quinta-feira, 11 de junho de 2020

O que me veio à memória perante um túmulo histórico.


Escrito após uma visita ao túmulo do fundador dos Pupilos do Exército 




(Publicado no Boletim da APE 240 de 2016)

 

Os Pupilos do Exército prestaram homenagem ao seu Fundador General Xavier Correia Barreto, perante o seu mausoléu no cemitério dos Prazeres em Lisboa. A Associação dos Pupilos do Exército, como sempre, esteve presente. No final da cerimónia dirigi-me, juntamente com o Fernando Pires, Ernani Balsa, Ribeiro da Silva e outros, para a porta de saída e acabámos por ficar retidos junto de uns simpáticos gatinhos que apanhavam sol pachorrentamente estendidos em cima de uma plataforma ali estacionada. Os bichanos não escaparam aos olhos dos nossos “profissionais” da fotografia, Pires e Balsa, que os fixaram em vários ângulos e eu pensei logo na nossa querida “Piloa” Ana Oliveira, que tanto gosta dos bichanos. Enquanto isto, eu e o Ribeiro da Silva comtemplávamos um jazigo que ostentava o nome de “Capitão Henrique Carlos da Mata Galvão”, tendo o Ribeiro da Silva proferido a seguinte frase: “O que vocês contemplam na vossa frente é História”.

Esta frase deixou-me a pensar em Henrique Galvão e, talvez pelo meu espírito um pouco aventureiro, o que me veio imediatamente à cabeça foi o livro que ele escreveu em conjunto com Teodósio Cabral e Abel Pratas “Da Vida e da Morte dos Bichos”.

Tinha regressado de Timor com uma perna partida num acidente de moto, encontrava-me no Hospital Militar da Estrela e acabara de conhecer a minha futura mulher, sobrinha de um antigo amigo do meu Pai que me visitara. Esse futuro “tio” por afinidade,, era um homem dedicado aos livros e plantou em cima da minha cama uma biblioteca que eu pensei levar pelo menos uns três anos para ler toda. Dos muitos livros destaquei cinco volumes da obra que acima refiro, levado, como é sabido, pelo meu entusiasmo pela caça, a qual sempre pratiquei desde adolescente, continuei em Timor e pensava continuar a praticar, tal como veio a acontecer pela vida fora, até hoje.

Henrique Galvão foi um aventureiro e a sua vida foi plena de episódios que assim o classificam, mas não se atirava irresponsavelmente para todo o tipo de situações de ânimo leve. Não, Henrique Galvão foi um aventureiro consciente. No início da sua carreira foi apoiante de Sidónio Pais, acreditou nos ideais da revolução de 28 de Maio e foi Salazarista ferrenho. Cedo o ditador o desiludiu e cedo também se tornou seu opositor, combatendo-o ferozmente, o que o levou à Pide, à prisão e à demissão do Exército. Era assim que o sisudo e retrógrado ditador que nos governava tratava os seus opositores. Henrique Galvão refugiou-se na embaixada da Argentina e conseguiu asilo político na Venezuela, voltando a aparecer no episódio do sequestro do paquete Santa Maria, a que deu o nome de “Operação Dulcineia”. Por este nome se pode inferir o seu espírito quixotesco.

Mas não foi para falar da sua vida política que comecei este texto. A sua vida aventureira em “Portugal Colonial”, inspirou a sua veia literária, tendo escrito vários livros brilhantes sobre a vida nas colónias africanas, a sua antropologia e zoologia.

O livro “Da vida e da Morte dos Bichos” é para mim a sua obra máxima e com ele muita coisa aprendi e me serviu para as minhas futuras caçadas, quer em Angola, quer em Moçambique.

O seu amigo Abel Pratas era, como ele, um caçador desportivo. Já Teodósio Cabral era diferente. Caçador profissional, caçou durante anos em Moçambique à moda dos “Boers”, a cavalo seguido por uma carroça puxada a bois onde transportava o equipamento e a comitiva de auxiliares indígenas. Atirador exímio, costumava dizer que para se aguentar uma carga de um elefante solitário era necessária uma presença de espírito para, no meio dos carris, esperar pelo rápido, partir um farol com um tiro, recarregar, partir o outro e saltar para o lado no último instante. Talvez um pouco exagerada, esta frase. Já tive um elefante a carregar para mim e companheiros e não foi preciso tanta destreza. Foi pois com Teodósio Cabral e Abel Pratas que ele caçou durante meses e foi com eles que escreveu o seu livro. No prefácio, Galvão agradece a Teodósio Cabral todos os seus ensinamentos e refere que sem ele e o seu conhecimento profundo dos animais,, o livro não tinha sido possível. Teodósio Cabral, segundo Galvão, era um “gentleman” que sabia viver no mato caçando durante seis meses seguidos e em seguida, na civilização, usar um “smoking” e frequentar a alta sociedade. O seu conhecimento dos animais não era apenas por os conhecer olhos nos olhos, mas também daquilo que deles aprendeu nos tratados de zoologia e literatura sobre fauna africana.

Deste trio de caçadores, investigadores e intelectuais, saiu aquele que eu considero o melhor livro sobre caça e fauna africana. Dividido em 5 volumes:

 

Volume I -Elefantes e Rinocerontes 

Volume  II – O  Hipopótamo , a Girafa, o Crocodilo, os Javalis 

Volume III –  O Leão

Volume IV – Búfalos, Gorila, Leopardos, Antílopes, Etc.

Volume V (Extra-série) - Narrativas de caça Grossa em África

 

Uma leitura deliciosa que me amenizou a estadia hospitalar e me deu imenso conhecimento que mais tarde me foi muito útil.

A título de curiosidade; tive uma tia, Maria Emília Borges Tello, que não conheci por ter falecido muito nova, que foi casada com Carlos Henrique Malta Galvão, irmão do “nosso” Henrique Galvão.

 

 

 

 


Birdman (A Inesperada Virtude da Ignorância)

(Publicado no Boletim da APE nº 241 de 2016)

 

O homem sempre teve o desejo de se transmutar. O actor não é mais do que o indivíduo que sente necessidade de largar o seu ser normal e transformar-se em diversas personagens. No palco ele muda a sua personalidade e, muitas vezes até se transforma naquilo que é realmente, deixando para trás o seu ego de todos os dias, uma representação permanente. Riggan Thomson (Michael Keaton) foi durante anos protagonista de Birdman, uma figura de super-herói que se tornou um ícone, herói na imaginação dos espectadores. Após três filmes, recusa-se a interpretar um quarto, resolvendo voltar ao teatro tentando demonstrar a si próprio que pode ser um grande artista sem Birdman e realizar-se como actor, encenador e produtor. Mas a dúvida persegue-o, assim como o seu próprio personagem que a todo o momento o questiona, pondo em causa a peça que tenta encenar e representar. A voz de Birdman persegue-o e angustia-o. Nesses momentos de dúvida e frustração é dado a fúrias que o tornam até capaz de fenómenos de telequinésia e levitação, fazendo voar objectos que lança contra as paredes. Com ele contracenam vários actores a quem esteve ligado, tais como a sua antiga e também a actual companheiras, pessoas que não o ajudam a encontrar o que pretende, mas antes pelo contrário lhe causam ainda mais constrangimento e ansiedade. A sua própria filha é sua colaboradora tentando dar-lhe algum sossego de espírito mas ao mesmo tempo colocando-lhe culpas por aquilo que não foi e deveria ter sido. Um desses colaboradores é Mike Shiner (Edward Norton), excelente na interpretação, não ficando nada atrás de Micael Keaton, num papel de um excelente actor, também ele demasiado misturado como homem e actor que se diz, em cena, mais verdadeiro e honesto do que na própria vida. Tudo isto num jogo de sentimentos e exploração de pensamentos só possíveis pelo intrincado cérebro humano. Bom seria que o nosso cérebro não se tivesse desenvolvido ao ponto de criar desejos e mitos. Os deuses não existiriam e a vida seria simples e linear. Riggan, cada vez mais endividado e falido, duvidoso de si próprio, cheio de temores pela incerteza do sucesso, cada vez mais atormentado por Birdman, que lhe aparece (durante uma viagem de táxi) e o leva a voar dizendo-lhe “tu és Birdman e só assim te realizarás”, resolve pôr termo à vida aproveitando a última cena da peça de Raymond Carver  " O que falamos quando falamos de amor ", um suicídio do personagem principal perante o adultério da sua companheira, substituindo a arma fingida por uma verdadeira mas, talvez por inépcia ou arrependimento à última hora, apenas atinge o próprio nariz. Já no hospital e com o nariz refeito, é visitado pela filha que lhe leva flores e pela primeira vez, tem para com ele um gesto de ternura. Assim que a filha sai, Riggan olha o nariz no espelho e sorri. Vai até a janela abrindo-a, e tal como Birdman lança-se no espaço. A filha ao regressar ao quarto espreita pela janela aberta olha primeiro para baixo e depois para cima, sorrindo. Birdman libertara-se finalmente.

Parabéns a Alejandro González Iñárritu, mexicano radicado nos USA, pelo excelente filme, filmado como se de uma única cena continuada se tratasse.

 


Vadiar


Resolvi publicar aqui alguns textos que tenho escritos e são anteriores à pandemia.


                         Hoje não houve piscina e era um dos meus dias de fazer natação.                            Um festival ou “workshop” ou qualquer coisa semelhante, ocupou o pavilhão gimnodesportivo e os utentes ficaram sem espaço.

Quando assim acontece ocupo o tempo com uma passeata aqui pelos meus sítios. Apanho um pouco do sol envergonhado, que vai espreitando entre as nuvens, e vou cogitando. Vou reparando em algumas embalagens que as pessoas deixam por aí. Quando tenho um ecoponto perto, apanho-as e meto-as onde deveriam estar.

Reparo que muitas são deixadas para servirem de bebedouro aos passarinhos. Também outras servem para colocar comida para gatos. Má prática essa. Os passarinhos sabem muito bem encontrar água para as suas necessidades. No campo ninguém lá deixa vasilhas.

Reparo também que há muito menos, ou quase nenhuns, gatos selvagens. Os que andam pelos jardins têm normalmente dono. Só que, alguns, abrem-lhes a porta e deixam-nos passear sós. São esses que se aproveitam da “caridade” daqueles que não pensam que estão a poluir o ambiente a contribuir para a proliferação das ratazanas. Essas é que aproveitam as dádivas.

Noto também que não se vêm cães vadios. Há muitos cães, mas a passear com os donos. De trela de estica encolhe lá vão eles pela relva enquanto os donos, de saquinho de plástico na mão, esperam pacientemente que os bichanos resolvam a sua necessidade de alívio intestinal. Vá lá, nisso estamos a ficar mais conscientes, mas em muitas ruas, mais escondidas, ainda temos que fazer “slalom” para não levarmos nas solas o que os donos dos bichinhos têm na cabeça. Tenho um pouco de pena dos cãezinhos por terem pouco espaço para exercício, apesar das trelas extensíveis, os bichos pouco ou nada podem correr. Um cão que viva num apartamento, tem necessidade de correr livremente. Mas, continuando a falar em cães vadios, penso que eles já não aparecem porque a CM os apanha, felizmente sem quase darmos por isso. Pobres bicharocos que já não podem vadiar.

E aqui, atendendo a esta palavra, acho que vadiar até é uma coisa boa, pois eu, quando por aqui vou andando, também estou a vadiar.

O dicionário de português refere: “Vadiar Andar à toa, passear. Levar vida ociosa. Não estudar, não trabalhar”.

É precisamente o que faço.

Esta palavra faz-me lembrar o romance de Jorge Amado; “Dona Flor e Seus Dois Maridos” em que o primeiro marido de Flor, Vadinho, de seu apelido, lhe dizia: “Flor, meu amor, vamos vadiá?”

Boa vadiação a dele, uma actividade que os cachorros, hoje em dia, só praticam quando os seus donos programam o nascimento de uma prole, normalmente com fins lucrativos. 

E assim, cogitando, vou ocupando o meu tempo vadiando por aí…


domingo, 19 de abril de 2020

A Ilha do Dia Antes.




Umberto Eco era doutorado em filosofia e história, mas também um semiólogo. Logo aí nos começamos a interrogar, semiólogo? O que é isso? Estudioso e interprete dos sinais já é uma baralhação para o nosso cérebro, mas nada disso interessa. Eco foi um escritor fora de série. O Nome da Rosa, O Pêndulo de Foucault e Baudolino foram livros que marcaram bem as minhas leituras. E por isso recebi com agrado o empréstimo do meu filho do seu livro A Ilha do Dia Antes.
Neste livro Umberto Eco diverte-se. E diverte-se colocando o leitor no papel do pobre ignorante que continua a ler mesmo não percebendo os pensamentos filosóficos, os silogismos, as expressões latinas, as narrações históricas, os pensamentos dos personagens, etc. Eco era um erudito e coloca neste livro todo o seu enciclopédico saber. As primeiras páginas desencorajam qualquer um, mas ao mesmo tempo vão prendendo o leitor no interesse de: “Deixa cá ver onde isto me leva”.
Um fidalgo piemontês, envolvido na guerra dos trinta anos, acaba movimentando-se na corte de Luís XIII e entre dois cardeais, Richelieu e Manzini. Entre lutas e discussões filosóficas, acaba por ser mandado embarcar, pelo cardeal Richelieu desconfiado que Roberto de La Grive, este era o nome do nosso herói, estaria a passar informações aos seus inimigos, num navio que demandaria os antípodas, numa época em que ainda se discutia o heliocentrismo e não havia a certeza por onde passava o meridiano zero. Já se calculava a latitude, mas a longitude era um problema por não haver relógio capaz de trabalhar certo a bordo. No entanto o globo já era dividido em fusos de 15 graus cada, mas nos antípodas ainda se pensava que os homens andariam de cabeça para baixo. Roberto parte, mas deixa o coração preso a uma donzela que idolatra e venera. Roberto naufraga, mas amarrado a uma porta, acaba por ir embater a uma nau naufragada e encalhada junto da ilha onde o dia é o antes daquele que se vive naquela nau. Roberto gostaria de aportar a tal ilha, mas não consegue colocar a nau a navegar nem tem qualquer embarcação utilizável e para cúmulo nem sabe nadar.
Dentro da nau, Roberto sente que existe um intruso, pois várias transformações internas acontecem de dia para dia e realmente, Roberto, acaba por encontrar um frade filósofo que se escondia por medo. As discussões entre os dois são o máximo de erudição e o narrador, o nosso Eco, acrescenta ainda mais. Roberto morre de amores e saudade da sua amada e sofre por Ferrante, um seu irmão gémeo que se aproveita da sua grande semelhança, ter ficado junto dela. E se Roberto é um ser amável, respeitador e probo, Ferrante é absolutamente o contrário, cínico, desleal, corrupto e tudo aquilo que queiramos imaginar de mau. Na continuação da narrativa os dois homens confundem-se na mente de Roberto pelo que acabamos por ficar convencidos que são uma mesma pessoa. Sendo que Ferrante acaba por fazer tudo aquilo que Roberto gostaria de ter feito, mas que o seu íntimo repudia.
No meio de tudo isto, Umberto Eco brinca com o seu saber, filosofando e falando em factos e acontecimentos que nós, pobres leitores, nem com três enciclopédias seríamos capazes de compreender. Refiro que a propósito de uma pomba o autor escreve 10 páginas e até dedica um capítulo a Exercícios Paradoxais Sobre Como Pensam as Pedras. Calculem pois. O livro termina tal como começou, isto é, sem sabermos muito bem como. Imaginem como eu fiquei…

quinta-feira, 16 de abril de 2020

A Espingarda



O Amigo Balsa, no seu texto de hoje no Facebook, sobre o seu estado de emergência, fez-me recordar objectos que nos ligaram aos nossos ancestros.
Tinha eu os meus seis anitos e fui com a família jantar a casa de um colega do meu pai, um sujeito bastante mais velho, que se tinha reformado da Junta do Crédito Público onde meu pai e um tio da Catarina, minha mulher, trabalhavam em conjunto. Claro que naquele tempo a Catarina já teria os seus 4 anos, mas só nos viemos a conhecer quando vim de Timor em 1961.
Antes do jantar, demos uma volta pela casa do senhor e, numa das dependências, mostrou-nos uma caçadeira calibre 16, em muito bom estado de conservação. Era uma Baiard Belga de canos laterias e já mocha, isto é, sem cães, o que para a época dela era uma modernice, pois muitas mais modernas ainda funcionavam com os ditos. Aquilo para mim foi um objecto maravilhoso, pois naquela idade já andava de fisga no bolso atrás dos incautos passaritos. Poder vir a ter uma coisa daquelas era um sonho inatingível. Após o jantar, demos uma grande volta a pé. Era Verão e estava um calor de derreter o alcatrão da estrada por onde caminhávamos quase não sendo incomodados pelo pouco trânsito. Numa das conversas o nosso anfitrião foi dizendo, que tinha pena de deixar a caça, mas já não se sentia com vontade de calcorrear montes e vales. Foi então que o meu pai propôs comprar-lhe a espingarda. Estávamos apenas há um ano e picos no Cacém e o meu “velhote”, na altura com 34 anos, falava no café com vários amigos caçadores que contavam imensos episódios de caça. Se melhor o pensaram melhor o fizeram e a transacção fez-se. A Baiard mudou de dono e passou para minha casa onde, sempre desmanchada, ocupava uma das prateleiras do quarto de arrumações. E o funcionário público tornou-se caçador. Nunca foi grande atirador, mas a caça abundava e sempre se penduravam uns coelhos e algumas perdizes. Passei a ser o companheiro e ajudante, de varapau em riste batendo aqui e ali nas moitas fazendo, por vezes saltar alguns coelhitos. Nessa altura podia caçar-se todos os dias, mas o trabalho e a escola só nos deixava livres os fins de semana. Tinha 10 anos quando o meu pai me deixou dar o meu primeiro tiro. Um tordo poisado numa oliveira foi a minha primeira vítima, mas foi como se tivesse conseguido caçar uma ave enorme e terrível. Aquele tordo só foi para o tacho uns três dias depois de, todo ufano, o ter mostrado aos rapazes amigos lá da rua. Pelos meus 13/14 anos ao regressar a casa depois de uma caçada aos pássaros com fisga e ratoeiras, verifiquei que nas serras, já muito perto de casa, andava um enorme bando de perdizes. Não perdi tempo, fui a casa peguei na espingarda e meti 4 cartuchos nos bolsos dos calções e aí vou eu no encalço do bando. E não é que o encontrei… O bando levantou, meti a caçadeira à cara e zás. Uma perdiz caiu. Nem sei como fizera aquilo. O certo é que o meu coração pulsava que nem um cavalo e eu mal podia respirar. Apanhei o bicho e fui para casa. Aí começou o meu dilema, ou contava a minha façanha e apanhava uma coça por ter ido mexer na arma, ou não contava e ficava com aquele engulho de não poder mostrar tamanho feito. Acabei por contar. Vá lá, apanhei um ralhete, mas o “velhote” ficou orgulhoso por o filho ter sido capaz de tal acto venatório.
Aquela espingarda deu-nos muitas alegrias e muitas caminhadas em conjunto. Quando fui para Timor, o meu pai estava com 48 anos e desistiu da caça que ali na terra já rareava. Herdei a arma e levei-a para Timor. Começou a ficar velhinha e cheia de folgas. Entretanto o calibre 12 substituiu aqueles calibres mais antigos e estreitos. Ficou em minha casa colocada num armeiro. Sempre que a olhava lembrava-me do meu progenitor entretanto falecido. Levei-a algumas vezes ao Clube de Monsanto para verificar se “aquilo” ainda partia uns pratos, e partia, só que os dois gatilhos já me faziam confusão e na maioria das vezes ficava agarrado ao primeiro e o segundo tiro não partia. As folgas já eram muitas e deitava fumo por tudo o que era lado. Acabei por a entregar na PSP com muitas outras armas de que me desfiz. Tive algumas armas muito mais modernas e ainda tenho uma automática com que raramente caço. Apenas faço uns tiros aos pratos para não perder a “mão”. Mas aquela espingarda ficou na minha memória sempre como a espingarda do Pai.

sexta-feira, 3 de abril de 2020

Ártemis (Diana)




O raio da lebre levou dois tiros, enrolou-se toda e quando lhe ia a deitar a mão fugiu que parecia um raio. Que saudades tive do meu Black. Nestas circunstâncias teria corrido como um possesso e acabaria por encontrá-la escondida atrás de um pequeno arbusto. As lebres feridas correm bastante, mas uma ou duas centenas de metros após escondem-se e chegam a deixar passar por elas o seu algoz. Bem, pensei; tenho de ir eu à procura, aqui é que ela não fica. Acabei por encontrá-la uma centena e meia de metros depois. Fui batendo com as botas junto das pequenas moitas e ela lá saltou. Deixei-a correr um bom bocado e prostrei-a com um tiro calmo e calculado. Estava a metê-la num plástico e a colocá-la no bolso transversal do colete quando vi um pequeno veado. Achei estranho. Ali não era costume eles aparecerem. O bicho tinha o focinho ligeiramente levantado. Achei algo de estranho nos seus chifres. Fui-me aproximando devagar, para não assustar o bicho, e foi então que vi uma mão que os segurava. Esquisito, alguém segurava o bicho pelos cornos. Dei mais uns passos e foi então que vislumbrei um vulto atrás do chaparro. Era uma mulher, mas uma bela mulher e estranhamente vinha vestida com uma túnica e de sandálias. Aproximei-me e interpelei-a:
— Diga-me, que faz assim vestida num sítio destes e com um veado preso pelos cornos?
Com uma voz celestial, que me deixou meio tonto, a bela personagem respondeu:
— Isto não é um veado. É um caçador como tu que cometeu o sacrilégio de me espreitar quando tomava banho na ribeira. Não gosto que me vejam nua.
— Sacrilégio? Eu também espreitaria. Não é todos os dias que se vê uma beldade como a senhora, aqui nestas remotas paragens alentejanas. E já agora porque não se vestiu? Porquê de ficar com esse robe transparente tão provocador?
— Estas são as minhas vestes. Eu sou a deusa Ártemis ou Diana se te der mais jeito. Os romanos sempre tiveram a mania de copiarem os Gregos só mudando os nomes.
Fiquei quase sem fala. Pensei, esta tipa está a gozar comigo, mas assim vestida e a segurar veados pelos cornos? Devia ser mesmo sobrenatural. Perguntei:
Uma deusa? Aqui atrás de um chaparro? Não é costume, no nosso país, quando aparecem é mais por cima da rama. E afinal quem era esse desgraçado que seguras pelos cornos?
— Chama-se Acteão e foi vítima de uma das minhas flechas mágicas. Castiguei-o. Não gosto que me espiem e muito menos nua.
— E agora? Que vais fazer com ele?
— Fica assim uns anos e vai viver ao pé de mim até que lhe retire o feitiço. Como um cervo já pode ver-me nua à vontade.
— Olhe Diana ou Ártemis. Não sobra aí uma flecha? Já agora gostava de fazer companhia a esse sortudo veado.
— Não brinques comigo que podes sair-te mal. Sou virgem e prometi a meu pai, Zeus ou Júpiter como queiras, que nunca me casaria e só ajudaria os humanos na caça e na agricultura. Tomo também conta das florestas. Os meus seguidores também me tratam por Artemísia ou Selene.
Fiquei completamente siderado. Devia ser o único mortal a ver uma deusa em carne e osso assim em terrenos alentejanos. Bem, único talvez não seja. Há aquela história inverosímil de uma que andou por cima das azinheiras a falar com criancinhas analfabetas, mas que empinaram grandes segredos tais como a conversão da Rússia, como se elas soubessem que a Rússia não ficava ali para os lados   da aldeia deles, mas nunca tinham ouvido falar. Também nunca saíram dali. Ainda bem que vim à caça. Costumo vir com amigos. Assim só, ninguém vai acreditar. A deusa era de uma beleza estonteante e eu quis prolongar aquele momento.
— Ártemis, sei um pouco da tua história, quer a grega quer a romana, sei que és irmã gémea de Apolo, ele também bem bonito. Sei que és filha de Leto (Grécia) ou Latona (Roma). Parece que era uma grande defensora das crianças. Houve um tipo chamado Homero que te descreveu como senhora das terras selvagens defensora de todos os animais. Pergunto-te, se os defendes porque os caças?
— E tu? Também os caças. Não gostas deles?
— Tens razão. Adoro bichos, mas na caça mato-os. Não os deixo sofrer e persigo sempre peças feridas.
— Comigo passa-se o mesmo. Caço-os, mas também os protejo, assim como também protejo as raparigas virgens.
 — Olha Diana, aqui pela terra não te safavas pois, para encontrares virgens tens de ir aos infantários e pré-primários, que elas agora mal largam os soquetes começam logo a pensar nos jogos de sexo. Também essa de prometeres ficar virgem para todo o sempre foi uma má ideia. Uma deusa linda como tu deve ter montes de pretendentes lá no Olimpo.
— Aos três anos, ao colo de meu pai, pedi-lhe seis desejos: manter-me sempre virgem, ter vários nomes para me diferenciar do meu irmão gémeo, ser portadora de luz, ter um arco e flechas, poder usar uma túnica à altura do joelho para poder correr na caça e ter sessenta filhas todas virgens como eu. Tive tudo isso incluindo sessenta ninfas virgens que sempre me acompanham quando delas preciso para me ajudarem na caça e no apoio a crianças.
— Já li em qualquer lado que tudo isso foi cantado por um poeta chamado Calímaco. Pena eu não ter talento para poder cantar a tua beleza. Obrigado Diana por te teres aproximado de mim.
Acordei encostado à sombra de um chaparro. Ártemis já lá não estava. Um pequeno veado ruminava à minha frente não tirando os olhos de mim. Disse-lhe:
— Acteão, és um sortudo.
O bicho deu dois pinotes e fugiu a correr pela vegetação.



O Colosso de Rodes


Foi contruído por Caré de Lindos (280 AC), um discípulo de Líssipo, em honra do deus Hélio, o Sol. Feita totalmente em bronze teve o fim de comemorar a vitória da cidade contra o macedónio Antígno Monoftalmo. O filho deste, Demétrio I, sitiou a cidade em 305 AC, mas não teve sucesso. O colosso tinha a altura da actual estátua da liberdade (cerca de 33 metros) e era a maior estátua do mundo antigo. Foi destruído por um terramoto em 226 AC e nunca mais foi construído. Ainda hoje não foi determinado o sítio exacto da sua construção, mas houve o anúncio de vários planos sobre a construção de um novo Colosso em 2015. Já agora convém especificar o deus Hélio. Este foi a personificação do sol e era filho dos titãs Hiperião e Téa e era irmão da deusa Éos (o alvorecer) e de Selena (a lua), daí o termo de selenitas para os ”habitantes” deste nosso satélite. Selenita, foi a alcunha dada no nosso Pilão ao preparador de laboratório cujo nome não recordo agora, mas cuja “beleza” seria certamente idêntica àqueles seres. De Hélio derivou o termo de helioatria, a adoração de deuses solares.
Convém referir que Líssipo ou Lísipo foi um dos grandes escultores da época clássica grega, foi o preferido de Alexandre O Grande e manteve uma escola da qual Caré de Lindos foi aluno.