bolso. A partir daqui é colocado perante várias dificuldades de atingir o seu objectivo apesar dos esforços que vai despendendo. Prosseguindo na sua vã tentativa de atingir o Castelo (o poder), vai conhecendo vários habitantes da aldeia que, por um lado, o vão admirando pela sua determinação de lutar contra o poder instituído, mas por outro lado, lhe vão criando imensos problemas, criticando-o por vir destabilizar a forma, acomodada, como viviam sob aquele poder, que respeitavam e até defendiam. Trata-se pois, de poder, do povo sob o mesmo, mas que até o defende por dele depender, e da oposição minoritária, que vai lutando contra tudo e contra todos tentando desmontá-lo, mas que só encontra entraves e desconfiança. Mesmo os poucos aliados que vai conseguindo, por um lado admirando-o pela sua coragem, por outro, criticando-o pela ousadia da sua tentativa que os destabiliza, acabam por o abandonar. O estranho da narrativa, é que toda ela se processa numa dialéctica nada adequada aos personagens, gente pobre de baixas profissões, mas rica e inteligente como se de intelectuais se tratasse. O Castelo, muralha intransponível e inacessível, com os seus senhores, que “despacham”, não em gabinetes como seria de esperar, mas numa pousada “Pousada dos Senhores”, em quartos, com os seus criados, secretários e servidores, todos eles, conhecidos pelos nomes, mas tão distantes e descaracterizados que muitos não os reconhecem, não se relacionam com quase ninguém abaixo da sua condição com excepção de algumas raparigas da aldeia com quem vão mantendo algumas relações, completamente dessentimentalizadas.
A forma como as personagens se relacionam e se entrecruzam, cria um sentimento de repulsa ao leitor a todo o ambiente, percebendo-se que a luta de K. é inglória e que ele próprio se vai acomodando com aquilo que o deixam ser e não com aquilo que quer ser. Enfim, a eterna luta contra um fascismo emergente numa Europa inter-guerras. Uma tentativa do homem contemporâneo em luta pela liberdade e contra os impérios. A influência da literatura de Kafka tem-se estendido a vários autores e em várias épocas. Lembro um, japonês, que admiro bastante, Haruki Murakami no seu “Kafka, à Beira-Mar” sobre o qual escrevi há pouco tempo. Bastante notória é também a influência de Kafka no seu romance “O Admirável País das Maravilhas e O Fim do Mundo”.