segunda-feira, 24 de agosto de 2020

O cinema, o covid e o filme

 


6ª feira fomos ao cinema. A Catarina e eu já andávamos com saudade de uma saída à noite. Mandámos o covid às couves e lá fomos até ao Centro Comercial das Amoreiras. Escolhi um filme português, mais por patriotismo do que por qualquer outra coisa. Andamos sempre agarrados à filmografia norte americana, que é o que normalmente nos é impingido. Fujo muitas vezes a isso, procurando filmes franceses, mas desta vez deu-me uma de portugalidade e lá fui ver uma realização portuguesa. Munidos das nossas máscaras lá entrámos par uma sala pequeníssima onde além de nós estavam 6 pessoas. Chegado ao meu lugar, agora marcado para obedecer às distâncias obrigatórias, sentei-me e tirei a porcaria do “açaimo” que me causa uma sensação de claustrofobia enorme. Ex senão quando me aparece um funcionário dizendo-me que só podia tirar a máscara para comer. Bolas! Se levar um balde pipocas que dê para o filme inteiro posso estar sem máscara. Será que o covid não ataca os pipoqueiros?

Depois de quase meia hora de anúncios e apresentações lá começou o filme realizado por Vicente Alves do Ó, que não conhecia. Nós, os da minha geração, ainda não estamos preparados para tratar de forma totalmente aberta a homossexualidade. Dizemos que sim, que não somos homofóbicos, mas cá dentro há algo que rejeita a explanação do tema. Ora o filme trata precisamente de homossexualidade aberta e assumida. Um cenário idílico, uma cor fantástica, uma casa de sonho no litoral alentejano, uma límpida piscina e quatro amigos reunidos tranquilamente ao sol. Uma mulher e três homens. A quietude é interrompida com a notícia de que um amigo comum vem visitá-los e aí começam as recordações dado que esse amigo foi amante de 3 deles, inclusive da rapariga, e há dez anos que não dava sinal de vida. O único não amante do misterioso personagem, também está por ele apaixonado, dado manter uma relação constante com ele através do Skype, mas nunca esteve com ele pessoalmente. A rapariga dorme com um deles e conversam sobre o assunto até porque o companheiro também teve forte paixão pelo tal esperado David. O ambiente decorre quase todo à volta da piscina, tudo em traje de banho, nadando e estendendo-se ao sol. A rapariga é escultural e os rapazes todos tipo metrossexual de físicos tratados em ginásio. Durante o filme, com as tensões a subir, vamos ficando a saber que a moça além daquele com quem dormia, já tinha tido relações com todos eles. Enfim, tudo ao molho e “deusnosvalha”. Um dos mais angustiados, o namorado virtual do esperado, por não saber qual a sua reacção perante o “desejado” e até por não saber para que lado ele irá pender, para soltar os fantasmas tem uma relação na mata, contra um pinheiro, com um rapaz do restaurante próximo que costumava levar-lhes refeições. Ficamos a saber também que a moça teve uma gravidez do tal David, da qual se desfez, mas que a traumatizou. Não conto o fim porque alguém poderá estar interessado. Mais tarde, perante um bom prego de bife do lombo e umas bjecas, no Foxtrot, falávamos do que víramos e eu não estava ainda totalmente refeito. Bom? Mau? Bem, pelo menos o som não estava mal e foi tudo muito perceptível. Até demais. Vê-se com certo agrado, mas deixa macaquinhos no sótão.

Vão ver. O cinema português precisa de vós.

sexta-feira, 7 de agosto de 2020

Caça e “guerra” em São Salvador

 

 

São Salvador do Congo em 1964/65 era uma “cidade” onde a vida decorria com normalidade e sem problemas com o IN. Apenas para os lados de Cuimba, junto à serra da Canda, havia sarrafuscas e contactos. Para sul após o Quiende e depois do rio M’Pozo, já havia alguma actividade operacional. Antes do rio havia uma região chamada Zauévoa onde existiam duas enormes lagoas. Era aí a minha zona de caça. Essa zona tinha sido outrora uma reserva e havia montes de pacaças, palancas, burros do mato (quissemas), sofos, gulungos e até hipopótamos. As pacaças eram as minhas preferidas. Adepto da actividade cinegética desde pequeno, arranjei logo forma de que o comando de sector autorizasse uma equipa de caça que me propus chefiar. Era considerada uma patrulha e tinha que sair devidamente autorizada e indicar nos mapas as zonas para onde me deslocasse. Havia uma pequena equipa escolhida por mim e o resto da malta era recrutada pelas unidades assim como as viaturas. Normalmente ia o meu jeep, da Intendência, devidamente armadilhado com uma estrutura onde um palanque com um banco de madeira devidamente almofadado servia para sentar os dois atiradores de serviço, que eram: eu e um cabo operador de rádio natural de Maquela filho de um grande caçador profissional, também ele muito sabedor dos segredos da mata e da bicharada. O condutor era um sargento mecânico do pelotão de apoio directo, cujo comandante era um alferes meu conhecido do Grupo de Companhias de Trem Auto em Lisboa. Foi devido a essa amizade que consegui a estrutura do jeep e as reparações das equimoses que as viaturas sofriam pelas nossas marchas malucas por todo o terreno. Saíamos sempre com uma metralhadora ligeira Drise, tubo de morteiro de 60 com algumas granadas, granadas de mão ofensivas e os soldados de G3. O meu cabo enfermeiro sempre equipado com a sua bolsa, fazia também o papel de meu guarda-costas pois era um matulão de força hercúlea. Normalmente atrás do jeep ia um jipão, com roldana e guincho para puxar para cima as pesadas pacaças, levando uma escolta para o que desse e viesse e, em cima de um morro alto ficava o resto do pessoal com uma viatura pesada, normalmente uma GMC ou Diamond. O alferes da aeronáutica, que gostava da caça, foi algumas vezes como convidado e quando não podia ir passava com os teco-tecos (austers) por cima de nós e pelo rádio indicava-nos onde estava a caça. Julgo que nem o John Waine fez melhor no cinema. O comandante da CART situada no início de São Salvador era o Veiga da Fonseca, o 218 do Colégio Militar, meu contemporâneo na EE, amigo infelizmente já falecido, a quem convidava muitas vezes para me acompanhar. Nunca ele apanhou tanta caça como quando começou a sair comigo. No regresso, eram cerca de 180 a 200 Km que fazíamos, a caça era distribuída pelas unidades e o homem que vendia a carne tinha-me um pó danado, mas disfarçava bem.

Tudo isto para apresentar o Veiga da Fonseca, rapaz com senso de humor, e contar um episódio insólito que se passou numa noite em que ele estava de oficial de segurança e, por acaso tinha passado na Intendência onde bebíamos uns copos. Havia um sistema de comunicações telefónicas para todos os postos de defesa que circundavam a cidade. Cada um podia ligar para o oficial de segurança e este podia falar para todos eles ao mesmo tempo. Não sei bem como aquilo funcionava, mas naquela noite toca o meu telefone e o operador pergunta pelo Cap. Veiga da Fonseca. Uma sentinela queria falar com ele. Feita a ligação o rapaz do posto diz que estava a ver umas sombras junto ao arame farpado, mas que não tinha a certeza se eram homens ou bichos que por ali andavam. O V. da Fonseca que já estava um pouco toldado, pensando que só falava para aquele, diz: “Se não tens a certeza Fogo!” Disse isto demasiado alto e empolgado, só que todos os postos estavam ligados e todos à escuta. E foi a guerra total. Nunca se vira tanto tiroteio na cidade.

Foi um esforço do caraças fazer parar aquilo e mais esforço foi necessário para apaziguar o comandante de sector. Os poucos civis da cidade, o governador de distrito e duas ou três senhoras, que por lá havia, apanharam um tremendo cagaço. Afinal os IN eram apenas cabras que pastavam tranquilamente. Nenhuma morreu…

A primeira vez que o meu amigo Veiga da Fonseca me acompanhou, dei-lhe a primazia para poder abater a primeira peça. Era ainda noite e uns olhos foram focados pelo Rino, o tal profissional. O Veiga da Fonseca aponta e… pum. O bicho nem se mexeu, mais dois tiros e ao terceiro caiu. Quando nos aproximámos vimos um enorme macho burro do mato com um corno partido. O primeiro tiro acertara-lhe na base do dito e cortou-o cerce. Depois todos gozávamos.

“Claro. O bicho não fugiu porque andava à procura do corno perdido”.

O animal tinha ficado tão atordoado que nem caia nem fugia.

Resta dizer que após a minha saída de São Salvador começaram a haver emboscadas naquela zona e puseram lá um batalhão que se servia das picadas que eu abri no mato. Estou convencido que as minhas “patrulhas” serviam de dissuasão ao In.

segunda-feira, 3 de agosto de 2020

Se Isto é Um Homem


(Leituras de Praia)

De: Primo Levi

 

Primo Levi foi um judeu italiano de Turim. Licenciado em Engenharia Química e escritor. Em 1944 foi preso pela polícia italiana e entregue aos alemães que o internaram em Auschwitz Teve a sorte de naquela altura os nazis precisarem de muita mão de obra e, portanto, ter sido poupado ao extermínio como muitos outros, velhos, doentes ou demasiado novos para o trabalho duro. Neste livro, Primo Levi quase não descreve, ou pouco refere os algozes, limitando-se apenas a descrever a vivência entre os internados; as privações, a fome, o frio, o trabalho duro e, principalmente, os roubos, as manipulações maliciosas para conseguirem alimento, roupas, etc. O aproveitamento feito pelos SS daqueles mais duros para serem os dirigentes. Chefes que se impunham pela força e que tratavam os seus iguais de pior forma que os próprios nazis. Os alojamentos com montes de beliches duplos na lateral e em três andares, deixando um espaço exíguo onde os prisioneiros mal cabiam de pé, não podendo durante o dia tocar nas camas feitas apenas com dois pobres cobertores onde mal se podiam enrolar. Em cada andar dos beliches tinham que dormir dois que, não cabendo lado a lado, tinham de deitar-se um com a cabeça junto aos pés do parceiro. A descrição dos cheiros, das latas da urina, das latrinas, etc… é de tal forma que o leitor imaginando, quase consegue sentir os maus odores. Tinham de roubar trapos e papéis para por nos sapatos de madeira que esfolavam os pés ao ponto de terem chagas enormes. Trocavam tudo o que apanhavam por um bocado de pão negro ou por mais litros de sopa de más hortaliças e nabos. O tormento da fome e do frio era enorme e muitos não resistiam, mas muitas vezes preferiam ficar doentes para poderem permanecer uns dias na enfermaria sem irem trabalhar em locais que os obrigavam a grandes marchas demasiado penosas devido ao mau calçado e às feridas nos pés. Só que a doença não podia ser demasiada ou corriam o risco de serem enviados para os fornos de extermínio. Não eram tratados pelo nome que praticamente se perdia, mas sim pelo número tatuado num antebraço. Pouco falavam uns com os outros e as amizades criadas quase não existiam. Havia prisioneiros de imensas proveniências e as línguas eram tantas que mais parecia uma Babel. Eram obrigados a prender imensas palavras em alemão se queriam fazer-se entender por um maior número de internados. O livro foi escrito entre 1945 e 1947, portanto, após os factos vividos. Todo o livro é um registo de horrores que só termina com a fuga dos nazis devido à aproximação dos soldados russos. A partir daí os prisioneiros, com a liberdade, conseguem algum alimento e roupas que os aguentou até à libertação total. Se até ali, Levi perguntava “Se Isto É Um Homem?”, começou então a sentir-se de novo um homem. 

Será que os que ainda hoje põem em causa o Holocausto, leram este livro? Será que alguém pode defender aquele regime?

Primo Levi escreveu muitos mais livros e eu já li pelo menos outro “A Tabela Periódica”. Nesse não falava de Auschwitz, mas apenas de química, a sua química que muito o ajudou nos trabalhos que lhe foram impostos. Mas o mal ficou lá. Primo Levi acabou por se suicidar mais tarde caindo de uma escada interior, apesar da família ter sempre defendido a queda acidental.

À época, Elie Wiesel, um escritor judeu também ele sobrevivente dos campos de concentração nazis, disse que: "Primo Levi morreu em Auschwitz há quarenta anos".    

 


O Estrangeiro


de Albert Camus

Leituras de praia

Nunca tinha lido Camus. Fazia ideia de um filósofo cheio de silogismos e sofismas, e não saiu nada disso. Este Romance até o comecei a achar cheio de vulgaridades, mas a filosofia está lá. Aliás mais na segunda parte do livro do que na primeira.

Um cidadão francês vive e trabalha na Argélia há cinco anos com a mãe, mas esta colocada num asilo por estar doente e ele não ter recursos para a manter num lugar melhor. Pouco a visita, dado o ambiente constrangedor e, até por não haver grande comunicação com a sua progenitora, que pouco fala durante os momentos em que está com ela. Falou apenas uma ou duas vezes no pai que ele não chegou a conhecer e nada lhe dizia.

Recebe uma carta do director asilo a comunicar-lhe a morte da mãe e o nosso homem desloca-se lá para o funeral. Quando na morgue do asilo lhe perguntam se quer ver a mãe diz que não. No funeral um padre faz-lhe a mesma pergunta e torna a recusar. Sente a morte da mãe, mas toma-a como um facto natural.

No prédio onde vive faz amizade com um morador, Raimundo de seu nome, e é visitado pela sua amante Maria. Deseja-a, mas quando ela lhe pergunta se a ama responde que não. Para ele bastava-lhe a companhia, o desejo, o sexo e a comunicação. Amor? Não sentia. O amigo tem uma altercação com o irmão da própria namorada, a quem tinha agredido, e chegam a vias de facto.

Um dia, na praia com a amante e o amigo, são atacados por três árabes e acabam numa cena de pancadaria saindo vencedores, mas um deles, armado de uma faca, ainda deixa o amigo ferido na cara e na boca. Os árabes retiram-se, mas o amigo recomenda cuidado, pois voltariam a atacar. Como o nosso homem estava acompanhado pela sua amante, o amigo empresta-lhe um revólver que ele aceita como defesa.

Mais tarde, Meursault, o nosso homem, volta a praia só, para apanhar o fresco marítimo. Passa por uma gruta onde o árabe, o tal da faca, está deitado. Ao ver Meursault leva a mão ao bolso e saca da faca. A nossa personagem fica na expectativa, mas resolve retirar-se. Nessa altura o árabe ataca e Meursault dispara. Depois, sem saber bem porquê, dá mais quatro tiros no corpo inerte.

É preso e ao fim de meses começa a ser julgado. É durante a sua prisão que verificamos as ideias filosóficas de Camus. O tempo passa e o nosso herói vai pensando na vida e não sente o isolamento da cela e a vida de prisioneiro como uma desgraça e vai-se habituando à sua condição. No julgamento é-lhe atribuído um advogado por ele não o ter nem poder pagá-lo. Durante as sessões, o procurador centra-se mais no facto de ele não ter vertido uma lágrima no funeral da mãe e de se recusar a vê-la, além de não mostrar qualquer arrependimento pelo crime cometido e se recusar a receber o padre na cela. Sobre o crime, acusam-no de premeditação por ter voltado à praia e por ter dado 5 tiros no seu opositor sendo quatro deles depois do corpo caído e inerte. Meursault é condenado por um júri e o juiz destina-lhe morte na guilhotina.

No tempo que antecede a execução, Camus dá então largas á sua filosofia de vida. Na hora da morte o padre torna a insistir com o nosso homem para se arrepender e voltar-se para Deus. Meursault recusa e acaba por quase agredir o padre pela insistência deste. Nunca foi crente, nunca quis ser crente e não seria perante a morte que mudaria.

Numa das laudas de capa, vem referido que Camus mais tarde ao falar deste seu livro, resume-o numa frase: “Numa sociedade, todos os homens que não choram no enterro de sua mãe, correm o risco de serem condenados à morte.”

Meursault viveu sendo apenas sincero e pela verdade morreu.

 


segunda-feira, 15 de junho de 2020

O HOMEM

Escrito em tempos conturbados e troicanos com governos que nos delapidaram os proventos.

(reflexões de um cidadão comum)

(Publicado no Boletim da APE nº 229/13)

 

O homem deambulava pela rua de mãos nos bolsos observando os passantes tentando descobrir os pensamentos de cada um através das expressões e do porte de cada qual. Seria que tinham os mesmos anseios que ele? Seria que gostavam das mesmas coisas?

Seriam cultos? Teriam instrução? E teriam gosto em aprender, em saberem coisas? Ele tinha essa ânsia, essa vontade, esse gosto, mas do que lhe servia isso, se o facto de gostar de saber, de aprender, não lhe dava qualquer poder, quer económico quer de estatuto, continuava o mesmo, sem dinheiro, sem poder de compra, sem proporcionar aos seus aquela vida que gostariam de ter, de ver espectáculos, de sair e frequentar bons restaurantes, de vestir e comer bem sem grande trabalho e sem esforço. Que lhe servia saber discutir meia dúzia de assuntos, acabava tornando-se chato contraditando quase tudo o que os outros diziam, as pessoas falam de tudo e sobre tudo pela rama cometendo montes de erros, mas não gostam que lhos emendem e ele não era capaz de se conter e ainda por cima era um ateu convicto gostando de conhecer e entender os porquês e princípios das religiões, coisa que os crentes normalmente não fazem nem procuram esclarecer-se estando-se nas tintas para os quês e porquês bastando-lhes a fé que lhes incutiram desde o berço não se perguntando se todas as lengalengas que papagueavam tinham algum fundamento e serventia. Olhando os seres andantes de ar macambúzio deslocando-se de e para lado nenhum, perguntava-se se teriam dúvidas sobre o que pensam acreditar ou se não acreditando também duvidariam da descrença. Naturalmente sim, mas talvez não se preocupassem muito e o mais certo seria a porcaria de vida que levavam e o esforço que faziam para sobreviverem não lhes dar sequer tempo para pensarem quanto mais duvidarem de alguma coisa.

Gostava de escrever, mas não tinha grande talento para ficcionar e colocar no papel algo que não fosse trivial, que desse que pensar, que tivesse substrato. Andava e imaginava histórias e cenas para passar ao papel, mas chegava a casa e o que pensara já não lhe parecia suficiente para despertar a atenção de alguém e todo o escritor escreve para que o leiam. Por mais que digam que se pode escrever só por e para exercício da mente, todos anseiam que algum leitor se interesse e lhe faça elogios ou críticas construtivas que o levem a escrever mais e melhor.

No computador estavam montes de escritos inertes, estáticos, inactivos, que lhe apetecia apagar, mas não tinha coragem por serem da sua lavra e do seu esforço, mas que não conseguia mostrar a ninguém por achar-lhes sempre falta de qualidade.

Lia muito e bons autores e quanto mais o fazia mais verificava que aquilo que escrevia não se poderia comparar ao conteúdo sério daquelas obras.

Continuava andando e de repente acordava daquelas divagações interioristas dizendo para si próprio que a sua vida fora cheia, plena de acção, aventura, trabalhos bem-feitos, estudos bem-sucedidos, enfim, realizações que não o deixaram mal, mas que não o realizaram totalmente. Agora, aposentado, já sem acção directa em trabalhos remunerados, procurava realizar serviços para organizações não lucrativas como clubes e associações de que fazia parte o que lhe transmitia alguma sensação de utilidade. Estava no último terço da sua vida e sabia já não lhe restar muito tempo para se afirmar sobre o que fosse.

Também, infelizmente, não soubera gerir os parcos proventos que ganhara de modo a poder agora usufruir de um pouco mais de sossego económico. Infelizmente, o seu país nunca fora capaz de garantir aos que o serviram com risco das próprias vidas, o suficiente para poderem ter uma velhice calma e serena até ao fim dos seus dias. Mas, também sabia que muitos estavam em circunstâncias bem piores e a história mostrava que sempre fora assim.

Passou junto de uma igreja com os crentes saindo da última missa talvez convencidos de que estavam mais protegidos e acompanhados por um deus que faziam protector e pessoal, como se não houvesse neste mundo mais nada com que se preocupar. A fé serve para isso mesmo, é uma forma dos que pouco têm se convençam que vão ser ajudados a ter mais e dos que muito têm fiquem convencidos que nunca nada lhes faltará e os seus proventos e patrimónios aumentarão e ninguém nada lhes tire. Poucos são os que nada pedem para si ou que orem pelos outros que sofrem com a ganância dos que já tudo possuem, mas que ainda mais querem, sugando-lhes o esforço a mente e a vontade.

A maioria dos seres mortais constrói o seu mundo com fronteiras demasiado curtas e o que está para lá não lhes interessa por não lhes dizer respeito. Mas a humanidade é imensa e a maioria sofredora e despojada de quase tudo, sem educação, sem capacidade de sobrevivência e em meios hostis que lhes encurtam a vida e castram os pensamentos. Para que vivem então? Mais valia não nascerem só que isso não é programado e a natureza é fértil em produzir seres que apenas servem para alimento de outros seres, que mais fortes os sugam para sua própria sobrevivência. É assim com todos os animais e o homem não é diferente, mas, por ter entendimento que associa ideias, tenta sobreviver contra tudo e contra todos lutando com todas as armas de que pode dispor, causando batalhas que a ninguém aproveita. Os outros, aqueles que tudo obtêm por exploração dos mais fracos, quando lhes negam a possibilidade do saque, criam motivos para actuarem pela força começando guerras colocando as culpas na parte contrária normalmente mais fraca ou totalmente indefesa. Onde está um deus nessas alturas? Quem defende ele?

Ganham sempre os maus morrem os bons, mas serão mesmo bons? Naturalmente não são, se lhes derem azo de ficarem com os bens e proventos dos maus, acabam tão maus como eles.

O passeio estava a terminar, olhou de novo para os passantes, mas nada viu, voltaram a ser apenas seres que se deslocavam sem pensamento e nexo, nem sempre a aura envolvente dos humanos revela idiossincrasias ou então era ele que já não as perscrutava.

Há realmente momentos para tudo, mas também tudo muda e de repente, pois aquilo que se pensa sente e vê muda totalmente um segundo depois com a alteração de visão, local ou estado de espírito…

 


quinta-feira, 11 de junho de 2020

Interstellar


Filme visto há uns tempos. Escrevi sobre ele e publiquei no Boletim da APE. Resolvi agora colocar aqui a minha crítica.


(Publicado no Boletim 237 de 2015)

 

Não sou grande adepto de ficção científica. Procurei sempre fugir dela quer em filmes, banda desenhada ou livros. A excepção foi o estupendo filme de Stanley Kubrick “2001 Odisseia no Espaço”. Este excelente filme foi uma fuga total aos estereótipos do género. O filme que dá origem a este escrito, “Interstellar”, despertou a minha atenção por alguma crítica que li, levando-me a quebrar um pouco esta minha aversão à ficção científica. Não dei o tempo por perdido, e foi muito tempo, 2 horas e 40 minutos de projecção que se passam num ápice. Mesmo as cenas mais lentas e demoradas não cansam pela ânsia do espectador ao que a seguir virá.

Vê-se que Christopher Nolan, realizador do filme, é um fã de Kubrick, mas descanse o leitor que este filme não é só Kubrick, mas sim o seguimento de um certo espírito de Kubrick num filme diferente. Aqui, Nolan explora muito o ser humano como mesquinho, destruidor, provocador de cataclismos capazes de pôr em risco a vida na Terra, mas por outro lado um ser sentimental agarrado a conceitos morais e familiares, munido de uma capacidade de aventureirismo científico que o leva a tentar encontrar outros mundos onde a humanidade possa sobreviver.

A junção de sentimentos com ciência está muito bem entrosada nesta película e, quem tiver interesse em conhecer alguma coisa sobre o universo e as suas leis, algo de Einstein e de Stephen Hawking, consegue perceber muito bem a odisseia que o filme mostra. Quem não entender nada disso vê o filme como uma boa aventura inter-espacial com personagens dotadas de sentimentos humanos e esperança na continuação da vida. Realmente “wormholes” (buracos de minhoca ou vermes), buracos negros, teoria quântica e domínio da gravidade, não é propriamente para toda a gente, mas não é preciso perceber muito disso pois no filme também não se explicam as coisas de modo a serem entediantes.

Não interessa expressar aqui o argumento mas, no entanto, aqui fica um cheirinho:

 Cooper (Matthew McConaughey), um engenheiro espacial e ex-piloto da NASA, viúvo, dedica-se agora a cultivar milho em larga escala, numa tentativa de produzir alimento para uma população terrestre que já não consegue sustento suficiente num planeta devastado por catástrofes ambientais, onde a seca, os ventos e nuvens de pó tudo secam e devastam. A sua relação com os filhos é excelente e muito próxima mas, acaba convidado por um cientista a retomar a pilotagem de naves com vista a prosseguir investigações iniciadas por três cientistas que tinham partido para três planetas nas proximidades de Saturno, que tinham deixado de transmitir notícias. A sua filha Murphy (Mackenzie Foy, excelente papel) adolescente, sofre com a separação e pede ao pai que não parta, mas o amor entre eles não segura o astronauta que pretende encontrar novo poiso para continuação da espécie humana. A viagem com alguns companheiros, entre eles Brand (Anne Hathaway) a filha do cientista chefe do processo (Michael Caine), acompanhados do super robot-computador Tars (aqui está um elemento kubickiano, uma espécie do computador Hall de 2001) é atribulada mas atinge o objectivo. Cooper, sempre com a ideia de reencontrar os filhos, inicia o regresso vindo a reencontrar a filha, já numa estação na órbita de Saturno como plataforma para o novo mundo entretanto já possível pela resolução, por parte de Murph, da equação em que o professor Brand trabalhava. Só que Murphy está 60 anos mais velha do que ele, apenas poucos anos mais velho, devido à distorção temporal (teoria da relatividade de Einstein) pelo atravessar do buraco negro Gargantua.

A tentativa de procura de um final feliz, mesmo ao estilo americano, foi do que menos gostei. Mas valeu a pena. Filme a não perder.

 


O Padre Ruy


 Esta andava perdida, mas merece estar aqui:

 

Ruy Correia Leal, filho de um general, na altura comandante da antiga Escola do Exército, apareceu nos Pupilos do Exército como padre capelão. Logo de início o nosso padre mostrou-se totalmente diferente daquilo a que os padres nos habituaram. Além de ser um rapaz novo, era companheiro da rapaziada, acompanhava-nos à praia, jogava futebol com a malta e já dizia o seu palavrãozito de quando em vez. Eu, com 17 anos e no meu 1º ano de contabilistas, começara a pôr em causa a minha fé que, até ali, sempre devotara ao Deus que desde muito pequenino me ensinaram a adorar e respeitar. O meu pai, agnóstico, pedia-me para acompanhar a mãe, minha avó, à missa todos os domingos, além da escola e do estado novo que nos obrigava a frequentar a catequese. Aborrecia-me ter de empinar todas aquelas rezas, melopeias que tinham de ser ditas sem falhar uma vírgula, mas por outro lado, encantavam-me os textos bíblicos e as histórias fascinantes da bíblia das escolas. Sabia quase de cor todos os trechos desde Sansão aos irmãos Macabeus e quejandos. Curioso que era li muita coisa de vários autores, muitos deles ateus convictos que se interrogavam e punham em causa todas as religiões. Não é fácil deixar de acreditar em algo que nos vem sendo inculcado desde criança e, como tal, tinha grandes conversas com o padre Ruy solicitando-lhe explicações para aquilo que eu pensava e para as dúvidas que tinha. De princípio, o nosso padre ainda teve alguma paciência para comigo, mas quanto mais difíceis se tornavam as minha perguntas, a atitude do nosso capelão começou a mudar. Além de nada conseguir explicar-me com alguma coerência, começou a embirrar comigo e a tomar-me de ponta. Ora dúvidas em cima de dúvidas, leitura de livros de ciência que muito iam explicando tornando corriqueiro e lógico o que até aí era considerado divino, afastaram-me completamente da religião e dos deuses. Mas aconteceu pior. Por essa altura eu já namorava uma moça, desde o ano anterior, mais velha do que eu três anos. Um dia de Inverno, mas bonito, depois de um passeio pelos campos, chegados a casa, com o frio enrolámo-nos demais e, palavra puxa palavra festinha puxa festinha acalorámo-nos e …

Se fosse hoje era caso corriqueiro, mas naquele tempo foi complicado. Cheio de problemas, resolvi fazer do padre Ruy meu confidente pensando que os seus conselhos me seriam úteis mas, qual quê, a partir daí se já não me podia ver pelas minhas convicções cada vez mais ateístas, pior ficou tratando-me quase abaixo de cão e dando-me não conselhos, mas só proibições que nada me ajudaram e, quando eu lhe mostrava que o que estava feito já estava e, portanto, a continuação dos factos seria natural, as minhas canelas sofreram as pancadas que o piedoso padre me aplicava com a biqueira das pesadas botas que usava.

O meu pai, pessoa de pensamentos já bastante avançados para a época, acabou por ser muito melhor conselheiro. Naquela época a rapaziada pelava-se por ver umas revistas de raparigas pouco ou nada vestidas e fazíamo-lo às escondidas guardando ciosamente essas pecaminosas folhas. Apareceram naquela altura os primeiros calendários com umas pequenas em “topless”

mas bastante compostas com uns calções curtos bem decentes. Em casa, o meu pai arranjou um e eu pedi-lho para mostrar à rapaziada pilónica. Foi um êxito e perante tal, resolvi colar as folhas nas contracapas dos meus cadernos. Um dia, num estudo presidido pelo padre Ruy, estava eu deleitosamente olhando as minhas ninfas quando fui surpreendido pelo padre com olhos em brasa, tipo mefistofélico. As carteiras eram abertas e as minhas pobres canelas pagaram pelo desaforo por mim cometido contra a moral pública. Quando ingenuamente lhe disse que aquilo era bonito e nada tinha de mal além de que me tinha sido oferecido pelo meu próprio pai, não houve qualquer deus ou semideus que me safasse de mais caneladas e algumas galhetas. Que me perdoem os meus camaradas pilões que gostaram do padre Ruy, mas aquilo não era um pedagogo nem um capelão para uma escola como o Pilão. Levei muitas galhetas de oficiais e professores. Todas profícuas e nenhuma me deixou rancores. As do padre Ruy nunca perdoei. Para conclusão da história digo que não casei com aquela namorada. Ao fim de quatro anos, já era alferes, acabámos o namoro por incompatibilidade de feitios além de que já colocado nas Caldas da Rainha me apaixonei por uma “baixinha” muito bonita. Essa também passou à história devido à minha ida para Timor em 1959. No regresso, à terceira foi de vez e encontrei aquela que ainda hoje é minha companheira. O padre Ruy já faleceu, mas não o esquecerei e não pelas suas boas obras. Se alguém se sentir ofendido com este meu escrito paciência, não foi essa a minha intenção.