Fui ver o filme do Sean Penn “The
Last Face” que aqui foi traduzido como A Última
Fronteira. Sean Penn, além de um excelente actor, entrou bem no mundo da
realização. Conhecido pelas suas lutas pelos direitos humanos, este
actor/realizador, mostra-nos um filme de amor num cenário de guerras desumanas
em África, de rebeldes contra governos, numa ânsia de derrube dos mesmos, não
para governarem pelos povos, mas antes pela obtenção de poder que lhes
permitirão todos os desmandos para alcançarem riqueza e poder pessoal. Um
médico cirurgião, espanhol, de uma ONG “Médicos do Mundo” Dr. Miguel Leon
(Javier Bardem) atravessa constantemente fronteiras percorrendo campos de
refugiados tentando tratar toda a espécie de doenças e feridos vítimas de
rebeldes e governos, onde tudo falta, desde comida, água e medicamentos. Os
ambientes são dantescos, em cenários de destruição e sangue. Conhece uma médica
americana, Wren Petersen (Charlize Theron) que há muito não exerce, apenas
dedicada a angariar fundos, para essas ONG, em festas e reuniões onde todos
aplaudem, contribuem de lágrima no olho, mas no dia seguinte seguem as suas
vidas de luxo, esquecendo rapidamente o que se passa fora das suas fronteiras e
não os afecta. Ambos se apaixonam, mas o amor é quase impossível naquele
ambiente que ele não larga e ela não aguenta. O filme é entrecortado com vários
“flash back”, onde se mostra o seu encontro em várias situações anteriores e
até posteriores, situação que na primeira parte do filme se torna um pouco
desconexa, mas que, no decorrer se torna compreensível. O filme é um libelo
acusatório às nações que, pelo petróleo e outras matérias primas, e também pela
venda de armas, promovem as guerras armando grupos contra governos que depois
nunca mais controlam. Um pequeno papel, também de um médico francês, foi dado
ao conceituado actor “Jean Reno”. Os nossos protagonistas acabam por separar-se,
voltando ele para a sua luta de tentativa de salvador de vidas e ela para os
discursos de atenção à causa dos conflitos, não conseguindo ambos os seus
objectivos por a luta ser inglória. Mais tarde, após um empolgante discurso e,
já no seu camarim Wren recebe a notícia da morte de Miguel, num avião abatido
algures na pobre África ao abandono devido às más colonizações que só a
exploraram e não a formaram para poder ser governada pelos seus. As cenas de
guerra e de encontros armados, não são muito exageradas, mas suficientes para ambientar
o espectador. Não sendo nenhuma obra-prima, é um bom filme que se vê muito bem
e nos deixa amargos constrangimentos.
sábado, 8 de abril de 2017
sábado, 1 de abril de 2017
O Papa Francisco
As Igrejas não são mais do que
seitas. Penso que uma seita também não é mais do que um grupo que se vai
organizando por agregação de membros catequizados contra algo que consideram
mau ou maléfico, tentando através de ordens (catecismos) impor a sua vontade. A
Igreja católica constituiu-se na época de Constantino e teve no Concílio de
Niceia as suas primeiras linhas estatutárias. Como todas as seitas, ela foi agregando
cada vez mais correligionários, umas vezes pela palavra e muitas vezes pela
força. Penso que deve ter sido mais ou menos como no tempo do Estado Novo “se
queres ser funcionário público tens de ser Legionário”. Pregando uma moral que
convinha aos Estados, era também uma forma de levar os povos para o sossego, que
pensando na vida para além da morte, deixavam tranquilos os governantes. Como
seita criada pelos estados manteve-se sempre ao lado destes, sejam eles
ditatoriais ou democráticos, com poucas excepções. Devido a tal, muitas outras
seitas apareceram com ideias, às vezes semelhantes, mas combatendo a
organização clerical. Temos os exemplos da Maçonaria, Rosa Cruz, etc., e até
algumas satânicas.
As seitas, bem organizadas,
sempre tiveram chefes. Na católica temos o Papa, na Maçonaria os grão-mestres,
etc… falemos então dos papas. Estes foram quase senhores do Mundo. Na
antiguidade o papa, sediado (não gosto da palavra pois cheira-me a feito de
seda), direi, pois, implantado praticamente no centro da Europa, punha e
dispunha sobre reis e governos, aceitando-os ou destituindo-os. Com o cisma, as
reformas, etc., os reis foram-se impondo e libertando-se desse jugo, que era
apenas “divino” e não político.
Tivemos papas bons e papas maus.
Alguns, demasiados, foram déspotas, corruptos, desbragados, pedófilos, homossexuais,
abusando da luxúria. Com a modernidade foram assentando tornando-se mais cautelosos.
Houve também os muito crentes e os assim, assim.
Presentemente temos um Papa de
quem eu gosto. Parece bom tipo e, apesar de ainda nada ter alterado, tem uma
conversa mais aberta sobre certos dogmas difíceis de entrar em cabeças
pensantes. Já houve um que acabou com o Limbo, outro que mandou o Purgatório às
couves, outro que não gostava de preservativos e este que agora até defende as
mulheres deixando o problema do aborto à consciência das mesmas e até já se
armou em bombeiro apagando as chamas do inferno.
Agora, este Papa, decepcionou-me.
Penso que o nosso Xico 1º não acredita em Fátima, não pode acreditar que uma
terrena, a mãe de Jesus, se tenha armado em tordo e, voando por cima das
azinheiras, se tenha dado ao trabalho de vir falar de segredos de alta política
e estratégia, como a conversão da Rússia, a três crianças quase analfabetas, em
que a mais velha era burra que nem um soco, além de mitómana compulsiva. Já em
França, apareceu a “Bernardette”, que além de mitómana era atrasa mental. Como
costumo dizer, por que é que a dita santa, não apareceu na faculdade de
filosofia falando para uma turma do último ano acompanhada pelo catedrático?
Pois, mas o certo é que o nosso Xico vem a Fátima quando eu pensava que não
viria. Decepciono-me. Mais uma vez o povo vai ser enganado, quando para lá for
à procura de milagres que só acontecem aos paraplégicos mentais. Milagre seria
ir lá um tipo sem uma perna e voltar com as duas, mas isso…. Pois sim…
Olha, rapaz Xico, espero que
tenhas discernimento suficiente para transmitires ao povo ideias políticas de
como democraticamente se devem comportar para levar o poder a pugnar pelos seus
direitos e deixes de criar nas suas cabeças ideias de entrega a poderes “divinos”
que nada resolvem. Se fizeres isso, estás perdoado.
domingo, 26 de março de 2017
O Sr. Elisiário e os meus 80 anos.
Teria para aí uns onze doze anos,
andava no Pilão e, aos fins de semana ou em férias, ia à caça com o meu pai
armado de varapau, para ir dando umas pancaditas nas moitas, fazendo muitas
vezes saltar um coelhito ou outro para o meu pai atirar e, muitas vezes errar.
Lembro que caçava com o grupo, o Sr. Elisiário a quem carinhosamente todos tratavam
pelo velhote. Os caçadores e eu próprio, pasmávamos como o senhor, já com 79
anos, ainda andava quilómetros a acompanhar-nos o dia inteiro. Sempre com as
suas calças de cotim, uma camisa cinzenta de manga comprida e um boné de pala,
o velho Elisiário lá estava no meio de nós aquando das caçadas. Com a sua
espingarda calibre 12, de cães de orelhas, muito usada, já um pouco curvado, lá
ia andando e atirando aos coelhos quando algum lhe passava a jeito. Não era
grande atirador. Comprara a espingarda em segunda mão (eu diria terceira ou
quarta) há pouco tempo, pois também há pouco largara o pau de caçador batedor.
Mas o que mais me admirava era a sua estoicidade e a capacidade de caminhar por
montes e vales atrás de nós como se tivesse trinta anos. No dia seguinte “o
velhote” lá estava com a mesma fardamenta, equipado com uma enxada de dois
bicos, a cavar a horta no quintal e a limpar a meia dúzia de árvores de fruto
que possuía. “Bom dia Sr. Elisiário” dizia eu ao passar na estrada junto ao
gradeamento. “Bom dia menino” dizia o nosso “velhote” nunca se esquecendo de
tirar o boné da cabeça.
Lembro esta figura da minha
infância a propósito dos meus 80 anos (completados hoje). Agora compreendo o
Sr. Elisiário por eu próprio ainda caçar manhãs inteiras às perdizes e ser
capaz de saltar os estuporados aramados sem me deixar ficar para trás da outra
“rapaziada”. Se me chamassem velhote, ficaria, não diria melindrado, mas um
pouco admirado, até porque muitos dos companheiros andam na casa dos setenta e
picos e, quando sozinho, lembro-me do “velhote” Elisiário”.
Quando somos muito novos temos
tendência de ver os outros, já adultos, como velhos. À medida que vamos
crescendo e envelhecendo, essa tendência vai mudando e nós próprios nos
tornamos sempre novos.
Passados alguns anos o Sr.
Elisiário deixou de nos acompanhar e, eu ao passar na estrada para a estação de
caminho de ferro, olhava para o quintal na esperança de o ver, mas ele já lá
não estava. Faleceu pouco tempo antes de eu deixar o Pilão, teria os seus 87
anos. Caçou, é certo mais moderadamente,
quase até ao fim.
Espero ainda caçar por mais alguns
anos apesar de agora menos vezes, dado que já não temos a nossa Associativa,
mas ainda tenho alguns convites da “rapaziada” amiga. Espero também andar atrás
das perdizes recordando o “velhote” Elisiário. Se fosse crente, e acreditasse
na vida para além da morte, certamente o “velhote” estaria sentado numa nuvem
de espingarda a postos, de tocaia aos coelhos celestes, provavelmente brancos.
domingo, 19 de março de 2017
A Caça
(Parte de um capítulo de O Lagarto)
A
mulher não gostava nada dessa sua actividade. Qualquer ocupação que o marido
tivesse em que ela não participasse, não era lá muito apreciada. Era uma
questão de possessivismo. O marido era dela e para ela. A caça era para ele e
outras companhias de que ela não fazia parte. Isso incomodava-a, mas ajudava-o
preparando o petisco para o almoço que no dia seguinte ele comeria juntamente
com o grupo dos outros caçadores seus companheiros de jornada. Ele bem sabia
que, no fundo, aquela sua actividade, não era lá muito bem-querida pela sua
mulher. Por norma ficava só quase todos os domingos durante a época cinegética
e tudo que a afastasse dele entristecia-a. Por outro lado, também sabia, que
tudo aquilo que lhe dava prazer, era por ela tolerado e apoiado. Trabalhava uma
semana inteira numa profissão de desgaste intenso e aquela actividade ao ar
livre era uma panaceia que lhe devolvia a força para enfrentar a realidade da
semana seguinte. Nada lhe dava mais prazer do que aquela simbiose com a
natureza, aquele descanso de alma que se sente no campo, a caminhada, o
convívio com os companheiros, a companhia do seu parceiro fiel, da conversa que
com ele ia mantendo durante a procura, esquecendo-se ou nem sequer tendo noção
de que o bicho não responderia por palavras mas que os sinais que lhe devolvia
se transformavam nas ditas que naturalmente não poderia pronunciar. A prática
do tiro era outra actividade que também o preenchia apesar do pouco tempo de
que dispunha para o praticar no clube, onde era sócio. O tiro na caça era uma
satisfação. A arma levada ao ombro num movimento coordenado, rápido mas suave,
a cara sobreposta sobre a coronha, o cano no seguimento da linha dos olhos, o
seguir da peça, o passar por ela, o disparar sem parar o movimento e aquela
sensação da peça abatida mesmo antes de ser atingida era um prazer quase
orgástico. Mesmo quando as coisas não corriam bem e errava o tiro, não sentia
frustração e logo partia para outra ainda com mais vontade na procura. Achava
muito engraçada a atitude do seu cão, quando após dois ou três tiros e a peça
não caía, o bichano o olhava com alguma interrogação como que perguntando: como
aconteceu isto? Então o bicho foi-se? Mas logo abanava a cauda como quem lhe
perdoava o erro e o incentivava a prosseguir sem esmorecimento.
Às
vezes, no convívio com casais amigos, era confrontado com opiniões contra a
caça numa defesa exagerada dos direitos dos animais, na defesa dos bichos
selvagens e da preservação das espécies. Defesa normalmente efectuada por
fundamentalistas urbanos sem terem qualquer conhecimento da natureza, do
interior do país, dos usos e costumes das populações. Pessoas que cresceram
arrastando rabos obesos sobre cadeiras de cafés e discotecas, que nunca viram
um bicho nascer ou morrer, que se esquecem de que os bifes que deglutem sofregamente
são provenientes de um animal que sofreu com o abate, que não diferenciam um
coelho duma lebre, que nunca viram uma vaca sem ser em imagem ou no prato
transformada em tornedó. Estes indivíduos vêm o caçador apenas como mais um
predador, esquecem-se que um caçador que se preze é um amante da natureza,
protege e faz renovação de espécies, faz planos de abate de forma a não
causticar espécies e permitir que o desenvolvimento da próxima época seja maior
que o da anterior. Esquecem que após a liberalização que se seguiu à revolução
de Abril, a abertura desordenada de direito à caça, ia acabando com as espécies
e que agora, com a ordenação do território cinegético, as associações de
caçadores voltaram a por em ordem a actividade, estando à vista os resultados
na criação e desenvolvimento da caça que tanto prazer dá a milhares de pessoas
além do interesse económico que tem para o país.
Naquele
dia começaram muito cedo. À chegada, após os cumprimentos, ditos e graçolas
lançados aos companheiros que não via desde a semana anterior, organizaram
portas e linhas, dispuseram os lugares, chamaram os cães e empreenderam a
marcha. Chapéu na cabeça, aba ligeiramente flectida sobre o olho direito, para
tapar do sol ainda não nascido, mas a mostrar já a sua claridade, arma cruzada
à frente do peito, cartuchos inseridos, último sinal ao cachorro para moderar o
andamento, iniciaram a marcha.
Poucos
metros andados, a atitude do seu companheiro canino deu sinal de caça próxima.
A excitação começou a apoderar-se de todo o seu corpo. Os dedos seguraram a
arma que foi pondo a jeito. Os sinais eram cada vez mais de caça próxima. À
paragem do cão, aproximou-se com cuidado tentando adivinhar para que lado a
perdiz iria saltar. Esperou um pouco e deu voz ao cão: – Anda com ela!
O
tiro atingiu a perdiz em cheio que morreu instantaneamente. Quando o seu
companheiro lha deixou na mão o ciclo completou-se. Perdiz, cão e Homem
tinham-se encontrado.
Ao
almoço, a descrição da caça àquela perdiz, era feita com gestos e sons algo
exagerados pela loquacidade um pouco provocada pela ingestão das iguarias,
sempre tão saborosas quando comidas ali no monte e também por alguns vapores do
bom vinho indispensável nestes almoços.
Ali,
os homens provavam e demonstravam não serem matadores de bichos, mas apenas
caçadores.
sexta-feira, 10 de março de 2017
Primeiros tempos em Timor
Capítulo de "O Lagarto". Mais um episódio passado em Timor, já lá vão uns anos bons...
...
O
Alferes na moto com a caçadeira a tiracolo, arrancou direito à ribeira de
Lautem. Ali, as rolas e codornizes eram muitas e podia, com poucos tiros,
apanhar bastantes. De miúdo sempre lhe ficara esta mania da caça. Desde
lagartixas a todos os bichos, logo que podia, lá se dedicava a apanhá-los com
aquele vício terrível de predador sem necessidade. Naquela terra sentia-se em
casa, bicharada não faltava. Horas depois com uma cinturada de rolas lá voltava
para Dili. Em casa do seu amigo Pilão, bastante mais velho, que conhecera na viagem, deixava a caça, que depois de bem
cozinhada pela sua mulher, servia de pretexto ao almoço em conjunto. As relações
conseguidas eram absolutamente necessárias ao equilíbrio emocional de um jovem
que deixara a casa paterna, namorada e amigos para servir militarmente no
Ultramar. Naquela altura e tempo, jovem e ingénuo que era, não se dava conta de
como as pessoas, na sua complexidade, de mentalidades tacanhas a viver em
terras distantes e climas inóspitos, pensavam. Um dia, o seu amigo pediu-lhe
que não fosse tão assíduo na sua casa. Quando percebeu o porquê, ficou
completamente arrasado. Mas acabou por compreender. A mulher do seu amigo era
uma mulata linda, terna e filha daquela terra quente. Muito mais nova do que
ele, era alvo fácil das conversas maledicentes das gentes que, na maioria,
incultas e desocupadas, nada mais tinham dentro das mentes que pensamentos
arrasadores das virtudes de quaisquer mulheres que mais assiduamente mantinham
contactos com os militares oriundos do continente, prestando serviço naquelas
paragens. Mais tarde veio a perceber que muitas vezes havia razão para tal.
Em
Timor, terra de muita miscigenação, proliferavam filhos, na sua maioria, de antigos deportados que
Salazar para lá enviara. Estes, lá longe, deixariam de pensar em “aventuradas”
políticas que poderiam pôr em causa a sua liderança num País que o ditador
queria calmo, pobre, quieto e não muito evoluído, para assim não se oporem à
sua liderança de homem “sóbrio, sapiente, determinado, crente, e patriota”. O
“seu” Portugal, enquanto ele pudesse, “não seria palco daquelas malucadas
vividas nos Países, ditos democráticos, em que os Governos eram permanentemente
alvo de contestação”. Estes deportados, ao fim de alguns anos, por força da
sobrevivência, tornavam-se cultivadores do belo café de Timor e, então já
abastados, acabavam em membros do Conselho do Governo, apoiando o Governador
salazarista, lá colocado. Os seus filhos rapazes, normalmente puxavam mais para
a sua terra e suas gentes, acabando por casar com outras mulatas ou até a
amancebarem-se com mulheres naturais. Pelo contrário as raparigas tinham voos
mais altos, quase todas sonhando com o casamento com um branco que as levasse
dali até ao sonho metropolitano, que não conheciam, mas, do que ouviam,
julgavam ser o eldorado. Claro que, os militares, único alvo possível, quase
sempre se aproveitavam, mas poucos se deixavam prender. As moças, coitadas,
acabavam por casar com os seus iguais, muitas vezes levadas pelo romantismo e sonho. Já que não tinham conseguido o objectivo total, deixavam-se
enredar em relações extraconjugais com os “amigos” que assim conseguiam fugir a
uma estadia que, sem aconchego, namoro e sexo, seria forçosamente um degredo.
Quando
compreendeu a situação deixou de usufruir da companhia do seu amigo em sua
casa. Limitou-se a encontrá-los no clube ou noutros locais, mas fugia ao
convívio mais permanente. Não soube se a mulher dele, moça encantadora e
fidelíssima, percebeu a mensagem. Se sim, nunca o deu a entender.
O
seu tempo passou a ser mais ocupado com a caça aos veados, a caça submarina e o
convívio com os seus camaradas. Aquela terra era um Paraíso. Sossego,
bicharada, paisagens de sonho, praias maravilhosas, calor... Pois... o calor...
O calor é afrodisíaco, mesmo que se não queira a testosterona não deixa um
homem em paz e, as raparigas começam a ser obsessão, mesmo contra tudo e todos,
mesmo contra as convicções, acabando-se envolvido em casos amorosos complicados.
Com ele assim aconteceu.
Parece
impossível, mas aquela terra, que o Salazar se esforçava para mostrar como
portuguesíssima, com um Povo Patriota e orgulhoso de ser Português, foi dos
territórios do Império, o mais difícil de pacificar. Ainda no século XX, no tempo
do Governador Celestino da Silva, houve campanhas militares de
pacificação, com surtos ao interior, e muitas mortes entre a
população dissidente.
Estava-se
em 1959. Uma tentativa de sublevação fora descoberta, tendo originado, na sua
repressão, dezenas de mortes, prisões e deportações. Muitos desses dissidentes,
deportados para outras “províncias ultramarinas”, só puderam regressar à sua
Terra após 25 de Abril.
Mal
chegado, teve de patrulhar a cidade, de noite, armado até aos dentes,
prevenindo qualquer atitude mais temerária de possíveis seguidores dos então
detidos. Foi nessa altura que, da Índia, chegou a primeira Companhia de
soldados brancos continentais. Até aí toda a tropa era indígena sendo
metropolitanos apenas os quadros. Parece impossível, mas, com a chegada desses
homens, duplicou a população branca de Dili. Veja-se o que era aquela Terra!...
Felizmente,
nós, com a nossa maneira simples, sortuda e desenrascada de fazer as coisas,
conseguimos dar a volta à situação acabando com as veleidades dos golpistas e
Timor voltou a ser o Paraíso na Terra. Ainda bem para o rapaz, que conseguiu
tirar da sua estadia o melhor partido, tendo vivido boas e maravilhosas
aventuras sempre bem acompanhado e acarinhado. Conseguiu partir uma perna, ter
problemas com a cura durante muitos meses e, quase não deu por isso. Quando se
é jovem, cheio de vida e sonhos, as contrariedades passam sem darmos por elas.
sábado, 4 de março de 2017
A partida à Mãe
Continuando a respigar alguns textos tirados de outros escritos meus, aqui fica um que faz parte do meu "best seller" (eh...he...eh...) autobiográfico "O Lagarto". Perdoem-me algum vernáculo, mas descrever brincadeiras de putos sem uns palavrõesitos, até ficava mal.
...
O
puto chegou ao quintal, cagou as mãos de lama tendo antes metido o lagarto no
bolso das calças com a cabeça para dentro. – Oh mãe tira-me aqui o lenço do
bolso que tenho as mãos sujas...
Pobre
senhora. O susto que levou deixou-a sem fala. Nem os gritos saíam da garganta.
Até o puto que ria que nem um possesso, ficara depois arrependido da
brincadeira não fosse dar algum trangolomango à pobre Mãe que no fundo tão
carinhosa era e tão bem o tratava. Depois, pedia desculpa choroso prometendo
não voltar a fazê-lo e, também com algum medo que ela fosse contar ao Pai que
não era para brincadeiras.
O Pai
era companheiro, tinha feito sacrifícios para que o filho estudasse num bom
colégio, mas confiava nas capacidades do puto, não chateava com aquelas merdas
do vai estudar olha que se não estudares não sais, não senhor lá nisso era
bestial o puto lá sabia que aquilo era para seu bem e, portanto, tinha
obrigação mas, se as polantices fossem grandes e passassem das marcas... mais
valia fugir pois as galhetas eram fortes e bem aplicadas, no entanto lá
companheiro era, iam os dois à caça e uma vez por outra até o deixava dar um
tirito com a caçadeira, normalmente aos tordos poisados nas oliveiras.
Recordava as paródias nas adegas dos amigos quase sempre nas provas da água-pé
ficando as caçadas muitas vezes por ali por, às pernas, pesadas demais, a
caminhada já não apetecer. Também lembrava as ajudas que deixava dar nas
reparações caseiras e na feitura das capoeiras dos coelhos e galinhas de que
tanto gostava. Não eram campesinos, antes pelo contrário, de uma família
médio-burguesa lisboeta, um Avô paterno que com um curso de Farmácia se
estabeleceu em Angola por onde fez andar a família cá e lá e por lá morreu, mas
o Pai sempre teve a ideia de viver no campo e assim o fez. Por um lado ainda
bem, pois ver passar a juventude metido num andar ou a roçar o cu pelos cafés
seria o fim. Assim, apesar de próximo de Lisboa, viver no campo era uma
maravilha e, por lá aprender a vida com pastores de cabras e putos de pé
descalço, coisa que queria imitar mas nunca foi capaz, sempre teve uns pés de
prima-dona, qualquer pedrinha lhe dava cabo da pele e lá tinha de calçar as
sandálias. Maricas... maricas... gritavam eles vendo que mal conseguia correr
com as sandálias ao pescoço parecia um pardalito saltitando para evitar as
pedras pontiagudas que teimavam em foder-lhe os pés. - Vão para a puta que os
pariu, vou, mas é calçar-me e deixar as pedras para as cabras e para vocês,
cabrões. Estes epítetos eram costumeiros e não ofendiam, a linguagem era livre
entre a rapaziada que não via nas palavras significados pejorativos. Aliás toda
a gente sabe que as palavras à força de repetição perdem o significado. Se não
acreditam experimentem.
O
que se “rénava”, as caçadas aos grilos, as passarinhadas conseguidas com
ratoeiras (costelas) e fisgas. A fisga... Ainda hoje existe… era o símbolo da
força, a arma de então. Normalmente feita com uma vara bifurcada de oliveira ou
acácia e elásticos de câmara-de-ar que se comprava no Pai do Joca, ferro-velho abastado,
mas que nunca deu nada a ninguém, e lá iam os dez tostões que a Mãe
desencantava depois de muito instada. Eram uns autênticos malabaristas
conseguiam acertar numa caixa de fósforos das pequenas a 20 metros de
distância. As desgraçadas das lagartixas também serviam de alvo, pobres bichos.
Já namorar e andar de fisga no bolso muitas vezes largando a miúda no meio duma
grande beijação para tentar lixar um ou outro melro, que incauto poisava perto, era costumeiro. Muitas vezes saía-se pelas 7 da manhã e lá se ia para o
campo colocar as ratoeiras. Armados de frigideira, um bocado de banha de porco,
um pouco de sal e a fritada era feita mesmo ali depois da passarada depenada e
arranjada com o canivete que se guardava numa cova das serras não fossem os
Pais dar com ele e era o cabo dos trabalhos, armas brancas consideradas
perigosas para eles ou os outros não eram permitidas. Incongruências de adultos
que depois os mandavam à erva para os coelhos armados de foices afiadas ou de
enxadas de bicos para tratarem do quintal. Como se o canivete fosse arma
perigosa e as ditas alfaias apenas servissem para o fim em vista. Outras vezes
com uma enfiada de minhocas e uma cana-da-índia, armados de chapéus-de-chuva
velhos lá iam em dias de enxurrada quando a água estava bem barrenta, fazer
grandes pescarias de enguias que naquele tempo proliferavam numa ribeira onde
hoje só corre merda. O canivete servia para os golpes certeiros na nuca das
bichas causando-lhes morte imediata impedindo assim a fuga das alcofas de
palha, as mochilas daquele tempo. Desde aí o peixe de água doce, sempre lhe
soube a minhocas, pelo menos ao cheiro que ficava nos dedos depois da faina.
quinta-feira, 2 de março de 2017
CAÇADAS
Em 1993, o nosso Boletim
(Associação dos Pupilos do Exército) fez 50 anos. No trimestre de Out/Dez, o
boletim nº 149 foi comemorativo da efeméride. O título desse boletim foi: “Os
Pilões de Sempre”. Para esse boletim, muitos ex-alunos contribuíram com os seus
escritos. Eu também fui convidado para o fazer e foi a primeira vez que contribuí
com algo para a nossa publicação. Resolvi então escrever sobre “Caçadas”.
Troquei de computador e passei os conteúdos para a nova máquina. Como foi a
primeira vez que passei dados de um computador para outro, meti água e aqueles
escritos foram-se. Encontrei agora um exemplar desse boletim e aproveitei para
recuperar esse meu artigo. Aqui fica, no meu blog, para a posteridade.
1 – Lembranças do velho Pilão
Ainda hoje quando vejo uma
lagartixa tenho a tentação de agarrar uma palha de aveia brava, elaborar um
impecável laço na ponta, e dar-lhe caça imediata como fazia há quarenta e tal
anos atrás no célebre muro da ribeira na 1.ª Secção.
Era um muro que exercia atracções
várias. Desde a caça às ratas, em que o velho e saudoso Bily, cão fogoso e
destemido que agarrava tudo o que fosse bicho, nos ajudava, passando pela
serventia que tinha para o “salto”, até à caça das lagartixas, para tudo
servia.
Sempre que havia oportunidade,
normalmente acompanhado pelo Isca (19480251), pelo Calhau (19480247) e alguns
outros que certamente o recordarão ao lerem esta lembrança, lá estava eu de
palha em punho espreitando as pobres bichanas que ao sol, incautas e
preguiçosas, esperavam pacientemente que as moscas se colocassem a distância
necessária para que com um salto repentino lhes servissem de almoço.
Depois de várias peripécias e já
com algumas lagartixas penduradas, o Isca, o mais irrequieto de todos nós,
inventava um divertimento que consistia em fomentar lutas titânicas entre os
pobres repteis que, enfurecidos pelo cativeiro, se tornavam ferozes crocodilos mordendo-se
mutuamente. Depois, soltos e colocados novamente no muro, os bichos serviam de
alvo às certeiras pedradas lançadas pelas fisgas que sempre nos acompanhavam.
Os pobres animais raramente escapavam à brincadeira da rapaziada que agia sem
maldade mas apenas por gaiatice.
Hoje o muro da ribeira não
existe. Os imperativos da urbanização não se compadecem com velhas recordações.
É sempre com saudade que passo pela 1.ª Secção e me revejo junto do muro, com os
velhos companheiros à caça das lagartixas, como se os quarenta anos passados
não tivessem existido.
2 – Lembranças de África
No planalto imenso a quietude era
apenas perturbada pela ondulação da folhagem e pelo gritar das aves.
Semi-deitado no banco do jeep
deleitava-me com a paz circundante enquanto saboreava a merenda acompanhada de
cerveja enlatada já meia mole.
A hora era de paragem. O
crepúsculo não permitia a visão, mas era cedo para ligar o farolim. Os homens,
deitados sobre o capim, sussurravam talvez relembrando anteriores caçadas.
A escuridão caiu sobre nós.
Peguei na velha 375 e fiz sinal. A paz da savana foi que quebrada pelo
falatório e movimentação dos homens preparando o material. Os motores roncaram,
acenderam-se as luzes, e a caçada começou.
De 375 nos joelhos, saltando a
cada solavanco, ia dizendo graçolas ao Lino que, com o farolim varria todo o
mato à nossa volta.
Dava gosto observar como aquele
homem farolinava. Ele não via, lia no terreno e na vegetação. Com uma única
passagem observava o rasto dos animais, os seus excrementos, a direcção por
eles tomada e pelas ramagens sabia se os elefantes por ali tinham anbdado. A
sensação de caça próxima excitava-me, o meu condutor, homem que conduzia com um
olho no bicho outro na picada, disse-me: “Quando as encontrarmos já sabe,
apenas um tiro e mortal como de costume. “OK” respondi “já sabes que comigo
eles não sofrem.
Mal acabara de falar quando um
sinal do Lino me levou a seguir o foco do farolim mostrando-me ao fundo uns
olhos bem luminosos. Muito silenciosamente aproximámo-nos das pacaças já alerta
pelo ruído e pela luz. Levantavam e baixavam as cabeças denotando inquietação e
curiosidade. Quando persentiram o perigo arrancaram. Como que impelido por uma
mola o jeep deu um salto e a perseguição começou.
De cotovelos fincados do pára-brisas,
baixado sobre o “capot”, e fazendo esforços para me aguentar, apontei ao maior
macho que galopava 30 metros à nossa frente. O tiro partiu. O animal atingido
desmoronou-se sob um manto de poeira, enquanto os restantes se dispersavam
sumindo-se na escuridão. Parámos no momento em que o pacação se levantou.
Ficámos frente a frente durante alguns segundos. No silêncio que se seguiu
admirei o belo animal que, com chispas no olhar enfrentava os seus inimigos. No
instante em que investiu o tiro atingiu-o no coração. Aproximámo-nos. A
excitação foi-se esbatendo lentamente enquanto descia do “jeep”. Olhei mais uma
vez o corpulento animal abatido.
“Carreguem-no” disse para os
homens que, entretanto, se tinham juntado a nós. “Dois tiros? Está a perder qualidades”
disse-me o condutor com ar gozão.
Sorri-lhe e dirigi-me ao “jeep”
pensando que nem um devia ter dado, mas a febre da caça tomou-me de novo e
preparei-me para seguir o rasto da manada que não devia estar longe.
3 – Caçada aos facocheros
O carro ziguezagueava por entre
troncos, pedras e buracos. Em cima os caçadores procuravam não acabar no chão
ou com a cabeça esmagada contra alguma ramagem. Os tiros, forçosamente mal
apontados, iam partindo e deixando no chão rasgos junto dos bichos. A excitação
era grande. A poeira secava e entupia as gargantas. O condutor fazia prodígios
para se manter na rota dos animais, que serpenteavam escolhendo os piores
caminhos. De solavanco em solavanco, tio a tiro, empolgados pela correria, lá
iam seguindo os porcos. Um dos animais caiu varado. O carro parou. Alguns tiros
para os que fugiam, perderam-se no mato. Tremendo de emoção e excitação, os
caçadores sentaram-se junto do facochero abatido. Acenderam-se cigarros. Um dos
companheiros falou: “Um dia destes ainda partimos a cabeça”. Todos sorriram.
Carregaram o animal, subiram para o carro e continuaram a caçada.
4 – Homens e Bichos
Homem e bicho olharam-se. Nenhum
alterou a sua imobilidade. Ambos conheciam o seu valor. Homem que não foge,
quando se encontram, é homem habituado à caça e não tem medo. Aquele então,
olhava a direito e de forma fixa. Não era um olhar de ódio, mas de admiração e
desafio. O primeiro a movimentar-se foi o bicho levantando-se pachorrentamente.
Bocejou e voltou costas. O homem levantou a arma e apontou. O bicho, após
alguns passos, voltou-se e fixou o adversário. Os olhares cruzaram-se. Ambos
sabiam que um movimento mais agressivo podia ser a morte. Após alguns segundos,
o bicho seguiu o seu caminho e a arma quedou-se emudecida.
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