sábado, 15 de setembro de 2018

Mulher Que Segue à Frente



Mais uma noite de cinema. Comecei por procurar o filme a ver. Não me apareceu nada que me despertasse muito interesse. Apenas um me alertou um pouco por se tratar de uma história baseada num caso verídico.
Muitos filmes que retratam a vida e a forma de pensar de minorias étnicas, não são normalmente vistos do interior dessas minorias para fora, mas sim através de elementos da comunidade da ocupação e opressão que, entrando junto dessas minorias, acabam percebendo-os e condoendo-se da forma de vida a que os ocupantes os obrigam. Temos exemplo do filme “Dança com Lobos” de e com Kevin Costner e outros anteriores como “Cochise” (A Flecha Quebrada) de Delmer Davies com James Stuart e Jeff Chandler no papel do chefe índio.
No caso em apreço, Susanna White realiza um filme sobre Catherine Weldon (Jessica Chastain), uma mulher, viúva, ainda jovem que, sendo pintora e influenciada por vários quadros que viu sobre o Oeste selvagem, resolve viajar para conhecer e pintar o célebre chefe índio da tribo Sioux, Sitting Bull. Estava-se em 1890 e uma mulher sozinha para aquela região da América era um procedimento impensável e até muito mal visto pela comunidade incrivelmente pudica e religiosa, além de que Touro Sentado era considerado o responsável pelo facto inédito de ter conseguido a união de várias tribos que infligiram aos americanos uma das maiores derrotas da sua história na célebre batalha de Litle Big Horn em que o 7ª de Cavalaria, comandado pelo Coronel Custer é completamente dizimado até ao último homem. Por outro lado, Sitting Bull estava a ser tomado como responsável, pelo movimento que se estava a verificar na comunidade índia a que chamavam A Dança dos Fantasmas.
Catherine passa tormentos, mas consegue chegar junto de Touro sentado, apesar da oposição do Coronel responsável pela tentativa “democrática” de implementar o tratado de loteamento de terras em que o governo reduzia a metade o território índio, prometendo, em compensação, a atribuição de terras a famílias que as quisessem cultivar (uma forma de dividir para reinar). A própria população branca da cidade é ostensivamente hostil a Catherine chegando inclusivamente à agressão física. Resistindo a tudo isto a nossa heroína consegue não só o célebre retrato, mas também acabar por se envolver no processo político levando Sitting Bull a não aceitar o tratado trazendo atrás de si toda a população índia. Ora isto é precisamente o que General, encarregado do processo do Tratado, quer para ter o pé de atacar a comunidade índia que é perseguida e massacrada em Wounded Knee, um dos capítulos mais vergonhosos da história americana.
Entretanto, Sitting Bull, sabendo que iria ser preso, tenta afastar Catherine que, por sua vez é atacada pelos militares da escolta, ficando inerte na neve sem sentidos.
Mas, o sobrinho do chefe índio, com uma carabina de longo alcance, fere de morte o seu tio livrando-o da ignomínia do cativeiro.
Claro que, à boa maneira americana, o filme não segue exactamente os factos históricos, não se coibindo até de mostrar, de forma algo velada, o interesse sentimental entre os dois protagonistas, ou não fosse a realização de uma mulher.
Catherine regressa a New York tornando-se uma defensora das minorias. Um dos quatro quadros de Sitting Bull pintados por Catherine Weldon encontra-se exposto na Sociedade Histórica do Dakota do Norte.
De qualquer modo, uma boa película que se vê com interesse e em que as paisagens, as gentes e as formas, nos são mostradas como autênticas pinturas, mas, infelizmente, com uma péssima banda sonora.
Numa das deambulações do Chefe índio e da pintora pelas sua terras, o índio faz-lhe notar que ela não deve ir à sua frente por uma mulher não se poder adiantar a um Chefe; ela pergunta-lhe: “Tenho de ir atrás?” ao que o índio responde: “Não, basta ir a meu lado. Atrás pareceria minha prisioneira”. Mais tarde chama-lhe “ Mulher que segue à frente”.
Não sendo uma obra prima, compensou o tempo de espectáculo.

sábado, 8 de setembro de 2018

O Infiltrado (BlacKKKlansman)


(Ontem fui ao cinema)

Spike Lee, realizador e produtor norte-americano, é um negro nascido em Atlanta, licenciado e mestre, que é conhecido pela defesa da integração total dos negros numa América, que foi e volta a ser, um dos bastiões da segregação racial.
Baseado na história de Ron Stallworth, um policial negro na cidade de Colorado Spring´s, que ajudado por um seu colega branco, se conseguem infiltrar na famigerada seita KuKluxKlan.
Não sendo nenhuma obra prima, o filme é apresentado de forma correcta, com algum humor, característica de Spyke, que o torna interessante de seguir sempre com interesse no final, mas com nuances humorísticas não exageradas que o amenizam.
O interessante é que Spike começa por nos apresentar algumas sequências de filmes antigos ( E tudo o Vento Levou) na célebre cena em que Scarlett O´Hara procura o médico, na estação de caminho ferro pejada de feridos e, O Nascimento de uma nação, de D. W. Griffith, mostrando-nos no final os acontecimentos em Charlottesville, Virginia, em 2017 e parte do discurso de Trump em que profere a célebre frase “ América first”, característica dos membros do Klan, numa alusão à relação da América de 1970 e a de hoje.
Filme interessante de seguir, em que mais uma vez, Spike sem medos, nos mostra um retrato preocupante da América, mas em que, ao mesmo tempo, saímos com um leve sorriso nos lábios por vermos que ainda há quem fale verdade.
Valeu a pena.

sábado, 11 de agosto de 2018

A Gaivota




Mais uma noite de cinema e mais uma vez escolhi o filme pelo site dos Medeia Filmes. Havia algumas opções, mas apenas este me chamou a atenção. Tchekhov foi um contista nascido no século 19, mas que estreou a maioria das suas peças teatrais no início do século passado. A Gaivota, estreada antes, em 1896 num teatro de S. Petseburgo não foi bem aceite pelo público. Mais tarde, uma outra encenação foi um êxito. Esta realização de Michael Mayer, limita-se a colocar a peça num modo cinematográfico num cenário real de uma família da alta burguesia russa do princípio do século passado. Um solar magnificente numa região linda com um lago magnífico.
Os actores são ingleses, todos excelentes. A história é um drama baseado em conflitos humanos em que mais uma vez sobressai o íntimo da natureza humana sempre inconstante e não realizada, em que os amores e desamores entram em conflito com o desejo, nem sempre conseguido de se afirmarem nas artes. No fim, uma série de indivíduos, todos frustrados, por não atingirem ser aquilo que desejavam, nem usufruir do amor total daqueles que elegeram para seus pares. Uma peça que mostra a vida naquilo que ela quase sempre é; a procura do conseguimento do inatingível.
Durante o Verão, na Rússia, uma família e seus amigos partilham um fim-de-semana no campo, passado numa propriedade junto a um lago. Sorin (Brian Dennehy) é o dono da casa, cuja irmã, a imperiosa, egocêntrica e narcisista Irina (Annette Bening, excelente papel), é uma lendária atriz dos palcos de Moscovo. 
Irina tem como amante Boris Trigorin (Corey Stoll), um autor de sucesso cujos afetos a atriz tem medo de perder. 
Konstantin (Billy Howle), filho de Irina, é um sonhador e aspirante a escritor, que quer criar um novo tipo de teatro, mas a cujas pretensões a­ mãe não dá muita importância.
Konstantin está apaixonado por Nina (Saoirse Ronan), uma jovem ingénua que sonha em ser atriz, e que face ao sucesso e charme de Trigorin acaba por rejeitar o homem mais novo. 
Por sua vez, Masha (Elisabeth Moss), a deprimida filha do caseiro da propriedade, está apaixonada por Konstantin, mas é rejeitado por ele e não se contenta com os afetos de um mestre escola chamado Medvedenko (Michael Zegen), cuja determinação em conquistar Masha nunca se deixa abalar.
Polina (Mare Winningham), a mãe de Masha e esposa de Shamrayev, anseia pelos afetos do carismático Doutor Dorn (Jon Tenney), mas este, apesar de dar atenção à mulher do caseiro, é dependente da sua ligação a Irina, com quem teve um caso há alguns anos. 
A narcisista Irina, não perde oportunidades de achincalhar o filho pelo seu insucesso como escritor e pianista. Este, tenta a todo o custo impressionar todos e, principalmente a mãe, tentando encenar uma das suas peças, mas esta, não liga ao que se passa à sua volta, interrompendo frequentemente as falas dos actores (o filho e Nina) o que leva Konstantine a interromper a sessão e fugir para o bosque. Todos o procuram, principalmente Nina e Masha. Konstantine, munido da sua espingarda de caça, alveja uma gaivota e deposita-a junto dos pés de Nina, dizendo que essa gaivota é ela vogando sem destino e direcção. Foge para a mansão e no seu quarto alveja-se, mas não conseguiu acabar com a vida ficando apenas com uma escoriação na cabeça. É nessa situação em que se verifica uma cena de carinho entre mãe e filho, mas que acaba em conflito, em que a mãe acusa Konstantine de nada valer e ser um frustrado enaltecendo-se a ela própria pelos êxitos obtidos em cena. Entretanto, o dono da casa vai piorando da sua saúde. Nina, desalentada, sente-se atraída pelo escritor Boris Trigorin, que se insinua junto da jovem.
Passam-se dois anos. Trigorin deixa Irina e junta-se a Nina da qual tem um filho, Masha cansada do desamor de Konstantine casa-se com o mestre escola do qual tem também um filho. Mas no íntimo de todos eles os seus amores primeiros perduram. Nina é abandonada por Boris que volta para Irina. Esta continua uma estrela e cada vez mais narcisista. O dono da casa, Sorin, sente-se cada vez pior e chama todos para a sua volta. Todos regressam ao solar e os amores antigos reacendem-se. Os conflitos continuam. O jovem Konstantite pede a Nina que fique com ele, mas esta, apesar de abandonada confessa o seu amor por Boris. Konstantine com a sua arma de caça, retira-se para o seu quarto e dispara-a na boca. Na sala, todos jogam loto. O médico Dorn, talvez o único mais assertivo no meio de tudo isto, diz que deve ter rebentado algo na sua mala, talvez o frasco do éter, e retira-se para ir ver. A mãe de Konstantine fica apreensiva.
Dorn volta e diz, foi isso mesmo que aconteceu e pede a Boris que vá com ele para o ajudar. Mas, Irina revela no seu semblante aquilo que pensa ter acontecido.

Excelente filme, com belíssimos diálogos. Valeu a noite.




quarta-feira, 8 de agosto de 2018

O Fogo (II)




A ignição de incêndios pode ser: de geração espontânea, por descuido ou por intenção criminosa. Julgo que esta última causa será responsável pela maioria dos que ocorrem em Portugal. Por descuido também acontecem alguns, e por geração espontânea muito poucos.
O incêndio florestal, principalmente em matas de pinheiros e eucaliptos, é muito difícil de travar e a orografia, geralmente, não facilita o seu combate. Ir para o meio do fogo com carros e mangueiras é suicídio. Os corta-fogos, por mais que existam, não travam o fogo quando este é empurrado a vento. Autoestradas são atravessadas, rios por mais largos que sejam, também.
Não acredito que a maioria dos incêndios seja obra de pirómanos psicopatas. Acho que nessa maioria há muitas intenções quer de especulação económica, quer políticas.
O incêndio de Monchique, veio provar que não é por falta de meios que se conseguem controlar.
1400 operacionais, 400 viaturas e 19 meios aéreos, não chegaram para o dominar. Acusar governos de inépcia, encontrar culpados, é muito a nossa cultura bacoca. Provar que este governo não aprendeu nada com Pedrógão, é uma solução. Solução essa que já estava preparada de há muito.
Será o governo dos USA responsável pelo incêndio da Califórnia? Crucificar o Tsipras pelo incêndio em Atenas será solução para futuros incêndios? Não me parece, mas o que se vê pela Comunicação Social, Facebook e quejandos é precisamente isso; criar culpados, provocar demissões, obter resultados políticos. Uma tristeza. Dá a ideia que só os governos existentes na ocasião, são culpados. Como tem havido sempre incêndios, todos os governos o serão.
Já se sabe que um incêndio destes é para deixar arder e tomar apenas conta dos perímetros para protecção de povoações, evacuando pessoas e animais das casas no interior, sempre que possível. Depois é tentar levar as chamas para áreas onde não provoquem vítimas.
Mas a melhor solução seria encontrar os pirómanos, quer os mentecaptos, quer os que com isso ganham uns quinhões. Depois ter-se-ia que conseguir sacar desses energúmenos, os nomes dos mandantes. Se isso fosse conseguível, seria de não olhar a atenuantes e penalizar brutalmente tais responsáveis.
Também seria bom regulamentar a nossa CS para que se desabituem de insinuar culpabilidades.
Mandem bombeiros tirar cursos de combater tecnicamente fogos. Dêem aviões à Força Aérea e cursos aos seus pilotos para enfrentarem fogos. Acabem com os contratos milionários com firmas de aluguer de meios aéreos. Já vimos que pouco resolvem, mas que usufruem muito.
Se tudo isto não resultar, deixem arder o país. Se este não presta pode ser que apareça outro mais civilizado.
Somos nós os culpados de lixo nas ruas, não as autarquias. Somos nós os culpados da degradação de edifícios, somos nós os culpados dos fogos. Há no nosso País uma grande falta: civilização e educação. Uma justiça eficaz também faria jeito.


terça-feira, 7 de agosto de 2018

Devaneios...


O regresso

Como será? Estará como recordo? O meu pensamento ainda está lá. Aqui é o meu meio. Aqui vivi, mas as recordações estão ténues. Recebem-me. Abraçam-me. Perguntam-me. Sinto-me apertado. Como eu quero e desejo corresponder. Mas algo mudou. Serei eu? Serão eles? Todos falam. Todos querem saber. Os meus ouvidos ressentem-se. A casa é a mesma. Mais pequena? Tudo me parecia maior antes. Chego à porta da frente. O mureto do terraço demasiado baixo confundiu-me. Caramba, só tinha saído há dois anos. Por que as coisas estão diferentes? Ou serei eu? Sinto o carinho dos que me recebem. Tento corresponder. A cabeça está lá. O pensamento também. Tanto que aconteceu. Tanto que já vivi em tão pouco tempo. Tão longe e tão perto. O mar imenso. A montanha. A praia branca de areia fina. As gentes. O carinho. O conforto. Porquê a mim? Mereço isto? Uma vida diferente. A saudade. O que se vai desvanecendo. A rotina.
O tempo corre, mas devagar. O azar acontece. Tenho de sair. Mudar de novo. Porquê? Haverá uma razão? Não creio. A vida é uma sucessão de factos. Nada a condiciona nada a altera. Apenas factos que se sucedem. Uns bons. Outros maus. Este foi mau. Teremos que o superar. Mas tudo nos muda, tudo nos altera. O conhecimento acumula-se. O saber é bom. O não saber tudo é mau. Não se pode saber tudo, mas pode-se procurar conhecer. Gosto do que vou conhecendo. Abomino o desconhecido. Mas o conhecido também muda. Ou seremos nós a mudar?
Aqui e agora sinto-me mudado. Esquecido? Será a minha mente que retém algo que existe aqui, que eu conheço, mas vejo de outro modo? Deixo-me levar. O amanhã fará de mim algo que eu já sou…

sábado, 21 de julho de 2018

As Arvéloas de Lisboa

Resultado de imagem para fotos de arvéloas

                                                                                                                                                               

        Descansem, pacientes leitores destas minhas lucubrações bloguistas, que não lhes vou falar das “arvéloas” que povoam diversos lugares de Lisboa e são procuradas pelos pobres e abandonados “machos” que deambulam á procura de “conforto” passageiro. Nada disso, vou mesmo tentar dizer algo sobre os elegantes e pequenos passarocos com esse nome.
A arvéloa, também conhecida por arvela ou lavandisca é um pequeno e esperto passarinho que, antigamente só se encontravam pelos campos. Lembro-me de, muito pequeno, quer no Cacém, onde vivia, quer na Malveira onde passava férias, armado de fisga pendurada no bolso dos calções sempre pronta a actuar tal um “cowboy” de arma à cintura, e montes de ratoeiras  (costelas ou costilos) à volta, acompanhado pelo filho mais novo do Sr. António capador, flagelo de porcos, porcas e outros bicharocos, que perdiam as faculdades reprodutoras ás suas mãos mas, continuando, lá andava eu pelos campos, caçando os incautos passarinhos e, uma das grandes artes, era caçar uma ou mais arvéloas, dado que eram consideradas os pássaros mais difíceis de se deixarem apanhar, quer pelas ratoeiras, de desconfiadas que eram, quer pelas fisgas, não se deixamdo aproximar ao ponto de poderem serem apontadas. Era necessária muita arte e manha para se conseguir e, se por acaso isso acontecia, era uma vitória tal, que durante dias, servia de tema para nos vangloriarmos de tal façanha. Nesse tempo, os rapazes costumavam dizer: “Quem apanha uma arvela é mais esperto do que ela”.
Pois bem, hoje aqui na cidade dei por uma arvéloa, no seu passo corrido com a sua cauda abanando para baixo e para cima, passeando tranquilamente no passeio empedrado, à minha frente tal qual um manso pombo ou um pardal citadino. Lembrando-me dos tempos de garoto, corri o olhar pelas redondezas á procura do seu par, dado que estes pássaros andam sempre aos casais. E, lá estava o companheiro, ou companheira  a uns bons metros de distância. Deram um peque voo, passando com àvontade em frente aos carros, indo pousar num grande relvado com algumas oliveiras. Já as tinha visto por aí nos jardins, só que num passeio a uns 50 ou 60 centímetros dos meus pés foi a primeira vez.
Actualmente, Lisboa apresenta uma fauna muito diversificada com imensos animais que no meio do bulício, se sentem mais protegidos aqui do que no campo por ninguém lhes dar caça. Até já aves não originárias do país, por cá deambulam tais como alguns psitacídeos que já chilreiam por todo o lado. Inclusivé, alguns falcões, como o vulgar peneireiro, fazem ninho nos alegretes das janelas nos vasos de flores.
E pronto, os pequenos Motacilídeos serviram hoje de tema a mais um “post” e avivaram recordações de infância feliz. Obrigado arvéloa citadina…
                                                           

sábado, 7 de julho de 2018

A Livraria (filme)



Escolhi o filme por um site de cinema. No meio de uma série de filmes, uns de acção (estou farto disso), outros de comédia (falta-me a paciência), outros tipo dramalhão de fazer chorar as pedras da calçada (já não há pachorra), acabei por me concentrar num argumento que me pareceu ser algo de sério e que me despertou interesse por ter algo a ver comigo, livros. A Livraria é um filme de mulheres que retracta mulheres. Mulheres que sabem o que querem da vida e lutam por isso. Infelizmente nem todos os quereres estão livres de invejas e de más intenções. É um filme relatado em ritmo lento e em ambiente sóbrio, algo tristonho, em que o clima carrega um pouco o ambiente, mas por outro lado descontrai pelo sossego.
O tema é baseado no livro do mesmo nome de autoria de uma escritora britânica Penelope Fitzgerald. A realização é de uma Catalã já consagrada, Isabel Coixet. A produção é alemã, reino unido e espanhola.
Uma mulher, ainda nova, mas viúva de guerra há dezasseis anos, Florence (Emily Mortimer, excelente papel), tem o sonho de abrir uma livraria numa casa velha de uma localidade meio perdida na costa britânica. Esta vontade, algo temerária, pois naquela terra pouco ou nada se lê, vai contundir com as pretensões da mulher rica lá da terra, casada com um general reformado, que se arma em, e acaba por ser, a figura máxima do burgo a quem todos prestam vassalagem. Uma atitude daquelas poderá colocar em causa a sua supremacia e, assim, move todas as suas influências para boicotar o empreendimento, contrapondo que aquela velha residência, desabitada há tantos anos, seria muito melhor aproveitada como um centro cultural e de artes. Esta atitude da detentora do poder, leva tudo e todos, incluindo o banqueiro que de início  apoia a iniciativa, contra a vontade de Florence em levar os habitantes ao hábito da leitura.
Florence, a nossa personagem central, alheia a tudo isso, continua com o seu ideal e, apoiada pelo único habitante que lê, um misantropo que nunca sai e vive numa velha casa, tipo castelo, consegue fazer prosperar o seu negócio e levar as pessoas a lerem e a comprarem livros, mostrando e provando que estes abrem as mentalidades e dão força e coragem aos leitores. Florence acaba por dar emprego em “part time” a uma rapariga adolescente, que mais tarde percebemos ser a relatora da história, a quem se começa a dedicar. Mas, a inveja dos poderosos é forte e Florence, lutadora com os seus ideais, mas incapaz de criar guerras e fazer frente a opositores, vê-se obrigada a abandonar o seu ideal, apesar da ajuda do seu apoiante, Edmund Brundish, por quem começa a sentir uma certa atracção. O final é esperado e surge sem sobressaltos tal como começa o filme…
O seu aliado, tenta lutar a seu favor, mas um estúpido enfarte faz parar a iniciativa. Florence renuncia à luta, mas a sua jovem seguidora, não tão adepta das boas vontades, dá uma inesperada finalidade ao problema.
O filme acaba como começou, em sossego e sem conflitos. O espectador habituado que está à violência e aos finais em que o bem vence o mal pela força, fica um pouco expectante, mas sereno e descansado.
De salientar as excelentes interpretações de Emily Mortimer no papel de Florence, Honor Kneafsey, a sua pequena ajudante¸ James Lance num papel algo caricato como adulador, mas efeminado e o sóbrio e “very british” Bill Nighy como Mr. Brundish. Patricia Clarkson dá-nos uma óptima opositora, irritante na sua soberba, mas sempre elegante na sua aparência.
Valeu a pena.