sábado, 30 de junho de 2018

O Perfume




Há uns anos vi um filme que me impressionou bastante. O Perfume foi uma película bem esquisita, mas que nos fica na memória como algo que se cheira. As imagens mostram quer o fedor mais horroroso, quer o incenso mais excelente. Sabia que se baseara num livro, mas nunca me tinha dado ao cuidado de o procurar. Uns dias atrás, passei pelo alfarrabista da Av. Do Uruguai e vi numa banca de livros usados, a um euro, O Perfume, sem capa, sem folhas iniciais nem finais. Comprei-o. Cheirava a livro usado e a pó.
Em casa fiz-lhe uma capa em cartolina azul e desenhei-lhe um aspergedor de perfume, coloquei-lhe o título e o nome do autor, um tal Patrick Suskin, alemão, de quem nunca tinha ouvido falar. Lembrei-me que o meu filho me tinha dito que o livro era horroroso e que nem sequer o tinha acabado. Despertou-me a curiosidade e levei-o para férias na praia, a minha arejada biblioteca. Acabara de ler um livro histórico de um amigo meu e resolvi mudar de tema. Li-o em 3 dias.
Este livro é realmente um poço de odores. A descrição dos cheiros da cidade de Paris no século XVIII, das pessoas, dos mercados, das oficinas de curtumes, das mulheres, dos homens, sendo eles da nobreza, burguesia ou do povo, é tão bem feita que o nariz do leitor acaba captando-os a tal ponto que se sente enojado só com as palavras.
A personagem principal, Jean Baptiste Grenouille, nasce duma vendedeira de peixe no mercado de Paris que o pare de pé, para baixo da bancada e para cima de todos os desperdícios de peixe ali acumulados, com um pivete capaz de matar qualquer ser vivo. A mãe preparava-se para abandonar ali o filho como já tinha feito a outro três ou quatro, quando é notada pelos presentes e corrida a pontapé acaba estatelada no meio da rua, presa, acusada de infanticídio e decapitada. Grenouille, absorve todos os odores da porcaria onde nasce e, por estranho que pareça, ele próprio não tem qualquer odor.
Acaba em várias amas, instituições, asilos e conventos, mas todos se querem livrar dele. Cresce e, o seu nariz privilegiado, capaz de absorver odores a léguas, leva-o a empregar-se num perfumista que à sua custa floresce e se torna o melhor e maior perfumista de Paris. Mas Grenouille tinha um sonho, fazer o melhor perfume do mundo, um perfume do amor. O cheiro de raparigas linda e virgens leva-o a persegui-las e assassiná-las. Percorre várias terras de França e assassina vinte e seis jovens, cada uma mais bela e bem cheirosa do que as outras. Acaba preso e acusado recebendo uma sentença de morte por crucificação com quebra de membros e deixado morrer no máximo sofrimento. No dia da execução, Grenouille sai da carroça dos condenados aspergindo-se com o seu perfume. Dez mil pessoas assistiam à morte do monstro assassino e essas dez mil pessoas rendem-se ao odor desse perfume do amor, vendo, no até ali monstro assassino, um cândido ser exalando algo tão maravilhoso que tinha que ser liberto e perdoado. Então dá-se um fenómeno extraordinário. Quer homens quer mulheres, libertam-se dos seus trajes e, inebriados, entregam-se a jogos de sexo em plena praça de execução e nos edifícios em redor. Grenouille foge e pensa deixar a cidade de Grasse onde era a execução. Ao tentar esconder-se entra no cemitério onde à noite assassinos, prostitutas, vigaristas e vagabundos se acoitam. Toda esta gente fica inebriada de tal modo pelo perfume de Grenouille que o rodeiam, abraçam, agarram, rasgam, desmembram, cortam em pedaços comendo-o.
Triste fim para tal nariz. E agora perguntam-me: “Isso é livro?” E eu respondo. É e bom. Acaba por ser um manancial de sentimentos, frustrações, pensamentos, ganância e agonias de uma sociedade francesa do século XVIII. Valeu a pena. Se o lerem, tenham convosco à mão um bom perfume.

quarta-feira, 27 de junho de 2018

Algumas palavras sobre o livro de Valentino Viegas “As Teias da Primeira Revolução Portuguesa”



Escrever um livro histórico não é para qualquer um e, fazê-lo em forma de romance é-o ainda menos. Mas o meu amigo Valentino Viegas não é qualquer um. Historiador doutorado, deve ter passado grande parte, da sua vida e do seu tempo, feito rato de bibliotecas e arquivos metendo o nariz em tudo o que é registo e documento para nos relatar com a maior veracidade possível “As Teias da Primeira Revolução Portuguesa”, dando-lhe ao mesmo tempo uma visão quase real do que teriam sido os diálogos e conversas de todos aqueles homens que foram responsáveis pelo facto de a coroa portuguesa não ter caído em mãos castelhanas após a morte de D. Fernando e durante a regência de sua mulher D.ª Leonor Teles (1383/1385). É pois, através de uma linguagem fácil que seguimos todas as reuniões dos homens, quer da nobreza quer do povo, que levam D. João, Mestre de Avis, a liderar várias acções, que começando na morte do Conde Andeiro, terminam nas Cortes de Coimbra com a aclamação de D. João, Mestre de Avis, a rei de Portugal.
Através deste livro romanceado ficamos a saber que a causa de toda a teia revolucionária residiu no facto de Portugal estar em vias de perder a independência nacional, por ainda não ter nascido o filho do rei D. João I de Castela e de D. Beatriz, filha do falecido rei D. Fernando e da rainha D. Leonor Teles que, depois de gerado, seria o futuro rei do território português, conforme determinavam as cláusulas do contrato de casamento de Salvaterra de Magos. O rei vizinho, como desejava ocupar o trono português, já se intitulava rei de Portugal, por lhe permitir o clausulado daquele contrato. A sua vontade era fazer letra morta daquele tratado celebrado entre Portugal e Castela.
O livro revela também como a rainha D. Leonor, que pretendia concentrar em si todo o poder, tinha conseguido que os infantes D. João e D. Dinis, potenciais candidatos ao trono português, filhos do rei D. Pedro e de D. Inês de Castro, se exilassem em Castela. Por sua vez, o amedrontado D. João, Mestre de Avis, igualmente filho do rei D. Pedro, contudo, muito menos influente que aqueles dois meios-irmãos, alegando defender a sua vida mata o conde Andeiro, amante da rainha, acelerando o complexo e imprevisível movimento revolucionário.
Nesta intensa trama, o cidadão Álvaro Pais, alguns nobres e homens do povo, como o tanoeiro Afonso Anes Penedo e o sapateiro Estevão Domingues, conseguiram, com a sua liderança e intervenção, mudar o rumo dos acontecimentos fazendo com que nobres, clérigos, representantes concelhios e homens de leis, como o doutor João das Regras, tomassem as decisões que mudaram o curso da história.
Tudo isto nos é mostrado através de uma linguagem livre e directa, completamente entusiasmante que nos leva, parágrafo atrás de parágrafo, até ao fim da história que é de nós conhecida na sua essência, mas não no seu pormenor. De salientar algumas similitudes entre esta revolução e a de 25 de Abril de 74.
A propósito de linguagem livre, achei divertidíssimo que Valentino Viegas pusesse na fala de Afonso Anes Penedo, a frase: “… pela minha parte, tive o cuidado de reanalisar o filme posto a correr pelas ruas e ruelas da capital ...” como se em pleno século XIV já fosse possível utilizar filmes. Liberdades de escritor que o autor certamente me perdoará a ousadia de referir.
Valentino Viegas sempre se interessou pela história e já a isso se referia em livros anteriores, nomeadamente em “A Morte do Herói Português”, livro que escreveu sobre a sua experiência de guerra em África, onde aliás teve comportamento extraordinário que lhe valeu uma cruz de guerra. 
Sinto-me honrado em ser amigo deste nosso historiador/escritor, natural de Goa, que optou por viver em Portugal após a invasão daquele território e que muito veio valorizar o nosso panorama cultural.




sexta-feira, 8 de junho de 2018

Incongruências.


Já alguma vez te interrogaste sobre as incongruências do cristianismo?
Por que Jesus, redentor dos pecados de todos os humanos, só transmitiu as suas ideias ao povo da Judeia (Palestina)?
Por que Jesus não veio a todo o mundo? Por que não andou pelos 5 continentes? Por que não esteve na Arábia? Por que não andou pela Ásia? Se seu pai, o deus omnipotente e omnipresente, o enviou à terra para transmitir a sua palavra, por que se limitou àquele pedaço de terra tão pequeno e tão inculto?
Já te perguntaste que se não fossem os Romanos, hoje ninguém saberia nada de Jesus?
E por que os Romanos, que segundo as escrituras (Novo Testamento) o crucificaram, só estabeleceram a sua religião 325 anos após a sua morte?
Por que os Evangelhos só foram escritos setenta e tal anos após a sua dita ressurreição? E quem os escreveu?
Que idade teriam os seguidores de Jesus, na sua época, quando os evangelhos foram escritos?
Será que indivíduos com perto de 90 anos, ou mais, estariam em condições de relatar fielmente aquilo que tinham visto e ouvido?
Por que os evangelhos são segundo Mateus, Marcos, Lucas e João? Por que não os escreveram eles em vez de os relatarem? Por que foram escritos em Grego e não em Aramaico que era língua da região onde Jesus terá nascido? Por que há tantos evangelhos considerados apócrifos?
Por que a história romana, na época de Pilatos, nada relata sobre Jesus, o seu julgamento e a sua condenação?
Por que os romanos, no tempo de Teodósio, impuseram a religião cristã, proibindo todas as outras, impondo a destruição e fecho de todos os templos pagãos e determinando que a religião oficial seria a de Cristo?
Por que mais tarde, na idade Média, a religião Cristã foi imposta pela força, sendo mortos e supliciados os hereges?
Já te perguntaste se tivesses nascido no Nepal serias Budista e não cristão?
Já te perguntaste quem relatou o nascimento de Jesus? Como se veio a saber dos reis magos? E magos porquê? Quem eram? De onde vieram?
Segundo as escrituras (Novo Testamento) Jesus nunca falou no seu nascimento. Por que Jesus só começou a sua missão aos 30 anos?
Que Jesus fez até essa idade? Limitou-se a construir mesas e cadeiras?
Para uma missão na terra, redentora de pecados humanos, 3 anos não será pouco?
E por que cada vez os humanos pecam mais? Será que só serão perdoados após a morte?
Por que Jesus nada escreveu? Seria analfabeto? Ou não valeria a pena escrever para um povo que não sabia ler e escrever?
Haveria escola lá ao pé da oficina do José carpinteiro?
E por que falava por parábolas que ainda hoje necessitam ser explicadas, quanto mais naquele tempo e para aquele povo?
É muita pergunta sem resposta. Meditem nisto.



sábado, 12 de maio de 2018

Uma tarte de cascas de batata.



Ao lerem este título, os meus amigos leitores destes pobres artigos aqui do meu blog e que não sejam muito cinéfilos, devem dizer: “Este tipo pirou de vez”.
Normalmente, quando me apetece ir ao cinema, não perco muito tempo com a escolha do filme a ver. Vou a Net, ligo para o “site” do Corte Inglês (fica-me relativamente perto, tem 15 salas e não pago parque), leio as sinopses e vejo os “traillers”. Esta 6ª feira 11 de Maio, ao fazê-lo, deparei-me com um título a que achei uma certa graça. Guernsey – Sociedade Literária da Tarte de Cascas de Batata”. Curioso, fui ler a sinopse e pareceu-me que o argumento teria algo de interessante. Os outros filmes ou já os tinha visto, ou não me disseram nada de especial. Fomos, pois, eu e a mulher, ver o filme em questão e, digo-vos que não me arrependi por várias razões:  
  
1. É cinematografia inglesa.
2.  É sobre livros.
3.  É sobre relações humanas.
4. É sobre sentimentos.

Não sendo nenhuma obra de arte ou um filme excepcional, deixa no espectador a ideia de que vale a pena ajudar pessoas a ultrapassarem sentimentos reprimidos, exorcizando os seus fantasmas através da doação total daquilo que têm de melhor, amor e compreensão.
Começa por eu nem sequer saber da existência de uma ilha britânica, na mancha, junto à costa de França e que esse território tinha sido ocupado pelo exército alemão durante a 2ª guerra mundial. Mas vamos ao resumo da história:
No pós-guerra em Londres (1946) uma escritora/jornalista, Juliet Ashton, não muito famosa, mas que acabara de ter algum sucesso com o seu primeiro livro, recebe uma carta de um agricultor de Guernsey, chamado Dawsey Adams, na qual lhe revela que tem um livro que lhe pertence ou outrora lhe pertenceu por conter uma dedicatória que lhe é dirigida pelo autor. Curiosa, inicia uma série de correspondência com Dawsey e com várias pessoas da ilha que lhe revelam fazerem parte de uma sociedade literária, que no fim é um grupo que se reúne a miúde para lerem livros em conjunto. O nome nasce devido a um episódio passado durante a ocupação ao serem apanhados em incumprimento da hora de recolher, por terem estado reunidos a comer um porco assado que sonegaram à rapacidade das tropas alemãs, acabam por justificar que estavam apenas a ler numa sociedade. Tendo-lhes sido perguntado que sociedade era essa, um dos intervenientes, que tinha feito e levado uma tarte de apenas com cascas de batata (pouco mais havia para comer), mostra-a e tenta dá-la a provar aos militares. Estes recusam e acabam por deixar seguir o grupo. Pelos vários depoimentos que vai obtendo, Juliet começa a interessar-se e a pensar que aquela história poderia muito bem ser o argumento do seu próximo livro. De tal maneira se deixa envolver pelo assunto que resolve visitar aquela ilha deixando para trás os seus anteriores planos com muita pena do seu editor e do seu riquíssimo namorado americano.
Na sua permanência na ilha desenvolve uma relação de amizade com toda a comunidade, principalmente com os membros da Sociedade Literária da Tarte de Cascas de Batata. Mas dentro dessa sociedade há fantasmas nas mentes de alguns por casos passados durante a ocupação, que as pessoas há muito escondem, mas que a pouco e pouco vão revelando.
Tudo o que Juliet ali vive, entra de tal modo na sua vontade de ajuda que a leva a constituir laços de grande amizade com todos os intervenientes e até de amor que a pouco e pouco começa a sentir por Dawsey, mas ao qual tenta não ligar em demasia. Mas tudo isso vai modificar a sua vida. Na ilha conhece pessoas boas, pessoas más, alguma inveja e também traição. E mais não digo para não tirar o interesse a quem queira ver o filme. Digo-vos que dei por bem empregue o tempo que levei a vê-lo.
O elenco não é muito conhecido, dado a nossa grande tendência para os filmes americanos, mas todos excelentes actores, principalmente a protagonista, Lily James, que nos transmite uma simplicidade de carácter com uma profusão dos mais belos sentimentos. A realização é de Mike Newell que já nos tinha dado filmes como “Quatro Casamentos e Um Funeral", "Harry Potter e o Cálice de Fogo", "O Amor em Tempos de Cólera", "Grandes Esperanças", etc.
Vão ao cinema ou aproveitem-no mesmo em TV quando aparecer. Vão gostar.


quarta-feira, 25 de abril de 2018

Escrito a pedido



Uma das coisas que mais me custa é escrever a pedido. Normalmente escrevo quando me dá na gana e sobre os mais diversos assuntos que me surgem de repente. Dizerem-me assim: “Escreve qualquer coisa”, dá sempre asneira, fico embutido, penso em montes de assuntos e nada sai. Hoje é um desses dias. Apesar de ser 25 de Abril, assunto que daria pano para mangas, mas não consigo colocar no word quaisquer palavras que dignifiquem o dia. Mas pediram-me, e quem me pediu merece algo. Há um local perdido no mundo, lá nos confins dos mares, que me é querido e também a quem me pede algo escrito hoje. Sobre Timor já quase esgotei a minha lembrança e imaginação, mas aquela terra enraizava-se de tal forma em nós, que há sempre uma imagem, lembrança ou recordação que talvez ainda não tenhamos passado ao papel. Tinha 22 anos quando aportei naquela ilha. Ao olhar do navio que ali me levara, apenas uma linha era visível e não conseguia ver o casario. Claro que a minha imaginação me fez vir à memória cenas das aventuras lidas, como as do capitão Morgan ou do corsário Sandokan, e já me via a desembarcar no meio de povos indígenas que me olhariam com espanto. Ao aproximar-me mais, lá consegui vislumbrar um farol com algumas casas de volta e também muitas construções que me pareceram mais palhotas do que casas de habitação. Da escada do portaló tive de saltar para uma embarcação pequena que me deixou num tabuleiro mal-amanhado construído em cima de bidons. Desse tabuleiro seguia uma ponte também suportada por bidons que se prolongava por terra. Fardado de branco e com espada, aprontado para a cerimónia de apresentação no Quartel General, não era propriamente o melhor atavio para aquele equilíbrio instável. E o insólito aconteceu. Os meus, impecavelmente limpos com alvaiade, sapatos brancos, de sola ainda quase por estrear, escorregaram nos limos da ponte e estatelei-me ficando com a celestial farda manchada de verde no fundo das calças. Não sou nada supersticioso, mas talvez tenha sido premonição para o acidente que quase 6 meses depois me partiu uma perna. Na apresentação, lá tive que me desculpar pela sujidade, mas o Comandante Militar limitou-se a sorrir dizendo-me que já havia um projecto para iniciar a construção de um porto acostável. Esse porto iniciou a sua construção estava eu a terminar a minha comissão e de regresso à Metrópole.
Não começou bem a minha estadia em Timor, mas digo-vos que, apesar do tal acidente que me partiu a perna, foi o local onde mais gostei de ter estado e mais recordações me deixou. Clima tropical, vegetação exótica, paisagens de montanha, praias lindas e excelentes, fauna variada e paisagens submarinas admiráveis. Mas foram as gentes de Timor que mais me tocaram, apesar de ter chegado numa época em que uma pequena sublevação ia estragando o ambiente. Passada que foi essa situação, felizmente resolvida sem grandes traumas, a paz voltou àquela ilha paradisíaca e tudo voltou ao normal. Entre a população civil fiz grandes amizades e tive também amor. Ao recordar tudo isto parece que os 40 anos passados, foram ontem.

terça-feira, 24 de abril de 2018

Quem é Jesus?


— Ó mãe, quem é Jesus?
— Jesus, meu filho, é o filho de Deus.
— Ó mãe, e quem era a mãe de Jesus?
— A mãe de Jesus era a Virgem Maria.
— Então essa Virgem Maria era a mulher de Deus.
— Não meu filho. Deus não tinha mulher. A virgem Maria era a Mulher de José que era carpinteiro.
— Ah! Era divorciada.
— Onde fostes buscar essa, claro que não era.
— Então teve um filho de Deus, era casada com José e não era divorciada? Coisa esquisita. Aqui a nossa vizinha também teve um filho que não era do marido e lixou-se. Levou uma carga de porrada e foi expulsa de casa.
— Ó filho, tu um dia vais compreender isso. Deus é todo poderoso. Tem o dom de poder fazer um filho na mulher que lhe apetecer.
— Ah! O Pai no outro dia também disse à vizinha que gostava de ser o pai do filho dela.
— O teu pai disse isso? Já vai ver com quantos paus se faz uma canoa.
— Para que precisa o pai de uma canoa? Ouvi dizer que os filhos se faziam na cama, não é verdade?
— Olha! Estas conversas não são para ti. Um dia vais compreender.
— Ó mãe, porque não compreender já? Ficavam as coisas já esclarecidas.
— Tens razão rapaz. Pergunta que a mãe explica.
— Bem! Já sei que Deus fez um filho á virgem Maria. Ó mãe o que é virgem?
— Olha lá! Lá na escola ainda não te ensinaram o que é uma floresta virgem?
— Já. É uma floresta onde o homem nunca entrou.
— Pois é. Bem explicado. Com as mulheres é a mesma coisa.
— Ah. Então foi por isso que a Marina aqui do lado levou uma carga de porrada do pai. Parece que era virgem e deixou de ser. E eu até sei quem foi que lá deve ter entrado. Foi aquele tipo que é mecânico na oficina aqui atrás.
— As coisas que tu sabes. E depois, houve algum azar?
— Parece que sim. Acho que vai ter um bebé. Ó mãe o Francisco é Deus?
— Que disparate filho. O Francisco é um homem.
— Ó mãe e deus não é homem?
— Ai rapaz, dás.me cabo da cabeça. Claro que Deus é Deus e não é homem. Está acima dos homens.
— Então o Francisco não percebe nada disso. Deus fez um filho à Maria que continuou virgem, o Francisco fez um filho à vizinha e ela não continuou. Ouvi a mãe a gritar: “Perdeste a virgindade filha. E agora o que vai ser de ti?”
— Ó mãe?
— Diz filho.
— O José bateu na Maria?
— Claro que não. O José era santo.
— Santo? Acho que era santo e parvo. Faziam filhos na mulher dele e ele não se importava. Acho que era parvo ou muito distraído.
— Ó filho. Vê se compreendes. Deus mandou a virgem conceber um filho que no fim era ele mesmo para poder vir à terra comunicar o que ele queria que fosse ensinado.
— Porque não veio ele próprio?
— Ai filho, caramba! Deus é espírito e espíritos não andam por aí a falar com as pessoas.
— Mas a minha professora de catequese disse que Deus falou com Abraão e com Moisés. Se falava com uns porque não com todos?
— Ai rapaz, dás-me cabo da cabeça. Isso foi muito tempo atrás. Parece que Deus achou que devia ser um homem a falar com os outros homens.
— Afinal Jesus era homem ou Deus?
— Era Deus feito homem.
— Que confusão. E afinal ouviram-no ou não?
— Uns ouviram-no outros não. Até houve os que não acreditaram nele e mataram-no. Mas ele deixou-se matar para nos salvar.
— Não percebo. Como nos salvará depois de morto?
— Ó filho. Acho que vai interceder lá em cima pelas nossas almas se formos bons.
— Ó mãe. Temos de ser bons para que Jesus tome conta das nossas almas?
— Claro filho. Se formos maus vamos para o Inferno e lá está o Diabo para nos supliciar.
— Então o Diabo é mau e Jesus não o leva para ao pé dele.
— Pois é filho. Bons para ao pé dos bons e maus para ao pé dos maus.
— Ó mãe, podiam fazer isso para que ficassem metade bons e outra metade maus, até podia ser que os bons tornassem os maus menos maus e quando todos estivessem bons já Jesus tomava conta de todos.
— Olha filho. Não sei que dizer-te. Tens alguma razão. Naturalmente até será assim.
— Só não percebo porque é que Jesus sendo Deus ou filho dele, ou lá o que era, tenha tido de morrer para nos salvar. Sendo Deus podia ter feito tudo isso enquanto era vivo.
— Mãe. Quando o pai chegar vou fazer-lhe as mesmas perguntas a ver se ele me explica melhor.
— Quem lhe vai pedir explicações vou ser eu. Sempre quero ver o que me vai dizer sobre o querer fazer filhos à vizinha.
— Olha mãe. Se o pai conseguir é porque é Deus.






domingo, 11 de março de 2018

Num quarto de hospital


O Homem estava em fase terminal. Os médicos já não acreditavam na sua recuperação. Estava para ali já colocado num quarto, ao lado de outro que, com o mesmo, só esperava o fim. Revia toda a sua vida e pensava que tudo tinha sido estranho. Passara o tempo a pensar na mulher e nos filhos. De casa para o trabalho, do trabalho para casa, sem tempo para a diversão, e mesmo que o tivesse tido, os proventos não lhe dariam azo a isso. Tanto que almejara, tanto que queria ter feito e dado aos outros e nada tinha conseguido. E agora aquela maldita doença que o apanhara. O cancro é muitas vezes curável, mas outras não. O dele tinha sido galopante e não lhe dera tempo para nada. Hospitais, consultas e tratamentos, tinham-no feito andar numa fona e afinal para quê. Também, afinal, para quê mesmo? A família ficaria bem melhor sem ele. Neste momento já era um encargo e bem pesado. Poderia ser até que a mulher ainda conseguisse encontrar alguém. E que esse alguém lhe pudesse dar a vida que merecera e bem melhor mereceria agora. Tanto pediram a Deus, nas suas orações e durante as missas dominicais, para terem saúde, algum conforto, harmonia e saúde e afinal… Mas Deus continuava no seu pensamento. Fechava os olhos e via Deus. Não era bem uma pessoa, talvez uma forma em nuvem esbatida e esfumada, que de vez enquanto se transformava na figura de Jesus Cristo, seu Filho. Eram os dois Deus e a Sua vontade seria sempre única, fosse tomada por um ao outro. Rezava baixo, sempre na esperança de ser atendido. E porque não? Fora bom homem, bom marido, bom pai, bom empregado. Porque não ser atendido por um Deus a quem sempre se dirigira nas horas más e a quem agradecera nas horas boas. O seu companheiro de quarto agonizava. Os ruídos que lhe saíam da garganta já anunciavam a morte. Faleceu dois depois.
O médico vinha vê-lo todas as manhãs. Chegava, cumprimentava-o perguntando: “Como vai isso?” Como se ele não soubesse. Nessa manhã demorou mais um pouco. Chamou a enfermeira e fez-lhe algumas perguntas em voz baixa. Ao sair disse-lhe:
— Senhor António, tenho boas notícias. Surpreendentemente, os últimos tratamentos produziram algum efeito. Há uma esperança. Amanhã vamos continuar. Tenha fé.
Sorriu-lhe. Fé tinha ele, mas esperança muito pouca. Pelo sim pelo não virou os olhos ao céu e agradeceu ao seu Deus. Três semanas depois estava com alta. Regressou a casa e foi recebido com júbilo. Tinha de voltar ao hospital para controlo e exames de confirmação. Num desses dias, passou pela maior enfermaria da ala oncológica. Muitos dos doentes eram praticamente cadáveres vivos. Enquanto esperava para entrar no gabinete médico, junto ao balcão das enfermeiras, ouviu uma a dizer para a outra que; “hoje já foi o segundo. Com dois que foram ontem já foram quatro para a morgue”. O nosso homem começou naquele momento a tomar consciência de uma realidade. Não fora só o seu companheiro de quarto. Todos os dias morriam muitos doentes com a mesma doença. Ele fora um abençoado. Nesse momento perguntou: “Porquê ele? Porque não aqueles todos também? Não teriam Deus? Seriam ateus? Seriam assim tão pecadores? Porque Deus não lhes perdoara? Será que ele era mais merecedor?
Então aí ele viu o porquê. Não era ele o merecedor. Eram os outros. Deus gostava mais deles e por isso levou-os para ao pé de Si. Afinal eles é que estavam destinados à companhia divina. Ele não era merecedor, por isso teria de continuar a mourejar. E aí ficou triste. Podia estar agora junto do seu Deus e ele não o quisera. Porquê se tão bem sempre se tinha portado? Não merecia isto…
À saída foi atropelado por um autocarro.