sábado, 12 de maio de 2018

Uma tarte de cascas de batata.



Ao lerem este título, os meus amigos leitores destes pobres artigos aqui do meu blog e que não sejam muito cinéfilos, devem dizer: “Este tipo pirou de vez”.
Normalmente, quando me apetece ir ao cinema, não perco muito tempo com a escolha do filme a ver. Vou a Net, ligo para o “site” do Corte Inglês (fica-me relativamente perto, tem 15 salas e não pago parque), leio as sinopses e vejo os “traillers”. Esta 6ª feira 11 de Maio, ao fazê-lo, deparei-me com um título a que achei uma certa graça. Guernsey – Sociedade Literária da Tarte de Cascas de Batata”. Curioso, fui ler a sinopse e pareceu-me que o argumento teria algo de interessante. Os outros filmes ou já os tinha visto, ou não me disseram nada de especial. Fomos, pois, eu e a mulher, ver o filme em questão e, digo-vos que não me arrependi por várias razões:  
  
1. É cinematografia inglesa.
2.  É sobre livros.
3.  É sobre relações humanas.
4. É sobre sentimentos.

Não sendo nenhuma obra de arte ou um filme excepcional, deixa no espectador a ideia de que vale a pena ajudar pessoas a ultrapassarem sentimentos reprimidos, exorcizando os seus fantasmas através da doação total daquilo que têm de melhor, amor e compreensão.
Começa por eu nem sequer saber da existência de uma ilha britânica, na mancha, junto à costa de França e que esse território tinha sido ocupado pelo exército alemão durante a 2ª guerra mundial. Mas vamos ao resumo da história:
No pós-guerra em Londres (1946) uma escritora/jornalista, Juliet Ashton, não muito famosa, mas que acabara de ter algum sucesso com o seu primeiro livro, recebe uma carta de um agricultor de Guernsey, chamado Dawsey Adams, na qual lhe revela que tem um livro que lhe pertence ou outrora lhe pertenceu por conter uma dedicatória que lhe é dirigida pelo autor. Curiosa, inicia uma série de correspondência com Dawsey e com várias pessoas da ilha que lhe revelam fazerem parte de uma sociedade literária, que no fim é um grupo que se reúne a miúde para lerem livros em conjunto. O nome nasce devido a um episódio passado durante a ocupação ao serem apanhados em incumprimento da hora de recolher, por terem estado reunidos a comer um porco assado que sonegaram à rapacidade das tropas alemãs, acabam por justificar que estavam apenas a ler numa sociedade. Tendo-lhes sido perguntado que sociedade era essa, um dos intervenientes, que tinha feito e levado uma tarte de apenas com cascas de batata (pouco mais havia para comer), mostra-a e tenta dá-la a provar aos militares. Estes recusam e acabam por deixar seguir o grupo. Pelos vários depoimentos que vai obtendo, Juliet começa a interessar-se e a pensar que aquela história poderia muito bem ser o argumento do seu próximo livro. De tal maneira se deixa envolver pelo assunto que resolve visitar aquela ilha deixando para trás os seus anteriores planos com muita pena do seu editor e do seu riquíssimo namorado americano.
Na sua permanência na ilha desenvolve uma relação de amizade com toda a comunidade, principalmente com os membros da Sociedade Literária da Tarte de Cascas de Batata. Mas dentro dessa sociedade há fantasmas nas mentes de alguns por casos passados durante a ocupação, que as pessoas há muito escondem, mas que a pouco e pouco vão revelando.
Tudo o que Juliet ali vive, entra de tal modo na sua vontade de ajuda que a leva a constituir laços de grande amizade com todos os intervenientes e até de amor que a pouco e pouco começa a sentir por Dawsey, mas ao qual tenta não ligar em demasia. Mas tudo isso vai modificar a sua vida. Na ilha conhece pessoas boas, pessoas más, alguma inveja e também traição. E mais não digo para não tirar o interesse a quem queira ver o filme. Digo-vos que dei por bem empregue o tempo que levei a vê-lo.
O elenco não é muito conhecido, dado a nossa grande tendência para os filmes americanos, mas todos excelentes actores, principalmente a protagonista, Lily James, que nos transmite uma simplicidade de carácter com uma profusão dos mais belos sentimentos. A realização é de Mike Newell que já nos tinha dado filmes como “Quatro Casamentos e Um Funeral", "Harry Potter e o Cálice de Fogo", "O Amor em Tempos de Cólera", "Grandes Esperanças", etc.
Vão ao cinema ou aproveitem-no mesmo em TV quando aparecer. Vão gostar.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Escrito a pedido



Uma das coisas que mais me custa é escrever a pedido. Normalmente escrevo quando me dá na gana e sobre os mais diversos assuntos que me surgem de repente. Dizerem-me assim: “Escreve qualquer coisa”, dá sempre asneira, fico embutido, penso em montes de assuntos e nada sai. Hoje é um desses dias. Apesar de ser 25 de Abril, assunto que daria pano para mangas, mas não consigo colocar no word quaisquer palavras que dignifiquem o dia. Mas pediram-me, e quem me pediu merece algo. Há um local perdido no mundo, lá nos confins dos mares, que me é querido e também a quem me pede algo escrito hoje. Sobre Timor já quase esgotei a minha lembrança e imaginação, mas aquela terra enraizava-se de tal forma em nós, que há sempre uma imagem, lembrança ou recordação que talvez ainda não tenhamos passado ao papel. Tinha 22 anos quando aportei naquela ilha. Ao olhar do navio que ali me levara, apenas uma linha era visível e não conseguia ver o casario. Claro que a minha imaginação me fez vir à memória cenas das aventuras lidas, como as do capitão Morgan ou do corsário Sandokan, e já me via a desembarcar no meio de povos indígenas que me olhariam com espanto. Ao aproximar-me mais, lá consegui vislumbrar um farol com algumas casas de volta e também muitas construções que me pareceram mais palhotas do que casas de habitação. Da escada do portaló tive de saltar para uma embarcação pequena que me deixou num tabuleiro mal-amanhado construído em cima de bidons. Desse tabuleiro seguia uma ponte também suportada por bidons que se prolongava por terra. Fardado de branco e com espada, aprontado para a cerimónia de apresentação no Quartel General, não era propriamente o melhor atavio para aquele equilíbrio instável. E o insólito aconteceu. Os meus, impecavelmente limpos com alvaiade, sapatos brancos, de sola ainda quase por estrear, escorregaram nos limos da ponte e estatelei-me ficando com a celestial farda manchada de verde no fundo das calças. Não sou nada supersticioso, mas talvez tenha sido premonição para o acidente que quase 6 meses depois me partiu uma perna. Na apresentação, lá tive que me desculpar pela sujidade, mas o Comandante Militar limitou-se a sorrir dizendo-me que já havia um projecto para iniciar a construção de um porto acostável. Esse porto iniciou a sua construção estava eu a terminar a minha comissão e de regresso à Metrópole.
Não começou bem a minha estadia em Timor, mas digo-vos que, apesar do tal acidente que me partiu a perna, foi o local onde mais gostei de ter estado e mais recordações me deixou. Clima tropical, vegetação exótica, paisagens de montanha, praias lindas e excelentes, fauna variada e paisagens submarinas admiráveis. Mas foram as gentes de Timor que mais me tocaram, apesar de ter chegado numa época em que uma pequena sublevação ia estragando o ambiente. Passada que foi essa situação, felizmente resolvida sem grandes traumas, a paz voltou àquela ilha paradisíaca e tudo voltou ao normal. Entre a população civil fiz grandes amizades e tive também amor. Ao recordar tudo isto parece que os 40 anos passados, foram ontem.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Quem é Jesus?


— Ó mãe, quem é Jesus?
— Jesus, meu filho, é o filho de Deus.
— Ó mãe, e quem era a mãe de Jesus?
— A mãe de Jesus era a Virgem Maria.
— Então essa Virgem Maria era a mulher de Deus.
— Não meu filho. Deus não tinha mulher. A virgem Maria era a Mulher de José que era carpinteiro.
— Ah! Era divorciada.
— Onde fostes buscar essa, claro que não era.
— Então teve um filho de Deus, era casada com José e não era divorciada? Coisa esquisita. Aqui a nossa vizinha também teve um filho que não era do marido e lixou-se. Levou uma carga de porrada e foi expulsa de casa.
— Ó filho, tu um dia vais compreender isso. Deus é todo poderoso. Tem o dom de poder fazer um filho na mulher que lhe apetecer.
— Ah! O Pai no outro dia também disse à vizinha que gostava de ser o pai do filho dela.
— O teu pai disse isso? Já vai ver com quantos paus se faz uma canoa.
— Para que precisa o pai de uma canoa? Ouvi dizer que os filhos se faziam na cama, não é verdade?
— Olha! Estas conversas não são para ti. Um dia vais compreender.
— Ó mãe, porque não compreender já? Ficavam as coisas já esclarecidas.
— Tens razão rapaz. Pergunta que a mãe explica.
— Bem! Já sei que Deus fez um filho á virgem Maria. Ó mãe o que é virgem?
— Olha lá! Lá na escola ainda não te ensinaram o que é uma floresta virgem?
— Já. É uma floresta onde o homem nunca entrou.
— Pois é. Bem explicado. Com as mulheres é a mesma coisa.
— Ah. Então foi por isso que a Marina aqui do lado levou uma carga de porrada do pai. Parece que era virgem e deixou de ser. E eu até sei quem foi que lá deve ter entrado. Foi aquele tipo que é mecânico na oficina aqui atrás.
— As coisas que tu sabes. E depois, houve algum azar?
— Parece que sim. Acho que vai ter um bebé. Ó mãe o Francisco é Deus?
— Que disparate filho. O Francisco é um homem.
— Ó mãe e deus não é homem?
— Ai rapaz, dás.me cabo da cabeça. Claro que Deus é Deus e não é homem. Está acima dos homens.
— Então o Francisco não percebe nada disso. Deus fez um filho à Maria que continuou virgem, o Francisco fez um filho à vizinha e ela não continuou. Ouvi a mãe a gritar: “Perdeste a virgindade filha. E agora o que vai ser de ti?”
— Ó mãe?
— Diz filho.
— O José bateu na Maria?
— Claro que não. O José era santo.
— Santo? Acho que era santo e parvo. Faziam filhos na mulher dele e ele não se importava. Acho que era parvo ou muito distraído.
— Ó filho. Vê se compreendes. Deus mandou a virgem conceber um filho que no fim era ele mesmo para poder vir à terra comunicar o que ele queria que fosse ensinado.
— Porque não veio ele próprio?
— Ai filho, caramba! Deus é espírito e espíritos não andam por aí a falar com as pessoas.
— Mas a minha professora de catequese disse que Deus falou com Abraão e com Moisés. Se falava com uns porque não com todos?
— Ai rapaz, dás-me cabo da cabeça. Isso foi muito tempo atrás. Parece que Deus achou que devia ser um homem a falar com os outros homens.
— Afinal Jesus era homem ou Deus?
— Era Deus feito homem.
— Que confusão. E afinal ouviram-no ou não?
— Uns ouviram-no outros não. Até houve os que não acreditaram nele e mataram-no. Mas ele deixou-se matar para nos salvar.
— Não percebo. Como nos salvará depois de morto?
— Ó filho. Acho que vai interceder lá em cima pelas nossas almas se formos bons.
— Ó mãe. Temos de ser bons para que Jesus tome conta das nossas almas?
— Claro filho. Se formos maus vamos para o Inferno e lá está o Diabo para nos supliciar.
— Então o Diabo é mau e Jesus não o leva para ao pé dele.
— Pois é filho. Bons para ao pé dos bons e maus para ao pé dos maus.
— Ó mãe, podiam fazer isso para que ficassem metade bons e outra metade maus, até podia ser que os bons tornassem os maus menos maus e quando todos estivessem bons já Jesus tomava conta de todos.
— Olha filho. Não sei que dizer-te. Tens alguma razão. Naturalmente até será assim.
— Só não percebo porque é que Jesus sendo Deus ou filho dele, ou lá o que era, tenha tido de morrer para nos salvar. Sendo Deus podia ter feito tudo isso enquanto era vivo.
— Mãe. Quando o pai chegar vou fazer-lhe as mesmas perguntas a ver se ele me explica melhor.
— Quem lhe vai pedir explicações vou ser eu. Sempre quero ver o que me vai dizer sobre o querer fazer filhos à vizinha.
— Olha mãe. Se o pai conseguir é porque é Deus.






domingo, 11 de março de 2018

Num quarto de hospital


O Homem estava em fase terminal. Os médicos já não acreditavam na sua recuperação. Estava para ali já colocado num quarto, ao lado de outro que, com o mesmo, só esperava o fim. Revia toda a sua vida e pensava que tudo tinha sido estranho. Passara o tempo a pensar na mulher e nos filhos. De casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem tempo para a diversão, e mesmo que o tivesse tido, os proventos não lhe dariam azo a isso. Tanto que almejara, tanto que queria ter feito e dado aos outros e nada tinha conseguido. E agora aquela maldita doença que o apanhara. O cancro é muitas vezes curável, mas outras não. O dele tinha sido galopante e não lhe dera tempo para nada. Hospitais, consultas e tratamentos, tinham-no feito andar numa fona e afinal para quê. Também, afinal, para quê mesmo? A família ficaria bem melhor sem ele. Neste momento já era um encargo e bem pesado. Poderia ser até que a mulher ainda conseguisse encontrar alguém. E que esse alguém lhe pudesse dar a vida que merecera e bem melhor mereceria agora. Tanto pediram a Deus, nas suas orações e durante as missas dominicais, para terem saúde, algum conforto, harmonia e saúde e afinal… Mas Deus continuava no seu pensamento. Fechava os olhos e via Deus. Não era bem uma pessoa, talvez uma forma em nuvem esbatida e esfumada, que de vez enquanto se transformava na figura de Jesus Cristo, seu Filho. Eram os dois Deus e a Sua vontade seria sempre única, fosse tomada por um ao outro. Rezava baixo, sempre na esperança de ser atendido. E porque não? Fora bom homem, bom marido, bom pai, bom empregado. Porque não ser atendido por um Deus a quem sempre se dirigira nas horas más e a quem agradecera nas horas boas. O seu companheiro de quarto agonizava. Os ruídos que lhe saíam da garganta já anunciavam a morte. Faleceu dois depois.
O médico vinha vê-lo todas as manhãs. Chegava, cumprimentava-o perguntando: “Como vai isso?” Como se ele não soubesse. Nessa manhã demorou mais um pouco. Chamou a enfermeira e fez-lhe algumas perguntas em voz baixa. Ao sair disse-lhe:
— Senhor António, tenho boas notícias. Surpreendentemente, os últimos tratamentos produziram algum efeito. Há uma esperança. Amanhã vamos continuar. Tenha fé.
Sorriu-lhe. Fé tinha ele, mas esperança muito pouca. Pelo sim pelo não virou os olhos ao céu e agradeceu ao seu Deus. Três semanas depois estava com alta. Regressou a casa e foi recebido com júbilo. Tinha de voltar ao hospital para controlo e exames de confirmação. Num desses dias, passou pela maior enfermaria da ala oncológica. Muitos dos doentes eram praticamente cadáveres vivos. Enquanto esperava para entrar no gabinete médico, junto ao balcão das enfermeiras, ouviu uma a dizer para a outra que; “hoje já foi o segundo. Com dois que foram ontem já foram quatro para a morgue”. O nosso homem começou naquele momento a tomar consciência de uma realidade. Não fora só o seu companheiro de quarto. Todos os dias morriam muitos doentes com a mesma doença. Ele fora um abençoado. Nesse momento perguntou: “Porquê ele? Porque não aqueles todos também? Não teriam Deus? Seriam ateus? Seriam assim tão pecadores? Porque Deus não lhes perdoara? Será que ele era mais merecedor?
Então aí ele viu o porquê. Não era ele o merecedor. Eram os outros. Deus gostava mais deles e por isso levou-os para ao pé de Si. Afinal eles é que estavam destinados à companhia divina. Ele não era merecedor, por isso teria de continuar a mourejar. E aí ficou triste. Podia estar agora junto do seu Deus e ele não o quisera. Porquê se tão bem sempre se tinha portado? Não merecia isto…
À saída foi atropelado por um autocarro.



sexta-feira, 23 de fevereiro de 2018

Popol Vuh


Tenho um parente, homem culto e viajado, que sempre que se lhe apresenta algo sobre deuses e religiões, se lembra de mim. Há pouco tempo, viajando pelas regiões dos Maias, deparou-se-lhe algo chamado “Popol Vuh” que, em dialecto “quiché”, originário da região dos Maias, parte da Guatemala e Sudeste do México, significa “Livro da comunidade”, que tinha como base a concepção e a criação do mundo. Este documento foi traduzido para o castelhano pelo frei Francisco Ximénez em 1701. Acho que foi ditado em língua “quíchua” e escrito depois em castelhano. Encontra-se hoje em Chicago, na Biblioteca Newberry.
Esta tradução, feita por cristãos, acabou por puxar a brasa à "nossa" sardinha e ficou totalmente adulterada na sua concepção original.
Consultada a Whikipédia verifica-se que o Popul Vuh definia 4 idades do mundo:
1ª idade:
No início havia calma, silêncio e imobilidade.
Os deuses decidem, juntos, criar o homem. Antes disso, criaram as árvores, a vida e os animais. Os últimos, apesar de terem sido dotados de voz, não foram capazes de invocar os deuses, e por isso foram punidos, que passariam a ter suas carnes servidas de alimento.
Foi criado então, do barro, o homem, mas estes se desmanchavam facilmente e eram incapazes de louvar os deuses, que em consequência destruíram-nos.
2ª idade:
Os deuses consultaram os adivinhos Ixpiyacoc e Ixmucané para criar um homem que pudesse invocá-los, e a indicação obtida foi fazê-los de madeira. Os homens de madeira povoaram a terra, mas não possuíam sequer alma ou entendimento e, portanto, não podiam invocar seus criadores. Foram destruídos com um dilúvio, e os sobreviventes tornaram-se macacos.
3ª idade:
Epopeia dos Gêmeos. Os Gêmeos tornam-se o Sol e a Lua.

4ª idade:
Criação dos homens de milho, que se tornaram a actual humanidade.
Estes possuíam percepção do mundo e invocaram seus criadores que lhes concederam limites mortais para que não ameaçassem a soberania dos deuses.
Os deuses focados no Popul Vuh eram:
Quetzalcoatl ou Gucumatz. Deus central e criador
e:
Ixpiyacol e Ixmucané, como adivinhos e guias espirituais.  Mas havia mais,  que para o efeito não interessam.

O interessante de tudo isto é que o, já referido, Frei Francisco Ximénez, ao traduzir o texto tratou de o adaptar à religião Cristã ao ponto de referir que as almas após a morte se dividiam em duas indo metade para o seio de Cristo (Deus) e a outra metade para o deus Maia (Quetzalcoatl).
Claro que um ateu como eu não pode deixar de rir a bandeiras despregadas por ver que os homens, quando se trata de religiões, tentam levar os outros a admitir que as deles são também boas, mas não totalmente porque a “nossa” a “verdadeira” é melhor. Vejam o ridículo de tudo isto.
Mais uma vez fica provado que os homens criaram os deuses (todos) à sua imagem e semelhança.

Agradeço ao meu primo, por afinidade, a oportunidade que me deu para mais este escrito. Viaja António, que a minha “cultura” agradece.

sábado, 17 de fevereiro de 2018

A Forma da Água



Fui ver “A Forma da Água”, filme do mexicano Guillermo del Toro. Ia preparado para ver um filme tipo “O Monstro da Lagoa Azul” que nos anos 60 era uma boa pastelada, mas felizmente que me enganei. Del Toro mostra uma história fantástica do amor de uma rapariga muda por uma criatura de ficção, meio salamandra meio homem, que também se enamora dela. Realmente, isto visto assim, até daria para rir, mas o que nos é mostrado é uma América soturna, durante a guerra fria, preocupada com a espionagem soviética. Ao mesmo tempo o filme põe em evidência a solidão. Solidão de uma rapariga muda sem companheiro, que vive com um artista plástico bastante mais velho, também ele solitário, preocupado com a sua homossexualidade latente. Solidão de um animal estranho, retirado à força do seu habitat natural para poder ser aproveitado para fins científicos, principalmente bélicos. Solidão do chefe de segurança de toda a operação, um tipo mau e cruel, que tendo uma família normal com filhos e uma mulher linda, vive obcecado pela sua função a ponto de esquecer a família e optar por uma violência sem limites para atingir os seus fins. Solidão do cientista que estuda o animal, espião soviético infiltrado, mas que acaba por trair o seu país de origem pela vontade de continuar na América, país que não sendo o dele, lhe dá a possibilidade de continuar a aprender. Solidão dos espiões soviéticos, que não podendo utilizar o ser aquático em prol do seu país o querem destruir só para que os Americanos também fiquem privados da possibilidade de tirarem dali qualquer proveito. Del Toro cria propositadamente um ambiente feio e frio em todos os cenários, quer nos laboratórios secretos, quer nas residências dos intervenientes. Para contrastar aparece o amor e a imaginação da protagonista, acompanhada por uma música de fundo, quase toda ela de canções da época. Refiro particularmente uma das canções, “Babalu” interpretada por Caterina Valente e seu irmão Sílvio Francesco, que me fez regressar aos meus tempos de juventude quando apaixonado por Caterina, comprava todos os seus discos e, perguntei a mim mesmo se, no meio de todos os espectadores, e eram muitos por a sala estar cheia, quantos terão identificado aquelas vozes. O fim do filme, sendo fantástico, ameniza toda aquela solidão pela beleza de uma união etérea no meio aquático, se me é permitida a incongruência. Não sendo uma obra prima, é um bom filme que merece ser visto.

terça-feira, 30 de janeiro de 2018

Os Filhos da Sombra

(Livro de Valentino Viegas)

Sem “saber ler nem escrever”, como sói dizer-se, sou “atirado” para o papel de crítico literário, não reconhecendo em mim capacidade para tal. Conheci Valentino Viegas por frequentarmos a mesma piscina, onde praticamos natação livre para tentarmos manter o “físico”.  Começámos a nossa relação de amizade, por ter eu passado sete dias no antigo Estado Português da Índia, em Goa, sua terra natal, aquando da minha viagem para Timor em comissão militar, assim como por termos conhecido a guerra, eu em Nambuangongo e ele na Fazenda Liberato, em Angola e também pela sua estadia em Moçambique, que ambos conhecemos. Essa amizade tem sido consolidada através de gostos idênticos pela leitura e escrita. Claro que em termos de escrita eu sou um amador que limita a sua actividade a um blog e umas tentativas pseudo-literárias de uns escritos policiais por o talento não dar para mais. Ao ler o livro do meu amigo Valentino, A Morte de O Herói Português, resolvi escrever, sobre o mesmo, aquilo que me tinha parecido ser o essencial do tema. O meu amigo gostou e até me pediu autorização para publicar o “escrito” no Boletim da Casa de Goa. Agora, que acabei de ler o seu livro Os Filhos da Sombra, fui de novo solicitado a escrever algo sobre o mesmo e, com alguma falta de talento, aqui estou a não virar a cara a tão difícil tarefa.
Valentino Viegas, nesta sua publicação romanceada, mas que se nos afigura autobiográfica logo de início, escreve sobre um goês que se vê na necessidade de abandonar a sua terra natal devido à invasão e anexação de Goa pelas tropas da União Indiana. A forma usada pelo autor é uma técnica de “flashbacks” sucessivos, tornando muito interessantes as alterações de narrativa, à medida que o seu “Daniel” vai mudando de território e de cenário. Muito atento a tudo que o rodeia, Valentino tem sempre em mente as personagens de vidas mais desfavorecidas. Quem frequenta assiduamente o metropolitano de Lisboa, certamente reconhecerá o invisual que arrastando os pés pede esmola com um pote metálico ao pescoço, sacudindo-o e fazendo tilintar as poucas moedas que os mais condoídos lá vão metendo. Também de certeza reconhecerão o homem dos assobios que recolhe o que pode dos caixotes do lixo ali da região de Benfica. Valentino refere também os seus amigos goeses, uns que ficaram, outros que como ele tomaram o mesmo ou outros rumos, mas que também sofreram com a perda de valores por abandono forçado do local das suas raízes. O descobrir de outros locais e povos durante a sua viagem para Portugal é muito bem descrito neste seu romance autobiográfico. Dou particular destaque à sua participação na guerra de África, por ter sido incorporado após a sua chegada, uma vez que, como português, e estando em idade militar, não fugiu às suas obrigações.
Por todas as situações por que passou deu sempre mostras do seu gosto pela História e pelo ensino, procurando fazer chegar aos seus amigos e camaradas, a verdade histórica de factos atribuídos aos portugueses. Sabemos que Valentino, depois de tanta demanda, se licenciou e doutorou em História. Neste seu livro descreve muito bem, os sentimentos dos homens, que tendo sido obrigados a participar numa guerra distante e em territórios que nada lhes diziam e que não sentiam como sua, mas que quando em luta não viraram a cara e nela se embrenharam porque lhes tinham incutido na ideia lutarem pela Pátria.
Muito bem escrito, em linguagem correcta e compreensível, é um livro que todos os portugueses deviam conhecer para ficarem cientes do que a manutenção demasiado prolongada de um Império, mantido contra-natura, provocou em povos obrigados a desenraizarem-se.

Uma obra que vale a pena.