sexta-feira, 26 de setembro de 2014

ANA


(capítulo de Pedras Negras de Vermelho)

Como não me acho capaz de escrever um romance, fiz uma tentativa de escrever um policial. Sempre é mais fácil e com um pouco de imaginação, consegue-se engendrar uma historieta sem queimar muito os neurónios. Escrevi pois uma aventurada policial em que o Inspector Anselmo, da Judiciária, investiga um crime englobado numa teia de traficância de diamantes de Angola para Portugal. Aqui deixo um capítulo.

Anselmo estava em casa quando teve uma ideia. Lembrou-se de Ana, a rapariga que lhes falara de Zaída. Pegou num telefone e ligou para o Elefante Negro. Reconheceu a voz do Olegário quando este atendeu. Anselmo procurou disfarçar um pouco a voz e arriscou; – Sou um cliente já antigo da Ana, estou a precisar da companhia dela, posso falar-lhe? Ana veio ao telefone, Anselmo disse chamar-se Simões e que era amigo de um indivíduo que lhe dissera muito bem dela. Estava a precisar de companhia e perguntou-lhe se podia aparecer hoje à noite para jantar. Depois de uma pequena espera Ana disse que sim, que estava livre e tinha muito gosto. Anselmo deu-lhe a morada e que aparecesse às oito e fosse pontual. Os tempos deviam estar maus para o negócio. A miúda nem lhe perguntara quem era o amigo e ainda bem. Se o tivesse feito não saberia o que dizer.
Eram precisamente oito da noite quando a campainha tocou. Anselmo atendeu e depois de ouvir a voz da rapariga disse: – Suba.
Anselmo abriu a porta e a moça recuou admirada; – Inspector?
– Sim. Entre.
– Mas eu vim pensando ser um cliente. Disseram-me ser um senhor Simões.
– Sim, foi o nome que dei. Mas não se preocupe porque o seu tempo será pago. Como queria conversar consigo a sós sem que outros soubessem, achei por bem traze-la aqui. Estamos mais à-vontade e a Ana vai estar mais descontraída. Vamos ter uma conversa informal. Ponha-se tranquila que aqui nada de mal lhe acontece. Tire o seu casaco e sente-se aí no maple. Que quer tomar?
– Que bom, assim posso tomar um whisky a sério. Lá no Elefante servem-nos chá. Estamos proibidas de beber da garrafa dos clientes.
– Deixe-se estar que eu preparo as bebidas.
Junto ao armário onde estava o bar, Anselmo enquanto servia as bebidas olhava de soslaio para a moça. Era um belo exemplar de mulher. Bem-feita, elegante, alta mas não muito, bem vestida e calçada, fazia um belo par para acompanhar qualquer homem e em qualquer ambiente. Tinha uma voz doce e um bonito sorriso, apesar de uma certa melancolia quando não sorria.
Anselmo entregou-lhe as bebidas e levantou o seu copo para uma saúde. A moça sorriu e agradeceu.
– Não temos que forçosamente começar a falar no caso que me preocupa. Temos muito tempo. Marquei o nosso jantar num restaurante perto para as nove e meia, portanto, falemos de nós. Eu sou separado. Estamos a tratar da separação oficial. Vivo aqui sozinho, tenho uma empregada umas horas, três dias por semana. Como por fora e quase só uso esta casa para dormir. Agora diga-me. Quando pensa deixar esta vida e tomar juízo? Desculpe a pergunta mas acho que a Ana merece melhor.
– Isso é bom de dizer, mas mais difícil de fazer do que simplesmente falar do assunto. Estudo de dia. Estou na faculdade a fazer psicologia. Gostava de me licenciar e empregar-me no “metier”. Já não tenho pai e a minha mãe é muito pobre. Vive com o dinheiro que lhe mando. Infelizmente só a visito umas duas ou três vezes por ano. Vive perto de Vila Real de Trás-os-Montes. É muito longe para poder ir lá mais vezes. Pagar casa, roupa, alimentação, estudos, mais o que mando para a mãe, custa muita massa. Tenho de me virar.
– Claro. Estou a ver. Pode ser que apareça alguém que se apaixone por si, não deve ser difícil.
– Já muitos manifestaram paixões, mas não passam de ataques de machismo encapotado. Príncipes encantados já não há.
– A Ana tem razão, mas assim que puder largue tudo isso. Quando achar que tem um pecúlio que se veja, vá para ao pé da sua mãe e procure fazer vida por lá. Vila Real é uma cidade linda. Veja se consegue colocação no ensino.
– Pois. – Disse a rapariga com ar nostálgico. – Primeiro tenho de licenciar-me e ainda falta um bocado.
– Faça por isso. Agora vamos sair. Vai saber-nos bem andar um bocado a pé e vamos fazendo horas para o jantar.
Já na rua, Anselmo deu-lhe o braço, o que agradou sobremaneira à moça. Sentiu-se protegida e aconchegada. Pensou que bom seria ter assim um companheiro, educado, agradável e protector.
Ao entrarem no restaurante um empregado dirigiu-se-lhes.
– Senhor Inspector, a sua mesinha está pronta.
Durante todo o jantar falaram de trivialidades. Comeram, conversaram e riram como se já fossem conhecidos de há muito.
Regressaram a casa pelo mesmo caminho. Já na sala a moça começou; – Inspector.
– Trate-me por Anselmo. Eu já lhe chamo só Ana. Deixemo-nos de formalismos.
– Esta bem. Eu só lhe queria agradecer os bons momentos que estou a passar aqui, o Anselmo é um cavalheiro e eu estou a adorar cada bocadinho.
– Obrigado. Só que agora temos de falar de coisas sérias, pode ser?
– Claro Anselmo. Ajudarei em tudo o que puder.
– Diga-me então. Quem acha que manda no Elefante Negro? Que pensa do Olegário e do gerente? Já alguma vez viu o António Melo?
– Vou tentar responder por ordem. Quem manda ali é o gerente, o senhor Fonseca. É ele que põe e dispõe e dá as ordens.
– É a primeira vez que lhe oiço o nome. – Disse Anselmo.
– Também o soube da única vez que vi o senhor Melo. Foi pelo nome que ele o tratou. Estou convencida que quem puxa os cordelinhos é o tal Melo.
– E o Olegário?
– Esse é um traste nojento. Completamente bicha, anda sempre a roçar-se pelos clientes para ver se arranja engate.
– E arranja?
– Penso que sim. Pelo menos com um ou dois parece que resultou. Muitas vezes aparece de olhos negros. Os tipos que engata tratam-no mal e muitas vezes roubam-no. É um desgraçado mas tem mau fundo. Está sempre mal-humorado e trata-nos mal. Além de maricas é completamente misógino. Poderia ser apenas homossexual, ninguém lhe levaria isso a mal, mas assim…
– Tem noção que possa haver por ali negócios além do normal funcionamento da casa. Já viu ou ouviu algo de suspeito?
– Da parte do Fonseca acho que não. Só o oiço falar dos assuntos da casa. Mesmo ao telefone com o Melo, no pouco que tenho ouvido, só mesmo sobre trabalho. Já do Olegário não digo o mesmo, está sempre ao telemóvel a falar em voz baixa e quando nos aproximamos, volta-se e finge falar de trivialidades, mas nota-se que há algo de estranho.
– Há droga lá no bar?
– Tráfico não há. Consumo já houve, mas o Fonseca correu com duas ou três que consumiam e agora anda tudo bem.
– Alguma vez notou que se negociasse algo lá dentro. Tipo joias, pedras ou qualquer outra coisa que dê dinheiro grosso?
– Nunca dei por isso. Os clientes normalmente querem é beber e fingir que nos namoram. A maioria não tem dinheiro para pagar os nossos preços.
– E o Miguel? Conhecia-o bem?
– O Miguel era especial. Alegre, bem-disposto, malandreco, mulherengo. Ia com todas e tratava-nos por princesas. Tinha uma característica muito peculiar, tenho até alguma vergonha de falar nisso…
– Já sei. Vi-o nu na mesa de autópsias. Era realmente bem dotado.
A moça riu-se. – Era isso! – Disse Ana, rindo com uma mão na frente da boca. – Todas nós falávamos e ríamos do mesmo. Chamávamos-lhe o três-pernas. Ao pé dele ninguém estava sério. E na cama era um brincalhão. Com ele tudo era riso.
– Ele nunca mostrou atracção especial por alguma em particular?
– Nunca. Era igual para todas. Mas penso que existia alguém. Em Angola!
– Como sabe?
– Porque ela telefonava e ele fazia sinal com o dedo nos lábios a pedir silêncio. Pela forma como falava notava-se que havia algo diferente. A moça chamava-se Sara. Era o nome que ele lhe chamava ao atender. Nós brincávamos perguntando se era a tal mas ele dizia que nada tínhamos com isso e não dava mais aso a conversas. Muitas vezes perguntava se a sua terra continuava linda. E que o fosse esperar ao aeroporto quando chegasse. Foi aí que soubemos que ela era de lá.
Anselmo passou para o mesmo maple sentando-se ao lado da rapariga. – E a Ana, alguma vez se apaixonou por algum cliente?
– Nunca. Para mim isto é um emprego. Tive um namorado lá na terra de quem gostei muito. A coisa não deu. Foi mais por ele que me vim embora.
– E nunca ninguém lhe fez propostas para levá-la dali e viver em exclusividade?
– Isso sim. Já vários. Mas finjo que não dou por isso e troco-lhes as voltas.
– Tem algo mais que queira dizer-me?
– Não
– Quer ir embora? – Anselmo ao perguntar isto chegou-se um pouco mais e passou-lhe a mão pelo cabelo. Estranhamente a moça corou e deixou pender a cabeça no seu ombro e disse muito baixinho; – Não.
Anselmo levantou-lhe o queixo e beijou-a docemente na boca. Depois o beijo entrou em crescendo e virou arrebatamento. Cingiram-se quase com violência e escorregaram para o chão rebolando pela alcatifa.
No dia seguinte, Anselmo deixou-a no apartamento onde vivia.
Nota: Tenho o livro em pdf que posso enviar a quem estiver interessado.



quarta-feira, 20 de agosto de 2014

A tristeza do Mundo em que vivemos e a continuação da vida.



Este mundo está a deixar-me triste e zangado. A fúria exacerbadamente capitalista centrada na exploração, a todo o custo, do petróleo, “construiu” a chamada “primavera árabe” para afastar do poder os ditadores, que mantendo governos laicos, conseguiam conduzir os seus países na senda do progresso e estabilidade. Onde havia paz hoje há guerra e destruição. Cidades consideradas património mundial, como Alepo por exemplo, aparecem-nos nas imagens como montes de ruínas sem qualquer consideração pela cultura que desde há séculos nos maravilhavam com testemunhos de civilizações passadas. Milhares de pessoas, despojadas de bens e habitação, tornam-se refugiados, fugindo atravessando fronteiras, em busca de local onde possam sobreviver, deixando para trás as suas terras, as suas tradições e os seus mortos. O meu país está a morrer também a uma velocidade assombrosa. Governados por liberais encapuçados de social-democratas, vamos cada vez mais enfeudando-nos a uma Europa, mal construída, que trata mal os que pouco têm em detrimento dos abastados. O desemprego é tremendo, a fuga de capitais e inteligência é constante. Vemos os pobres ladrões serem condenados por pequenos crimes que, muitas vezes, cometem para poderem sustentar as famílias, quando o grande capital se consegue livrar da justiça por enormes crimes económicos cometidos apenas pela ganância do lucro desmedido ou para aumentarem o seu poder que esmaga e oprime os que pouco têm. A classe média vai-se extinguindo sugada pelos governantes que poupando o grande capital que os sustenta a vai tornando cada vez mais pobre com o excesso de impostos e de cortes nos rendimentos. O crime aumenta. As notícias mostram-nos horrores. Pais metem filhos em água a ferver, matando-os ou violando-os. Cônjuges matam-se uns aos outros por interesses materiais ou por ciúmes exacerbados. Os jovens, abandonando a escola, formam gangues que, desprovidos de escrúpulos, roubam, saqueiam, violam, atacam, sem qualquer medo de uma justiça, que baseada nos direitos do cidadão, os protege e liberta sem os recuperar. As autoridades, cada vez mais desprovidas de força, acabam por se tornarem demasiado complacentes com medo da tal justiça benévola demais com os criminosos, mas demasiado severa para com os que, tentando cumprir o seu dever, se vêm forçados a tomar atitudes às vezes mais duras e tomadas no fervor de lutas. Os governantes maltratam os professores e educadores sendo demasiado complacentes para com os alunos, normalmente maus alunos e indisciplinados. Pois é, não vejo soluções para este país enquanto nos governarmos com esta “democracia”. Enquanto não formos capazes de mudar este regime e construir outro baseado na seriedade, competência e vontade de fazer progredir este país, sem que os governantes só pensem no poder partidário e no seu próprio enriquecimento a todo o custo, não poderemos crescer como povo voltado para valores da cultura e nobreza de sentimentos, para construirmos uma sociedade justa, solidária e virada para o progresso sem veleidades de obtenção de lucros fáceis. Viver com dignidade, justiça, protecção social, estudo, cultura e trabalho seria o desejável. Todos vamos ter o mesmo fim, ninguém é eterno e se houver trabalho, protecção social, justiça e ensino capaz, não será necessária a preocupação de amealhar para deixarmos a quem nos sobrevive. Quem fica continuará a vida como nós a vivemos. Para ajudar a esta triste “festa”, o clima maltratado pelos humanos, manifesta-se provocando cada vez mais cataclismos. Furacões devastam regiões. Chuvas torrenciais destroem culturas, infraestruturas e matam. Tsunamis arrasam, destroem e ceifam vidas. Enfim, tudo isto me deixa triste mas não acabado.
Com tudo isto, apesar de os tolerar e aceitar, cada vez compreendo menos os crentes. Como acreditar na existência de um deus omnipotente, omnisciente, omnipresente e bom? Como acreditar num deus protector de cada um de nós mas que permite tudo isto? Um deus a quem se pedem favores para nós e os nossos mas a quem nada pedimos para os outros? Enfim, medos da humanidade que sempre atemorizou os homens com o “mistério” da morte e a tentativa de perpetuação para além dela.
Como a idade já não me permite, nem a democracia deixa, meter-me em políticas que levem à criação do tal estado no qual gostaria de viver, volto-me para mim próprio continuando a fazer aquilo de que gosto. Com a informática vou tendo oportunidade de criar e melhorar sistemas que implementei. Melhoro, troco, estudo e construo. O computador serve-me também como meio complementar de comunicação entre mim, os meus amigos e familiares. A leitura continua a ser o meu descanso de alma (que é coisa que não existe mas é um lugar-comum) e aprendizagem da vida. Leio tudo o que me parece bom e que me possa aumentar o conhecimento. Um amigo emprestou-me um bom livro que “devorei” em poucos dias “A Verdadeira História da Terra” de Chistopher Lloyd, um relato histórico-científico desde o “Big Bang” até aos nossos dias. Um manancial de cultura e conhecimento. Descobri na minha estante, entre os livros herdados de um tio da minha mulher, um livro que me passou despercebido e que estava entre os não ainda lidos; “Deuses, Túmulos e Sábios” o romance da arqueologia, escrito em 1959 por um alemão, C. W. Ceram. Outro receptáculo de história e conhecimento de como o homem, através das descobertas arqueológicas, foi entendendo e conhecendo o mundo em que vive.
Termino este meu escrito ainda triste pelo mundo que me rodeia, mas acompanhado por aquilo que me aumenta o conhecimento através do que vou lendo, por aquilo que ainda vou construindo, trabalhando e pela companhia e contacto com os meus amigos e família. Conversar e discutir, no bom sentido, ainda é um grande prazer.

Vamos vivendo…

sábado, 19 de julho de 2014

A Selva


O passarito “piripilava” todo contente. A manhã estava radiosa e o esvoaçar de ramo em ramo através da floresta, dava-lhe uma enorme sensação de liberdade. O calor solar dava-lhe alento e exercitava as suas asitas, ainda com alguma penugem por ter abandonado o ninho há pouco. Viu um insecto que distraído pousara um pouco à sua frente e, lembrando-se do que os pais lhe ensinaram, fingiu-se distraído e, zás, com um pequeno salto abicou o incauto. Não tinha muita fome pois os pais tinham acabado de o alimentar, mas este insecto veio a calhar e serviu de treino para o futuro. Com estas cogitações não reparou numa cobra que sorrateiramente vinha subindo a árvore, tentando alcançar o repasto gordito e anafado que à sua frente lhe fazia crescer água na boca. Só quando o réptil, talvez por falta de treino, fez restolhar um ramo ao dar o bote, é que, por instinto, esvoaçou para o ramo da árvores em frente onde pousou ainda a tremer com a assustadora visão daquela fauce escancarada que só não o engoliu por pouco. Maldita cobra, pensou o passarito, que anda aqui a comer-nos. Vá mas é caçar ratos, esses é que servem para repasto de cobras e, dando apenas um pulito, abicou mais um gafanhoto que rapidamente deglutiu. Ainda sentia na barriga os fémures serrilhados do orthoptero, quando, a sua consciência lhe colocou a incongruência. Pois é, os pobres insectos devem ter sentido o mesmo pânico que ele sentira ao ser atacado pela cobra. E agora? Como poderia continuar a alimentar-se com este dilema na consciência? Tomou uma solução. Passaria só a comer sementes gramíneas e cereais pois havia muitos por aqueles campos fora. E a cobra? Pensaria o mesmo? Estava nestas conjecturas quando, olhando para baixo, viu um urso que comia estraçalhando um bom pedaço de carne. Desceu o máximo que pôde, tomando cuidado para não ficar ao alcance das garras do plantígrado, e resolveu falar-lhe:
—Amigo urso, o que estás a comer?— O urso, um pouco espantado por lhe dirigirem a palavra, e logo um passarito com uma voz tão fininha que mal se ouvia, olhou para cima e resolveu responder: —Estou a comer um pequeno veado  que acabei de caçar.
— Não tiveste pena de matar o pobre animal? És um malvado sem coração, o bichinho naturalmente tinha família e agora os pobres pais estarão com uma dor imensa por terem perdido o seu filhote.
Não querem lá ver, agora vem para aqui este chatear-me ainda por cima quando estou a comer e me estava a saber tão bem. Queria lá saber dos pais do veadito, que se lixassem, tinha que comer e toda a gente sabe que os ursos gostam de carnuça. Mas o passarito continuou:
—Olha! Ainda há pouco tomei a decisão de passar a ser vegetariano e deixar de comer insectos. Se todos fizéssemos o mesmo, não seria necessário matarmo-nos uns aos outros.
—Pois. Disse o urso. —Se todos como tu o fizerem, vai haver um excesso de insectos que comerão tudo o que é verde e ficarás sem nada para comer. Se a cobra deixar de comer pássaros, um dia destes não caberão todos no céu e não terão cereais e gramíneas para comerem pois os ratos, também deixados em paz, comerão tudo. Este mundo ficará um deserto e qualquer espécie animal não terá futuro. Lembra-te que as espécies vão aparecendo e transformando-se por evolução e vão vivendo de outras espécies, que por sua vez se vão renovando através de outras que vão deglutindo. Chama-se a isto um ecossistema.
—Bolas que este urso é evoluído. Pensou o passarito. Vou mas é deixar-me de pensamentos filosóficos e continuar a comer uns bicharocos. Cada um que se cuide.

Depois disto, eu o homem, fiquei a perceber melhor a humanidade. Deixámos de ser canibais, mas encontrámos formas de equilibrar o mundo. Afinal dilúvios, terramotos, incêndios, epidemias e guerras são necessárias. Será bom é que não exagerem senão só ficam os passaritos a conversar com os ursos…


domingo, 13 de julho de 2014

B16 versus F1


Parece que o B16 e F1 não vão ver juntos a final Alemanha/Argentina. O F1 confessou que o B16 não era grande fã e que seria quase pecado obrigá-lo a um esforço demasiado. Mas julgo que o motivo não foi bem esse. Parece que nenhum deles quer invocar Deus para que lhes conceda a benesse de uma vitória. Aliás, era maldade que não se fazia, colocar Deus perante tal dilema. Ainda se fosse com a Argélia ou com a Costa do Marfim, sempre era Alá vs Javé ou Jeová como preferirem. Aí sim, já não havia grande problema. Parece pois que o F1 vai ver o jogo sozinho e já pode pedir ajuda ao seu Deus. Aliás, católicos contra luteranos já pode ser, pelo menos ao longo da história muito confronto houve e infelizmente ainda há. Assim o nosso F1 está à vontade e nem se lembra dos outros confrontos que no momento se estão a dar. Acho que os F18 dos de Jeová se confrontam com os mísseis dos do Alá lá para as bandas da Palestina. Pois!
Quem não vai ver o jogo devem ser as criancinhas palestinianas que, coitadas, já nem electricidade devem ter e nem podem colocar as cabeças de fora. Os judeus, esses sim, vão ver e, penso eu, devem todos pugnar pela a Argentina, pois a visão do holocausto ainda está muito próxima. Enfim, grandes confrontos à vista, pena que nem todos sejam só com bolas. Os judeus estão seguros porque o sistema de defesa antimíssil está com uma eficácia de 99,9%, até aqui só um passou. Do outro lado é que é a gaita, não há sistema que os guarde.
Pois é meus amigos, esperemos que os nossos Papas (agora há dois) apliquem toda a sua fé para desejar que o mundo se deixe de gladiar infelizmente, muitas vezes, devido a diferenças de crença religiosa. Para quando ficarmos todos ateus? Não seria melhor?


segunda-feira, 23 de junho de 2014

A BOLA



“A bola é mulher não sabe o que quer”. Que me perdoem as minhas queridas amigas que sabem que não sou nada machista. A frase foi escrita por To Sam, pessoa admirável que tive o prazer de conhecer, numa “charge” ao futebol carregada de humor. To Sam além de decorador, foi pintor, ilustrador, escritor e principalmente um humorista de craveira ímpar. Tudo isto a propósito dos futebóis, tema em que não me sinto nada à vontade por perceber pouco do assunto. Mas realmente a bola é redonda e não sabe mesmo o que quer, pois muitas vezes os que a pontapeiam querem que ela vá para um lado e ela teimosamente vai para outro, sem conta nem medida. Mesmo percebendo pouco do assunto, acho que para se jogar é necessário possuir-se jeito, muita perna e maior pulmão. Os nossos rapazes da selecção têm imenso jeito. Já quanto a perna parece que todos as perderam e quanto a pulmão nem se fala. Quando todos ansiavam por uma vitória, ela esfumou-se e vá lá, evitou-se a derrota. É assim, para uns ganharem outros perdem e às vezes empata-se. Os adversários não são paralíticos e cada vez sabem mais daquilo. Mas não foi para isto que resolvi escrever este texto.
Nós, os portugueses temos todos a mania que somos os melhores do mundo e que havemos levar de vencida tudo e todos, mas não somos. A comunicação social e o zé povinho endeusam tudo e todos e esquecem-se das nossas limitações. O desporto, principalmente o futebol, faz libertar nos indivíduos todas as paixões reprimidas pelas frustrações da vida, levando para os estádios, ansias e desejos incontidos, que depois explodem e levam as massas a comportarem-se quase como selvagens. O povinho, explorado por patrões e governantes gananciosos e corruptos, vive triste e continua inculto pela educação que lhes falta em casa e nas escolas, onde, mais uma vez o poder, cego pela contenção orçamental, déspota nas decisões, não deixa a educação evoluir, limitando os educadores a regras e normas emanadas dos órgãos centrais. Por outro lado, a história que nos foi ensinada fez-nos crer que um povo descobridor e aventureiro como o nosso, poderia levar de vencida todas as tarefas. Esqueceram-se que os homens iam para as caravelas, para poderem comer e tentar trazer de outras bandas aquilo que não conseguiam para sustentar a família. Tivemos realmente meia dúzia de iluminados e estudiosos, que sabiam de antemão aquilo que podiam vir a encontrar e daí tirarem o melhor proveito. E realmente tiraram. Só que, mais uma vez, não foi o povo que beneficiou. A corte enriqueceu e por encosto o clero também com os agradecimentos às divindades pelos conseguimentos. O povão continuou paupérrimo e ainda hoje continua. Depois apareceu um poeta, demasiado lírico, que enalteceu de tal forma os feitos dos portugueses, que todos nós lemos e estudámos, acabando por colocarmos o livro debaixo do braço, mostrando a tudo e todos: — Vejam, os portugueses, nós, somos assim; Destemidos, valentes e determinados. Vencemos tudo e todos.— Santa desilusão, somos iguais aos demais, com as nossas incapacidades e fragilidades.
Olha! Resta-nos dizer aos rapazes quando regressarem a Portugal:-- Deixem lá, a culpa foi do Camões.

sexta-feira, 13 de junho de 2014

Como se faz um santo?


Santo António de Lisboa (ou Pádua?)

António, de nascimento Fernando, não se lhe conheceram pais, mas mais tarde foram-lhe atribuídos como sendo Martins ou Bulhões (Martinho de Bulhões e Maria Teresa Taveiro). Foi um frade, o que faz supor um nascimento pobre, pois eram estes os educados nos conventos. Mas, dada a nobreza dos seus supostos pais, foi-lhe conferida uma suposição de pessoa bem nascida. Muito cedo os seus educadores se aperceberam da extraordinária apetência que o noviço tinha pelo estudo e da grande capacidade de aprendizagem que revelava. Foi primeiro frade Agostinho, mas mais tarde, em Assis, sob a égide de São Francisco, mudou para Franciscano. Devido à sua grande cultura e excelente exegeta, proferiu excelentes sermões ainda hoje tidos como dos melhores e mais profícuos, tendo sido espalhados por vários países, pois parece que o piedoso taumaturgo viajou imenso nos apenas perto de 40 anos que viveu.
A sua grande fama de taumaturgo vem das inúmeras “lendas” passadas de boca em boca dos seus bastantes milagres. Acho que refez um pé amputado a uma rapariga, fez uma mula ajoelhar perante a hóstia sagrada e até lhe apareceu o Menino Jesus quando orava numa Igreja. Ficou como santo padroeiro dos amputados, dos animais, das grávidas, dos idosos e dos fracos e oprimidos e é normalmente invocado pelas moças solteiras para arranjar casamento e para encontrar objectos perdidos. A sua iconografia, é geralmente apresentada com o menino ao colo devido à tal aparição. Só não sei porque numa das mãos uma vez lhe colocam a cruz outras vezes um ramo de açucenas. Dada tanta profusão de milagres foi canonizado pelo Papa Gregório IX, em 1232, ano seguinte ao da sua morte a 13 de Junho.
Este grande mestre do saber da Igreja, ainda teve tempo para converter hereges Cátaros ou Albigenses e tendo assentado praça como soldado chegou a Coronel do Exército.
Todo este arrazoado, vem a propósito do dia de hoje, 13 de Junho, e das festas de Lisboa, na véspera, em honra deste Santo Homem. E aí eu pergunto: Como se faz um santo?
Homens bons, cultos, solidários, dedicados à humanidade, sempre houve, mas daí a serem considerados santos… bem, parece que têm que ter outros predicados. Mas será que os santos os tinham? Era necessário ser casto, coisa muito difícil, pois a tentação da carne é grande e moças atiradiças nunca faltaram, então o frade Fernando que até pregava partidas às raparigas. Parece que, tal como o João, também partia as bilhas nas fontes e as recompunha perante a consternação das moças que lhe agradeciam encarecidamente, depois arranjava-lhes casamentos. Tinham também de realizar milagres, o que era difícil e muito pouco natural. Não acredito em pés restaurados depois de uma amputação, já fazer ajoelhar uma mula é fácil, nos circos até os elefantes andam de bicicleta. Parece também que o santo gostava de comer e beber e devia gostar imenso de sardinha assada e vinho tinto. Só que morreu cedo e ainda por cima com hidropisia, uma doença de excesso de água no corpo. Devia ter abusado mais do vinho.
Claro que, na idade média, época em que viveu, o povo era ignorante e supersticioso em demasia, ainda hoje é, e a igreja encarregava-se de empolar situações que ajudassem a criar santidades. Criaram tantos que penso haver um santo diferente para cada dia do calendário.
Não sou crente e obviamente também não acredito em santos, mas admiro este homem por aquilo que foi e aquilo que fez numa época obscurantista, em que a igreja guardava para si e para os seus apaniguados, toda a forma de saber e ciência. Este teve a coragem de tentar ensinar aos outros tudo aquilo que aprendeu. Terá sido exactamente assim? Não se sabe, mas pelo que se disse e escreveu até parece. Teve pelo menos o grande mérito de deixar em Lisboa a boa tradição folclórica das festas bem comidas e regadas.

Por aquilo que foi deixo aqui a minha homenagem a Fernando de Bulhões.

domingo, 1 de junho de 2014

Tintim antes, durante e agora


Em 1935, no mês de Agosto, nascia a minha irmã. Eu fiquei para mais tarde, apenas 19 meses depois. No ano em que a minha irmã nasceu, a nossa Tia e Madrinha, irmã de meu Pai, era funcionária da Emissora Nacional onde Adolfo Simões Muller era Director do Gabinete de Estudos e Programas. Este escritor, jornalista e pedagogo foi editor e fundador da revista de banda desenhada “O Papagaio” fundada nesse ano, tendo sido a primeira revista não francófona a publicar as aventuras de Tim-Tim. A minha Tia, amiga de Simões Muller, fez uma assinatura da revista em nome da minha irmã.
Quando nasci, já Tim-Tim, como então se escrevia, andava lá por casa acompanhado do seu cão Terrier “Milou”, que, no Papagaio era, erradamente, apelidado  de “Rom-Rom” que toda a gente pensava ser cadela.
Cedo comecei a devorar aqueles bonecos e Tim-Tim passou a meu herói. Não fui um sobredotado, mas aos seis anos já conseguia ler os “balões” com as falas das personagens e, julgo que foi o interesse nas histórias que me levou a aprender a ler depressa.
Tim-Tim foi uma criação do ilustrador belga Georges Remi (Hergé, pronuncia das suas iniciais do seu nome R e G) no suplemento infantil “Petit Vingtième” do jornal diário belga “Le XXe  Siècle”. Hergé foi o primeiro ilustrador de BD a pôr as falas a saírem directamente da boca das personagens através dos balões “filacteras”. A primeira aventura deste jovem jornalista foi Tintim no País dos Sovietes.
O meu Pai mandava encadernar as revistas de cada ano tendo no término da mesma um total de 13 volumes e alguns números soltos. No Papagaio publicaram-se 9 das aventuras do meu herói:

Tim-Tim na América, inicio no nº 53.
O Charutos do Faraó, nº 115 ao 161.
O Lótus Azul, nº 166 ao 205.
Tim-Tim em Angola (Tintim no Congo), nº 209 ao 244.
Tim-Tim e o Mistério da Orelha Quebrada (A Orelha Quebrada), nº247 ao 298.
Tim-Tim na Ilha Negra (A Ilha Negra), nº 301 ao 359.
Tim-Tim no Deserto (O Caranguejo das Tenazes de Ouro), nº 366 ao 426.
A Estrela Misteriosa, nº 435 ao 540.
O Segredo do Licorne, nº 617 ao 679.

Todas estas histórias foram os desenhos originais. Mais tarde, Hergé reformulou todas, modernizando-as para serem publicadas em álbuns.
Conheci assim, todas as versões do meu Tim-Tim e Rom-Rom que depois passaram a Tintim e Milou.

Todas as semanas, o carteiro tocava à porta e anunciava “Pacagaio”, trocando as letras ao nome, o que nos fazia sempre rir, e fazendo-nos correr para ver quem conseguia ser o primeiro a ler. Foi através das histórias de Tintim que “fiz” as primeiras viagens. Andei por Nova Yorque, Xangai, Port- Said, Singapura, Nova Deli, Katmandu, Tibete, Escócia, Congo e sei lá por onde. Mais tarde, já na minha vida militar, reconheci vários desses pontos através dos traços característicos de Hergé. Lembro-me de estar sentado no porto de Singapura e pensar para comigo “Já estive aqui”.
Após o Papagaio foram publicadas as seguintes aventuras:

O Ceptro de Ottokar
O Tesouro de Rackham o Terrível
As Sete Bolas de Cristal
O Templo do Sol
No País do Ouro Negro
Rumo à Lua
Explorando a Lua
O Caso Girassol
Carvão no Porão
Tintim no Tibete
As Jóias da Castafiori
Voo 714 para Sidney
Tintim e os Pícaros
E, a título póstumo, Tintim e a Alph Atrt

Só muito mais tarde, foi reeditado o álbum de Tintim no País dos Sovietes, que Hergé considerava ter sido uma crítica demasiado feroz ao regime comunista da União Soviética e, portanto, estar ultrapassado.

Mas foram as personagens companheiras de Tintim que mais me fascinaram. O Capitão Haddock, os detectives gémeos Dupond & Dupont, o professor Tournesol, o mordomo Nestor, o rouxinol milanês Bianca Castafiori, os Generais Alcazar e Tapioca, o famigerado Dr. Muller, o português Oliveira da Figueira, o japonês Mitsuhirato, o bondoso Sr. Wang, o adorável Tchang, o Xeque  Bem Kalish Ezab e o traquinas do seu filho Abdalah, o terrível Rastapopoulos, o miserável e milionário Carreidas, o sinistro Coronel Sponz, enfim tantos outros cheios de vida e humanidade que me cativaram e enriqueceram a juventude, continuaram a prender-me a atenção pela vida fora e ainda hoje revejo com interesse e emoção.

Tintim foi publicado em mais revistas portuguesas até aparecer a revista Tintim, da Bertrand, que adquiri desde o exemplar nº1. Mesmo em Angola, recebia-a semanalmente, pois um familiar encarregou-se de ma enviar sem falhar um nº. Dessa revista, o meu filho possui ainda todos os números encadernados em 26 volumes. Possui também todos os álbuns editados pela Casterman na sua versão brasileira.


Foi este herói e os seus companheiros que me ajudaram a moldar o meu carácter. Mais tarde apareceu Asterix de que muito gosto, mas não substituiu o meu querido Tintim, aquele impetuoso e generoso jovem jornalista de cabelo ruivo com poupa, calças à golf castanhas e camisola azul, defensor dos fracos e oprimidos, implacável para com os criminosos, mas sempre de uma humanidade a toda a prova.