sexta-feira, 10 de março de 2017

Primeiros tempos em Timor


Capítulo de "O Lagarto". Mais um episódio passado em Timor, já lá vão uns anos bons...


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O Alferes na moto com a caçadeira a tiracolo, arrancou direito à ribeira de Lautem. Ali, as rolas e codornizes eram muitas e podia, com poucos tiros, apanhar bastantes. De miúdo sempre lhe ficara esta mania da caça. Desde lagartixas a todos os bichos, logo que podia, lá se dedicava a apanhá-los com aquele vício terrível de predador sem necessidade. Naquela terra sentia-se em casa, bicharada não faltava. Horas depois com uma cinturada de rolas lá voltava para Dili. Em casa do seu amigo Pilão, bastante mais velho, que conhecera na viagem, deixava a caça, que depois de bem cozinhada pela sua mulher, servia de pretexto ao almoço em conjunto. As relações conseguidas eram absolutamente necessárias ao equilíbrio emocional de um jovem que deixara a casa paterna, namorada e amigos para servir militarmente no Ultramar. Naquela altura e tempo, jovem e ingénuo que era, não se dava conta de como as pessoas, na sua complexidade, de mentalidades tacanhas a viver em terras distantes e climas inóspitos, pensavam. Um dia, o seu amigo pediu-lhe que não fosse tão assíduo na sua casa. Quando percebeu o porquê, ficou completamente arrasado. Mas acabou por compreender. A mulher do seu amigo era uma mulata linda, terna e filha daquela terra quente. Muito mais nova do que ele, era alvo fácil das conversas maledicentes das gentes que, na maioria, incultas e desocupadas, nada mais tinham dentro das mentes que pensamentos arrasadores das virtudes de quaisquer mulheres que mais assiduamente mantinham contactos com os militares oriundos do continente, prestando serviço naquelas paragens. Mais tarde veio a perceber que muitas vezes havia razão para tal.
Em Timor, terra de muita miscigenação, proliferavam filhos, na sua maioria, de antigos deportados que Salazar para lá enviara. Estes, lá longe, deixariam de pensar em “aventuradas” políticas que poderiam pôr em causa a sua liderança num País que o ditador queria calmo, pobre, quieto e não muito evoluído, para assim não se oporem à sua liderança de homem “sóbrio, sapiente, determinado, crente, e patriota”. O “seu” Portugal, enquanto ele pudesse, “não seria palco daquelas malucadas vividas nos Países, ditos democráticos, em que os Governos eram permanentemente alvo de contestação”. Estes deportados, ao fim de alguns anos, por força da sobrevivência, tornavam-se cultivadores do belo café de Timor e, então já abastados, acabavam em membros do Conselho do Governo, apoiando o Governador salazarista, lá colocado. Os seus filhos rapazes, normalmente puxavam mais para a sua terra e suas gentes, acabando por casar com outras mulatas ou até a amancebarem-se com mulheres naturais. Pelo contrário as raparigas tinham voos mais altos, quase todas sonhando com o casamento com um branco que as levasse dali até ao sonho metropolitano, que não conheciam, mas, do que ouviam, julgavam ser o eldorado. Claro que, os militares, único alvo possível, quase sempre se aproveitavam, mas poucos se deixavam prender. As moças, coitadas, acabavam por casar com os seus iguais, muitas vezes levadas pelo romantismo e sonho. Já que não tinham conseguido o objectivo total, deixavam-se enredar em relações extraconjugais com os “amigos” que assim conseguiam fugir a uma estadia que, sem aconchego, namoro e sexo, seria forçosamente um degredo.
Quando compreendeu a situação deixou de usufruir da companhia do seu amigo em sua casa. Limitou-se a encontrá-los no clube ou noutros locais, mas fugia ao convívio mais permanente. Não soube se a mulher dele, moça encantadora e fidelíssima, percebeu a mensagem. Se sim, nunca o deu a entender.
O seu tempo passou a ser mais ocupado com a caça aos veados, a caça submarina e o convívio com os seus camaradas. Aquela terra era um Paraíso. Sossego, bicharada, paisagens de sonho, praias maravilhosas, calor... Pois... o calor... O calor é afrodisíaco, mesmo que se não queira a testosterona não deixa um homem em paz e, as raparigas começam a ser obsessão, mesmo contra tudo e todos, mesmo contra as convicções, acabando-se envolvido em casos amorosos complicados. Com ele assim aconteceu.
Parece impossível, mas aquela terra, que o Salazar se esforçava para mostrar como portuguesíssima, com um Povo Patriota e orgulhoso de ser Português, foi dos territórios do Império, o mais difícil de pacificar. Ainda no século XX, no tempo do Governador Celestino da Silva, houve campanhas militares de pacificação, com surtos ao interior, e muitas mortes entre a população dissidente.
Estava-se em 1959. Uma tentativa de sublevação fora descoberta, tendo originado, na sua repressão, dezenas de mortes, prisões e deportações. Muitos desses dissidentes, deportados para outras “províncias ultramarinas”, só puderam regressar à sua Terra após 25 de Abril. 
Mal chegado, teve de patrulhar a cidade, de noite, armado até aos dentes, prevenindo qualquer atitude mais temerária de possíveis seguidores dos então detidos. Foi nessa altura que, da Índia, chegou a primeira Companhia de soldados brancos continentais. Até aí toda a tropa era indígena sendo metropolitanos apenas os quadros. Parece impossível, mas, com a chegada desses homens, duplicou a população branca de Dili. Veja-se o que era aquela Terra!...
Felizmente, nós, com a nossa maneira simples, sortuda e desenrascada de fazer as coisas, conseguimos dar a volta à situação acabando com as veleidades dos golpistas e Timor voltou a ser o Paraíso na Terra. Ainda bem para o rapaz, que conseguiu tirar da sua estadia o melhor partido, tendo vivido boas e maravilhosas aventuras sempre bem acompanhado e acarinhado. Conseguiu partir uma perna, ter problemas com a cura durante muitos meses e, quase não deu por isso. Quando se é jovem, cheio de vida e sonhos, as contrariedades passam sem darmos por elas.

sábado, 4 de março de 2017

A partida à Mãe

Continuando a respigar alguns textos tirados de outros escritos meus, aqui fica um que faz parte do meu "best seller" (eh...he...eh...) autobiográfico "O Lagarto". Perdoem-me algum vernáculo, mas descrever brincadeiras de putos sem uns palavrõesitos, até ficava mal.
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O puto chegou ao quintal, cagou as mãos de lama tendo antes metido o lagarto no bolso das calças com a cabeça para dentro. – Oh mãe tira-me aqui o lenço do bolso que tenho as mãos sujas...
Pobre senhora. O susto que levou deixou-a sem fala. Nem os gritos saíam da garganta. Até o puto que ria que nem um possesso, ficara depois arrependido da brincadeira não fosse dar algum trangolomango à pobre Mãe que no fundo tão carinhosa era e tão bem o tratava. Depois, pedia desculpa choroso prometendo não voltar a fazê-lo e, também com algum medo que ela fosse contar ao Pai que não era para brincadeiras.
O Pai era companheiro, tinha feito sacrifícios para que o filho estudasse num bom colégio, mas confiava nas capacidades do puto, não chateava com aquelas merdas do vai estudar olha que se não estudares não sais, não senhor lá nisso era bestial o puto lá sabia que aquilo era para seu bem e, portanto, tinha obrigação mas, se as polantices fossem grandes e passassem das marcas... mais valia fugir pois as galhetas eram fortes e bem aplicadas, no entanto lá companheiro era, iam os dois à caça e uma vez por outra até o deixava dar um tirito com a caçadeira, normalmente aos tordos poisados nas oliveiras. Recordava as paródias nas adegas dos amigos quase sempre nas provas da água-pé ficando as caçadas muitas vezes por ali por, às pernas, pesadas demais, a caminhada já não apetecer. Também lembrava as ajudas que deixava dar nas reparações caseiras e na feitura das capoeiras dos coelhos e galinhas de que tanto gostava. Não eram campesinos, antes pelo contrário, de uma família médio-burguesa lisboeta, um Avô paterno que com um curso de Farmácia se estabeleceu em Angola por onde fez andar a família cá e lá e por lá morreu, mas o Pai sempre teve a ideia de viver no campo e assim o fez. Por um lado ainda bem, pois ver passar a juventude metido num andar ou a roçar o cu pelos cafés seria o fim. Assim, apesar de próximo de Lisboa, viver no campo era uma maravilha e, por lá aprender a vida com pastores de cabras e putos de pé descalço, coisa que queria imitar mas nunca foi capaz, sempre teve uns pés de prima-dona, qualquer pedrinha lhe dava cabo da pele e lá tinha de calçar as sandálias. Maricas... maricas... gritavam eles vendo que mal conseguia correr com as sandálias ao pescoço parecia um pardalito saltitando para evitar as pedras pontiagudas que teimavam em foder-lhe os pés. - Vão para a puta que os pariu, vou, mas é calçar-me e deixar as pedras para as cabras e para vocês, cabrões. Estes epítetos eram costumeiros e não ofendiam, a linguagem era livre entre a rapaziada que não via nas palavras significados pejorativos. Aliás toda a gente sabe que as palavras à força de repetição perdem o significado. Se não acreditam experimentem. 
O que se “rénava”, as caçadas aos grilos, as passarinhadas conseguidas com ratoeiras (costelas) e fisgas. A fisga... Ainda hoje existe… era o símbolo da força, a arma de então. Normalmente feita com uma vara bifurcada de oliveira ou acácia e elásticos de câmara-de-ar que se comprava no Pai do Joca, ferro-velho abastado, mas que nunca deu nada a ninguém, e lá iam os dez tostões que a Mãe desencantava depois de muito instada. Eram uns autênticos malabaristas conseguiam acertar numa caixa de fósforos das pequenas a 20 metros de distância. As desgraçadas das lagartixas também serviam de alvo, pobres bichos. Já namorar e andar de fisga no bolso muitas vezes largando a miúda no meio duma grande beijação para tentar lixar um ou outro melro, que incauto poisava perto, era costumeiro. Muitas vezes saía-se pelas 7 da manhã e lá se ia para o campo colocar as ratoeiras. Armados de frigideira, um bocado de banha de porco, um pouco de sal e a fritada era feita mesmo ali depois da passarada depenada e arranjada com o canivete que se guardava numa cova das serras não fossem os Pais dar com ele e era o cabo dos trabalhos, armas brancas consideradas perigosas para eles ou os outros não eram permitidas. Incongruências de adultos que depois os mandavam à erva para os coelhos armados de foices afiadas ou de enxadas de bicos para tratarem do quintal. Como se o canivete fosse arma perigosa e as ditas alfaias apenas servissem para o fim em vista. Outras vezes com uma enfiada de minhocas e uma cana-da-índia, armados de chapéus-de-chuva velhos lá iam em dias de enxurrada quando a água estava bem barrenta, fazer grandes pescarias de enguias que naquele tempo proliferavam numa ribeira onde hoje só corre merda. O canivete servia para os golpes certeiros na nuca das bichas causando-lhes morte imediata impedindo assim a fuga das alcofas de palha, as mochilas daquele tempo. Desde aí o peixe de água doce, sempre lhe soube a minhocas, pelo menos ao cheiro que ficava nos dedos depois da faina.

quinta-feira, 2 de março de 2017

CAÇADAS

Em 1993, o nosso Boletim (Associação dos Pupilos do Exército) fez 50 anos. No trimestre de Out/Dez, o boletim nº 149 foi comemorativo da efeméride. O título desse boletim foi: “Os Pilões de Sempre”. Para esse boletim, muitos ex-alunos contribuíram com os seus escritos. Eu também fui convidado para o fazer e foi a primeira vez que contribuí com algo para a nossa publicação. Resolvi então escrever sobre “Caçadas”. Troquei de computador e passei os conteúdos para a nova máquina. Como foi a primeira vez que passei dados de um computador para outro, meti água e aqueles escritos foram-se. Encontrei agora um exemplar desse boletim e aproveitei para recuperar esse meu artigo. Aqui fica, no meu blog, para a posteridade.

1 – Lembranças do velho Pilão

Ainda hoje quando vejo uma lagartixa tenho a tentação de agarrar uma palha de aveia brava, elaborar um impecável laço na ponta, e dar-lhe caça imediata como fazia há quarenta e tal anos atrás no célebre muro da ribeira na 1.ª Secção.
Era um muro que exercia atracções várias. Desde a caça às ratas, em que o velho e saudoso Bily, cão fogoso e destemido que agarrava tudo o que fosse bicho, nos ajudava, passando pela serventia que tinha para o “salto”, até à caça das lagartixas, para tudo servia.
Sempre que havia oportunidade, normalmente acompanhado pelo Isca (19480251), pelo Calhau (19480247) e alguns outros que certamente o recordarão ao lerem esta lembrança, lá estava eu de palha em punho espreitando as pobres bichanas que ao sol, incautas e preguiçosas, esperavam pacientemente que as moscas se colocassem a distância necessária para que com um salto repentino lhes servissem de almoço.
Depois de várias peripécias e já com algumas lagartixas penduradas, o Isca, o mais irrequieto de todos nós, inventava um divertimento que consistia em fomentar lutas titânicas entre os pobres repteis que, enfurecidos pelo cativeiro, se tornavam ferozes crocodilos mordendo-se mutuamente. Depois, soltos e colocados novamente no muro, os bichos serviam de alvo às certeiras pedradas lançadas pelas fisgas que sempre nos acompanhavam. Os pobres animais raramente escapavam à brincadeira da rapaziada que agia sem maldade mas apenas por gaiatice.
Hoje o muro da ribeira não existe. Os imperativos da urbanização não se compadecem com velhas recordações. É sempre com saudade que passo pela 1.ª Secção e me revejo junto do muro, com os velhos companheiros à caça das lagartixas, como se os quarenta anos passados não tivessem existido.

2 – Lembranças de África

No planalto imenso a quietude era apenas perturbada pela ondulação da folhagem e pelo gritar das aves.
Semi-deitado no banco do jeep deleitava-me com a paz circundante enquanto saboreava a merenda acompanhada de cerveja enlatada já meia mole.
A hora era de paragem. O crepúsculo não permitia a visão, mas era cedo para ligar o farolim. Os homens, deitados sobre o capim, sussurravam talvez relembrando anteriores caçadas.
A escuridão caiu sobre nós. Peguei na velha 375 e fiz sinal. A paz da savana foi que quebrada pelo falatório e movimentação dos homens preparando o material. Os motores roncaram, acenderam-se as luzes, e a caçada começou.
De 375 nos joelhos, saltando a cada solavanco, ia dizendo graçolas ao Lino que, com o farolim varria todo o mato à nossa volta.
Dava gosto observar como aquele homem farolinava. Ele não via, lia no terreno e na vegetação. Com uma única passagem observava o rasto dos animais, os seus excrementos, a direcção por eles tomada e pelas ramagens sabia se os elefantes por ali tinham anbdado. A sensação de caça próxima excitava-me, o meu condutor, homem que conduzia com um olho no bicho outro na picada, disse-me: “Quando as encontrarmos já sabe, apenas um tiro e mortal como de costume. “OK” respondi “já sabes que comigo eles não sofrem.
Mal acabara de falar quando um sinal do Lino me levou a seguir o foco do farolim mostrando-me ao fundo uns olhos bem luminosos. Muito silenciosamente aproximámo-nos das pacaças já alerta pelo ruído e pela luz. Levantavam e baixavam as cabeças denotando inquietação e curiosidade. Quando persentiram o perigo arrancaram. Como que impelido por uma mola o jeep deu um salto e a perseguição começou.
De cotovelos fincados do pára-brisas, baixado sobre o “capot”, e fazendo esforços para me aguentar, apontei ao maior macho que galopava 30 metros à nossa frente. O tiro partiu. O animal atingido desmoronou-se sob um manto de poeira, enquanto os restantes se dispersavam sumindo-se na escuridão. Parámos no momento em que o pacação se levantou. Ficámos frente a frente durante alguns segundos. No silêncio que se seguiu admirei o belo animal que, com chispas no olhar enfrentava os seus inimigos. No instante em que investiu o tiro atingiu-o no coração. Aproximámo-nos. A excitação foi-se esbatendo lentamente enquanto descia do “jeep”. Olhei mais uma vez o corpulento animal abatido.
“Carreguem-no” disse para os homens que, entretanto, se tinham juntado a nós. “Dois tiros? Está a perder qualidades” disse-me o condutor com ar gozão.
Sorri-lhe e dirigi-me ao “jeep” pensando que nem um devia ter dado, mas a febre da caça tomou-me de novo e preparei-me para seguir o rasto da manada que não devia estar longe.

3 – Caçada aos facocheros

O carro ziguezagueava por entre troncos, pedras e buracos. Em cima os caçadores procuravam não acabar no chão ou com a cabeça esmagada contra alguma ramagem. Os tiros, forçosamente mal apontados, iam partindo e deixando no chão rasgos junto dos bichos. A excitação era grande. A poeira secava e entupia as gargantas. O condutor fazia prodígios para se manter na rota dos animais, que serpenteavam escolhendo os piores caminhos. De solavanco em solavanco, tio a tiro, empolgados pela correria, lá iam seguindo os porcos. Um dos animais caiu varado. O carro parou. Alguns tiros para os que fugiam, perderam-se no mato. Tremendo de emoção e excitação, os caçadores sentaram-se junto do facochero abatido. Acenderam-se cigarros. Um dos companheiros falou: “Um dia destes ainda partimos a cabeça”. Todos sorriram. Carregaram o animal, subiram para o carro e continuaram a caçada.

4 – Homens e Bichos

Homem e bicho olharam-se. Nenhum alterou a sua imobilidade. Ambos conheciam o seu valor. Homem que não foge, quando se encontram, é homem habituado à caça e não tem medo. Aquele então, olhava a direito e de forma fixa. Não era um olhar de ódio, mas de admiração e desafio. O primeiro a movimentar-se foi o bicho levantando-se pachorrentamente. Bocejou e voltou costas. O homem levantou a arma e apontou. O bicho, após alguns passos, voltou-se e fixou o adversário. Os olhares cruzaram-se. Ambos sabiam que um movimento mais agressivo podia ser a morte. Após alguns segundos, o bicho seguiu o seu caminho e a arma quedou-se emudecida.


terça-feira, 28 de fevereiro de 2017

POSEIDON E NEPTUNO

Escrevi este texto já lá vão 4 anos. Penso até que já postei, parte dele, aqui. Está na altura de o recordar em honra dos amigos que nadam comigo na piscina.

Mergulhei. A coluna precisa de exercício. Aquelas picadas de Angola e Moçambique deram-lhe muito trabalho. "Precisa de músculos." Disse-me o clínico. "Para aguentar os machucamentos que isso foi tendo. As almofadas também já estão gastas. A idade não ajuda. Olhe que nadar fazia-lhe bem."
Fiz-lhe a vontade. Lá ir todos os dias ao hospital para a fisioterapia é que não vou. Antes lumbágico.
Agora, ali mergulhado, olhava, através dos óculos protectores do cloro, os ladrilhos do fundo da piscina. Os reflexos dourados provocados pela luz solar penetrada através das vidraças da grande janela e movimentando-se na água límpida, pareciam-me fulgores cintilantes desprendendo-se do nada e vindo até mim como mensagens telepáticas, mas visíveis, de um qualquer “Poseidon” de água doce. Fossem ou não missivas de um ser do Olimpo das profundezas, o certo é que me traziam uma enorme sensação de bem-estar, relaxamento e faziam-me esquecer a porcaria em que o meu País se tornara (isto em 2012). O meu pensamento, normalmente inquieto, entrava em letargia.
E pensei; “Lá está a natureza mítica do homem a criar deuses para sossego do seu cérebro irrequieto e temeroso.”
Nadei, mergulhei, procurei e nada encontrei. O deus enviador de luz calmante, não estava lá.

Ao sair da água voltei à realidade. Mas eles estavam lá.

Poseidon versus Neptuno

Poseidon estava sentado sobre um casco de navio afundado quando reparou que uma concha puxada por golfinhos se aproximava. Era Neptuno que o vinha visitar. Poseidon preparou-se para o receber. Já sabia que iam discutir. Nunca se entendiam. Cada um reivindicava a supremacia sobre os oceanos.
– Olá Poseidon – disse Neptuno. – Sentado num casco de navio? Que fazes aí?
– Este, onde me sento, foi baptizado pelos homens com o meu nome. Quem os autorizou a isso? Darem o nome do deus dos mares a uma casca de noz. Como se um simples objecto criado pelos mortais merecesse o meu nome. Para provar que sou o mais poderoso, virei-o ao contrário afundando-o. Foi giro ver todos aqueles seres mesquinhos e pequenotes a tentarem salvar a pele. Morreram quase todos e, não foram todos porque alguém tinha que ficar para contar a história. Vens tu agora, usurpador do meu trono, ou por outra, em tentativa de usurpares o meu trono, colocar algo em causa?
– Estais enganado, o rei dos mares sou eu, assim determinaram os senhores do mundo, que me criaram. Os Romanos assim o quiseram e assim será.
– Rapazola de um raio, quando apareceste já eu reinava há muito sobre os mares. Os meus criadores, os Gregos, eram os detentores das ciências, das filosofias e das artes. Os teus senhores, esses miseráveis Romanos, vieram muito depois usurpar tudo o que de bom os gregos deixaram. Criaram então deuses para substituírem todos aqueles que já por cá andavam, mas as bases são gregas e os principais deuses também. O reino dos mares é meu quer tu queiras ou não.
– Isso veremos. Fui eu que deixei ou permiti que muitos povos percorressem os mares. Fui eu o cantado por Camões e, até Fernando Pessoa, o ilustre poeta português, que me colocou em terra personificado no “mostrengo”, aquele que defendia dos mortais o cabo tormentoso, só se tornando de “Boa Esperança” depois de eu deixar passar aquele povo heróico que descobriu mais de meio mundo. Eu permiti a passagem aos homens, tu mataste-los por ignomínia. Tu que foste engolido pelo teu pai à nascença. Tu que só por bondade de Zeus foste regurgitado por Cronos. Não tens direito a reinar aqui.
– Ah! Ah! Ah! Pobre réplica de mim. A história está cheia de réplicas de deuses como tu. Foi a nossa história, que os teus pais romanos estudaram. Foi essa que copiaram para fazerem seus os nossos deuses. Fizeram-te filho de Saturno e irmão de Júpiter e Plutão. Chamaram-te deus das fontes das águas e também dos terremotos. Que tinha a terra a ver com o mar? Esses romanos eram loucos. Tenho a impressão que houve já alguém a dizer isto… Parece-me que foi o Asterix…
– Asterix? Não conheço.
– Claro! És um ignaro e uma fraude. Asterix foi um que nunca se subjugou aos teus patrões e sempre os combateu nunca lhes permitindo ocupar a sua aldeia na Gália, a Armórica. Foram homens como ele e os seus pares, os percursores da vossa queda. O pior é que outros vieram e outros deuses também criaram, tornando a nossa história em mitologia. Um dia os deuses deles também virarão mitologia e outros deuses aparecerão. Parece que a humanidade, esses pobres seres, não sabem viver sem deuses.
– Caro Poseidon, antes que os nossos tridentes se cruzem, vou dar uma volta por aí. Vai mas é para Copenhague e deixa-te lá ficar sobre um pedestal, eu volto para Florença. Fico numa das fontes que criei.
…
O fundo da piscina reflectia raios dourados como hexágonos que ora se alongavam ora se contraíam como raios eléctricos, chamando-me à realidade. Perdi de vista os deuses que me ocuparam a mente durante segundos e saí para o balneário. Já debaixo do chuveiro constatei que o Asterix também não tinha toda a razão. Não só os Romanos eram loucos, toda a humanidade também…


segunda-feira, 27 de fevereiro de 2017

Concerto para violino e orquestra de Tchaikovsky


(Publicado no Boletim da APE nº 223/11)

Esta é uma das mais sublimes melodias saídas do cérebro de um génio. Pyotr Ilyich Tchaikovsky

Piotr Ilich Tchaikovsky nasceu em Maio de 1840, na cidade de Kamsko-Votkinsk, na Rússia, filho de um ucraniano e de uma russa de ascendência francesa. Desde cedo começou a interessar-se pela música e aos cinco anos já aprendia algumas árias com sua mãe, num velho órgão mecânico da sua casa. Foi em São Petersburgo que o compositor teve as primeiras aulas musicais com diversos professores particulares. A família queria que fosse advogado. Cursou Direito, tendo sido um estudante aplicado e, tendo, ao mesmo tempo, sido empregado no Ministério da Justiça. Em 1863 decide dedicar-se inteiramente à música abdicando da carreira jurídica e matricula-se, por três anos, no Conservatório de São Petersburgo. Mais tarde deu aulas de Teoria Musical e Composição. Foi professor até 1878. Viaja depois pela Europa onde trava conhecimento com grandes mestres e compositores.
O Concerto para violino e orquestra foi composto em 1878 com o intuito de ser pela primeira vez tocado por Leopold Auer, um virtuoso professor de violino da época, mas, por estranho que pareça, este recusou-se a interpretar a peça por achar que a mesma era impraticável, o que deixou o compositor deveras abalado. Mas, em Dezembro de 1881, o seu concerto estreou em Viena interpretado por Adolf Brodsky que se atreveu a executá-la. Auer, muito mais tarde, viria a rever a sua posição e acabou por interpretar a peça que anteriormente rejeitara.
Tchaikovsky não teve uma vida feliz. Problemas com as suas tendências homossexuais, leva-o a escrever ao seu irmão que, para acabar com os rumores e maledicências e, também para tentar livrar-se da sua obsessão sexual, vai casar-se. Casa-se então com uma aluna do Conservatório de Moscovo, Antonina Miliukova. Esse matrimónio obviamente que não resultou, inicialmente porque a sua esposa não se interessava pelas suas composições e projectos mas também porque o compositor não conseguia livrar-se das suas tendências. Foi apresentado, por Rubinstein à baronesa Nadyezhda von Meck, que atraída pela obra de Tchaikovsky o incumbe de algumas transcrições para violino e piano mas, mais tarde, torna-se no seu mecenas, sob a única condição de comunicarem somente por carta. Essa correspondência durou catorze anos, sem nunca se terem visto. O mecenato livrou Tchaikovsky das suas dificuldades financeiras.
Tchaicovsky compôs todo o género de música e toda ela sublime. São conhecidíssimas as suas obras para “Ballet” tais como:
 Lago dos Cisnes, O Quebra Nozes, A Bela Adormecida, entre outros. Nas aberturas, a sua “Abertura 1812” dedicada à vitória russa sobre Napoleão é uma portentosa e empolgante peça musical. E nas óperas, a também célebre, “Eugene Onegin” além de várias sinfonias e concertos.
Lembro-me de, em S. Salvador do Congo, acordar muitas manhãs, ao som maravilhoso do concerto para violino, de três andamentos, interpretado por um genial violinista, de seu nome David Oistrakh, para mim o melhor executante de muitos que já ouvi interpretar este famoso concerto. Mais tarde, o seu filho, com o mesmo nome, foi também um excelente violinista, mas sem chegar ao virtuosismo do pai. Era um disco pertencente a um dos meus furriéis, apaixonado por música clássica e cantor no coro do nosso Teatro de São Carlos. Nunca me cansei de escutar esta obra sublime e ainda hoje o faço principalmente em momentos mais negativos. Recolho-me na minha sala, de porta fechada, e deixo-me envolver. Remédio santo!
Neste concerto, a primazia é dada ao solista, mas a orquestra está lá e, nos momentos certos, irrompe com uma sonoridade impressionante sobre o tema que o solista nos oferece.
Hoje na internet está lá tudo. Podem ver e ouvir grande parte do 1º andamento deste concerto pelo grande David Oistrakh, é só seguirem o “link”.

quarta-feira, 22 de fevereiro de 2017

Árias, aberturas, adágios e quejandos.

Gosto de livros e gosto de música e muita coisa sobre isso já coloquei aqui no blog, o que escrevi abaixo foi publicado no Boletim da Associação dos Pupilos do Exército e, portanto, muitos já conhecem. Se sim passem ao lado. Para quem não conhece é uma sugestão para que oiçam boa música


Hoje vamos falar simplesmente de música. A música, a chamada “boa” música, é como o cinema. Assinalo a palavra boa porque boa é toda aquela de que nós gostamos, seja ela clássica, moderna, rock ou pimba. E digo que é como o cinema, porque ver um filme no sossego e ambiente de uma sala própria, não é a mesma coisa de o ver em casa na TV. Na nossa sala, jantamos, a mulher fala, o cão ladra, a porta toca, os putos berram e nós acabamos por ver o filme atravessado, perdendo normalmente pormenores de muito interesse. Com a música é a mesma coisa. Esta deve ouvir-se ou em salas de concerto ou na nossa sala sozinhos, colocando o CD no aparelho e deixar a quadrifonia espalhar o som de forma, a que o mesmo entre pela nossa cabeça. Sentados na cadeira da sala de concertos ou no sofá da sala, de olhos fechados e ouvido aberto, até podemos “ver” as notas a serem colocadas na pauta pelo compositor, identificar os naipes instrumentais, e imaginar o maestro à frente de uma grande orquestra.
É assim que gosto de ouvir a minha música, ou melhor, gostava, porque, entretanto, o laser do aparelho pifou e ainda não comprei outro. Limito-me agora a colocar o CD no computador e ligar este ao amplificador. Também resulta.
Depois deste intróito vamos então dissertar um pouco sobre árias, aberturas, adágios e quejandos, que valem a pena ouvir, daquele tipo de música de que mais gosto, que é como já é sabido, a dita clássica.
Coloquem o CD no local próprio e rodem o adágio da Thais, de Massenet e deixem-se envolver por essa linda e romântica melodia que nos deixa arrepiados pelo som sublime. Podem depois passar para uma bonita ária, como por exemplo Ó Meu Banbino Caro da ópera Gianni Schicchi, de Puccini. Desta ária existe uma muito boa interpretação de Maria Calas, mas também muitas outras de grandes sopranos. Oiçam a seguir a Serenata de Toselli, o Adágio de Albinoni, o Intermezzo da Cavalleria Rusticana de Mascagni ou o Adagietto da sinfonia nº 5 de Mahler.
Poderão também optar por obras como: As quatro Estações, de Vivaldi, a Abertura 1812, de Tchaikovsky ou a Abertura de O Morcego, de Strauss.
Todas estas músicas que aqui refiro, são excelentes exemplos que desmistificam a música clássica, mostrando quão simples, romântica e melodiosa ela pode ser como qualquer canção dita ligeira. Depois destas audições, estou certo que os meus caros amigos, que não as conheciam, ficarão adeptos e aqueles que já conhecem e apreciam, vão já para o vosso salão mais amplo, colocar o CD na aparelhagem e recordar alguma ou todas estas excelentes obras. Não ponham o som demasiado alto, não só para não darem cabo dos ouvidos, como também para que os vizinhos, menos apreciadores, não comecem a bater nas paredes. Deixem a música penetrar nas vossas consciências e vão ver como depois, estarão mais despertos, sensíveis e conscientes do que vos rodeia e abertos para compreenderem os vossos semelhantes. Se tiverem netos, poderá ser uma boa forma de iniciação à apreciação da bela música, aproveitando também para falarem um pouco sobre a vida e obra dos autores. Serão, de certeza, os ouvintes do futuro. A boa música merece ser ouvida e divulgada.
Para lhes dar um cheirinho aqui fica o link da "Meditação" da Thais numa interpretação da orquestra de câmara da nossa GNR:

http://www.youtube.com/watch?v=M6eRCT_hr1E


E o Adágio de Albinoni com lindas paisagens:

http://www.youtube.com/watch?v=XMbvcp480Y4


E ainda o belíssimo adagietto da sinfonia nº 5 de Mahler dirigido por Bernstein:

http://www.youtube.com/watch?v=bFXBR5Cd0ao

E por agora chega. Se estiverem interessados procurem os outros temas no Google.

sábado, 18 de fevereiro de 2017

A Obra de Deus



Deus estava deveras aborrecido. Dera um piparote num berlinde que por ali andava e provocou uma enorme explosão de bolas, umas grandes, outras pequenas, umas quentes e luminosas, outras mais frias e sem luz, tudo aquilo se expandia e não parava, mas tudo acabava por ser entediante. Ele era o verbo, mas falar para quê e para quem? Levou, pelo menos, uns 9,5 mil milhões de anos a pensar no assunto, até que resolveu pegar numa daquelas bolas, por acaso uma das mais pequenas, e fazer dela uma obra de arte. E tanto se entreteve que nem deu pelo tempo passar. Continuava sem ter ninguém com quem falar, apesar de ser O Verbo. Ao fim, para aí, de uns 4,3 mil milhões de anitos, já farto de peixes, lagartos, ursos, macacos, etc., resolveu criar um macacóide que conseguisse falar, para que a sua mensagem fosse conhecida. Primeiro acabou com umas bichezas a que chamara dinossauros, uma vez que a sua dimensão não seria compatível com o animal que queria criar. Pegou numa imagem do tal macacóide e fez uma a que chamou homem, bastante parecido com os seus congéneres, mas o raio do bicho saiu feio e estúpido. Levou mais uns anitos e ao fim de mais uns 4,296 mil milhões lá conseguiu criar um tipo, mais bem apessoado, que já falava razoavelmente, pensava e construía umas coisitas. Para que não ficasse sozinho, fê-lo acompanhar por uma sua congénere para que se ligassem e tivessem descendência. A partir daí, o tédio de Deus foi desaparecendo. Por essa altura, já teria passado algum tempo e dos 4,296 mil milhões de anos, só faltavam uns duzentos mil anos para a época deste pobre escrito.
A este último espécime, deu o nome pomposo de homo sapiens. Este tipo foi aprendendo umas coisas boas e também outras muito más. Não lhe ligava nenhuma, matavam-se uns aos outros, roubavam-se entre si, raptavam as mulheres uns dos outros, enfim, montes de malvadezes. E aí Deus chateou-se. Escolheu um que era bonzinho e disse-lhe que fizesse uma arca (tipo barco), metesse lá um casal de cada bicheza da terra (grande bote) e que embarcasse junto com a família porque ele ia mandar chuva. E mandou tanta que cobriu o ponto mais alto da terra e lá foi tudo para o bé-lé-léu. Ao fim de 40 dias e 40 noites, o tal embarcadiço mandou uma pomba e ela voltou com um ramo de oliveira no bico (grande esperança). Devem ter-se servido da madeira da arca para fazerem casas porque nunca mais ninguém encontrou sequer vestígios do bote. O certo é que se multiplicaram, e dentro de mais uns anitos lá repovoaram a terra de novo. Mas mesmo assim Deus não conseguiu que se tornassem bons. Continuavam a fazer maldades e até houve duas cidades onde se entretiveram a copular uns com os outros, mesmo os de sexos iguais. Crime de lesa pátria, se fosse hoje, Deus ficaria muito mais lixado ainda, mas naquele tempo não havia Assembleias Legislativas para legalizarem essas más coisas, o facto era crime de lesa majestade. Vai daí Deus resolveu acabar com essas duas cidades e desta vez foi pelo fogo. Mas salvou uma família, pai, mãe e duas filhas e disse que fugissem para a montanha sem olhar para trás ou eram severamente castigados. Dizer isso a um homem, ou até a crianças obedientes ainda vá, mas dizê-lo a uma mulher feita, é coisa que não se faz. Mulher não consegue passar e não dar uma espreitadela. Foi o que ela fez e ficou transformada em estátua de sal. Sal? Porquê? De pedra ainda vá, mas de sal? No meio da montanha? E o pior é que lá ficou o pai, só com as meninas dentro de uma caverna. Ao fim de uns anos, as coitadas não tinham descendência e resolveram embebedar o pai e com ele terem relações para engravidarem. Se assim o pensaram melhor o fizeram e lá se consumou o incesto. Não percebo essa. Então Deus destrói duas cidades por pederastia e lesbianismo e depois aceita o incesto? Mau! Que raio de critério. Mas Deus queria era voltar a criar comunidades a partir de seres bons e cumpridores. Parece que nunca conseguiu. Omnipotente? Onde? Os tais homosapiens, agora já todos só chamados homens, continuaram a portarem-se mal e a não temerem a Deus. Com medo de serem novamente afogados por ouro dilúvio, que nunca mais chegou, resolveram construir uma torre tão alta que nenhum dilúvio a cobrisse. Deus zangou-se novamente e resolveu confundir-lhes as línguas, o que foi uma grande gaita. Dos resquícios dessa torre, devem ter feito muitos tijolos, pois todo o mundo continua à procura e ninguém lhe encontra uma pedrinha sequer. A partir daí foi a confusão total até aparecerem os ingleses que, como nunca conseguiram aprender qualquer outra língua transformaram a deles em língua universal. Ainda houve uns artistas que tentaram e conseguiram construir uma língua universal, o esperanto, mas os ingleses nem essa aprenderam e boicotaram tudo de novo sem apelo nem agravo. A partir daí Deus deve ter mandado tudo às couves pois nunca mais castigou a humanidade. Mas a dita humanidade, quase toda, continua agarrada a Deus e não só ao ser de quem falámos, arranjaram outros e estabeleceram-lhes diversos cultos. Se tivessem ficado por aí, vá que não vá, mas o pior é que cada culto só admitia o seu como verdadeiro e guerreava os outros. Conclusão, guerras não faltaram e nenhum dos deuses lhes valeu. Parece pois que os seres divinos se zangaram de todo com os homens e voltaram para o “dolce fare niente”. Até que apareceu um tipo chamado Abraão que nasceu em Ur cidade suméria num território, hoje chamado Iraque. Esse rapaz teve dois filhos, um de sua escrava, a quem deu o nome de Ismael e outro Isac.
O Ismael fundou a religião ismaelita ou islamita e o Isac a religião judaica. Mais tarde da Judaica nasce a Cristã e das duas nasce o mundo muçulmano através do profeta Maomé. Mais valia que estivessem quietos. A partir daí foi o granel total e Deus entrou em greve.