quarta-feira, 30 de abril de 2014

2014 Odisseia no Ministério das Finanças



(ou “A (bug)unçada computorizada do Estado”)

Certamente todos se lembram, pelo menos os mais cinéfilos, da história de 2001 odisseia no espaço, que Stanley Kubrick tão excelentemente realizou em filme. Aí o computador “Hal 9000”, incomodado com o rumo que os homens estavam a dar à missão, resolveu rebelar-se passando à acção e tomou conta das operações. Foi preciso esperarmos 13 anos para que a profecia do filme, isto é, os computadores passarem a ter vontade própria, se concretizasse, e logo havia de ser no Ministério das Finanças. Os computadores zangaram-se com os governantes, que haviam dado certamente um prazo demasiado curto para reembolso do IRS, e criaram um “bug”, trocando as voltas aos cuidadosos e pressurosos senhores que queriam que o povo fosse reembolsado a tempo e horas.
Lembro-me de, em tempos idos, quando fiz um curso na IBM, levado por um amigo que lá trabalhava como programador do “Service Bureau”, os computadores ainda serem estimulados por cartolinas perfuradas e os programas completamente lineares, serem elaborados de fio a pavio, isto é, com instruções em ASSEMBLER ou COBOL, começando na 1ª linha e terminando na última. Quando os erros sucediam, o meu amigo e os companheiros, chegavam a estar uma noite inteira a resolver o problema, pois era necessário rever a programação do princípio ao fim, encontrar o erro, identificar o cartão com os buracos a menos ou a mais, fazer novos cartões, correr as rotinas de novo até tudo estar correcto. O certo é que nenhuma empresa ficou sem o trabalho feito dentro do prazo porque a IBM não brincava em serviço e os seus funcionários não se poupavam a esforços para resolver os problemas.
Agora, quando os programas são elaborados por módulos e com linguagens muito mais acessíveis, vem o Ministério das Finanças declarar que, devido a um erro informático, não é possível reembolsar o IRS aos cidadãos por crédito em conta bancária, ficando os pagamentos adiados, mas que serão pagos por cheque no mais breve prazo possível, que terá de ser no máximo até ao fim da semana segundo um pressuroso Secretário de Estado, que, claro está, se armou em coitadinho, como não tendo qualquer culpa, passando esta apenas para o desgraçado computador do MF.
Não brinquem comigo, sou informático, sei do que falo. Ou o computador resolveu imitar o “Hal” tomando conta das operações para lixar o povão, ou os técnicos de informática do MF tiraram os cursos juntamente com o Relvas, ou ainda o Governo está a brincar connosco.
Hoje, um erro, num programa há muito elaborado e testado, só acontece quando a esse programa é feita qualquer alteração e, as alterações normalmente são elaboradas nos módulos, apenas naqueles que são passíveis de alteração. Se o erro aparece, basta procura-lo nos módulos alterados e quaisquer duas ou três horas chegam para isso e, se não chegarem, trabalhem de noite que não lhes faz mal nenhum. Não me venham dizer que não podem creditar as nossas contas devido a um erro. Enquanto o MF, tenta resolver o malfadado erro, o nosso dinheirinho continua nas mãos do Estado e nós à espera dele para pagarmos ao senhorio, à mercearia, à oficina do carro ou para comprarmos os preservativos ou viagra para nos irmos entretendo a fazer amor enquanto o tempo passa (As time goes by).

O MF tem as costas largas e os pobres computadores também. Os técnicos passam por ineptos (coitados são funcionários públicos e como tal nada fazem), entretanto o governo vai-se governando e continuando a mentir aos portugueses. Não me copulem sem que eu queira senão é violação.

sábado, 19 de abril de 2014

Para Quê?


Junto da cama, olhava aquele corpo magro, esquelético até, ali, quase estático, sem nada dizer, nada fazer, interrogando-me se pensaria e se o fizesse em quê. Perguntava à auxiliar o porquê daquela magreza, como se ela pudesse saber… “Que comia e bem, tinha uma boca santa, tudo o que lhe levavam à boca ela engolia…”
Perguntei se queria chocolate, disse sim sumidamente, sempre adorara chocolate…
Fico por ali com os meus pensamentos, tentando perscrutar o seu íntimo, tentando adivinhar o que pensará ou sentirá.
Recordei a nossa infância, aquele sábado fatídico em que, por não termos aulas fomos até ao ringue de patinagem alugar patins com alguns trocos que os pais nos deram, a queda que deu, como a olhar-lhe a perna vi logo a fractura da canela. Gritei para que chamassem os bombeiros que nos levaram a Lisboa para S. José. Lembrei a ansiedade enquanto esperava, como entrei por ali dentro contra tudo e contra todos, o porteiro atrás de mim… “Que não podia entrar ali, que era proibido, que“ …Que se lixasse!... o médico estava junto da minha irmã, atendeu-me apesar dos meus 14 anos, que teria de ser operada pois a fractura era grave.
Lembro de ainda ter uns trocos e ir à cabine telefonar para casa, felizmente foi o meu pai que atendeu, a mãe entraria em pânico.
Levou cerca de três meses sem se levantar da cama, não conseguia andar com o gesso, desequilibrava-se, pensávamos nós que pelo medo. Já anteriormente aquela rapariga caía imenso, andava sempre de joelhos esfolados. Depois da fractura passou a ter um andar ainda mais desequilibrado, partia a loiça e deixava cair as coisas das mãos.
Depois de imensos exames médicos foi-lhe diagnosticada uma atrofia cerebelar congénita. Que a doença não tinha cura e que seria progressiva mas lenta. E foi. Porquê?
O congénito não é necessariamente hereditário, ninguém da família padecia ou padeceu desse mal. Deixou de estudar e passou a ficar ao cuidado da nossa mãe que acabou por ser demasiado protectora ao ponto de a tornar um pouco egoísta e bastante agressiva na sua maneira de ser. Era uma rapariga interessante sem ser uma beleza. Apenas ano e meio mais velha do que eu, demasiado magra e alta não passava despercebida aos rapazes. Casou com um oportunista convencido que o meu pai tinha dinheiro. Quando viu que dali nada ganharia saiu de casa e desapareceu. Divorciou-se e, mais tarde, o tipo morreu. Não tiveram filhos porque ela não os podia ter. Voltou para casa dos meus pais.  Consegui arranjar-lhe emprego como dactilografa num dos serviços por que passei. Após alguns anos já não conseguia escrever à máquina por errar muitas teclas. Continuou como telefonista e até foi prestando um serviço razoável. Andar de comboio todos os dias para Lisboa era um perigo, mas pior seria ficar em casa sem nada fazer. Deu imensas quedas e partiu mais alguns ossos. Para cúmulo, outra doença apareceu, sem ter nada a ver com a cerebelose. Esclerose do nervo óptico. Outra também incurável e progressiva. A cegueira foi tomando conta dela. A minha mãe, até uma idade muito avançada foi a sua guia. Após a morte de minha mãe ainda tentei que ficasse em casa. Depois de demasiadas quedas e muitas idas para o hospital, desisti internando-a. Durante alguns anos ia vê-la duas vezes por semana levando-a a almoçar, muitas vezes acompanhado do meu filho, que também visitava a tia nos meus impedimentos. Com o agravar da doença, cada vez era mais difícil conduzi-la e ampará-la. A falta de vista nada ajudava. Deixámos de sair e as visitas faziam-se apenas na instituição.
Agora piorara e ali estava, acamada, completamente cega, drogada, com calmantes e ansiolíticos, sem nada dizer nem fazer. Porquê e para quê?
A médica diz que já há demência senil. Com 78 anos? Por quê? Será que tanto medicamento a tornou assim? Fará o cerebelo falta ao cérebro? Não sei. Só sei que estou a perder a irmã.
Todas as semanas lá estou. Levo-lhe chocolate que continua a comer mas sem o agrado de antigamente. Não reage quando lhe digo que tenho de ir embora. Também não reage quando chego. Digo-lhe olá que ela repete sem qualquer indicação de alteração do seu íntimo. Será que pensa? Julgo que o cérebro humano, enquanto há vida, está sempre activo. Será? Não parece. Isto que eu vejo e sinto não é vida, e pergunto mais uma vez; Para quê?

Claro que, como não crente, sei que não tem de haver uma razão para a vida, somos animais e como animais, vivemos, adoecemos, morremos e desaparecemos. Mas, como ser pensante, custa-me assistir a tanta degradação e tanto tempo para chegar ao fim. Viver assim não interessa. Para quê? É minha irmã e gosto muito dela, mas por isso é que gostaria que acabasse rápido e sem sofrimento. Assim, para quê? Não é viver.

segunda-feira, 7 de abril de 2014

CHOCOLATE


Num destes dias revi na TV o filme que dá título a esta crónica. Quanto mais o revejo mais o aprecio. O sueco Lasse Hallström, coloca muito bem em imagens o que o preconceito, exacerbado pelos costumes católicos, provoca nos comportamentos das pessoas e ainda mais quando o medo a deus, é aproveitado pelos caciques, de modo a levarem os seus conterrâneos a portarem-se da forma que lhes convém, isto é, fazendo apenas aquilo que eles querem, de forma a tornarem-se nos chefes totalitários e fascistas senhores de tudo e de todos.
Mostra também, como uma mentalidade aberta e liberta de preconceitos, chega a uma aldeia rural em França e, pelo seu comportamento e maneira de ser, começa a fazer ver àquelas mentes fechadas, que a vida poderá ser vivida de forma muito diversa daquilo que o padre, sujeito ao cacique, determina. A pouco e pouco, sem nada impor, Vianne Rocher, excelentemente interpretada por Juliette Binoche, vai transformando aquelas mentalidades. Pelo seu comportamento, aberto e independente, em contraste com o apreço da maioria, vai ganhando o ódio do cacique, conde  Paul de Reynaud numa interpretação soberba a que Alfred Molina nos habituou, vendo na bela Vianne, uma intrusa que poderá vir a ser um sério obstáculo ao seu poder e ainda mais raivoso fica quando Vianne enceta uma relação amorosa com Roux (Johnny Depp), um músico nómada pertencente a uma comunidade, por eles proscrita, que vive em barcos a quem os habitantes da aldeia chamam “ratos do rio”. Vianne impõe-se também por ajudar as mulheres da aldeia a libertarem-se dos maridos prepotentes que as maltratavam sujeitando-se a todas as ignomínias, não conseguindo libertarem-se, mais pelo medo do castigo divino por quebrarem os laços sacramentais, do que do medo dos respectivos cônjuges, que já pouco respeito lhes infundiam. Tudo isto é catalisado pelo chocolate que Vianne prepara na sua loja a que chamou Maya, em homenagem à sua avó descendente dessa etnia e, que a nossa heroína, teve a ousadia de abrir mesmo em frente à Igreja, desafiando os habitantes que, no início, consideraram uma afronta, por ter sido colocado o pecado, na forma de gula, mesmo em frente a deus e durante a quaresma. Mas o chocolate é afrodisíaco e viciante e, a pouco e pouco, os aldeões vão perdendo o medo e cometendo o “pecado”, de deglutir, com volúpia, os excelentes doces que Vianne tão bem confeciona. Admirável também a sua relação com a filha, que educa de forma aberta e livre sem deixar de ter mão no controlo dessa liberdade. A garota não dorme sem que a mãe, a quem adora, lhe conte pela enésima vez, a história do seu Avô, que teve a coragem de casar com uma mestiça descendente de uma princesa Maya, o que lhe trouxe a animosidade das comunidades onde viveu e o fez tornar-se um nómada. Vianne, que devido à sua maneira livre de viver e pensar, também se viu obrigada a mudar várias vezes de local, resolve deixar a aldeia e recomeçar tudo de novo, mas, levada pela aceitação da comunidade, decide continuar e assentar de vez.
Um filme que nos mostra um lado sórdido de uma igreja que se junta ao poder, exercendo um papel castrador de mentalidades, impondo aos crentes a sua vontade pelo medo da não obtenção do perdão e apoio divino, beneficiando assim de todas as benesses que o cacique local lhe garante.
O realizador, servindo-se do chocolate, tal como outros nórdicos, segue o tema da gastronomia,  como catalisador de excelentes histórias. Este, consegue ombrear com o magnífico filme dinamarquês “A Festa de Babette” dirigido por Gabriel Axel, baseado num conto de Karen Blixen a carismática personagem de “África Minha”.

Chocolate, um doce divinal para comer e um filme sempre a rever.

domingo, 30 de março de 2014

ASTROLOGIA

Hoje vou tentar dizer qualquer coisa sobre este tema. O Facebook é um leve entretenimento, mas tem a vantagem de permitir trocar umas opiniões. Ultimamente, talvez pela minha maior aproximação à Associação dos Pupilos do Exército, ou melhor, aproximado ando eu há muito, mas talvez esteja, por isso, mais próximo dos Pupilos, tenho contactado mais com as ex-alunas que o frequentaram nos cursos superiores e, hoje, já casadas e mães, frequentam também a APE. Constato, com agrado, que estas moças, e digo moças pois poderiam ser minhas filhas, são altamente simpáticas, abertas de mentalidade e imensamente participativas nos problemas da nossa Associação. Trocamos e-mails e também opiniões através do Facebook. Hoje, um dos temas com uma delas foi a Astrologia.
Não sendo uma ciência, apesar de muitos a considerarem como tal, tem montes de seguidores que lhe criaram regras e normas, numa tentativa de mentalizar os apreciadores para a leitura do que se estabelece para os diversos signos como se os indivíduos nascidos naqueles períodos, tivessem caraterísticas “ sui generis” que os assemelhem. Muitos acreditam naquilo totalmente, outros não acreditando, pelo sim pelo não, consultam os horóscopos com regularidade. Todos, mesmo os não acreditadores, vão ler  nas revistas o que o seu signo preconiza, como a possibilidade de poder vir a fazer um bom negócio, arranjar emprego, ou fazer as pazes com um amante desavindo. Eu, um céptico, também lá vou, embora não acreditando numa única palavra (parvoeira não?).
Um dos livros que tenho na minha sala, mais como livro de consulta do que propriamente obra de leitura constante, é a obra excepcional do excelente astrofísico Stephen Hawkings, “O Universo Numa Casca de Noz”. A propósito da Astrologia, diz:
 …
A humanidade desde sempre quis controlar o futuro, ou pelo menos prevê-lo. É por isso que a astrologia é tão popular. A astrologia afirma de que o que se passa na Terra está relacionado com o movimento dos planetas nos céus. Ora aqui está uma hipótese cientificamente testável – ou que, pelo menos, o seria se os astrólogos se atrevessem a fazer previsões bem definidas, susceptíveis de serem testadas. Sensatamente, porém, exprimem-se de forma tão vaga que acertam sempre, qualquer que seja o desfecho. É impossível provar a falsidade de informações como “as suas relações pessoais poderão tornar-se intensas” ou “surgir-lhe-á uma oportunidade de sucesso financeiro”.
Mas a principal razão pela qual a maior parte dos cientistas não acreditam em astrologia não tem a ver com provas científicas, ou a falta delas, mas sim com o facto de a astrologia não ser compatível com outras teorias já submetidas ao teste da experiência. Quando Copérnico e Galileu descobriram que os planetas descrevem órbitas em torno do sol, e não da terra, e Newton descobriu as leis que regem os seus movimentos, a astrologia tornou-se extremamente implausível. Por que teriam as posições dos outros planetas, relativamente ao céu estrelado, qualquer influência sobre as macromoléculas que, neste planeta inferior, se auto-intitulam  vida inteligente? Mas é precisamente nisto que a astrologia quer que acreditemos.
Quem sou eu para pôr em causa afirmações deste extraordinário cérebro. Além do mais, as posições dos astros quando nasceu um Carneiro em mil seiscentos e troca o passo, não têm nada a ver com as posições quando eu nasci em 1937. O universo continua em expansão e as órbitas vão-se alterando. Conclusão; já nada é o que era.
Mas a astrologia não faz mal a ninguém, e até pode ser benéfica, pois se eu tiver lido, no meu horóscopo que “a sua força de vontade poderá levá-lo a estabelecer um grande negócio”, talvez me influencie a abordar algo com mais determinação e confiança.
Pena não aparecer nenhum a dizer-me que me vai sair o euromilhões.



quarta-feira, 26 de março de 2014

Aniversário


Fazer anos é bom sinal. Estamos vivos. Normalmente nestes dias gostamos que nos dêem os parabéns. Ter quem se lembre de nós é bom. Agora até é mais fácil porque o Facebook encarrega-se de avisar os nossos amigos. “Rui Telo faz anos hoje”. É uma forma de alertar as mentes para o aniversário dos amigos. Por outro lado os 77 já pesam. Não que me sinta velho apesar de já o ser, mas a velhice é um estado de espírito. Desde que a saúde ajude e nos sintamos fisicamente bem, a velhice não existe. Mas as circunstâncias da vida têm muito peso. Os nossos governantes (serão?) estão a matar os “velhos”. Chegámos aquela fase da vida em que devíamos era descansar e só fazer o que nos apetecesse. A reforma é para isso. Passámos a vida a trabalhar e descontámos aquilo que o estado nos impôs para uma reforma que também determinou. Fizemos as nossas contas e estabelecemos o nosso orçamento pensando que a partir dali já não precisaríamos de poupar. Pensámos que o que era bom era gastar da melhor forma os nossos proventos para termos uma velhice descansada com algum conforto.
Agora, somos confrontados com um roubo. Dizem-nos: “Estás a ganhar mais de 1000 euros vais ser cortado”. Como se 1000 euros fosse uma fortuna. Como se dissessem que os cálculos anteriores tinham sido mal feitos pois não merecíamos uma reforma tão vultuosa. Assim, acham que têm o direito de nos sonegar parte das reformas a que tínhamos direito. E nesta fase da vida somos constrangidos a cortar nas nossas despesas. Temos que deixar de fazer o que gostamos para podermos ter orçamento para as despesas obrigatórias. É triste. Ainda se este sacrifício salvasse o país… mas não, isto tende a piorar e nem daqui a 40 anos conseguiremos ter uma dívida passível de liquidação.
Não vejo a salvação. Temos de viver, deixar correr e tentar sacar estes tipos do poder. Se não for a bem que seja a mal e depois… bem, depois logo veremos, tudo o que vier terá de ser revolucionário, mas será certamente melhor do que este marasmo.
Mas deixemo-nos de tristezas. Muitos amigos me deram os parabéns, todos me desejam felicidades. A todos agradeço e a todos prometo que vou continuar a lutar por um melhor país. Estarei com todas as manifestações se as houver, estarei também com as revoluções. Não serão os 77 anos que me impedirão de participar.
Coloco aqui uma msg de parabéns de um amigo que muito me sensibilizou pela forma e conteúdo:

Telo amigo,

Os aniversários são a memória das nossas vidas
 a soma dos nossos sonhos
e a indelével prova da nossa persistência
em desafiar o tempo
e dele fazermos renascer em cada dia
as nossas recordações adormecidas

Festejar um aniversário
é como desfolhar uma flor
e ver nascer sempre outra pétala
que representa o tempo novo
que se abre em cada data
em que julgamos ficar mais velhos

Mentira, meu amigo...
o tempo que nos falta é sempre o mais novo
e a mais promissora alvorada das nossas vidas!...

É tudo aquilo que ainda não vivemos
porque estivemos ocupados
a construir um futuro para os outros
com sentido de justiça, convicções e coerência,
princípios veros

Cada novo ano é o presente que nos ofertam
mas também o tempo renovado que merecemos
a família e os amigos que nos cercam
um mar imenso de afectos e presenças
indispensáveis, únicos e sinceros..

"Parabéns e que mantenhas a tua jovialidade e marca de homem bom!...

Um abraço do

ernani balsa"
 
Vale a pena fazer muitos anos para receber estes parabéns.




quarta-feira, 19 de fevereiro de 2014

Iliteracia, ignorância e incultura



Iliteracia = incapacidade para perceber ou interpretar o que é lido. Não, isto não tenho. Leio bem, depressa e não me escapa nada.  Ignorância = Estado de quem ignora. Bem! Não percebo nada de Física Nuclear, de culinária, altas matemáticas (já não passo da fórmula resolvente das equações do 2º grau), de puericultura e da cultura da batata. Sou ignorante. Incultura = Estado de inculto. Cultura é conhecimento. Falta de cultura é falta de conhecimento. Sou inculto. Nunca li a Ilíada, o Homero que me perdoe (pelo menos sei quem foi o autor). Há tanta coisa que não conheço, como por exemplo a forma como se reproduzem os protozoários, etc.
Costumo dizer; aquilo que não sei dava para fazer uma enciclopédia. Diria muito mais, umas três enciclopédias, mas gostava de saber e até procuro saber, só que a idade já não ajuda e as bases também faltam.
Isto vem a propósito daquelas pessoas que tudo sabem e sobre tudo opinam com uma prosápia tremenda, dizendo normalmente uma súcia de disparates, mas absolutamente convencidos que são os maiores e mais sabedores. Mesmo quando apanhados em incorrecções, nunca dão o braço a torcer e acabam sempre justificando a asneira com maior asneira. Ninguém é obrigado a saber tudo e saber tudo é completamente impossível a qualquer ser humano. Normalmente um indivíduo é considerado culto, quando consegue abarcar vários assuntos e falar sobre eles com um certo à-vontade, mas não tendo a veleidade do conhecimento total.
Quem não sabe cala-se e ouve. Para a próxima já sabe mais.
Não há nada pior que discutir um assunto com alguém teimoso que, não sabendo nada de nada, se arma em sabedor insistindo na asneira. Recordo sempre aquela velha anedota da senhora que quando lhe perguntaram se conhecia Chopin, respondeu que conhecia muito bem pois viajava com ela todas as manhãs no autocarro das 9. Não custava nada ter dito simplesmente não. Mas hoje, as pessoas querem parecer cultas e ricas, quando muitas vezes não passam de ignorantes e pobres. Parecer culto fica bem e passar por rico ainda melhor. Claro que acabam por ser desmascarados e a realidade fica bem pior.

Hoje, uma grande percentagem dos portugueses é iliterata, não porque não saiba ler, mas pela incapacidade de perceber aquilo que lê. A maioria é incapaz de preencher um formulário sem ajuda, porque lê-o mas não o interpreta. Os jovens, no secundário, têm dificuldades em resolver problemas por má interpretação dos enunciados. Não se consegue raciocinar sobre um problema se não o compreendermos aquilo que se pretende com a pergunta. Enfim, continuamos a querer um ensino obrigatório de 12 anos quando a maioria deveria sair ao fim de 9 e já é muito porque anda por ali a mastigar sem nada aprender e a gastar do erário. Aprendam pois bem português e saibam interpretar textos. Aprendam matemática porque essa está em tudo e serve para resolver quase tudo. Depois leiam muito e metam o nariz em tudo. Quando não souberem algo procurem vir a saber. É para isso que servem os dicionários e as enciclopédias. Hoje até têm a Net que, apesar de lá ter muita porcaria, também ensina muita coisa. E sejam humildes, quando não souberem não armem em espertos sabedores. Acabam por mostrar a vossa ignorância o que é bem pior. Ah! E façam mais, não mandem calar aqueles que falam do que sabem, pois só mostram que querem continuar a ser ignorantes.

sexta-feira, 31 de janeiro de 2014

TRAGÉDIA NO MECO


Ainda ninguém sabe o que se passou. Não há, por enquanto, testemunhas alheias à tragédia. A única testemunha fez parte dela e salvou-se com ajuda de pessoal dos bombeiros e polícia marítima. A judiciária tem o processo em investigação e segredo de justiça, mas o povo português já sabe tudo. Foi a praxe académica e aquele Dux é um assassino. Até pode ser que seja tudo assim ou pior ainda, mas também pode ser que não seja. Mas os portugueses já fizeram o julgamento. Foi o Dux e a culpada de tudo é a praxe académica. Como é que isto é possível?
Os nossos Media já sabem tudo e têm tudo visto e previsto. A campanha foi feita e estudada  para vender papel e tempo de antena. O governo aproveitou, pois assim o povo esquece-se das coisas realmente más que por aí andam e, às quais quanto mais fugir e não responder melhor.
 A TVI chegou ao ponto de fazer uma reconstituição de uma praxe baseada num escrito de Fernando Pessoa, de um ritual demoníaco, aproveitada para praxar caloiros. Só que colocou o caso de tal modo que, quem viu sem pensar, pode ter tomado aquilo como realidade do que se passou. E se repararem, foi feito com esse intuito. A histeria sobre o caso leva ministros a reunirem-se com direcções de universidades e associações académicas. E depois de tudo isto eu pergunto: que se passou realmente? Ninguém sabe.
As famílias querem responsáveis, o governo anda a aproveitar-se, os media vendem papel e tempo de antena e os portugueses histericamente alarmados, já fizeram o julgamento.
Responsabilizar a universidade? Como, se as praxes, conselhos de praxe e quaisquer outras organizações de praxe e seus membros, são completamente independentes da organização universidade? Como, se até aqui havia e continuam a haver códigos de silêncio sobre o assunto? Como se pode querer que reitores, directores, conselhos e outros órgãos, saibam o que se passa fora, ou mesmo dentro, das universidades, se os assuntos nem lhes chegam? Só se houver vigilantes, tipo agente secreto, que “bufem” para as direcções. E mesmo que “bufem”, quem vai acusar quem? Proibir as praxes? Nem pensem. Nada se resolve pura e simplesmente com proibições. Se assim fosse não havia drogados. Veja-se o código da estrada, montes de proibições e todos os dias há mortes por desrespeito às regras. Há praxes estúpidas e perigosas? Claro que há. E há, porque infelizmente há também muita gente estúpida e prepotente no meio académico. Mas se as praxes ultrapassarem aquilo que se considere (no meio) aceitável, e entrar no campo do perigoso e do crime, há leis no país para julgar e punir esses actos se tiverem coragem de os denunciar.
As vítimas da tragédia eram todas adultas, nenhum era caloiro e todos, segundo consta, eram membros de conselhos de praxe já com títulos atribuídos. Se estavam em algum ritual, só o sobrevivente poderá esclarecer. Se era um ritual obrigatório e os colocou em perigo, sabiam a que estavam sujeitos e eram voluntários. Correu mal? Correu e muito. Foi propositado para lhes incutir sentimento de obediência? Talvez. Mas continuavam a submeter-se voluntariamente e sabiam para o que iam. Pena foi não terem respeitado o mar. Esse não perdoa e, mesmo sem rituais satânicos, leva muita gente para a morte. Se houver crime, que seja julgado e punido. Não arranjem é bodes expiatórios.