sexta-feira, 18 de dezembro de 2020

Goa: quase seis décadas depois

 

Hoje tomei a liberdade de postar aqui no meu blog uma carta publicada no Diário de Notícias, da autoria do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas, cidadão português originário de Goa.


"18 Dezembro 2020 — 10:24

Em finais de 1960, quando vivia em Goa, creio que nem o governo português nem eu imaginávamos que um ano depois, precisamente no dia 18 de Dezembro de 1961, Goa pudesse ser invadida, conquistada e anexada pela União Indiana, pois o intransigente Salazar acreditava que a Inglaterra e a NATO dissuadiriam Nehru de tomar essa iniciativa e este não gostaria de ver o seu nome manchado com prática de uma política belicista. Todavia, a realidade é por demais conhecida: após consumação do facto, uma montanha de gelo interpôs-se entre os dois países.

Com a revolução de 25 de Abril de 1974, Portugal, na pessoa do seu Ministro de Negócios Estrangeiros, Dr. Mário Soares, em 31 de Dezembro desse mesmo ano, aceitou de forma oficial a integração e reconheceu a situação de facto existente em Goa, sem conhecimento nem mandato dos goeses, e sem negociar e garantir um estatuto especial para Goa.

Todavia, no artigo IV do "Decreto n.º 206/75 do Tratado entre a Índia e Portugal Relativo ao Reconhecimento da Soberania da Índia sobre Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli e Assuntos Correlativos", consta:

Será concluído o mais brevemente possível um acordo cultural entre Portugal e a Índia. As Partes Contratantes acordam em tomar medidas para desenvolver contactos no campo cultural e, em particular, na promoção da língua e cultura portuguesas e na conservação de monumentos históricos e religiosos em Goa, Damão, Diu, Dadrá e Nagar Aveli.

Assim, mais uma vez, desde a conquista portuguesa daquela terra oriental, Portugal e Índia decidiram sobre Goa e jamais consentiram que os goeses deliberassem sobre o seu futuro.

Como escreveu o general António Ramalho Eanes, Presidente da República Portuguesa, "Outro destino merecia Goa, bem diferente do que sofreu"..."possuía ou podia criar todas as condições para decidir sobre o seu futuro e viver em paz e progresso"...faltou a Salazar o golpe de asa para fazer de Goa o Brasil do Oriente ("A injustiçada Goa", in Revisitar Goa, Damão e Diu, pp. 15-19).

Entretanto, lutando pelos seus direitos, no "The Goa Opinion Poll", - que na prática tratou-se de um referendo -, realizado em 16 de Janeiro de 1967, os goeses decidiram permanecer na União Indiana, votando contra a sua fusão no Estado de Maharastra; posteriormente, em 30 de Maio de 1987, conseguiram que Goa fosse declarado Estado autónomo; e em 20 de Agosto de 1992 o concani foi reconhecido como língua oficial.

Contudo, a negligência no cumprimento do artigo IV do Decreto n.º 206/75, designadamente, "na promoção da língua e cultura portuguesas", revelou-se por uma lenta agonia da utilização da língua portuguesa nos meios de comunicação social em Goa que até o resistente O Heraldo, primeiro diário de todo o Ultramar português, em 1983, deixou de publicar na língua de Camões.

Porém, Homem Cristo Prazeres da Costa, filho do falecido Amadeu Prazeres da Costa, antigo redactor principal e editor de O Heraldo, com apoio do actual editor Alexandre Moniz Barbosa e de Raúl Fernandes, dono e editor-chefe do mesmo jornal, a partir de 6 de Setembro de 2020, introduziram, nesse jornal, uma secção semanal em língua portuguesa, que tem vindo a ser publicada regularmente.

Sabemos que existe um plano de infra-estruturas para Goa, - com conversão de auto-estrada NH4A em quatro faixas, a duplicação da linha férrea, para acelerar o processo do transporte de carvão, e instalação da linha de transmissão eléctrica para facilitar esse transporte -, que ameaça a floresta e a vida selvagem da área protegida do santuário "Bhagwan Mahaveer" e Mollem National Park, e poderá provocar o corte de muitas dezenas de milhares de árvores.

Sabemos também que de 1 de Janeiro a 30 de Junho de 2021, Portugal vai assumir a presidência rotativa do Conselho da União Europeia, cujo lema será: «Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital».

António Costa, primeiro-ministro português, numa conferência realizada na Universidade Católica, em Lisboa, defendeu que "Portugal destacou-se sempre na Europa como uma plataforma de ligação à escala global" e afirmou que "em matéria de política externa, a jóia da coroa da presidência portuguesa será a realização da cimeira de todos os líderes europeus com o primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, em 08 de Maio, no Porto".

Em relação ao lema português, as palavras de António Guterres, secretário-geral da Organização das Nações Unidas, avalizam a justeza e o valor dos objectivos traçados, em contraposição com os da Índia, quando afirma que a Índia precisa de parar de construir infra-estruturas baseadas em carvão e focar-se na geração de energia renovável para ajudar na luta global contra as mudanças climáticas e tirar a sua população da pobreza. Acrescentando "Investir em combustíveis fósseis significa mais mortes, doenças e aumento dos custos de saúde". "Resumidamente, é um desastre humano e ruim para a economia".

Como português e goês, que prezo ser, gostaria de lembrar ao meu primeiro-ministro, Dr. António Costa, que Portugal deve honrar os seus compromissos, designadamente o artigo IV do Decreto n.º 206/75, e jamais esquecer que Goa foi a jóia da coroa portuguesa, terra que deu fama e glória a Portugal em todo o mundo.

Por isso, gostaria de lhe fazer dois pedidos:

Primeiro: - Como a língua é uma mais-valia universalmente reconhecida e o português é a sexta língua mais falada no mundo, - para benefício da Índia e Portugal, que propusesse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, a feitura de um acordo conjunto entre Portugal, Índia e Goa para a promoção e dinamização da língua e cultura portuguesa em Goa.

Segundo: - Como o lema da presidência portuguesa será: «Tempo de agir: por uma recuperação justa, verde e digital», - e o transporte de carvão importado para a Índia é também feito através do território de Goa, a partir do porto de Mormugão, com grave prejuízo para a saúde dos goeses -, que sensibilizasse e solicitasse ao primeiro-ministro da Índia, Narendra Modi, que seguisse o conselho do Dr. António Guterres e poupasse Goa mandando reavaliar o nefasto problema do transporte de carvão através do território goês, que tem provocado doenças respiratórias graves e protestos populares, havendo até quem escreva nos jornais, em Goa, dizendo que estamos perante um novo colonialismo.

Tomo a liberdade de lembrar ao Dr. António Costa, primeiro-ministro português, que, tendo Portugal uma dívida de gratidão para com Goa, não pode abandoná-la, permitindo que seja sujeita a uma política governamental perniciosa para a sua biodiversidade e saúde populacional."

Historiador


sexta-feira, 4 de dezembro de 2020

Carpe Diem

 Raramente posto aqui no meu blog algo que não seja meu. Hoje vou aqui transcrever um artigo do meu amigo Professor Doutor Valentino Viegas. Um português natural de Goa. Historiador, escritor e meu companheiro diário da piscina de Benfica. Aqui vai. Apreciem:


 Carpe Diem
A eternidade é ilusão que alimenta os seres humanos.
Ao invocar as recordações da meninice navego nas águas serenas da perenidade da vida.
Não me recordo a partir de quando é que ganhei consciência de não sermos eternos e comecei a enfrentar a realidade, segundo a qual, quem nasce, fatalmente morre, nem sei se a partir dessa tomada de consciência a minha atitude perante a vida sofreu alterações substanciais ou mudanças radicais.
Embora a finitude da existência humana seja uma verdade inquestionável, comporto-me como se a morte só dissesse respeito aos outros e continuo a planificar os meus passos como se o futuro não tivesse balizas temporais e pudesse ser gerido a meu bel-prazer.
Quando me questiono se tenho medo da morte, para ser sincero, não sei como responder. Claro que se um médico, da minha inteira confiança, me dissesse que teria no máximo um mês de vida, apanharia um grande susto. Todavia, creio que encararia a situação, por ele considerada irreversível, de uma forma racional, tentando recompor-me do choque e começando a definir prioridades.
A primeira seria como prolongar a vida de forma responsável, – não apenas com ausência da doença, mas sobretudo com bem-estar físico, mental e social -, porque acredito que possuímos forças internas suficientes capazes de fintar ou atrasar a morte desde que saibamos como recorrer e utilizá-las.
Durante o período da guerra, no teatro de operações em Angola, nos momentos mais difíceis, não me lembro de ter pensado na minha morte. Sabia que ela podia ocorrer a qualquer momento, mas por razões intuídas que não sei explicar, estava seguro de ser um assunto que não me dizia respeito.
Embora não seja adepto das redes sociais, no entanto, troco correspondência electrónica com amigos e conhecidos.
Desde que a Covid-19 invadiu o mundo, disseminou os seus malefícios e começou a fazer parte do nosso vocabulário quotidiano, tenho recebido mensagens dos meus correspondentes que me aconselham “carpe diem”, citando parte de uma das Odes do poeta latino Horácio “carpe diem quam minimum credula postero”, ou seja, aproveita o dia e confia o mínimo possível no amanhã.
Realmente existem pessoas que não se cansam de descobrir motivos para andarem preocupadas, tristes e angustiadas. Tudo lhes causa transtorno e provoca medos. No dia-a-dia vivem apavoradas por quererem movimentar-se e não conseguirem, porque transportam às costas uma volumosa mochila carregada de culpas e recriminações. Andam deprimidas por não poderem libertar-se dos traumas incriminatórios que os afligem. Acusam-se constantemente por terem tomado determinadas atitudes e decisões, em certo momento de vida, em vez de outras, como se pudessem mudar o passado e, a partir daí, reconstituir a vida rumando noutra direcção.
Essa situação torna-se ainda mais grave, quando vivem também ansiosas pois, além de transportarem a mochila às costas, carregam ainda um pesado saco, pendurado ao pescoço e colocado na dianteira do peito, onde atafulham planos futuros, com estabelecimento de metas complicadas e difíceis de serem cumpridas.
Apetece-me perguntar-lhes: acham que podem andar, ou dar o primeiro passo, sem se libertarem do pesado fardo da mochila e do saco pendurado ao pescoço?
Todavia, nas redes sociais, há respostas para todos os gostos e, como sou alvo preferencial de Covid-19, despacham-me com carpe diem.
Na verdade, com a minha provecta idade, depois de ter estudado em tantos livros, investigado em numerosos arquivos, discutido inúmeros assuntos, esclarecido algumas dúvidas, conhecido muitos países e meditado diversas vezes, inferi que, em termos de conhecimento e sabedoria, ando a subir o primeiro degrau de uma extensa escadaria em ziguezague cujo termo não consigo enxergar.
Como a experiência me foi revelando que o futuro, mesmo quando planificado, pode ser imprevisível, há muito cheguei à conclusão de que o melhor é desfrutar o dia-a-dia e tirar o melhor partido dos encantos da vida. Por isso, sorrio e procuro ser positivo, como me recomendam os entendidos.
Continuo na ilusão de que, enquanto lerem este ou outros textos meus ou se lembrarem de mim, hei-de permanecer vivo.
Porém, há quem seja mais sofisticado e se apegue ao conceito de transmigração, segundo o qual quando um indivíduo morre, morre apenas o seu corpo, mas o espírito liberta-se do corpo e transmigra, integrando-se num outro invólucro em função do valor das acções praticadas durante a sua existência, reiniciando assim um novo ciclo de vida. Outros ainda vivem esperançados que, depois da morte, a sua alma suba aos céus e viva em comunhão com Deus.
Enquanto vivo no meio desta pandemia com as minhas dúvidas e inquietações, resta-me participar na cultura de responsabilidade, individual e colectiva, contribuindo para impedir a disseminação de Covid-19 pois, como dizem as autoridades oficiais, “cuidar de si é cuidar de todos”.
Valentino Viegas
Lisboa, 2 de Novembro de 2020.
Luis Vicente

segunda-feira, 30 de novembro de 2020

Tomaz Alcaide

Hoje, ao ouvir Biemiamino Gigli, lembrei-me do nosso esquecido Tomaz Alcaide https://pt.wikipedia.org/wiki/Tom%C3%A1s_Alcaide

Um dos melhores intérpretes das óperas, principalmente de Geatano Donizetti. Parece impossível, mas um cantor como ele, foi completamente esquecido pelo público português. Conta-se que Gigli em Milão, teve uma constipação e a ópera Elixir do Amor de Donizetti, teria de ser interrompida. Alguém lembrou que havia um cantor português que interpretava muito bem as óperas deste autor. Foi chamado à pressa e substituiu de tal maneira o Gigli que, quando este melhorou, o público já não permitiu a troca e Tomaz Alcaide continuou. Tomaz Alcaide foi considerado o cantor que melhor interpretava as árias "Spirto Gentile" da ópera Favorita e "Una furtiva lágrima" do Elixir do Amor, ambas de Donizetti. Curiosamente Alcaide foi aluno do Colégio Militar e cursou medicina, abandonando depois para seguir canto em Itália. Cantou e foi apreciado em quase todo o mundo. Em Portugal foi mais conhecido pelas canções que interpretou no Cinema e no Teatro, como podem ler na Wikipédia. Tratámos sempre muito mal os nossos bons artistas. https://www.youtube.com/watch?v=7av7jSARpw8
Gosto
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domingo, 15 de novembro de 2020

A quinta do meu padrinho

 


Quando nascemos temos de ser registados. Nesse registo eram necessárias duas testemunhas. Não sei de onde veio o conhecimento, mas um dos meus padrinhos foi Joaquim Ribeiro de Carvalho https://pt.wikipedia.org/wiki/Joaquim_Ribeiro_de_Carvalho. Na quinta da Bela Vista passei muitos dias de brincadeira e assisti à feitura de vinho, matança de porco, etc. Lembro-me que não gostei nada da primeira matança a que assisti. O pobre bicho fez tal berraria quem me impressionou imenso. O meu padrinho morreu em 1942. Eu tinha ido para o Cacém em 1941 com apenas 4 anos. Conheci-o, portanto apenas um ano, mas tenho na memória a sua figura. Era um homem imponente, alto, já um pouco gordo. Usava óculos e andava sempre pela quinta dando ordens e verificando os afazeres dos empregados. Usava botins de cano, de atanado, com solas cardadas. Gostava de o ver, mas infundia, na minha mentalidade de criança, um misto de respeito e receio. Um dia, o seu motorista, com um carro enorme, americano, tipo Dodge ou coisa parecida, fez um curto recuo para arrumar o carro, não reparando que o meu padrinho estava atrás e tocou-lhe nas pernas desequilibrando-o. Homem pesado como era, caiu desamparado e bateu com a cabeça na estrutura do carro, naquele tempo em chapa muito forte. Chamaram-se os bombeiros pois a ferida na cabeça era um pouco grande e sangrava imenso. Foi operado no Hospital de São José a um traumatismo craniano com fractura. Veio para casa em recobro.  Lembro-me de estar ao pé dele, sentado na varanda ao sol, onde passava os dias lendo. Passados uns tempos, sentindo-se mal, voltou ao hospital tendo sido operado de novo. Nessa operação extraíram-lhe uma lasca óssea que tinha passado despercebida na primeira intervenção. Já não regressou e morreu pouco tempo depois. No Cacém houve grande consternação pela sua morte.

Continuei a visitar a quinta mas, já não com assiduidade. A quinta era grande e havia zonas da mesma que nós, os rapazes da zona, frequentávamos saltando os muros e fazendo as nossas explorações. Foi num desses “assaltos” que descobri uma enorme gruta onde se encontrava uma cama já meio desfeita, uma mesa e alguns utensílios de cozinha. Viam-se também alguns livros meio desfeitos e manchados pela humidade. Mais tarde vim a saber que era um refúgio onde o meu padrinho se escondia da polícia política, a famigerada PIDE. Como podem ver no artigo da Wikipédia, Ribeiro de Carvalho foi um defensor da 1ª República e obviamente um elemento contra ao Estado Novo. O jornal República foi muitas vezes censurado e o meu padrinho procurado pela PIDE. Os seus companheiros de luta contra Salazar, Araújo e Sá e o Dr. Ramon de La Feria, passaram alguns anos na prisão, mas Ribeiro de Carvalho nunca era encontrado por se esconder na tal gruta que não era fácil de descobrir. Nunca soube se o meu Pai foi ou não incomodado por essa amizade. No Cacém, a quinta da Bela Vista, foi sempre apelidada por Quinta Ribeiro De Carvalho e a minha rua também tinha o seu nome. O seu filho, Rui Ribeiro de Carvalho, não residindo lá, manteve a quinta durante muitos anos. Foi nessa quinta que comecei a treinar os meus tiros às rolas, pois ali era um ponto de passagem. O filho mais velho do motorista, cuja família continuou a morar numa das residências, era um grande caçador e deu-me algumas lições de como atirar. Dei cabo de muitos cartuchos ao meu Pai. Desde que a minha mãe e irmã morreram, que deixei de ir ao Cacém, mas quando por lá passava, junto aos muros de bonitos azulejos portugueses, lembrava sempre a figura de Ribeiro de Carvalho, na sua imponência, com as calças metidas para dentro dos botins, a comandar as operações. Os seus amigos diziam que o homem tinha sido assassinado por propositadamente lhe terem lá deixado a esquírola óssea. Claro que não acredito que médicos tivessem entrado nessa. Ribeiro de Carvalho foi uma figura que me marcou, mais pelo que vim a saber do que pelo pouco que conheci dado a idade que tinha. Hoje, ao fazer umas pesquisas na NET reencontrei-o.

segunda-feira, 2 de novembro de 2020

O COVID

 


Pois. Esse bicho ranhoso e peganhoso, com cara de extraterrestre com cornetas nos cornos, esse miasma peçonhento que mata que se farta, principalmente velhos. E continuo a dizer, pois! Se me apanha lá vou para o bé-lé-léu, mais a mais com a pneumonia que tive vai para 13 anos. Estávamos em 2007, era o último dia de caça e tínhamos marcado a reunião de prestação de contas e eu era o tesoureiro. Estava constipado, a mulher idem e a sogra também. Claro que não deixei de ir mesmo com uma tosse de cão e a espirrar de 5 em 5 minutos. Esta mania do espírito de missão. Cacei a manhã toda, estava uma ventania do caraças. Após almoço fizemos a nossa reunião e eu apresentei contas. Tínhamos uma máquina de lançar pratos e alguém sugeriu que fizéssemos um torneio. Com tossidela daqui e espirro dali ainda ganhei o torneio a 15 pratos. Fui o único a partir 10. No fim do torneio a tosse era cavernosa. No dia seguinte tive de mandar a minha sogra para o hospital e eu fui à consulta urgente. Mandaram-me para casa com montes de comprimidos e xaropes. Entretanto a minha Sogra faleceu. No dia do velório uma médica amiga ao ver a minha tosse diz-me que me quer ver no dia seguinte no Pulido Valente onde prestava serviço. Já não saí de lá. Foram 10 dias para me restabelecer. Nem fui ao funeral. E agora? Se este Covid me pega…

Pois. Lá estou eu com o pois. Pois é. Houve uma suspeita de contágio e eu “corro” para o hospital. A mulher dá positivo e eu negativo. Grande caca. Divido a casa ao meio, vou dormir para o maple… pois sim, no dia seguinte começo com febre e no outro dia volto ao hospital. Ora toma; Positivo. E agora? Benuron, Brufene e nada mais. Digo-vos: Tive constipações mais chatas. Ao fim de 10 dias não tinha sintomas, ao fim de 14 estava com alta. Isto é que era o Covid? Afinal mata velhos, mas não todos. Estou convencido que só indivíduos diminuídos fisicamente ou com outras doenças, são apanhados pela foice covídica.

Ouvindo as notícias parece que 96% dos “agarrados” são tratados em casa apenas pelo tempo. Dos outros 4% que são hospitalizados só 0,5% vai para os cuidados intensivos.

E pronto, lá mandámos o Covid ás couves e o gajo nem quis saber se eu já tinha sido ou não um pneumónico. A grande chatice é que isto é altamente contagiante e o pessoal tem que entrar em confinamento e não trabalha, o que pode fazer parar um país. Agora vou sossegadamente esperar por uma vacina e, se vier o tal remédio do Trampas, vamos todos tomá-lo que o rapaz precisa de reactivar a economia. Cuidem-se.

sábado, 10 de outubro de 2020


Pã, sentado na rocha, olhava as suas patas de bode. De que lhe servia ser um deus se toda a gente fugia dele em “pânico”. Ele que adorava os bosques e os animais. Como ele gostava de disfrutar de uma boa sesta após a refeição. Todas as tardes dormia refastelado e ai de quem o acordasse. Aí é que ele ficava furioso. Muito mais tarde um tipo aproveitou-se disso e até fez uma “musiquinha” sobre o assunto. Parece que se chamava Debussy (1). Mas Pã culpava o seu pai, que ele não sabia bem quem era. Uns diziam ser filho de Zeus e de uma cabra, outros que seria filho de Hermes. Parece impossível, filho de uma cabra. Mais tarde seria crime de zoofilia. Pobre da cabra Amalteia, ser vítima daquele sátiro. Bem, isso ele perdoava porque também era assim, não podia ver fêmea que logo o seu falo se erguia com fúria. Mas a sua preferida foi a náiade (ninfa dos rios) Sínrinx. Pena que se tivesse amedrontado e, para lhe fugir, se tenha transformado em caniços aquáticos. Não a teve, mas dos seus caniços construiu uma flauta com bocados de tamanhos vários. Chamou-lhe siringe. Mais tarde chamaram-lhe flauta de Pã. O seu som era tão mavioso que encantava todos os habitantes dos bosques. Uma das suas apaixonadas foi Selene. Tão redondinha., tão luminosa. Poderiam ter tido muitos selenitas juntos, mas Pã não era deus para se prender. O seu aspecto animalesco afastava os curiosos e assustava os habitantes dos bosques e os humanos, mais tarde, mudaram-lhe o nome. Os romanos chamaram-lhe Silvano e Fauno. Devido à sua figura, os cristãos, associaram-no ao Diabo. Andou pelos bosques ajudando agricultores e caçadores. Acabou castigado pelos deuses e colocado no universo como constelação, Capricórnio, ficando a fazer parte dos signos de Zodíaco

 

 

(1)    - https://www.youtube.com/watch?v=Y9iDOt2WbjY

 

Todas as coisas maravilhosas

Fui ver o Ivo Canelas ao estúdio da Praça da Ribeira num monólogo com o nome supra. Bem, não se poderá chamar um monólogo dado que o actor põe o público a interferir. Distribui uns papeis com um número e uma frase e pede para que quando disser esse número o espectador diga a frase em voz bem audível, o que em alguns não foi o caso. Também, durante a sua actuação, chama uns espectadores que terão de desempenhar pequenos papeis. A peça é da autoria de um dramaturgo inglês chamado Duncan McMillan, mas notam-se pequenas adaptações. O tema é um pouco mórbido/depressivo, mas o rapaz compensa com alguma vivacidade e muito movimento, amenizando bastante a coisa.
Um rapaz começa, aos sete anos, uma lista de várias coisas que considera serem as mais maravilhosas. Essa lista destina-se a sua mãe depressiva com tendências suicidas. Ele tenta chegar a um milhão de coisas para preencher a lista. Entretanto, vai contando episódios da sua vida em que descreve um pai pouco presente e alheado, mas ele tenta não pensar que esse afastamento sentimental seja culpado do problema da mãe. Entretanto, o actor, vai dizendo os números e os espectadores vão dizendo as frases anteriormente entregues. Apesar do esforço do rapaz, que, entretanto, se casa, mas que, com a sua preocupação em tentar fazer com que a mãe encontre na vida algo a que se agarrar, acaba por não ser nem fazer a companheira feliz. A lista é entregue à mãe e ao pai, mas a dúvida que sequer tenha sido lida permanece, e acaba por não produzir o efeito desejado. A mãe põe termo à vida. Um pouco deprimente, mas o actor vai bem e torna a peça bastante mais leve do que o tema levaria a crer.
O estúdio é grande com cadeiras à volta em rectângulo, a duas filas e com espaço entre elas. Bastantes medidas de desinfecção e o próprio actor, a meio, vai desinfectando locais, materiais e bancos usados durante a representação.
Não é nenhuma obra-prima, mas vê-se com agrado e mereceu grande ovação final. De notar que alguns espectadores chamados a intervir se portaram bastante bem contribuindo para tornar a representação mais “soft”.
Ivo Canelas, antes do início, e enquanto distribui as frases, espalha simpatia e dirige a todos palavras que agradam.
Quanto a mim ficou a sensação de que poderia ser um pouco mais curto, mas…
Valeu a pena.