sábado, 14 de setembro de 2013

As Pedras da Minha Rua

A morte do companheiro Langão trouxe-me tristeza, a tristeza trouxe-me saudade, a saudade trouxe-me isto:

As pedras da minha rua esfolavam-me os joelhos. De tanto por lá cair e roçar a pele, aquilo já era uma postela completa. A desinfecção era a língua do meu cão: “Anda cá Black, lambe aí”; e lambia, lambia até ficar tudo limpinho e desinfectado. Mas as pedras também serviam para serem atiradas pelas fisgas e fundas. Lembro-me de uma funda que fabriquei com base num desenho tirado da Bíblia das Escolas. Já naquele tempo me interessava pela história dos povos e pelas religiões. Aquela bíblia, obrigatória nas aulas de religião e moral, era para mim melhor do que uma história em quadrinhos. Sanção, David e Golias eram as minhas preferidas. Nesta última tinha um pretenso desenho da funda com que David matou Golias. Coitado do bom gigante que mais não fez, como bom soldado, que obedecer a ordens superiores e ir lutar contra um espirra-canivetes da tribo vizinha. O certo é que essa funda era especial e admirável. Até ali, as nossas fundas limitavam-se a duas cordas de juta atadas a um quadrado de cabedal, normalmente de uma lingueta de um dos nossos sapatos. Resolvi que a minha havia de ser especial. Já não me lembro onde encontrei a tira de cabedal que lhe deu origem. Cortei-a com um canivete afiado, deixando no meio um rectângulo suficiente para comportar as pedras e, com três tiras para cada lado, impecavelmente entrançadas, foram feitos os tirantes que terminavam num olhal num dos lados, para enfiar o dedo médio e, do outro o terminal para segurar enquanto se volteava por cima da cabeça ou ao lado do corpo. Após as voltas consideradas necessárias e em consonância com a velocidade pretendida para o arremesso, o terminal era largado, desferido o “tiro” ficando a funda agarrada à mão pela argola enfiada no dedo. Depois de vários treinos, a rapaziada ganhava uma pontaria de mestre e conseguíamos acertar num pau-de-fio, a cinquenta, sessenta metros de nós. Era obra, e muita cabeça foi partida. Ainda hoje não posso cortar demasiado o cabelo para não deixar à mostra as marcas dessas “brincadeiras”. Belos tempos esses em que os papás se limitavam a curar-nos as feridas sem importunarem os papás dos outros pelas culpas no cartório. Nós também tínhamos as nossas.
Atirámos demasiadas pedras e nunca conseguimos “limpar” a rua, pois elas pareciam nascer-nos debaixo dos pés. Já naquele tempo a minha rua era a mais atrasada do Cacém. Chamava-se Ribeiro de Carvalho, meu padrinho de registo, ateu, republicano anti-fascista e director do Jornal República. Passou toda uma vida a fugir à famigerada PIDE que nunca o conseguiu engaiolar. Tinha excelentes pontos de fuga e umas cavernas lá na quinta, que mais tarde vim a conhecer. Outros amigos, como Araújo e Sá, meu vizinho e Ramon de La Féria, médico, passaram alguns anos a ver o sol aos quadradinhos. Dizia-se que a rua não era arranjada devido ao nome que tinha. Depois de um triste acidente, Ribeiro de Carvalho sofreu um traumatismo craniano e morreu uns meses depois de ter sido operado. Lembro-me de Araújo e Sá, pai de quatro meus amigos de infância, dois rapazes e duas raparigas, dizer que o tinham assassinado. Não acredito muito, mas…
Naquelas pedras, brinquei, corri, caí, saltei ao eixo, às fogueiras dos santos populares e namorei. Lembro os fins-de-semana, quando vinha do “Pilão”, Instituto dos Pupilos do Exército, onde estudei, reunir-me com os amigos, rapazes e raparigas, encostados ao muro de minha casa, conversar, namorar e fumar uns cigarritos sempre de costas para a janela para o meu Pai não ver ou fingir que não via. As vidraças dos vizinhos, os beirais dos telhados, os pardais e as cabeças dos companheiros, foram os alvos daquelas pedras. Já contei demasiadas vezes o que aquela rua era para mim. Hoje já lá não tenho ninguém, mas a casa ainda lá está. A rua já não tem pedras e continua com o mesmo nome, felizmente, agora mais respeitado. O asfalto, os muros arranjados e pintados deram-lhe um cunho diferente que já não me diz muito. As recordações foram-se com as pedras. A fisga ainda existe, mas a funda, aquela bonita funda que era o meu orgulho e a inveja de muitos, já não. O entrançado veio a servir de trela dos cães e acabou como tudo, com o tempo. Os amigos do Cacém ainda estão no meu pensamento, mas afastados pelas circunstâncias da vida. Continuam meus amigos e se precisarem de mim estou cá. As pedras estarão hoje enterradas sob o asfalto. Talvez ainda tenham vestígios do meu ADN. Quem sabe…

    



                         

sexta-feira, 13 de setembro de 2013

O Langão (III)




O meu amigo Langão não vai mais conquistar as cadelitas aqui da aldeia. Um terrível vírus (seria?) paralisou-o quase totalmente. A médica veterinária, depois de vários exames, não lhe encontrou salvação. Durante dois dias, o vizinho que cuidava dele, a mulher e a filha, tudo tentaram. Foi impossível. Não havia salvação e foi abatido. Custou muito. Todos sofreram. Felizmente, quando morreu, já eu estava em Lisboa, mas o desgosto apanhou-me lá. Agora, já por aqui, olho para o recinto onde os seus companheiros por cá andam e parece-me que ainda o vejo sempre brincalhão e prazenteiro, desengonçado na sua magreza, mas alegre e satisfeito por ter encontrado tantos amigos que lhe proporcionaram estabilidade e modo de sobrevivência, sem ter que assaltar capoeiras para matar a fome. Mas o Langão já cá não está. Amanhã já não estará ao meu portão, como sempre fazia, latindo de satisfação quando saía de casa para o nosso passeio matinal. Vou sentir-lhe a falta. Irei com a Nina, a cadelinha sua companheira de “quarto” e, juntos, lembraremos o nosso Langão que tanta companhia nos fez. Era só um animal, mas deu-me a sua amizade sem nada pedir em troca, apenas querendo festas e passeatas. Durante uns tempos, os meus passeios vão ser mais tristes mas terei a Nina como companheira. Parece-me que também ela está triste. A saudade também será canina. É em alturas, como esta, que relembro o meu Setter Irlandês que me morreu nos braços, levado por uma terrível cirrose. Na época, não tive a coragem para o mandar abater, sempre convencido que seria capaz de o recuperar. Não fui e o meu amigo morreu com demasiado sofrimento. Tantos anos passados e ainda o recordo. Muitos anos passarão e o Langão continuará ser recordado. Adeus Langão, o teu céu será o meu pensamento.

domingo, 9 de junho de 2013

O Espaço-Tempo


Após ter escrito no meu anterior “post” que o tempo não tinha espaço, fiquei matutando no assunto pois recordei ter lido num livro, que o meu filho me ofereceu, escrito pelo cientista tetraplégico Stephen Hawking “ O Universo Numa Casca De Noz”, a noção de Espaço-Tempo. Disse logo para mim próprio que tinha metido água e, que alguns dos meus amigos mais atentos poderiam vir a dar-me na cabeça por aquela afirmação feita de ânimo leve. Fui logo buscar o livro, que tenho sempre à mão para consulta, não é coisa para ler de seguida, e abri-o no capítulo 2 “ A forma do tempo”
Segundo a relatividade generalizada de Einstein. O tempo tem forma. Ora logo aqui se compreende se há uma forma tem de haver espaço. No início de capítulo S. Hawking escreve:
“O que é o tempo? Será um ribeiro eterno que leva todos os nossos sonhos, como diz um hino antigo? Ou será antes uma linha de caminho-de-ferro com circuitos fechados e ramais, na qual é possível regressar a uma estação por onde já passámos sem inverter o sentido da marcha?”
Só aqui, meus caros amigos, já dá para ficar baralhado. Antes o tempo era distinto do espaço e visto como se fosse uma única linha de caminho-de-ferro infinita em ambos os sentidos. O tempo era considerado eterno. Einstein veio mudar tudo isto quando disse:
“ O espaço e o tempo estão inextricavelmente ligados. Não é possível curvar o espaço sem alterar também o tempo. Logo o tempo tem uma forma”
Isto baralha qualquer um. Pelo menos aqueles que como eu são leigos na matéria, mas dá para compreender se pensarmos um pouco. Fui depois à net procurar algo sobre o espaço tempo, e encontrei um site http://www.valdiraguilera.net/conceitos-fisica-moderna-4.html bastante interessante.
Ali li o seguinte:
A Física moderna, inaugurada com os trabalhos geniais de Einstein, veio mostrar-nos que nossos conceitos clássicos de espaço e tempo estavam equivocados. Da mesma forma que as três dimensões do espaço (largura, profundidade e altura) são convenções puramente subjetivas – não podemos separá-las, estão interligadas –, também não podemos separar o espaço do tempo. Espaço e tempo estão interligados. Não existe nada no espaço que também não tenha existência no tempo; e nada pode ter ocorrido no tempo que não tenha sido em algum lugar no espaço.
E mais:
Considere a seguinte situação: alguém pára seu carro num posto de gasolina na estrada e pergunta ao frentista (deve ser o empregado que está na frente): "A que distância está tal lugar?" Pode receber a seguinte resposta: "Está a cinco minutos daqui". O frentista (empregado) quantificou uma distância em termos de tempo!
Já deu para ver como eu estava enganado? Pois! Quem manda meter-me em caminhos ínvios?

Agora, meus caros, toca a ler sobre o assunto e queimar alguns neurónios. Não tenham medo que eles renovam-se pelo exercício mental.

sábado, 8 de junho de 2013

Conflito de gerações, medo ou irreverência?


Todos os dias, estando em Lisboa, vou nadar à piscina da Junta de Freguesia de Benfica. Vou a pé, de saco às costas, faço exercício físico e volto a casa mais bem-disposto. Ando nisto vai para três anos. Neste espaço de tempo e, acabei de escrever uma calinada porque tempo não tem espaço, direi antes, por todo este tempo, já fiz conhecimento com muitos dos companheiros que, como eu, gostam também de fazer o seu exercício físico. Eu sou dos mais velhos, mas aparecem lá de todas as idades. Todos nos cumprimentamos mesmo que sejamos desconhecidos. O “Bom dia” á chegada e o “Até à próxima” à saída, não custa nada a dizer e fica bem a todos. Enquanto nos despimos ou vestimos e até enquanto tomamos banho de chuveiro, vamos dizendo as nossas piadas e contando umas anedotas e, muitas vezes as conversas ficam bastante interessantes pelos temas versados.
Vem tudo isto para contar o seguinte episódio: Um destes dias, ao entrar, disse bom dia a três jovens, talvez na casa dos 16 aos 18, que já se encontravam equipados para irem nadar. Apenas um me respondeu e muito sumidamente, como se dizer-me bom dia lhe metesse medo ou se lhe caíssem os parentes na lama por cumprimentar um desconhecido. Regressámos findos os três quartos de hora de exercício e os rapazotes continuaram conversando entre eles animadamente. Após o banho e vestirem-se, saíram sem dizer água-vai. Ainda gritei bem alto “ Bom dia”, mas qual-quê, nem um foi capaz de me responder.
Uma das coisas que os meus pais me ensinaram, e depois todos os meus mestres, professores e militares dos Pupilos do Exército, onde estudei, foi que devíamos ser afáveis e educados para toda a gente, cumprimentando, agradecendo e pedindo as coisas por favor. Mais tarde tive oportunidade de leccionar, quer no Colégio Militar quer em instituições militares por onde passei e, aos meus alunos transmiti sempre que a educação cívica não fica mal a ninguém ao contrário da má educação que só afasta as pessoas e classifica muito mal quem a pratica.
O que será que leva a juventude a proceder assim? Não sou psicólogo nem sociólogo para os poder classificar, mas dá-me a sensação que agem assim por medo. E este medo é o da aproximação. Talvez não se queiram aproximar por depois não serem capazes de estabelecer ligações com pessoas estranhas ao seu meio e com conhecimentos e gostos diferentes. Será? Mas também poderá ser por irreverência. Os mais velhos estão fora do seu mundo e eles não querem que se metam nele… será?
Outra coisa que reparei foi que os rapazes não se despiram ao pé de nós. Ali todo o mundo anda nu à frente uns dos outros e ninguém tem vergonha de mostrar as “desgraças”. Para mim o nu nunca me fez confusão, nascemos nus, andamos nus em pequenos e só nos tapamos quando tomamos consciência do sexo. A educação judaico-cristã tornou o sexo impuro e, a partir daí escondemos os órgãos sexuais sendo considerado pecado mostrá-los despudoradamente. Talvez a educação num colégio interno me tenha varrido essa ideia da cabeça. Mas, os homens juntos não têm pudor e as mulheres também não (às vezes). Estes rapazes tomaram duche e ensaboaram-se de fato de banho vestido e despiram-no de toalha enrolada à cintura fazendo uma autêntica dança do ventre para conseguirem retirar o fato. Tornou-se caricato. Fiquei a matutar naquilo. Porquê? Medo das comparações? Educação  demasiado clássica? Se foi por isso não se compreende o não “Bom dia” a ninguém. Olha! Estou-me nas tintas. A má educação só fica mal a quem a pratica.

Pelo menos o episódio já teve o mérito de me ter feito encontrar assunto para escrever no “blog”, coisa que não fazia já há uns tempos.

sábado, 4 de maio de 2013

Manhã de sábado


Hoje a hora da piscina é tardia e não dá nenhum jeito. Substituo as mais de 30  piscinas, que normalmente faço, por um passeio a pé aproveitando um salto à “Evian” para tomar café. O rapaz atrás do balcão não precisa que lhe diga nada e tira a “bica” escaldada como a aprecio. Os rostos nas mesas são os mesmos do costume, penso para comigo como é que no meio da crise as pessoas ainda tomam pequenos-almoços na pastelaria. Deixo rapidamente o balcão e continuo o passeio. Passo pelo busto do fundador do Uruguay, José Artigas, e pergunto-me o que tenho a ver com aquele “gajo”, penso melhor e até tenho, foi um lutador determinado por uma causa e é um ser humano, só por isso já o merecemos ali, na avenida com o nome do seu País, é também um homem que ficou na história e, portanto, o conhecê-lo uma forma de cultura. Muito aprenderíamos se olhássemos a estatuária da cidade com olhos de ver, só que passamos por elas e não ligamos demasiado ocupados com a vida quando na nossa cidade e, só notamos os pontos de interesse quando nos deslocamos a outras terras. Passo na banca do alfarrabista e dou uma vista de olhos aos livros velhos vendidos a um euro não descobrindo nada de interesse, também para que quero mais livros se ando a ler dois em simultâneo e já não tenho móveis nem espaço para meter mais. Sigo até ao largo da igreja de Benfica onde ao sábado, há bancas de artesanato e bijutarias. Deixo para trás o velho chafariz, onde os pombos, cabisbaixos, permanecem esperando a comida que dantes lhes caía do céu qual maná no deserto, bem podem aguardar, a edilidade cortou-lhes a ração oferecida atirando cá para fora uma postura proibitiva. Neste país tudo se proíbe, esquecendo que “o proibido é o mais apetecido”. Ali, e neste caso, não, a polícia anda por perto e actua, os pobres bicharocos alados é que não esquecem que ali é que era bom, ficando a aguardar que um transeunte mais afoito lhes deite algo comestível como antigamente. Passo pelo quiosque e paro atrás de uma fila que lê os jornais expostos em duas colunas presos com molas de roupa, “alfinetes, como a minha avó lhes chamava, alfinetes porquê se aquilo nada tem de semelhante coisa? talvez por serem para a roupa, pois nessa é que se espetam alfinetes, coisa de costureira com certeza. À esquerda os jornais com a crise, nas primeiras páginas mais cortes anunciados pelo governo, à direita as “façanhas” do Nosso Benfica abençoado por “Jesus”. Deviam estar ao contrário, o governo à direita e o futebol à esquerda, pois esse é que é do povo, o outro é do capital. Não leio nada de novo que não tenha visto já na TV. Vou um pouco mais longe até ao jardim junto do mercado onde a junta de freguesia promove actividades desportivas e culturais, para lá chegar passei junto ao mercado onde à volta enxames de ciganos e passantes se entrecruzam, uns vendem outros compram ou discutem preços. Raparigas de cor com saias curtas e “collants” justos, deslocam-se meneando as ancas. Mais à frente, debaixo de toldos, montes de bancas dos ciganos vendedores de roupas numa algaraviada de pregões e chamamentos. No jardim, matronas sessentonas com camisolas vermelhas e iguais, distribuídas pela junta, correm atrás de bolas tentando metê-las em exíguas balizas balanceando e sacudindo as carnes já volumosas. Mais à frente ainda, alguns garotos, em cima de um xadrez gigante, movem e brincam com as peças não sabendo o que fazem. Nas mesas de pedra, tabuleiros de xadrez, tristes por abandonados, deviam ter sido substituídos por damas ou gamão, jogos mais ao gosto dos reformados deste país, para jogar xadrez seria preciso outra cultura ou outras gentes, isto aqui não é a Rússia. Deixo o jardim e entro no mercado onde a azáfama é enorme, bancas cheias esperam os clientes que muito passam mas pouco compram, provando que esta crise não é o caminho certo. Olho os carapaus e penso que os estaria assar se estivesse na minha aldeia saloia, Assafora, onde se “assa fora” de casa, será que vem daí o nome?
Já dentro do portão da mata de Benfica sento-me num banco olhando os altos cedros e eucaliptos recordando a infância quando no “Pilão” saltava o muro para ir ali aos ninhos que referenciava memorizando árvores e locais. Num banco ao perto, um casal de namorados, de pernas entrelaçadas, lambuza-se e apalpa-se num jogo desenfreado de desejo incontido, alheios a tudo e a todos e estando-se nas tintas para quem observa. Recordo os meus namoros de juventude quando procurávamos esconderijos para trocar uns beijos e outras pequenas malandrices que agora nos parecem demasiado ingénuas. Penso que os jovens de agora são mais sãos, mostram o que fazem sem medo nem vergonha.
A manhã já vai adiantada e resolvo voltar a casa. Na estrada de Benfica passo por um pedinte, de meia-idade, sentado num pano junto à parede, mostrando um coto de perna que já foi. Uma caixa de cartão contém alguns cêntimos e até uma moeda de euro. Conheço aquele homem há anos e penso que já deve estar rico. Alapardado junto à parede nem se dá ao trabalho de pedir, quem se condoer que poise o óbolo, mais valia que lho metessem sob a língua, para que Caronte lhe transportasse a alma até ao descanso eterno. Entretanto vai-se dedicando a limpar o nariz atirando as excrescências macacoides das fossas nazais, contra a parede com um “plic” de unha bem aplicado. Aquela parede já deve estar bem revestida e muito trabalho dará aos arqueólogos daqui a uns milhares de anos, quando desenterrarem ruínas de Lisboa soterrada por sucessivos terramotos, senão destruída por qualquer conflito atómico, para descobrirem porque numa parede se encontra ADN humano.
Volto para casa mais enriquecido. Ligo a TV, os “passos” do Passos continuam a lixar-nos.

quinta-feira, 25 de abril de 2013

25 de Abril, que saudade…


Recordo Nampula quando nas nossas reuniões secretas, para nós, porque a PIDE sabia bem delas, o meu amigo Gabriel Teixeira, grande militar, corajoso, de bom-senso e probo, que presidia, dizia: “Será que temos de pintar estes gajos de preto para conseguirmos fazer-lhes frente”. Hoje a frase parece-me estúpida e certamente também acontecerá o mesmo aos outros que por lá militavam. A guerra tinha sido e era feita contra pretos. No início, os acontecimentos, marcaram as pessoas que foram para aquela guerra cheios de razão e dever pátrio. Coitados dos nossos irmãos angolanos de pele escura que tinham muito mais motivações para fazerem aquela guerra do que nós. Pena que tenham começado tão mal e tenham encontrado pela frente, um dirigente português, obtuso e casmurro Hoje, certamente, pensarão que terão de pintar os seus dirigentes de branco para acabarem com eles, pois governam enriquecendo e deixando o povo na miséria. Certamente hoje teríamos dito o mesmo de outra maneira. O 16 de Março deixara-nos tristes e estupefactos e havia em nós o sentimento que era preciso fazer algo. Felizmente não foi necessário porque o 25A chegou. Grande alegria e muita esperança. Esperança nos homens lusos que haveriam de transformar o nosso país em algo bem diferente do que fora até ali.
Infelizmente, a partidarite começou a tomar conta das coisas. Invadiram os centros de poder e dividiram os militares que se deixaram partidarizar. Mais uma vez, os militares de Abril, e desta nem todos, colocaram as coisas no são. Mas por pouco tempo. Os políticos, alguns do 26 de abril, começaram, tal qual saturno, a engolir os filhos fazedores da revolução. Enquanto não correram com os militares dos centros de poder não descansaram, e não só correram com eles, como surdamente começaram uma campanha contra a tropa, que ainda hoje perdura. Mordem a mão que lhes deu a liberdade.
Tenho saudades de homens como Gabriel Teixeira, de quem já falei, Ramalho Eanes, grande e valente militar com também grande senso político, Melo Antunes, infelizmente já desaparecido mas excelente pessoa, bem politizada e mentor do programa do MFA e documento dos 9, Vítor Alves, homem culto e com ideais de justiça e, muitos, muitos outros. Outros ainda andam por cá e com voz, que nunca lhes doa, Vasco Lourenço, Presidente da A25A e grande crítico da actual situação e, até Otelo Saraiva de Carvalho que, infelizmente andou por caminhos um pouco ínvios, mas é também uma voz crítica do sistema.
Poderia falar de muitos mais. Penso não ser necessário. Esta república está a ficar igual à 1ª. Tenho muito receio que seja preciso acabar com ela. Se for, que tenhamos o bom-senso de não descambarmos para a ditadura. Aliás, isso hoje já não é tão possível como naquela época, mas nunca se sabe.
Que apareçam novos políticos de mentes abertas, sem ânsia de poder e dinheiro, que consigam trabalhar em prol da nossa população e comunidades. Que privilegiem a educação e cultura para que as populações se consciencializem do que é melhor para elas, de forma a obterem o que lhes é de direito, sem recurso a estratagemas de obtenção de dinheiro fácil. Um povo culto e educado facilmente transforma uma sociedade. Como estamos não vamos lá. A qualidade do nosso povo é baixa. Basta andar de autocarro para o verificarmos. Mas já há uma boa camada de juventude bem preparada que poderá fazer algo por este país, se não se concentrar só na obtenção do seu próprio bem-estar. Devíamos aproveitar estes para começarmos. Não será no meu tempo, mas gostaria que o meu filho ainda pudesse vir a viver numa sociedade transformada. Para o bem, claro. Viva o 25 de Abril.


quarta-feira, 17 de abril de 2013

O MELRO

Aqui, nesta aldeia saloia às portas de Lisboa, durmo melhor. O sossego, a menos claridade no quarto, uma cama maior e colchão mais rijo, dão-me melhor descanso. Levanto-me cedo para quem nada tem a fazer. Menos das oito já estou na banheira e pelas nove, de pequeno-almoço tomado, saio para cumprimentar os cães amigos que ansiosamente já me esperam ao portão. Depois dos latidos de satisfação e de muitas festas, atravessamos a estrada, direitos aos campos. Contentes, correm à minha frente, farejando tudo quanto é sítio, como se cães de caça fossem. No campo, vários homens plantam cebolos em regos direitinhos. Uns vão colocando os cebolos, lado a lado e equidistantes, enquanto os outros os seguem cobrindo as raízes com terra. Observo-os durante uns instantes e olho o mar, um pouco longe. Uma mancha de nevoeiro, a algumas milhas da costa vai direita à Ericeira passando por Mafra e segue continuando pelas terras que ladeiam o IC19. O dia aqui está lindo e descansa-me. Como é bom poder usufruir desta paz. Um casal de perdizes corre à minha frente, certamente terão ninho que deve estar perto. Nesta época, normalmente, ainda chocam os ovos, mas têm de comer e abandonam o ninho durante alguns instantes. Raramente levantam voo e correm sempre numa direcção contrária à do ninho. Depois, quando o perigo passa, é que lá se dirigem. Deixo os campos e volto à estrada para ir tomar café. Os meus companheiros caninos esperam-me junto à porta abanando os rabos de contentamento quando volto para junto deles. Ao chegar a casa oiço um esvoaçar numa palmeira que tenho num mini-jardim em frente à casa. Deve haver ninho por aqui. Oiço de novo o esvoaçar e acho estranho. Então o pássaro não foge? Um pipilar não normal aguça-me a curiosidade. Lá está ele. Um melro ainda bebé, que deve ter ensaiado os primeiros voos há bem pouco tempo, está preso com uma asa espetada num espinho da palmeira. Vou buscar um banco e consigo soltar o pobre bicho, não sem me picar bastante. Enquanto isso, os pais esvoaçam e chilreiam por cima de mim. Pouco faltou para me agredirem. Uma das asas está muito maltratada. Fico sem saber o que fazer. Se o deixo no chão os cães apanham-no e era uma vez. Se o escondo demais os pais não o veem e acaba por morrer. A natureza é cruel. O pobre bicho não vai sobreviver. Ainda penso em tentar criá-lo mas é muito difícil. Se fosse um pintassilgo, mas o melro tem uma alimentação muito variada. Temos de apanhar minhocas, formigas, gafanhotos, etc.. Também comem fruta e algumas gramíneas, mas…
Deveria haver um deus dos pássaros que tomasse conta destes abandonados da sorte. Mas deus anda tão ocupado com os deserdados deste país, que infelizmente cada vez são mais, e esquece o resto. Pobre bichano, não se vai safar. Um dia tão bonito como este não deveria ser estragado com esta situação. Estou aqui sentado em casa a escrever isto e o pobre passaroco não me sai da cabeça. Terei de ir buscá-lo ao canteiro onde o deixei e, pelo menos, dar-lhe água. Será o mínimo que poderei fazer por ele. Dei-lhe água directamente da minha boca. De início tentou bicar-me os lábios, depois acabou por beber. Tentei fazer um ninho com um cesto e uns panos. Tratei-lhe a asa com Betadine e coloquei-o lá, mas foge sempre e tenho de apanhá-lo novamente. Entretanto, a cadela, já anda de olho nele e se não tenho cuidado lá se vai o pássaro. Os pais já não andam por aqui. Como não o encontram vão para outras bandas. Acabam por desistir. O que fazer? Parece-me que não tenho outro remédio senão abandoná-lo ao seu destino. Através da janela vejo um dos pais pousado num fio. Olha em volta mas não o vê. Se ao menos o pequenote piasse… mas não, está mudo e quedo. Vai ser mesmo necessário um milagre. Como milagres não existem, temos de deixar a natureza seguir o seu curso. É assim que fazem os naturalistas que estudam a vida animal. Nunca interferem, deixando sempre que tudo aconteça naturalmente limitando-se a criar ou melhorar os ambientes para a sobrevivência das espécies. Terei de fazer o mesmo e esquecer o bicharoco ou então vou ficar muito deprimido. Que diabo, um dia que começou tão bem…
Está a morrer. Dei-lhe mais água. Ainda bebeu mas já não tenta fugir quando o agarro. Coloquei-o no ninho improvisado. Não tenho coragem para lhe acabar com o sofrimento. Vou deixá-lo acabar calmamente.
Morreu. Porque me sinto tão mal? Sou caçador e caço perdizes, pombos, rolas, tordos, etc. Mas ver um melro morrer assim, depois de tanto trabalho que os progenitores tiveram. Fazer um ninho, pôr ovos, chocá-los, alimentar os recém-nascidos, fazê-los sair do ninho ensinando-os a voar, continuar a alimentá-los ensinando-os a procurarem a comida por si próprios. Tanta canseira para um deles acabar espetado numa árvore. Não devia acontecer, mas acontece com todos os animais e até connosco. São as circunstâncias da vida. Nascer e morrer. Uns com um período intermédio mais prolongado outros, mais curto. Este melrinho teve um período curto demais. Tive pena. Amanhã vou com os canitos, tentar encontrar de novo as perdizes…