domingo, 29 de abril de 2012

SONETO DO PEIDO

Já aqui tinha dito que não percebo nada de poesia, mas quando se trata de brincadeira, às vezes, sou capaz de fazer umas “coisas”, muito mazinhas já se vê mas, com métrica incerta, lá vão saindo. E é a propósito de “sair” que resolvi tentar um soneto. Tenho um amigo que com alguma facilidade solta uns “flatos” fazendo até alguma gala nisso. Pedindo desculpa pelo vernáculo, aqui deixo a minha homenagem ao criador daqueles sons bastante odoríferos:


Ouvi um peido! E foi de gente!
Cu relaxado e sem vergonha
 Que se rebela à lei vigente
Cheira a merda e traz peçonha.

Um cu assim tão relaxado
Não tem dono, não tem pudor
É repelente! É malcriado
E nos sufoca com furor.

Um cheiro assim só pode ser
De algo podre e sulfuroso
E conotado com o demónio

Cá por mim, estou mesmo a ver
Que peido assim malcheiroso
Só pode ser do António.

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Hoje, 25 de Abril de 2012. Após 38 anos…


Hoje é dia 25 de Abril. Pela minha mente voltam a passar as imagens vividas em Nampula após o conhecimento do que se passara naquela manhã. A corrida aos jornais deixaram em pânico os pobres ardinas que acabavam largando os pacotes cujo conteúdo se espalhava na rua. A ânsia do querer saber levou as pessoas a apanharem os jornais com sofreguidão. Ninguém se aproveitou e todos foram pagar aos rapazes que choravam sentados no muro, pensando que a venda do dia estava perdida. Havia em todos uma sensação de intranquilidade mas ao mesmo tempo de alegria por sentirem que algo ia mudar em Portugal saindo-se daquele marasmo político a que a ditadura nos habituara por imposição. No largo Neutel de Abreu, entre o Quartel-general e a messe militar, só se via gente de rádio ao ouvido tentando perceber não só o que se passara mas o que se seguiria. As esperanças eram muitas, as incógnitas também. O país iria mudar, a guerra acabaria e os homens voltariam às suas terras, casas e família. Os homens tornar-se-iam mais solidários, cultos e civilizados. Os bens seriam melhor distribuídos e a ganância acabaria. Das grandes aquisições teria de se provar a proveniência dos proveitos que lhes deram origem…

… Agora, olho a televisão e vejo lá todos aqueles que tornaram possível que nada daquilo, que pensei naquele dia em Nampula, se concretizasse. Os homens a quem os militares entregaram os destinos da Nação não quiseram ou não foram capazes de transformar o país.
Pergunto porquê e não sou capaz de compreender. Ganância? Apego ao poder? Corrupção? Impreparação? Liberdade a mais? Para mim a liberdade nunca é demais, o que é demais é termos a nossa à custa da liberdade dos outros.
Esqueceu-se o ensino e aprendizagem política. Deixou-se que os instintos primários, de indivíduos recalcados por 50 anos de bota no pescoço, viessem ao de cima e virassem as consciências adormecidas e castradas, para consciências ávidas de poder e de ter. O melhor que se construiu neste país foi o Serviço Nacional de Saúde, agora até esse nos está a ser tirado.
O que se seguirá? Para onde caminhamos? Onde estará a solução? Que futuro?
O meu 25 de Abril foi defraudado.

sábado, 21 de abril de 2012

MEUS NATAIS…MINHAS FADAS…

Escrito após um 25 de Dezembro


Hoje o Menino Jesus já não vai descer pela minha chaminé. Desceu todos os anos e agora…
Parece que afinal já não é ele que traz os nossos brinquedos. Tantos anos a trazê-los e de repente passam o assunto para os nossos pais. Assim, sem mais nem menos. Sem nos perguntarem qual a nossa opinião, sem quererem saber qual a nossa preferência. O Natal perdeu a graça. O meu Pai nem cabe na chaminé…
Continuo a ir à chaminé na manhã do dia 25, os brinquedos estão lá na mesma, mas já não consigo visualizar aquele menino risonho de cabelo encaracolado e de camisa de dormir, a colocar os brinquedos no sapatinho com aquelas pequeninas mãozinhas.
Foi o meu Pai e Mãe que lá os puseram. Parece-me impossível. Por que me disseram uma coisa e agora me dizem outra?
No ano seguinte já não colocámos sapatos na chaminé. Para quê? Jesus já lá não vai!?
Transformaram aquele menino no ridículo velho de barbas a quem chamam Pai Natal. Bah! Não tem mesmo graça nenhuma.
….
Hoje penso que não se devem enganar as crianças. A realidade mostrada de repente faz doer. Não sei se dói por nos sabermos enganados se por perdermos o encantamento. A história do Natal é uma bonita e romântica história. Mesmo sem estarmos a pensar na divindade de Jesus, a história continua a ser bonita para os cérebros infantis.
Uma família pobre que, por não encontrar, habitação, acaba por ter de permanecer num estábulo onde uma mãe linda tem um menino mais lindo ainda, que todos vão visitar e adorar.
A seguir estragam tudo com aquela maldade do rei Herodes a mandar matar trezentos recém nascidos, só porque lhe foram dizer que tinha nascido o futuro rei dos judeus. Não se faz! Nem quem devia ter nas mãos os destinos dos povos o deveria ter permitido. Para salvar um matam-se trezentos, crueldade!
Mais tarde ainda, muita coisa se me interroga e me deixa confuso. Quem contou a história do nascimento de Jesus? Terá sido ele próprio? Hum…normalmente não nos recordamos do nosso nascimento. Terão sido os pais? Também não me parece, não é natural contar-se a toda a gente como nasceram os nossos filhos, além disso, pode contar-se a meia dúzia de pessoas, mas essas não vão recontar isso a toda a gente. Esses episódios esquecem-se e perdem significado. Por outro lado poderia ainda haver o perigo de alguém relacionar os factos e lembrar-se da morte dos recém nascidos…
A história também não o registou. Aliás, a história só regista nascimentos importantes, como os reais. O registo civil também não existiu. Afinal quem contou?
Segundo os evangelhos, escritos dezenas de anos depois e segundo o recontar de vários indivíduos, a infância de Jesus foi uma infância normal sem episódios significativos, parece apenas que aos quinze anos foi até ao templo falar com os sacerdotes e encantou todos com o seu saber e discernimento. Depois, só aos trinta anos começou a pregar.
Só nessa idade Jesus começa a ter alguma importância para meia dúzia de seguidores no início, e depois para uns trinta ou quarenta que ouviriam as suas prédicas. Quem nessa época terá mostrado interesse pelo seu nascimento? Como o relacionaram com o nascimento num estábulo em Belém, anunciado por uma estrela gigantesca? Um judeu, pobre, quase andrajoso, filho de um carpinteiro, que sabia dizer umas coisas e falava por parábolas, não deveria suscitar grandes anseios no saber-se de como nascera. Parece-me também que, à época, aquele povo seria muito pouco esclarecido e, com aquelas falas, muito poucos o entenderiam. Começo a pensar que esse Jesus não é o meu Menino Jesus que me punha os brinquedos no sapatinho…
Ainda muito mais tarde, curioso da história das religiões, venho a verificar que todas elas se baseiam em mitos e muitas, quase todas, se repetem nos seus princípios. Aí, deixei de acreditar em fadas…mas, recordo ainda o encantamento daquelas manhãs de 25 de Dezembro em que corria para a cozinha e, antes de ver os brinquedos, espreitava a chaminé para ver se o menino estaria ainda por lá ou já se evolara nos céus.
Estupidamente, levado pela família, deixei que fizessem o mesmo ao meu filho. Hoje ele aponta-me o erro, pois como eu também teve o traumatismo da realidade.
Podemos contar aos nossos filhos histórias de fadas, sem lhes fazermos crer que elas existem. As histórias resultam na mesma e não lhes causamos traumas pelos enganos. Parece-me pois que só a verdade é correcta deixando o resto ao imaginário de cada um.
Os Natais transformaram-se numa linda festa de família cada vez menos religiosa e muito mais mercantilista. Reúnem-se todos, come-se, bebe-se, trocam-se prendas à meia-noite sem se esperar pelo Menino Jesus pois o tal velho ridículo já deixou os presentes dentro de meias penduradas numa árvore artificial.
Após isso acaba tudo. Uns contentes pelas prendas recebidas outros desiludidos porque esperavam diferente ou melhor, regressam a suas casas e até para o ano. O Pai Natal voltará.
O meu Menino Jesus já não volta…

sexta-feira, 20 de abril de 2012

ABRIL

O militar sabia que algo ia mudar. Afinal andavam em reuniões e a assinar documentos arriscando a cabeça e a carreira para quê? Ali em África, militares cansados e desiludidos já não esperavam nada de bom. Os rapazes queriam voltar para casa enquanto estavam vivos. A sua terra não era aquela e aquela guerra nada lhes dizia. Os militares de carreira tentavam aguentar a rapaziada levantando-lhes o moral, mas eles próprios estavam descrentes. Há 15 anos que lutavam e a política não ajudava. Aquela guerra não se poderia ganhar só pela força das armas e as comissões sucediam-se. Alguns já iam com quatro. Quantas mais seriam necessárias? De Lisboa chegavam indicações de que algo se passava. Mas Março trouxe algo de frustrante. Camaradas tinham tentado um golpe e falharam. Porquê? O que correra mal? E agora? Ali e àquela distância o que se poderia fazer por eles? Mas esperaram. Sabiam que havia camaradas que não ficariam eternamente em espera.
A meio de uma manhã de Abril o militar recebeu um telefonema:
− Foi hoje.
A corrida aos jornais foi louca. A alegria também. Agora sim, as coisas iam mudar, o nosso País vai passar a ser a sério. Vamos ter educação. Vamos ter paz. Vamos ter dignidade. Vamos ter compreensão, enfim, vamos ter o que até aqui nos foi sonegado.
Tudo começou a correr pelo melhor; A guerra acabou, o povo voltou para casa, a liberdade instalou-se, os militares deram o mote para a instalação da democracia, mas…
… os portugueses estiveram tempo demasiado sob uma ditadura, não tinham qualquer preparação política para viverem em liberdade, os exageros começaram, a ganância tomou conta de todos e as asneiras sucederam-se. Os próprios militares dividiram-se e várias teorias surgiram. Em África sucedeu o mesmo e 15 anos de guerra deixaram demasiadas feridas. O povo africano, também impreparado, quis livrar-se do jugo colonial e provocaram o êxodo, mas tinham direito à liberdade e já nada era possível fazer em contrário.
No “puto”, os militares conseguiram acabar com a desunião entre si e, como não eram políticos, resolveram entregar o poder e fizeram-no.
Há 38 anos que os partidos políticos nos governam. Será que governaram? Então porque não melhorou a educação? Porque melhorou a saúde e está a piorar agora? Governou-se mal e tomaram-se as piores decisões. Quiseram viver à grande e endividaram o País esquecendo-se de criar bases sócio económicas para aguentar as crises que sempre aparecem. Agora a crise tomou conta de nós. Estamos piores do que estávamos.
Mas o pior de tudo é que se criou uma classe de energúmenos que, servindo-se do poder, obtiveram por corrupção, um nível de vida tal, que não largam nem por nada e, democraticamente vão fazendo leis que lhes permitem continuar agarrados a esse poder que nem lapas, e sentados à mesa do orçamento. As perdas que o País sofreu com isso, teriam dado para que agora, mesmo em crise, não fossem necessárias medidas tão drásticas como as que nos estão a sujeitar. Mas ninguém é punido. Ninguém tem culpas. O povo que pague a crise. O que nos resta? Quanto tempo aguentaremos? Que tristeza…

quinta-feira, 19 de abril de 2012

FEIJOADA

Hoje não escrevi nada, mas para não deixar o blogue em branco, vou aqui colocar um “poema” se àquilo se pode chamar isso.
Nunca tive grande jeito para a versalhada, mas na minha Associativa de caça, o Presidente é um advogado meu amigo que fez anos e resolveu levar para o almoço uma bruta feijoada confeccionada pela sua cara-metade, também minha amiga.

A feijoada foi um êxito e os companheiros gritaram:
Esta feijoada merece um poema.
E lá fui para casa tentar. Como não percebo nada daquilo, inspirei-me no “Luisinho Vaz”, que sabia destas coisas. E saiu isto:

A feijoada da Rosa

A Rosa, certamente uma das que ficou
no regaço de Isabel, talvez esquecida,
para o seu amado o petisco preparou,
com o gosto de apresentar boa comida,
aos amigos que com ele compartilham
de Santo Humberto a ancestral arte
mas que o bom almoço não dispensam
deglutir, seja aqui ou noutra parte,
que bebendo e comendo dizem no final:
– Que encanto! Que tremenda feijoada divinal!

Cesse tudo o que a antiga musa canta
sobre os grandes bacanais de Baco
porque o conteúdo do tacho encanta
e, não se trata apenas só de um “taco”.
E todos na hora dos parabéns dar,
ao simpático presidente aniversariante,
todos lhe apontam o dever de recordar
que a atitude mais bela e elegante
é à sua boa esposa transmitir o encanto
de quem, do almoço, tinha gostado tanto.

E agora, os puristas da verdadeira poesia, não me dêem na cabeça porque a métrica deve estar errada. Mas, foi o melhor que se arranjou…

quarta-feira, 18 de abril de 2012

DANÇA EM SÃO SALVADOR

As noites eram difíceis em São Salvador do Congo. O 1º Sargento recitava poemas do seu particular “amigo” Luís Vaz, como se referia normalmente a Camões. Os dois furriéis ouviam-no em silêncio. Um era bailarino no grupo Verde Gaio. O rapaz era demasiado sensível. Usava o retrato da sua namorada, também bailarina, na carteira e chorava cada vez que o olhava. O capitão, de olhos semicerrados, já com as pálpebras pesadas devido aos “whiskys” que bebera, pensava na família mas escutava com prazer o seu Primeiro. Ir para a cama já “pesado” era uma forma de chamar rapidamente o sono, caso contrário, levar-se-ia demasiado tempo até que as imagens daquela guerra, que ninguém queria, se dissipassem das consciências. Naquela noite, bem amena e quente, não apetecia deitar. O capitão falou para o seu furriel:
− Olha lá! Tu, que és bailarino, nunca dançaste para nós. Vais fazê-lo hoje. Vamos até lá fora. Está toda a malta a dormir. Só nós vamos assistir.
− Meu Capitão. Não me obrigue a uma coisa dessas, nem sequer temos música.
− Estás enganado. Temos aí o gira-discos, pomo-lo baixinho aqui na mesa, abrimos a porta e tu danças lá fora.
O rapaz ia dizendo que não e o capitão não insistiu, mas sempre foi pondo o Lago dos Cisnes a tocar. Os discos tinham sido lá deixados por um furriel anterior, que era cantor no coro do São Carlos. O capitão pensava que deveria ser o único comandante com dois artistas como subordinados.
Saíram todos e o 1º sargento continuou a declamar como se sozinho estivesse. A melodia excepcional de Tchaicovsky, apesar de quase em surdina, enchia o ambiente. O furriel, calado, ouvia a música deslocando-se quase como se dançando estivesse. A pouco e pouco foi entrando em crescendo e a dança evoluiu até aparecer em esplendor total. Todos se encostaram à parede do barracão JC e em silêncio, até o nosso 1º abandonou o seu “amigo” Luís Vaz”, apreciaram aquela manifestação de arte que ansiosamente o rapaz manifestava como se o seu corpo se transportasse, para um palco do seu Portugal.
A música parou e o nosso furriel, após um último rodopio, caiu de joelhos e inclinou a cabeça para a frente, cobrindo a cara com as mãos. O capitão levantou-o e abraçou-o agradecendo. O rapaz chorava.
− Meu Capitão. Que vergonha. Eu não queria.
− Deixa lá. Foi belo. As tuas botas de lona até pareciam sapatilhas. Dançaste bem. Estamos todos comovidos. Vamos dormir. Amanhã já nem te lembras.
Mas não dormiram logo. O moço, talvez dos rodopios e da bebida, vomitou as tripas e tiveram que o assistir.
O capitão, já no seu quarto, não conseguiu dormir e foi escrever à mulher. Cinco aerogramas, devidamente numerados, tentaram descrever todos os sentimentos que o assaltaram naquela noite.
Em Luanda, a sua mulher chorava, com o filho ao colo, lendo os aerogramas, que chegaram como sempre, totalmente baralhados, mas ler o 3 antes do 1 ou o 4 depois do 5, não importava. A mensagem estava lá. A porcaria da guerra também…

terça-feira, 17 de abril de 2012

TEMBO

Afinal ainda há alguma "matéria" para postar. 

 

(Um dos capítulos do meu livro "Caçador Branco")

 

O pequeno Tembo encolhia-se a um canto da grande cubata. Os olhos já se tinham habituado à penumbra existente na área. Quase não podia estender as pernas e já estava a senti-las dormentes. O espaço estava quase todo ocupado pelos outros homens que com ele foram ali metidos à força sob a ameaça do chicote do grande árabe que os surpreendera na lavra não tendo tempo para esboçar qualquer gesto de defesa ou fuga. Com três homens armados de metralhadoras, dominaram-nos obrigando-os a deitarem-se na terra de cara para baixo quase sufocando. Separaram-nos das mulheres e a partir daí não mais vira a sua mãe. Tembo deixava correr as lágrimas e não conseguia conter os soluços. Aqui e ali ouviam-se alguns gemidos dos homens ainda doridos das pancadas que lhes aplicaram. Em Tembo não tinham batido. O grande árabe de botas pretas sobrepostas nas calças vermelhas e largas subidas na cintura, de tronco nu e chicote na mão, assemelhava-se ao diabo que a mãe lhe descrevera. Como o Demo, também ele tinha barbicha e devia esconder os cornos por debaixo do turbante branco enrolado na cabeça. Tinha-o olhado nos olhos e enfrentara-o. A mãe dissera-lhe que se fosse bom menino nunca deveria temer o Diabo. Agora que ele aparecera não o temera. O certo é que aquele monstro de olhos pequenos e demasiado pretos, dera uma grande tapa no homem que o prendia e magoava com enormes safanões. A partir daí fora o único a quem não ataram as mãos, mas a sua liberdade era fictícia, nem por um momento lhe tiraram os olhos de cima.
Ali sentado naquele canto, no chão de terra, cansado dos muitos quilómetros que andara pelo mato, chorava em silêncio pensando quando voltaria a ver a sua mãe. Onde a teriam metido? Será que estava viva? Tremia só de pensar o que lhe poderiam ter feito. Tembo era já um homenzinho e sabia muito bem para que os homens querem as mulheres, então uma jovem e bonita como a sua mãe ainda era. Não conseguia deixar de chorar. De repente Tembo reprimiu o choro, ouvira vozes exteriores, em tom baixo, como se duas pessoas conversassem. Foi-se esgueirando por entre os corpos até se postar junto à parede donde lhe parecia que as vozes provinham. O árabe e um dos homens falavam baixo mas dava para perceber. Com um sotaque estrangeiro, o demónio dizia para o outro que logo de manhã continuariam a marcha até ao local onde entregariam a mercadoria. Claro que Tembo sabia muito bem a que mercadoria se referiam. Iam vendê-los a alguém que esperaria no tal local. Pela descrição Tembo reconheceu o sítio de que falavam. Ele e o pai, quando caçavam, deslocavam-se por vezes muitos quilómetros durante vários dias e conhecia perfeitamente a clareira que ouvira o homem descrever. Começou a pensar rapidamente. Tinha de fugir antes de lá chegarem. Só em liberdade poderia ser útil e procurar a mãe. Voltaria à sanzala, falaria com o Chefe e o pai, e de certeza alguém os auxiliaria a encontrar os cativos.
Não podia deixar chegar o amanhecer. Em marcha seria muito difícil enganar os meliantes. Ainda tinha tempo. Teria de fugir esta noite. Esgueirou-se de novo para a parede contrária daquela onde os homens falavam. Procurou com as mãos um espaço entre os paus de palmeira que formavam as paredes. Com as mãos e os dentes começou a arrancar as folhas secas ferindo-se nos gumes cortantes das mesmas, mas não parava. Um dos homens acordou e começou a ajudá-lo. Uma hora depois já tinham conseguido um buraco suficiente para Tembo meter a cabeça e espreitar. Do lado de fora não estava ninguém. Certamente a sentinela daria a volta de vez enquando, teria de ter cuidado quando saísse. Apesar da noite escura Tembo vislumbrou vegetação suficientemente perto para se poder esconder logo que se libertasse. Levaram outra hora a alargar o buraco até lhe caberem os ombros. Tembo meteu a cabeça e começou a esgueirar-se para o exterior, o homem que o ajudara teria de ficar ou alargar mais o buraco, mas Tembo não esperaria. Assim que se apanhasse fora teria de correr como o vento. Quanto maior distância pusesse entre eles e os sequestradores mais hipóteses teria de levar a fuga a bom termo. Fez sinal ao companheiro que o ajudava para o informar que iria sair. Disse-lhe que não esperaria por ele e se também conseguisse fugir que rumasse à sanzala pois seria para lá que se dirigiria.
Esgueirou-se pela abertura com alguma dificuldade, os paus arranhavam-lhe o corpo mas não sentia, a ânsia de liberdade era mais forte. Assim que se libertou totalmente, ficou um pouco parado junto à parede escutando. Como nada ouviu, levantou-se e correu para os arbustos perto e parou. Aparentemente ninguém dera pela fuga. Levantou-se e começou a correr na direcção de casa, um rapaz do mato, como ele, orienta-se como os bichos.
Corria como se o diabo o perseguisse, e até podia ser verdade. A respiração foi-se tornando cada vez mais ofegante, mas Tembo estava habituado a correr atrás das cabras e os seus pés descalços e calejados, mal tocavam o solo da floresta húmida. Ao fim de um par de horas a correr e a andar, parou para descansar. Subiu a uma árvore e procurou com o olhar, por entre a bruma matinal, se vislumbrava ou ouvia algo que lhe desse a segurança de ninguém o perseguir.
Deixou-se estar lá em cima uns bons minutos, os olhos fechavam-se mas Tembo sabia que não podia dormir. Lembrou-se que deveria estar perto do local onde o pai tinha quebrado uma lança ao tentar segurá-la depois de ter atingido um gulungo e o animal ao contorcer-se a partira. Lembrava-se de o pai a ter deixado lá. Tinha de a encontrar. Iria levar um bom par de dias até casa e precisava de comer.
Quando chegou perto do local onde a lança se partira, começou a ter dúvidas, no mato às vezes tudo parece igual outras vezes diferente. Tinha de se recordar exactamente. Fechou os olhos procurando rever tudo o que se passara naquela manhã. A corrida que deram atrás do golungo, a volta que deu correndo para dirigir o bicho na direcção do pai, o lançamento certeiro do dardo sobre o pequeno antílope e depois o pai a tentar segurar a lança enquanto o bicho se contorcia. Como, depois da lança se partir, o pai com um golpe certeiro da catana curta, que sempre trazia à cintura, liquidou o animal. Como se riram no fim antes de trincharem a bicheza e levarem a carne para casa em sacos a tiracolo.
Abriu os olhos, olhando em volta pressentiu que estava perto. Fez dois círculos alargando cada um deles. Ao fim da segunda volta reconheceu imediatamente o local. Andou uns metros até encontrar os vestígios do capim pisado, a lança estava um pouco mais à frente. Tembo perdeu umas boas duas horas a reconstruir a lança. Com a ponta metálica da mesma, que afiou numa pedra, descascou e alisou um ramo transformando-o num pau de lança. Fez um entalhe no improvisado cabo e prendeu a ponta com uma liana que entrelaçou. Tembo já tinha construído muitas lanças mas na sanzala tinha outras ferramentas que não ali. Depois do trabalho apressou-se a encontrar uma boa árvore para dormir a fim de se defender dos predadores. Poderia era ser surpreendido por alguma onça e a pensar nisso colocou a lança perto e ao alcance mão.
Acordou já se notava o romper do dia. Desceu da árvore e pôs-se a caminho. Tinha caminhado umas horas quando chegou à orla da mata de arbustos baixos. À sua frente estava uma planície de capim curto onde pastavam alguns nunces e pequenas gazelas. Tembo avistou uma gazela das mais novas que estava mais perto da orla de mato. Penetrou na vegetação e lentamente foi-se aproximando do local onde a pequena gazela pastava. Arrastou-se durante alguns metros, com a lança numa das mãos, até avistar o bicho. Quando já se encontrava a boa distância levantou-se e correu em direcção da sua presa que apanhada desprevenida, levou algum tempo a mover-se. Quando o fez, foi atravessada pela lança de Tembo que tinha feito um arremesso perfeito. Abriu o animal com a própria lança. Não tinha tempo nem era seguro fazer fogo. Cortou os lombos e comeu um bom bocado de carne crua. Espremeu o fígado para a boca engolindo bastante sangue vivo. Fez um saco com folhas largas e com uns juncos uma alça para o transportar a tiracolo, metendo-lhe uns bons pedaços de carne para o resto da viagem. Chegou à sanzala na tarde do dia seguinte. Cansado, sujo, com a camisa e os calções de zuarte esfarrapados, aproximou-se da grande cabana do Chefe. Junto dela encontravam-se dois carros com alguns homens por perto. Receoso deu a volta e espreitou pela abertura que servia de janela. O Chefe falava, com ar amistoso com dois homens sentados à mesa. Tembo reconheceu o seu amigo caçador branco. Cheio de alegria e lágrimas nos olhos correu para a porta e entrou.
...